A Economia Colaborativa do Terceiro Milênio

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Em uma sociedade em que o principal fator de produção é o conhecimento, a capacidade produtiva tende a concentrar-se em cada indivíduo. Contudo, a geração de valor se dá apenas a partir da interação desses indivíduos. Ainda, diferentemente de qualquer outro fator de produção, o conhecimento não se consome com o uso, mas, pelo contrário, se multiplica a cada interação. Ou seja, o acesso ao principal fator de produção da atualidade não se dá pela concorrência, mas pela cooperação, e sua conservação não se dá por reservas, mas pela disseminação. A economia que se estrutura sobre esse fator de produção, consequentemente, não é competitiva, mas colaborativa, o que ainda é um desafio para o raciocínio de boa parte do mundo.

As características inerentes ao conhecimento, da capacitação individual e da disseminação irrestrita – as quais ocorrem independente de regulações – permitem a apropriação dos processos produtivos por redes informais de indivíduos, alterando a lógica que estabelece os objetivos desses processos. Enquanto organizações econômicas visam o lucro financeiro, a influência política ou sua própria permanência ao longo do tempo, indivíduos têm as mais diversas motivações: ganho financeiro e influência política inclusive, mas também autodesenvolvimento, realização pessoal, espírito de comunidade, engajamento social e outras. Da mesma forma que cada indivíduo tem um diferente conjunto de conhecimentos, também tem diferentes necessidades e motivações.

Assim, torna-se interessante um ambiente permanente de trocas entre indivíduos. Diferente de um sistema de escambo, a rede que se forma é plenamente conectada. Cada indivíduo conectado à rede contribui com suas capacidades e busca suas necessidades. Lembrando que, como o fator principal é o conhecimento, não há subtração, mas multiplicação.

Se o próprio consumo de conhecimento gera ainda mais produção de conhecimento, não há tendência de escassez, mas sim de abundância, o que torna sem sentido reservas de mercado, concorrência ou monopólio. A formação de uma rede de acesso irrestrito baseada em colaboração é natural. Não havendo restrições, essa rede tende a crescer em nível global. Extrapolando, imaginemos todos os indivíduos do mundo conectados uns aos outros pelos recursos de telecomunicações, contribuindo com o que têm e usufruindo do que precisam. Organizações econômicas ou políticas perdem muito de sua função nesse cenário. Os indivíduos tornam-se capazes de agruparem-se segundo cada um de seus interesses e necessidades, pelo tempo em que estes durarem, e em grupos maiores ou menores conforme a importância de cada assunto para o conjunto da sociedade.

Não é necessário forçar o indivíduo à colaboração (o que nem faz sentido) ou mesmo ter muita fé na pré-disposição em colaborar. A própria interação já estabelece a colaboração, e à medida que o indivíduo busca suas necessidades na rede ele automaticamente colabora para o enriquecimento da rede. Lembremos que o fator aqui é o conhecimento, e até um questionamento ou crítica contribui para seu crescimento, e o simples acesso contribui para lhe atribuir valor. De qualquer forma, o mais natural e esperado é que cada um, enquanto tenha liberdade irrestrita para atuar onde quiser e como puder, demonstre interesse em participar daquilo que acontece ao seu redor e modifica o seu ambiente.

Ao menos em um primeiro momento, haverá dificuldades com alguns perfis de colaboradores. Há por exemplo os que querem muito participar, se envolver, chamar para si a responsabilidade, mas simplesmente não têm as condições necessárias àquele trabalho. Com acesso irrestrito ao conhecimento e o acúmulo de experiência em trabalho colaborativo, isso tende a se resolver. Também há aqueles que não querem realmente contribuir, mas apenas fazer parecer, motivados por ego ou autopromoção. Em uma rede irrestrita onde as pessoas se movimentam livremente conforme seus interesses e são avaliadas por seus pares em suas interações efetivas, isso perde o sentido.

O capital colaborativo – o conhecimento que o indivíduo acumula ao mesmo tempo em que compartilha – e a organização do trabalho em rede libertam as pessoas de trabalhos enfadonhos, indesejados ou inadequados. Cada um se vê livre para encontrar aquilo que gosta e sabe fazer, tornando-se capaz de desenvolver todo o seu potencial e contribuir de forma efetiva para a sociedade. Uma economia que se estrutura sobre esse tipo de trabalho tende a ser mais produtiva e eficiente, consequentemente mais sustentável. Mais do que isso, permite a distribuição da riqueza gerada, que tende a ser abundante. Se o principal fator de produção é abundante, tudo o mais tende a ser.

No âmbito político e social, o caminho da eficiência é um pouco mais complexo. Aqui, as pessoas devem colaborar não somente na consecução das atividades necessárias, mas também nos objetivos propostos, que, afinal, são coletivos. Decisões políticas afetam a toda uma comunidade e, para ter a colaboração de todos, precisam atender aos anseios de todos – ou ao menos não ferir os anseios de ninguém. Melhor do que uma democracia restrita, onde uma maioria dita decisões sobre as minorias, é a construção do consenso, algo que só é possível em um ambiente colaborativo, e também é o mais indicado. A partir de diferentes soluções possíveis a uma questão, se constrói uma nova, maior e melhor que as anteriores, e que atende a todos os envolvidos.

A colaboração em larga escala, para fins sociais, políticos e econômicos, advém da prática e da experiência. Hoje pode parecer utópico que grandes grupos de pessoas se entendam e atinjam alguma harmonia ou consenso para as mais diversas questões, mas a estranheza que a ideia causa em muitos deve-se à pouca prática de nossa sociedade no assunto. À medida que as pessoas sintam-se envolvidas nos processos sócio-econômicos, e corresponsáveis pelas alterações em seu ambiente, buscarão desenvolver as habilidades básicas de colaboração, cocriação e construção de consenso – no fundo, naturais a um ser social.

“Este artigo não expressa necessariamente uma opinião do MZ, mas de seu autor.
O mérito está na contribuição para a discussão da linha de pensamento defendida pelo movimento.”

 

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2 Responses

  1. Marcelo Machado disse:

    Muito bom!

  2. Daniel C. disse:

    As soluções estatistas são baseadas em coerção. As soluções anarco capitalistas são baseadas estritamente no dinheiro e na esdrúxula lógica da propriedade ao primeiro que se apoderar do bem. A solução ideal é a da abundância generalizada, e isto só se consegue através da colaboração. Por isso este é o tipo de artigo que me dá prazer em ler. Muito obrigado.

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