Análise de uma argumentação liberal

Por Gabriel Bizzotto

https://pixabay.com/pt/tempo-%C3%A9-dinheiro-empres%C3%A1rio-tempo-de-1251246/Introdução

A discussão aqui apresentada é uma análise deste artigo, e por isso a leitura prévia do mesmo é essencial para a melhor compreensão do texto que segue.

Refuta diversos argumentos do autor com o objetivo de fornecer uma visão macroeconômica mais ampla, não apenas focada no indivíduo. Uma vez o contexto ampliado, muitos dos argumentos desmoronam. Fica a critério do leitor tirar suas próprias conclusões à luz dessa nova perspectiva.

Refutações

A primeira parte explica tudo o que melhorou nos últimos 200 anos. Sim, melhorou. Mas o autor atribui as melhorias ao capitalismo e a suas instituições: “propriedade privada” e “mercado”. Já podemos refutar. As melhorias vieram de invenções e descobertas, as quais podem ser atribuídas à curiosidade e engenhosidade humana e ao método científico. O capitalismo pegou o bonde. Talvez tenha nascido do mesmo iluminismo. O iluminismo que gerou tanto progresso científico também levou a questionar a monarquia e a trocar o sistema por algo que tenha, em tese, mais liberdades individuais. O capitalismo certamente foi uma forma de explorar e pôr em prática as novas tecnologias. Mas nunca saberemos se foi a melhor forma.

Colocando uma frase do texto em perspectiva en passant: “o valor da economia entre os países mais pobres é 40 vezes o valor de toda ajuda estrangeira recebida”. Sem referência para comparação, não dá para saber se é a economia desses países pobres que é grande, ou se é a ajuda que é ridiculamente insuficiente.

A segunda parte explica como a propriedade privada e a busca dos interesses egoístas leva a uma melhor gestão dos recursos, com o exemplo da moradia. Sim, se você der propriedade privada e liberdade para cuidar dela, as moradias serão melhor cuidadas. Mas será melhor a gestão dos recursos nessa situação? Não necessariamente. Olhando para o quadro mais amplo, talvez os recursos que uma pessoa gastaria criando uma varanda seriam melhor aproveitados em infraestrutura para todos, ou na construção de moradia para quem não tem nenhuma. Para esse exemplo da propriedade privada da moradia, válido no contexto limitado do indivíduo, podemos achar inúmeros exemplos em que a propriedade privada fere o bem-estar de todos. Por exemplo, a propriedade privada de terras cobertas de florestas é um incentivo para o desmatamento e o plantio ou a pecuária. Já que aquela pessoa não está preocupada com as gerações futuras, desmatado está. Menos água nos mananciais, mais CO2 no ar, menos biodiversidade, etc. São as chamadas externalidades: o preço pago por todos para o lucro individual.

Em relação aos gráficos, pode haver correlação, mas o artigo não demonstra causalidade. Falta exemplos de países pobres com proteção do direito à propriedade privada fraca que se tornaram ricos não só após, mas por causa de mudança nessa instituição. Os gráficos não são conclusivos e podem até mostrar o contrário, se quiser: após um país enriquecer, ele tende a fortalecer a propriedade privada. Sem explicação do contexto histórico, não dá para saber se há causa, e qual dos fenômenos é a causa do outro.

Depois vem a citação de Richard Pipes. Vamos brincar de marxismo aqui! Se a propriedade privada transforma o cidadão em co-soberano, qual seria o efeito da propriedade compartilhada dos meios de produção?

Logo após, fala que a propriedade privada deveria ser um direito “irretocável”. O que entendo é que algo sujeito à propriedade privada nunca poderia ser tomado. A construção de infraestrutura geralmente envolve expropriação. A construção de uma linha férrea, estrada ou qualquer coisa do tipo envolve a remoção de moradias ou áreas ocupadas de outra maneira, com o sem compensação. A santidade da propriedade privada seria um empecilho para, novamente, o progresso do bem-estar comum.

Numa Economia Baseada em Recursos-EBR (e nem penso na cidade circular à la The Venus Project – TVP, mas em cidades atuais mesmo), onde, imagino eu, as moradias seriam rotativas que nem vaga de estacionamento hoje, a remoção de uma moradia não seria um problema imenso. As pessoas seriam realocadas em qualquer lugar vago de sua escolha. Talvez essas pessoas possam ter prioridade para a escolha, passando na frente de quem está se mudando por vontade própria, tendo assim acesso às melhores opções. Ainda é um transtorno, mas relativamente pequeno porque não existe o estresse das dúvidas gerado por uma mudança num sistema capitalista: “qual será a compensação financeira? O que vai dar para comprar com isso? Vou ter que voltar para o aluguel? Onde vou poder morar?”

Depois vem a defesa do mercado. Começa sendo vendido como o melhor gestor de escassez.

É muito fácil encontrar um contraexemplo: os alimentos. Há escassez de alimentos pois tem quem passa fome no mundo e no Brasil. O problema vem do próprio mercado, que permite que uns se apropriem de mais alimentos que os demais. E não só porque alguns povos comem além da conta. Isso é a ponta do iceberg. Tem a ver com o consumo de carne. A pecuária ocupa um terço das terras aráveis (http://www.fao.org/newsroom/en/news/2006/1000448/index.html). Quem consome carne ocupa mais terras aráveis que os outros e, no final das contas, impede que quem não tem dinheiro possa comer. Um consumo menor de carne tornaria mais baratos os demais alimentos pela queda da demanda, e permitiria que mais pessoas possam se alimentar. Numa economia planejada e automatizada, isso não aconteceria.

O segundo argumento é que o preço é o melhor jeito de gerenciar a escassez. Isto é claramente antiético. O exemplo dado do macarrão com pouca oferta e muita demanda é um prato cheio para quem quer igualdade. Nesse caso, o preço aumenta, o que é apresentado como a melhor solução, mas o efeito é apenas tornar aquele recurso (comida!) disponível apenas para os ricos. Como se o capital acumulado fosse medida para decidir quem deve passar fome para que outros possam se alimentar.

Depois aponta para o fato de que ter milhões de cabeças tomando decisões sobre preços é o único jeito prático de gerenciar a economia. Um grupo governamental não teria condições de fazer isso. É um dos argumentos de Ludwig von Mises e Friedrich Hayek contra o socialismo. Acontece que hoje temos computadores capazes de resolver isso. A programação poderia não ser trivial, mas seria longe de ser impossível. Já temos inúmeros exemplos de linhas de produção automatizadas, plantações automatizadas e outros sistemas complexos que não precisam mais de intervenção humana. Escalá-los pode ser trabalhoso, mas não difícil.

Nesse mesmo parágrafo, há uma falácia do espantalho, ou seja, o autor põe argumentos falhos na boca do adversário e os derrota. O objetivo do socialismo não é deixar na mão de uma cúpula pequena do governo todo o planejamento, o desenho industrial, a inovação e a execução da produção. É decidir o que precisa ser produzido, onde, e como encaminhar e distribuir a produção de forma mais eficiente para atender a todos. A inovação e a execução continuam descentralizadas. Numa EBR, a inovação fica livre para todos que tiverem interesse em se aprofundar nos assuntos e a produção e a distribuição são automatizadas, dependendo da demanda registrada localmente e dos limites de regeneração dos recursos naturais.

Esse parágrafo conclui que a lição do século XX é que o socialismo não funciona. Talvez essa conclusão seja correta em sua forma marxista: o socialismo focado no trabalhador e no trabalho. Porém essa forma de socialismo não é mais válida. A constatação atual é que devemos nos livrar do trabalho e automatizar tudo que for possível.

O gráfico expectativa de vida x liberdade econômica é enganoso.

Primeiro, os gráficos liberdade econômica x renda per capita, da mesma forma que os gráficos anteriores, não revelam causalidade mas mera correlação.

Depois, a expectativa de vida provavelmente é ligada à renda per capita, sim, porque é preciso de recursos para ter acesso a tratamentos médicos. Já trocar poder econômico por liberdade econômica é falacioso.

Depois dos gráficos, o autor apresenta rankings de facilidade de fazer negócios. O autor dá tiros no pé. Cita vários países com mais facilidade de fazer negócios, porém obviamente mais pobres. É a prova de que as coisas não são lineares e que liberdade econômica não é sinônima de riqueza. E se aumentássemos a facilidade de fazer negócios para chegar no nível de, digamos, Botswana. Ficaríamos tão ricos quanto? Não parece muito atraente…

O autor continua com uma crítica da classe política, corrupta. É sim. Completamente. Mas por que? Porque as pessoas são corruptas por natureza? Não, a natureza humana é muito flexível. Nos tornamos o que somos principalmente pela influência do ambiente, no caso o ambiente sociocultural. A ideologia vigente é justamente a maximização dos interesses próprios, como defendido anteriormente no artigo. Sendo assim, um político vai sim receber uma propina e ir contra o interesse da população. Enriquecer é mais importante. Status é mais importante do que ética.

Na conclusão, o autor sugere reduzir as atribuições do Estado. Quais deveriam ser eliminadas? Quais instituições removidas? Ministérios (da cultura, como descobrimos)? Agências reguladoras (como a Anatel, que desistiu de regular a internet, como descobrimos)? O SUS? As universidades federais (as quais foi sugerido se tornarem pagas, como descobrimos)? As escolas públicas?

1024px-Rocinha_Favela_Brazil_SlumsConclusão

Numa crítica geral ao artigo, podemos rebater que hoje em dia, não há mais necessidade de existir pobreza. Os pobres precisam de muito mais ajuda do que um título de propriedade. E não há mais escassez o suficiente para justificar a miséria. Com planejamento e um direcionamento correto da máquina industrial e da força de trabalho, hoje ocupada com coisas fúteis, inúteis ou francamente contraprodutivas, podemos estabelecer um alto padrão de vida para todos, ninguém excluído.

Podemos somar a isso a natureza do dinheiro, dívidas com juros, explicar porque é um esquema de Ponzi que obriga uma parte das pessoas e empreendimentos (e até governos!) a pedirem falência para eliminar as dívidas criadas em todo ato de empréstimo.

O autor sugere que um título de propriedade permitiria que os mais pobres tenham acesso ao crédito. O crédito é a melhor forma de sugar o dinheiro dos pobres e transferi-lo para os ricos. São os ricos que emprestam, já que têm. Mas não emprestariam sem a garantia de ter um lucro. É garantido que mais dinheiro vai para cima, do pobres para os ricos, do que de cima para baixo. Alguns pobres podem sim conseguir sair de sua condição graças ao crédito, mas sempre serão exceção.

No final das contas, com ou sem título de propriedade, sempre haverá ricos e pobres. E isso é, simplesmente, eticamente inaceitável.

———————————————————————
Para a contra-argumentação aos capitais-liberais, sugerimos também a leitura deste texto (em inglês): http://evonomics.com/stop-crying-size-of-government/

Salvar

Salvar

Salvar

Salvar

Salvar

Salvar

Salvar

Salvar

Salvar

Salvar

You may also like...

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>