A Flexibilidade Moral do Mercado

O Abutre

Aviso: contém spoilers dos filmes.

Certa vez, li que Nelson Rodrigues, o um tanto polêmico dramaturgo brasileiro, teria dito que aquilo que acontece no palco de um teatro, por exemplo, evita que algo semelhante aconteça na vida real. Como se a arte, nesse aspecto, servisse como um escoadouro para nossas mazelas pessoais e sociais e liberasse tensões que poderiam eclodir nas ruas, causando, entre outras coisas, crimes.

Se essa é realmente uma das funções da arte, eu não saberia dizer, mas acredito que, pelo menos, a arte pode pôr em evidência lados da realidade que são muito pouco questionados e, ao exagerá-los, expor o ridículo de seus fundamentos. O que lembra uma outra afirmação, muito conhecida dentro do Movimento Zeitgeist, que é a de Ernst Fischer:

Em uma sociedade em decadência, a arte, se verdadeira, deve também refletir a decadência. E, a não ser que queira romper com sua função social, a arte deve mostrar o mundo como passível de mudanças. E ajudar a mudá-lo.

Sendo o cinema considerado a 7ª arte, lembro-me de um filme a que assisti essa semana e que cumpre esse papel social, chama-se O Abutre e é do diretor Dan Gilroy. A história é a de um jovem, interpretado por Jake Gyllenhaal, que, em busca de ascensão na vida, tenta encontrar meios para isso em um mundo de poucas oportunidades. Com muitas portas fechadas no terreno da legalidade, já possui desde cedo uma boa permeabilidade em negócios do submundo. Logo aí entra uma das questões colocadas pelo filme, porém que não é respondida: será que uma personalidade moralmente flexível é o que determina, por exemplo, a prática de atos de subsistência ilegais, ou seriam as tensões do meio as responsáveis por essa flexibilidade? Por não sabermos nada do passado do protagonista, pouco podemos, a partir do filme, deduzir. No entanto, a pergunta que fica já é suficiente para um bom debate. Afinal, nascemos corruptos e imorais ou nos tornamos durante nossas vidas? Parece que, na verdade, a resposta é um meio-termo: temos um leque comportamental vasto que se expressa através de tendências para este ou aquele comportamento, o qual é recompensado ou reprimido pelo ambiente em que estamos inseridos, e isso determinaria quais os traços de nossa personalidade seriam desenvolvidos. Então, não apenas a carga genética, uma herança que quase nada podemos fazer a respeito para mudar, pesaria na economia de quem somos, mas também o que desde pequeno nos foi ensinado e incorporado em nossos hábitos e personalidades. Contudo, no filme, a questão paira no ar, sem resposta, pelas informações omitidas sobre o histórico do protagonista.

O Lobo de Wall Street

Esse mecanismo de recompensa que estimula ou reprime certos comportamentos individuais também é destacado em outro filme, O Lobo de Wall Street, que assim como em O Abutre mostra de forma chocante esse jogo posto em ação pela sociedade atual, em que não se medem muito as consequências morais de certas atitudes, pois incentivos estruturais em nossa sociedade recompensam comportamentos antiéticos. Nessa perspectiva, os campos da legalidade e do crime se confundem, já que o que importa não é se algo é certo ou errado, mas se o ibope está aumentando, como no caso de O Abutre, ou se os negócios estão indo bem, como no caso de O Lobo de Wall Street.

Seguindo a ascensão econômica do personagem de O Abutre, o filme acaba pondo em evidência os verdadeiros pré-requisitos de alguém que busque se adequar inteiramente ao sistema atual. Basta ter pouca empatia, ser individualista ao extremo e assumir os riscos.

Ainda no começo do filme, depois de muito procurar, o jovem acaba encontrando a oportunidade que o iniciaria em sua carreira, um trabalho freelancer de cobertura de locais de crime, acidentes e tragédias, para a TV. Em sua trajetória economicamente ascendente, o personagem principal, Louis Bloom, chega a ouvir de seu parceiro, a certa altura, que um dos seus problemas é não entender e saber lidar com o ser humano, ao que, em seguida, responde que isso acontece porque, na verdade, ele não gosta dos seres humanos. Essa cena, como outras, um tanto quanto chocante pela frieza do personagem, nos remete a várias outras cenas do filme em que esse choque entre o personagem principal e o restante se dá. Por exemplo, em uma das suas primeiras tentativas de arranjar um emprego formal, Louis tenta convencer um dono de ferro velho para quem acabara de vender um material roubado a contratá-lo, e o senhor, muito francamente, responde que não contrata ladrões, o que parece causar um descontentamento no desempregado. O curioso dessa cena, em retrospectiva, é que apesar de comprar o material sabendo de sua procedência ilegal, o empregador diz não aceitar trabalhar com ladrões, o que parece um tanto paradoxal e fundamenta o desgosto do personagem pelas pessoas. Afinal, e aqui entra uma outra questão interessante do filme, qual seria o limite entre o moralmente aceitável e o repreensível? Pagar por material que sabe ser roubado não tem problema, mas formalizar essa fonte de renda concedendo um vínculo empregatício, sim?! No filme, essas linhas são desenhadas muito tenuamente, confundindo propositalmente os limites. Aparentemente, a intenção é mostrar que se pode aproveitar dos benefícios do crime somente enquanto eles não te comprometam. Ultrapassar essa linha que seria o inaceitável, ou mesmo imprudente. Esse parece ser o ethos coletivo que o personagem recebe do mundo que o rodeia e tenta combatê-lo. Na verdade, o que ele faz é apenas ir um pouco mais além e assumir mais coerência para si, incorporando inteiramente o comportamento, digamos, corrupto que é estimulado pelo sistema, sem ressalvas. Ou seja, é o único realmente íntegro da história, que não nega e assume para si a responsabilidade por seus atos.

Refletindo sobre isso, até que ponto precisamos deixar que um sistema de valores ultrapassado nos leve para que percebamos a necessidade de mudá-lo? É preciso realmente que nossos ídolos e padrões de sucesso se distorçam até o ponto em que o ridículo dos filmes passe a ser uma parte definitiva do nosso cotidiano, ou seremos capazes de captar os sinais que obras como essas têm nos trazido para que possamos fazer algo a respeito?

“Este artigo não expressa necessariamente uma opinião do MZ, mas de seu autor.

O mérito está na contribuição para a discussão da linha de pensamento defendida pelo movimento.”

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