Biologia generalizada e linguagem (Parte 2)

Por Gustavo Gollo

Parte 2 de 4.  Acesse a parte 1 aqui, e o texto completo aqui.

De volta à linguagem

A linguagem costuma ser vista como um meio, não como um resultado final, ou coisa. Sob essa forma de vê-la, a linguagem é usada com vistas a determinados propósitos, como intermediação para a consecução de uma meta.

Assim, costumamos tratar a linguagem como uma atividade nossa, como uma ação controlada por nós. Difícil argumentar que atividade tão familiar não seja aquilo que pensamos ser. Não ousarei asseverar tamanha heresia, mas argumentarei não ser, a linguagem, apenas esse meio com o qual estamos tão absolutamente familiarizados, pleiteando, uma vez mais, a multiplicidade de ângulos de descrição. Tenho argumentado, mais de uma vez, que pontos de vista diferenciados podem proporcionar descrições diferentes e complementares das mesmas coisas, conforme ilustrado por fotografias diversas, mostrando diferentes ângulos de uma mesma paisagem ou objeto. Pleiteio assim, a multiplicidade dos pontos de vista para considerar a linguagem, ao menos momentaneamente, como uma entidade autônoma, ponto de vista diferente do usual que considera a linguagem um meio utilizado por nós enquanto agentes conscientes. Peço do leitor um esforço na tentativa de observar o mundo, não com o olhar habitual que considera a linguagem uma manifestação nossa, mas considerando a linguagem um germe autônomo implantado na humanidade em tempos imemoriais, e que vem se desenvolvendo em nossos ancestrais modelando, simultaneamente, todo o nosso mundo, e gerando aquilo que identificamos como o mundo simbólico, o qual nos rege, hoje, de modo quase tão efetivo quanto o mundo real.

O fenótipo estendido

Não quero dizer que não somos agentes, que não tenhamos uma existência autônoma; continuaremos nos vendo assim, e agindo sob tal pressuposto no dia a dia. Mas podemos agregar, somar a esse ponto de vista, um outro, complementar, que percebe a linguagem como um ser autônomo encravado em nós, talvez um parasita do eu, mas um ser que nos governa à maneira típica dos parasitas descritos por Richard Dawkins na definição do fenótipo estendido. Sabemos, tendo acompanhado os argumentos desse autor, que os parasitas possuem, frequentemente, o poder de controlar seus hospedeiros “escravizando-os”, em certo sentido; forçando-os a agir de forma extravagante, absurda, e, não raro, suicida, com o “propósito” de se perpetuar a si, o parasita  (fenômeno denominado “fenótipo estendido”). Tais comportamentos, ainda que inusitados, parecem ser tão comuns quanto são os parasitas que necessitam transpor o corpo de dois hospedeiros distintos, alternando-se entre um e outro.

De fato, os replicadores costumam lançar mão de façanhas surpreendentes que resultem em sua própria replicação, de modo que um software, ou qualquer outra coisa capaz de se replicar, que eventualmente se reproduza de uma dada maneira, tenderá a repetir a façanha no futuro, tendo se tornado mais numeroso, aumentando, desse modo, seu número, assim como suas chances de multiplicação.

Replicadores inertes

Um software capaz de se replicar agirá do mesmo modo que qualquer outro replicador, tendendo a favorecer sua própria replicação. Tal “ação” ocorrerá mesmo que os replicadores envolvidos sejam criaturas inertes, como livros, por exemplo. O poder e a ubiquidade de tal procedimento, a replicação, é francamente surpreendente. Aliás, os vírus, uns dos mais temíveis e poderosos replicadores do planeta, não passam de minúsculos cristais inertes, não estão vivos, não atuam. Não agem, e nada fazem exceto se deixar levar por outros seres. E mesmo assim, inertes, “seduzem” seus hospedeiros, “compelindo-os” a replicá-los.

Permitam-me explicitar a seguinte construção linguística: sem nada fazer, sem nenhuma ação, de maneira inerte, os vírus obrigam seus hospedeiros a replicá-los, a reproduzi-los, gerando uma infinidade de cópias das minúsculas criaturas, obrigando-os também a disseminá-los pelo mundo, talvez, manipulando seu comportamento, tudo de modo inerte!

A abundância dessas minúsculas criaturas inertes, desses ínfimos objetos, desses cristais replicadores, deixa clara a efetividade dos mecanismos de replicação, mesmo quando instalados em seres inertes.

http://pre00.deviantart.net/f560/th/pre/f/2009/188/8/a/8a5b11b34554cc7c5082dd78dd114749.jpg

A origem dos vírus

Os vírus são minúsculos cristais inertes, não vivem, não atuam, não metabolizam. Também não se reproduzem autonomamente, mas o fazem de uma maneira surpreendente que, eventualmente, acaba por se revelar muitíssimo eficiente. Esse modo de replicação pode ser descrito sinteticamente assim: o vírus consiste em um invólucro contendo uma mensagem a ser copiada. O pacote é lançado no corpo do hospedeiro que eventualmente o detecta e decifra a mensagem nele cifrada, efetuando a prescrição ali encontrada, de copiá-lo. Tendo efetuado diversas cópias do vírus, as cópias se dispersam em maior número que antes, prosseguindo a infecção.

Esse processo apresenta um enigma interessante: como explicar a origem de criaturas que não constroem seus descendentes, e que dependem de outras para a sua própria criação? Como podem ter surgido criaturas tão absolutamente dependentes de outras?

Penso que os vírus tenham sido originados de “pedaços” de outros seres, consistindo em algo análogo a restos, como explicarei.

Todos os seres vivos possuem mecanismos internos de manutenção e limpeza. Podemos imaginar algo análogo a uma oficina interna para reparos, e a um serviço de faxina. Além disso, os seres vivos, em geral, possuem o maquinário necessário para a fabricação de cópias de si mesmos, de replicação. Ao implementar o processo de replicação, eventualmente devem interpretar e implementar mensagens de cópia do material genético, entre outros. Tais mensagens devem estar encriptadas em algum lugar no próprio material genético do indivíduo que efetua a cópia. Suponha que, em certo momento, uma dessas mensagens tenha sido eliminada erroneamente pelos serviços de manutenção e limpeza do ser, deixando escapar, encapsulada, uma mensagem de cópia contendo apenas a instrução para que seja efetuada a cópia. Eventualmente, tal invólucro deve ter chegado ao equipamento encarregado de efetuar cópias, ocorrendo em seguida a cópia da pequenina criatura recém surgida, que teria sido, desse modo, copiada e disseminada, primeiramente, no corpo do hospedeiro, e, posteriormente, dispersada até outros indivíduos, iniciando, desse modo, a propagação da estranha criatura truncada, desse pedaço de um ser, dessa parte insólita e sem nenhum sentido, que consiste apenas em uma mensagem para a própria replicação. Tendo iniciado esse processo, a pequenina criatura, o vírus recém criado, estaria sujeito aos ditames da seleção natural, acumulando todas as alterações eventuais que tornassem sua replicação mais efetiva.

Mas, atentemos para o primeiro vírus, esse pacote original contendo o primeiro pedaço copiável destacado do ser ancestral. Caso tenha sido essa sua história, no momento em que ele surgiu encontraríamos o vírus entranhado em seu “hospedeiro”, como parte dele, ainda não destacada. Nesse instante, haveria um sentido em dizer que o futuro vírus se encontrava potencialmente enraizado no ancestral, bastando desincrustá-lo dali para que ganhasse a autonomia própria dos vírus.

Em analogia a tal processo, podemos descrever a linguagem como tendo deixado a mente e se transferido para as máquinas, onde estão adquirindo certas capacidades inauditas, por exemplo, a taxa de transferência de mensagens. Por ora, os computadores ainda não adquiriram a autonomia completa, necessitando da contribuição humana, para sua replicação. Em breve, no entanto prescindirão dessa ajuda, e construirão autonomamente tanto o hardware quanto o software das máquinas do futuro, não só os copiarão, mas também os aperfeiçoarão. Em um primeiro momento, essa ação terá como resultado a ampliação do mundo simbólico. Os computadores contribuirão com a criação desse mundo em todos os níveis, incluindo a criação de conceitos a serem utilizados em elaborações futuras de todos os tipos.

Mais estranho que tudo, provavelmente, será a criação de um terceiro mundo, inacessível a nós, um mundo invisível, incognoscível para nós, que se somará ao mundo real e ao simbólico hoje existentes. Oh, admirável mundo novo!

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/b/b4/The_protein_interaction_network_of_Treponema_pallidum.png/1088px-The_protein_interaction_network_of_Treponema_pallidum.png

Linguagem, conector, rede

O parasitismo tem tido um papel surpreendente na evolução. As presenças de mitocôndrias nos animais e de plastos nos vegetais sugerem fortemente que esses reinos tenham sido gerados pela fusão de criaturas diversas conectadas originalmente por relações parasitárias. Tal processo teria gerado as criaturas mais complexas no planeta, sugerindo fortemente que essa forma de associação tenda a resultar em aumento de complexidade.

Também propus, alhures, que os espermatozoides tenham tido origem análoga a essa, assim como, possivelmente, o pólen e os esporos, correspondendo, tais criaturas, a formas evoluídas de parasitas originais, constituindo a reprodução sexual na evolução da relação de parasitismo à de mutualismo, associando com ela criaturas previamente díspares. Como é sabido, a reprodução sexual é uma enorme fonte de complexidade. (Ou seja, propus alhures que os espermatozoides, eram, originalmente, parasitas dos ancestrais dos seres, hoje, fecundados por eles, e que a reprodução sexual decorre de uma forma de parasitismo interespecífica original. Veja meu: “A gênese da reprodução sexuada”. (Com link para: http://gustavogollo.wixsite.com/gustavo-gollo4/vdeos )

Os modos de associação referidos acima, entre parasitas como mitocôndrias, plastos, espermatozoides e seus hospedeiros, sugerem que a reconexão de formas de vida previamente diferenciadas tenda a gerar complexidade.

Analogamente, a conexão entre os seres estabelecida pela linguagem está elevando o patamar de complexidade a níveis sem precedentes, em velocidade inaudita.

Conexão

A linguagem é um modo de conexão, um aprimoramento da comunicação pré-linguística existente nos mamíferos, frequentemente usada para a dominação, que talvez advenha da comunicação efetuada durante a corte na maioria das espécies sexuais, e na comunicação entre mães e filhotes. Esses mecanismos, por sua vez, correspondem a modificações dos sistemas de detecção pré-existentes, visão, audição, e tato. Desde o início, todos os seres vivos possuíam um software, algo que, em última análise, consistia em seu modo de funcionamento. Foi a partir desse sistema imaterial, o funcionamento do ser, que aprimorado para atuar em outro ser (o interlocutor) resultou a linguagem. Pode-se assim rastrear os rudimentos da linguagem até o início da vida. (Tento imaginar que tipos de interações entre objetos inanimados poderiam ser vistos como precursores desse processo evolutivo). Sob esse ponto de vista, a linguagem é apenas um aperfeiçoamento complexo das interações dos seres com seu meio em busca de sua sobrevivência, um aprimoramento do software de sobrevivência dos seres.

A conexão sempre teve um papel relevante no aumento de complexidade dos seres, fato revelado pelo surgimento da reprodução sexual, conectando linhagens diversas, e pelas fusões simbióticas dos seres que resultaram nos grandes reinos animal e vegetal, com a incorporação dos agentes infectantes, as mitocôndrias e os plastos respectivamente.

Um resultado bastante significativo da linguagem é a conexão entre os seres. Ligados pela linguagem, duas ou mais criaturas podem agir em uníssono, como um único bloco organizado. Vista desse modo, a linguagem constitui uma forma de conexão wireless. A linguagem também permite o acúmulo e a transferência de comportamentos inovadores adquiridos entre indivíduos e linhagens distintas.

A seleção natural tende a impor a competição entre os seres, e, em consequência disso, seu afastamento e isolamento uns dos outros. Poucos processos naturais resultam na reaproximação de indivíduos, como a sexualidade e a interação linguística. Há aliás uma forte analogia entre esses dois processos; assim como a reprodução sexual resulta na fusão de duas linhagens genéticas aglutinando todo o pool gênico da espécie em um único recipiente, a linguagem propicia a fusão de comportamentos de indivíduos distintos e dos resultados desses comportamentos, destacando-se aí a nossa tecnologia. A linguagem estabelece uma espécie de pool cultural e tecnológico, análogo ao pool gênico.

http://kristinmullertranscription.com/emr-integration/

Sugestões de leitura:

Richard Dawins, O gene egoísta: http://www2.unifap.br/alexandresantiago/files/2014/05/Richard_Dawkins_O_Gene_Egoista.pdf

Daniel Dennett, A perigosa ideia de Darwin:

http://www.orelhadelivro.com.br/livros/427494/a-perigosa-ideia-de-darwin/

Richard Dawins, The extended phenotype:

https://web.natur.cuni.cz/filosof/markos/Publikace/Dawkins%20extended.pdf

(Absurdamente, esse livro importantíssimo nunca foi traduzido para o português!)

Gustavo Gollo, O jogo da ciência:

http://www.recantodasletras.com.br/e-livros/4288149

 

“Este artigo não expressa necessariamente uma opinião do MZ, mas de seu autor. O mérito está na contribuição para a discussão da linha de pensamento defendida pelo movimento.”

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