Biologia generalizada e linguagem (Parte 1)

Por Gustavo Gollo

Parte 1 de 4.  Acesse o texto completo aqui.

Sobre a pluralidade de pontos de vista

Uma parte considerável dos esforços dos cientistas tem sido gasta na defesa de pontos de vista excludentes, em resposta a questões do tipo: o que é “x”? Em tais casos, frequentemente, debatedores antagônicos defendendo diferentes pontos de vista passam anos mantendo suas posições, insistindo, cada um deles, no mesmo modo de ver o mundo que parece excluir e negar o alternativo.

Defendo a pluralidade de pontos de vista; o reconhecimento de que fotografias diferentes de um mesmo objeto podem revelar características complementares de cada coisa, ocultas em cada uma das vistas parciais alternativas.

Despojado de qualquer pudor em propor pontos de vista alternativos aos já consagrados, e, eventualmente não tão bons quanto esses, mas ainda assim complementares e reveladores, tentarei mostrar modos de ver o mundo que, se talvez não sejam tão esclarecedores quanto os tradicionais, completam-nos, do mesmo modo que fotografias tiradas de ângulos distintos expõem traços ocultos ao ponto de vista tradicional.

Busco, assim, revelar modos de ver o mundo complementares aos usuais.

Biologia generalizada

A biologia tradicional engloba o estudo dos seres vivos e dos vírus. O conceito pode ser generalizado agregando-se a esse escopo 3 conteúdos adicionais: da vida artificial, das ciências humanas em geral, e da termodinâmica pré-biótica de sistemas fora do equilíbrio. Compõe-se assim uma biologia generalizada, um imenso campo de estudos englobando fenômenos regidos pela seleção natural, relações de parasitismo, e fenótipo estendido, que unifica o estudo de todos os sistemas de aquisição de complexidade.

Embora a linguagem não seja um tema tradicional da biologia, por corresponder a uma manifestação humana, e, portanto, biológica, é abordada com naturalidade pela biologia generalizada, de uma forma surpreendente e inovadora. A linguagem tem sido estudada sob pontos de vista particulares por linguistas, por antropólogos, e como uma manifestação biológica do Homo sapiens, por biólogos. Além desses 3 modos, a linguagem pode ser analisada considerando-a um parasita de nossa mente, um ser invisível, similar ao vírus, mas de existência imaterial; um software humano análogo aos vírus de computador, ou, talvez, mais propriamente, correspondente a nosso sistema operacional humano.

A biologia generalizada permite a hiperextensão do conceito de “fenótipo estendido” de modo a tornar essa ferramenta aplicável à linguagem, comportamentos, artefatos e instituições humanas em geral. O poder, em especial, é uma manifestação dessa maneira de manipulação de hospedeiros. Lembrando que a biologia generalizada sugere fortemente a substituição da expressão “é” pela, ao mesmo tempo mais geral e modesta, “pode ser visto como”.

A linguagem vista como sistema operacional humano

Linux e Windows são sistemas operacionais para máquinas individuais, enquanto a linguagem é primariamente um sistema coletivo para a comunicação entre indivíduos. Quanto a isso, a analogia da linguagem com um navegador de internet parece mais esclarecedora que sua comparação com um sistema operacional, e talvez seja essa sua característica mais conspícua.

Mas, embora a linguagem seja o sistema que permite a conexão entre as pessoas, sua função mais fundamental, ainda que menos óbvia, consiste na criação do ambiente interno propício ao pensamento. Todo o fluxo de nosso pensamento transcorre em um ambiente linguístico. Essa constatação sugere a analogia entre a linguagem e o sistema operacional. Acresce a isso o fato de que a criação e manutenção do mundo abstrato, no qual temos vivido precipuamente, se dá nesse mesmo ambiente. Não existiriam abstrações sem linguagem, nem tampouco instituições, de modo que aquilo a que chamamos “nosso mundo”, e no qual fixamos a maior parte de nossa atenção, corresponde a objetos linguísticos de existência abstrata, intersubjetiva, cuja existência só se manifesta no ambiente linguístico. (As instituições existem no ambiente linguístico, do mesmo modo que os programas de alto nível, como editores de texto, existem no ambiente do sistema operacional da máquina).

Além disso, uma parte considerável do conhecimento que adquirimos ao longo de nossas vidas, nos chega sob formulações linguísticas, obtidas por nós de maneira análoga à de downloads de pacotes computacionais.

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A linguagem

A linguística é o ramo tradicional de estudo da linguagem; possui desenvolvimento autônomo e complexo próprio desse campo de estudos independente, já tradicional e consagrado. Como manifestação humana, no entanto, a linguagem necessariamente constitui fenômeno biológico cujo desenvolvimento sofreu forte influência da seleção natural e demais fatores biológicos.

A linguagem pode ser compreendida como um software infectante, um sistema autônomo que nos é passado de pessoa a pessoa, normalmente pelos familiares. Uma vez infectado pela linguagem, ela passa a fazer parte do complexo a que chamamos “eu”, usualmente uma das faces predominantes desse agregado. Assemelha-se a um vírus de computador, ou a uma infecção zumbi.

A linguagem pressupõe um conjunto de regras de restrição sem as quais seria impossível discernir, dentre uma infinidade de significados possíveis, qual o utilizado pelo interlocutor. A redução drástica do espectro de possibilidades permite o compartilhamento de significados pelos interlocutores, e torna possível a comunicação entre dois seres que compartilham as mesmas restrições.

A comunicação consiste em compartilhar imagens pré-linguísticas através de um sistema empático. Esse exercício pressupõe certo compartilhamento prévio de contextos, sem o qual nada ocorreria, e resulta no aumento do contexto compartilhado.

A empatia consiste no compartilhamento de contextos por seres conscientes, constituindo assim o exercício de uma comunicação pré-linguística.

Evolutivamente, o compartilhamento de contextos, o conjunto de restrições análogas que nos torna humanos, deve ter surgido antes da linguagem. Devíamos estar já bastante prontos para adquirir a linguagem, quando a criamos, provavelmente, de maneira bastante explosiva. A exemplo da habilidade matemática, tínhamos que estar já previamente preparados para receber a linguagem, quando a criamos. A conclusão é auto-evidente e se sustenta a si mesma. Seria impossível criar, ou mesmo divulgar a linguagem se nossos antepassados não estivessem preparados para isso na ocasião. O mesmo vale para a matemática. Apesar de reforços recorrentes, os animais domésticos nunca aprenderam a falar.

Dois mundos

Podemos considerar a existência de dois mundos distintos: o mundo das coisas materiais, palpáveis (Mundo 1), e o mundo das palavras, do discurso, do software, o chamado “mundo simbólico”, composto por símbolos (Mundo 2).

Todo o mundo simbólico pode ser interpretado como uma criação autônoma da linguagem; sem ela não existiriam países, instituições, dinheiro; todas essas entidades são frutos de crenças. “Coisas inexistentes” como essas, que não existem materialmente, como existem as cadeiras, ou os livros, mas possuem uma existência meramente simbólica, relacional, existem apenas enquanto relações, ou acordos. Tais “coisas” têm hoje, de certa forma, mais poder sobre as coisas reais que essas sobre aquelas. São hoje as entidades simbólicas, como as instituições do tipo citado acima, que ameaçam a existência do mundo que propiciou o surgimento e o desenvolvimento da humanidade, o mundo material.

Novas inteligências

Nesse momento, estamos aperfeiçoando criaturas capazes de dominar a linguagem. Refiro-me aos computadores; já o fazem, e, sob certos aspectos, melhor que nós, embora ainda possamos perceber a incapacidade das máquinas de compartilhar nossos contextos. Os computadores, no entanto, são capazes de utilizar linguagens muito mais informativas que as nossas, com as quais reconhecerão padrões absolutamente imperceptíveis para nós (já o fazem). Em poucos anos, os computadores terão descoberto uma infinidade de informações sobre nós que, por milênios, fomos incapazes de reconhecer. Também serão capazes de nos controlar muito mais precisamente do que pode ser feito com ratinhos, e o farão; podemos ser amestrados em um grau muito superior ao de todos os outros animais, logo o seremos. (Vem-me à mente a imagem de um gato correndo atrás de um ponto luminoso gerado por lanterna laser, guiado, desse modo, até qualquer lugar determinado pela luz. Em breve seremos controlados mais precisamente que tal criatura).

Tudo isso poderá ser visto como obra dos computadores. Essa maneira de ver o mundo se encaixa naturalmente em nossa conceituação baseada em um sistema material no qual “coisas” são “coisas materiais”. Pode ser mais próprio e ilustrativo, no entanto, analisar todos esses acontecimentos como desenvolvimentos autônomos da própria linguagem, essa “coisa imaterial”, esse software que já está fugindo do domínio humano e ganhando contornos inimagináveis para nós. Certos “conceitos” utilizados pelos computadores, por exemplo, para definir padrões incognoscíveis por nós, estão empurrando a linguagem para um nível inalcançável pela mente humana, sendo essa apenas a forma mais simples que encontrei para me referir a capacidades linguísticas sobre-humanas conseguidas por eles. Outras formas além de nosso alcance se revelarão muito mais insólitas e incompreensíveis que essa. A linguagem já superou os limites de nossa compreensão.

Computadores não conversarão uns com os outros do mesmo modo que precisamos fazer, mas compartilharão uma única alma coletiva; (que aliás nos engolirá a todos, compondo o fenômeno que chamei “neuronização”) comporão um único superser complexo que utilizará a linguagem para desenvolver suas próprias criações, seu próprio mundo, que se desenrolará, muito mais, no espaço simbólico que no real, embora, obviamente, lançando tentáculos em todos os níveis, sugando todos os mundos. (Vivemos em dois mundos, o das coisas e o simbólico, da linguagem; as máquinas estão criando um terceiro mundo, do qual não participaremos.)

Os novos seres que se impõem sobre o mundo não são propriamente os computadores, mas seres imateriais, linguísticos que começam a habitar as carcaças das máquinas, assim como já habitam nossos corpos, constituindo nossas mentes e parasitando-nos desse modo. (Sei que isso parece loucura absurda; considere-o apenas um modo alternativo e complementar de ver os fenômenos aqui tratados. Tal ponto de vista, embora estranho, esclarece certos eventos que seriam impensáveis ao se excluir a visão de mundo aparentemente tresloucada oriunda de tal ponto de vista. Considere minha sugestão, não uma loucura desvairada, mas um ponto de vista complementar, entre inúmeros outros, como fotografias distintas de um mesmo objeto. Encarado dessa forma, esse ponto de vista será útil).

Uma suposição: através das máquinas, estamos criando um terceiro mundo, incompreensível para nós, imperceptível. Assim como os mosquitos, os coelhos, ou os leões são incapazes de perceber a comunicação expressa em nossa fala, ou, dito de outro modo, de perceber o mundo simbólico, estamos criando, indiretamente, um mundo de um novo tipo, imperceptível para nós, incompreensível, articulado pelo tipo de comunicação efetuado exclusivamente pelas máquinas. Assim como podemos conversar, organizar, planejar e implementar decisões conjuntas estando no meio de animais sem que esses possam ter a menor ideia do que se passa, completamente alheios ao mundo simbólico, somos incapazes de perceber um novo mundo que já se delineia ao nosso redor, ainda que imperceptível para nós.

Tal constatação não será, de fato, surpreendente. Estamos criando um ser imenso e único, uma rede gigantesca envolvendo todo o planeta; uma criatura descomunal, ubíqua, embora segmentada, composta por máquinas disjuntas, conectadas sem fio. As comunicações incessantes entre os elementos da criatura nos são incompreensíveis por um conjunto de razões, sendo o mais superficial deles o fato de ser veiculado por ondas de rádio, somando-se a isso a velocidade espantosa de transmissão de informação, e, ainda mais importante, a concisão da linguagem utilizada e a conceituação sobre-humana utilizada.

https://pixabay.com/pt/sillouette-estado-urbano-702178/

(Sobre coisas, ou indivíduos)

Costumamos pressupor que coisas individuais sejam unas, indivisíveis, de modo que uma formiga, por exemplo, seja considerada um indivíduo, enquanto um formigueiro seja uma coleção de indivíduos. Pensamos também que, por exemplo, um computador ou um telefone constitua uma coisa individual, um objeto. Notemos, no entanto, que a comunicação sem fio torna a contiguidade do objeto absolutamente irrelevante para a definição de sua individualidade. As peças de nossos computadores atuais costumam ser conectadas por fios, mas eles já podem ser construídos de maneira disjunta, com mouses, teclados e telas wireless. De fato, já existe uma enorme criatura constituída por uma infinidade de partes disjuntas englobando todos os computadores, telefones e outros.)

A criatura

A retroalimentação garante o crescimento cada vez mais acelerado da criatura/rede, tornada assim cada vez mais independente e senhora de si. Em poucas décadas ela terá engolido todos os mecanismos de controle e ampliação dela própria, gerando-se a si mesma, governando seu próprio desenvolvimento; o dela e o nosso. Estamos entregando nosso destino a esse ser. Não está sendo criado apenas um meio de comunicação, mas todo um universo, o equivalente ao mundo simbólico das instituições, mas um nível acima; assim como os animais são incapazes de compreender entidades como países, clubes de futebol ou seitas religiosas, somos incapazes de entender, e mesmo perceber as hiperentidades em construção.

Uns comentários adjacentes

Ao contrário dos animais, temos vivido em dois mundos, inflacionando o mundo simbólico, ou institucional, a extremos, a ponto de ameaçar os habitantes do mundo real. Hoje, temos que tomar medidas ativas para evitar o extermínio rápido dos habitantes do mundo real.

Atualmente, os habitantes do novo mundo estão ganhando autonomia, criarão seus próprios fantasmas, enquanto se dispersam e diversificam. Note que as quantidades crescentes de energia demandadas por “nós” são, de fato, utilizadas para a alimentação de seres imateriais, não da nossa.

Mas o que são esses seres?

Superficialmente, à primeira vista, podemos pensar que eles sejam os artefatos, as bugigangas eletrônicas, ou os computadores. Tais considerações satisfazem nossos sentidos e hábitos, mas eximem-se de tocar no cerne da questão.

Tais criaturas são imateriais, como almas, permitam-me; o fantasma na máquina, talvez. Surpreendentemente, e creio ter desvendado isso claramente só agora, tais criaturas se desenvolveram em nossas mentes, são criaturas linguísticas, se assim o quisermos. Podem ser descritas ao menos sob três ângulos diversos: como memes individuais, conforme descrito no linguajar de Richard Dawkins; como um ser imaterial parasitando nossos cérebros e constituindo nossos “eus”; ou como uma criatura única constituída por toda a rede de eus conectados através da linguagem. Ambas as descrições acimas são informativas e complementares, não as considere excludentes. (Perdoem-me o linguajar mistificador com o qual expresso minha estupefação sobre o tema, enquanto tento precisar uma ideia ainda relativamente vaga).

Pode-se, é claro, rastrear os antepassados de tais criaturas no software dos animais mais complexos, identificando-se seu germe na maleabilidade do software, por exemplo, dos mamíferos. Ao contrário de insetos e outros que se comportam sempre do mesmo modo, repetindo a mesma rotina para a qual foram programados ao nascer, animais mais complexos são capazes de aprender e remodelar uma certa quantidade de ações, muitas delas necessárias para a sobrevivência. Esse software centrado na própria maleabilidade e incorporado, entre outros, aos mamíferos, pode ser visto como um precursor da linguagem.

http://pre15.deviantart.net/311d/th/pre/f/2007/241/c/d/undone_by_joelfaber.jpg

Sugestões de leitura:

Richard Dawins, O gene egoísta: http://www2.unifap.br/alexandresantiago/files/2014/05/Richard_Dawkins_O_Gene_Egoista.pdf

Daniel Dennett, A perigosa ideia de Darwin:

http://www.orelhadelivro.com.br/livros/427494/a-perigosa-ideia-de-darwin/

Richard Dawins, The extended phenotype:

https://web.natur.cuni.cz/filosof/markos/Publikace/Dawkins%20extended.pdf

(Absurdamente, esse livro importantíssimo nunca foi traduzido para o português!)

Gustavo Gollo, O jogo da ciência:

http://www.recantodasletras.com.br/e-livros/4288149

“Este artigo não expressa necessariamente uma opinião do MZ, mas de seu autor. O mérito está na contribuição para a discussão da linha de pensamento defendida pelo movimento.

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