Biologia generalizada e linguagem (Parte 3)

Por Gustavo Gollo

Parte 3 de 4.  Acesse nos links as partes 1, 2; e o texto completo aqui.

Sobre a autonomia da linguagem

A linguagem causa coisas, assim como os vírus, embora ambos sejam inertes: as palavras causam pensamentos, a fala gera frases, discursos, a escrita produz ideias. Isso tudo é excessivamente natural, íntimo para todos nós, razão pela qual não conseguimos ver. O que impede que vejamos isso com naturalidade e clareza é a proximidade excessiva do evento. Consegui perceber isso a partir da escrita. De um modo bem real, a escrita segue seu caminho e nos guia na construção dos textos, como se tomasse a pena de nossas mãos e continuasse o trabalho. Ela nos guia, no mínimo, impondo regras gramaticais e lógicas, mas vai muito além. Creio que a sensação de “psicografia” seja absolutamente comum entre os escritores, a sensação de que seu eu esteja ausente durante a escrita, suas mãos governadas por algo que lhe dita os textos. Podemos perceber tal fato durante a escrita devido ao relativo “distanciamento” dessa ação. Sua congênere mais íntima nossa, a fala, é tão próxima, tão entranhada em nós, que temos dificuldade em perceber o que é “ela” e o que é “eu”. Talvez, por isso mesmo, todos os nossos pensamentos verbais, assim como todos os nossos pronunciamentos, sejam manifestações dela, da linguagem, e não propriamente do nosso eu. Tal constatação consistiria na admissão de uma infestação zumbi primeva geradora da humanidade. Seríamos o fruto de um malware.

O surgimento da lógica

É fácil imaginar uma linguagem pré-lógica, basta que se retire de uma linguagem usual as expressões usadas em raciocínios do tipo “se, então”. De fato, palavras como “então” que têm um papel significativo em uma vasta parcela dos raciocínios, não devem ter sido criadas inicialmente, na primeira leva de palavras construídas. A sugestão é especulativa, mas parece natural a criação inicial de substantivos, seguida de adjetivos, compondo uma linguagem eminentemente descritiva, adequada para a comunicação de cenas análogas a quadros estáticos. Em seguida, os verbos enriqueceram as descrições, enquanto os conectivos teriam surgido no final do processo, ajustando a linguagem gramaticalmente, dando-lhe mais precisão.

As regras lógicas possuem uma forte similaridade com as regras gramaticais, quase podendo ser compreendidas como uma extensão, ou aprimoramento, dessas. O uso correto da expressão “se, então” gera sentenças logicamente válidas. Trata-se da noção de consequência, e da invenção da racionalidade. A racionalidade é um fruto da linguagem, e não existiria sem ela. Não somos racionais por sermos inteligentes, somos racionais porque falamos.

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Abstrações e a criação do mundo 2

Termos relacionais como “filho”, ou “maior”, constituem criações linguísticas extraordinárias, e iniciaram a expansão do mundo 2, o mundo simbólico; note: podemos ver árvores, peixes, e podemos ver dois irmãos, mas não podemos ver a irmandade; precisamos da linguagem para construir coisas como essas: abstrações. Todas as abstrações são frutos exclusivos da linguagem, criações humanas surgidas em algum momento. A linguagem permitiu uma enorme expansão do mundo. Nossas conversas atuais tratam mais frequentemente de fenômenos abstratos, do mundo 2, que do mundo original, das coisas concretas.

Ao especular sobre a criação da linguagem por nossos antepassados, devemos ter em conta a repetição do processo de criação linguística efetuada por nós na infância, trata-se de nosso melhor guia para isso.

A validação coletiva de sentenças

Podemos imaginar o mundo antes da invenção de expressões equivalentes a “se, então”, da racionalidade, e da noção de consequência. Na ausência de um sistema lógico de inferências, ficamos restritos a um sistema de validação coletivo. Em um tal sistema, sentenças pronunciáveis (verdadeiras) são aquelas que têm sido pronunciadas anteriormente; a repetição valida a sentença. Aquilo que todos repetem é (verdadeiro). Outras sentenças são impronunciáveis; punem-se socialmente os que as pronunciam.

Esse sistema de validação tem, ainda hoje, uma enorme força, constituindo a base das campanhas publicitárias, a maior parte delas centradas na repetição até a náusea de algum mote. Crianças vivem quase exclusivamente em tal sistema, pedindo a validação do grupo para a comprovação de suas proposições, uma herança evolutiva de tempos passados.

Restrições de ordem psicológica tendem a reforçar tal sistema. Adolescentes mantêm da infância um forte receio da rejeição, e uma espécie de compulsão pela aceitação do grupo, pela busca de pertencimento a uma comunidade. Embora capazes de realizar profundas inferências lógicas, adolescentes contemporâneos, quando em grupo, tendem a preferir buscar a validação coletiva à validação lógica de qualquer conhecimento. Imagino que, atualmente, os buscadores da rede de computadores tenham interferido fortemente nesse tipo de procedimento. Durante minha pré-adolescência, no entanto, as contendas “intelectuais” eram resolvidas com base no apoio de outros participantes do grupo, especialmente das lideranças, cuja palavra, ou veredito, tendia fortemente a definir a querela. Nesse grupo, “discussões intelectuais” consistiam, de fato, em afirmações de poder. Note que uma parte considerável da população acredita que todas as discussões verbais consistam em fenômenos desse tipo, validáveis coletivamente, sendo inimaginável, em tais grupos, o apelo a qualquer tipo de externalidade lógica. Trata-se de um atavismo.

Essa constatação psicológica sugere, ou corrobora, a existência de um período recente no qual as validações eram todas obtidas por meio do consenso, quando as repetições verbais consagravam e reforçavam as crenças coletivas.

Validação e poder

Considere um grupo no qual toda a validação de conhecimento é feita através do consenso. Uma consequência marcante dessa prática será um sistema de poder baseado nesse modo de inferência, e que se confunde com ele. Nesse contexto, dominar, comandar o bando, corresponde a dominar suas crenças. (Atentemos para esse fato, ressaltará a característica revolucionária dos sistemas lógicos.). O resultado da dominação é a união consensual do grupo, o compartilhamento de crenças. Em um certo sentido, o grupo torna-se a unidade; o indivíduo se coletiviza, coagulando-se em uma entidade grupal conectada pela linguagem e pelo conjunto de crenças compartilhadas e repetidas por eles. Nesse sentido o grupo torna-se um ser único, composto por partes desconexas (os indivíduos) conectadas pela linguagem, essa forma wireless de conectividade. Nesse contexto, pessoas constituintes do grupo comportam-se como órgãos de um ser grupal; a analogia é reveladora e quase literal.

Seres coletivos

A descrição de um bando de humanos ancestrais como um único ser composto por partes desconexas conectadas através da linguagem pode ser bastante esclarecedora, constituindo, penso, um ponto de vista defensável complementar à visão usual de pessoas como indivíduos.

De imediato, essa descrição propicia uma explicação para o grande paradoxo da existência da espécie humana, essa criatura, individualmente, lenta e fragilíssima. Os textos tradicionais justificam a sobrevivência de criaturas tão bisonhas com base em sua “inteligência superior” que, pretensamente, contrabalançaria, com vantagem, suas debilidades físicas gritantes. Penso que individualmente sejamos criaturas fragilíssimas, incapazes de competir pela sobrevivência com outros macacos, ou qualquer outra criatura selvagem. Somos absurdamente lentos, tanto quanto seres de 10 cm. Nossa fraqueza muscular também é gritante, estaríamos em apuros lutando contra quase qualquer animal com a metade de nosso peso. Acresce que não nascemos dotados de armas; nossas “garras” são fragilíssimas, precisamos usar armas artificiais. E apesar de debilidades tão flagrantes, nos impomos, provando que elas foram superadas. Creio que tal fato decorreu de nossa coletivização, de nossa recomposição em “indivíduos grupais” fisicamente desconexos, mas unificados, wireless, pela comunicação linguística. Embora cada indivíduo humano fosse mais frágil que criaturas com metade de seu peso, agiam em bando, transformando-se em criaturas coletivas com um poder inusitado. Foi o bando humano que se impôs, penso, a criatura coletivizada, não nossa fragilíssima individualidade. Penso ser bastante duvidosa a hipótese de uma “inteligência superior” capaz de garantir nossa sobrevivência.

Por muitos milênios a humanidade foi constituída por seres coletivos, grupais, cujos indivíduos agiam coletivamente, conectados pela linguagem, compartilhando crenças e vontades comuns. Assemelhávamo-nos, assim, a colmeias. Esse passado evolutivo está, certamente gravado em nós ainda hoje, herdamos desses antepassados inúmeras adaptações para a existência coletiva. A empatia é uma delas, a identificação com seres similares, a sensação de que, em alguma medida, o outro sou eu. Essa propensão deve ter surgido antes da linguagem, que a pressupõe, mas deve ter sido alimentada e exacerbada nessa fase de existência coletiva da humanidade.

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O retorno da individualidade, a cisão

O surgimento da lógica, de uma racionalidade absoluta, independente do consenso, gerou uma fortíssima cisão nesse sistema, restituindo, potencialmente, a condição de individualidade a cada um dos seres, libertando-os da condição de órgãos, ou partes do ser coletivo, transformando-os, novamente em indivíduos independentes.

Essa magia, ou talvez, antídoto, decorreu da invenção da palavra “então”, talvez a palavra mais poderosa de toda a linguagem, uma palavra mágica, sem dúvida, como mostrarei.

Elimine a palavra “então” de uma língua, juntamente com todos os seus sinônimos, como “portanto”, e teremos extirpado da língua, desse modo, suas ferramentas de inferência racional, de maneira que, sem elas, será impossível inferir qualquer tipo de consequência, impossibilitando conclusões racionais. Uma linguagem como essa permitirá, apenas, o uso de um sistema de validação coletivo. Impossibilitados de conferir a validade lógica das sentenças, os falantes de tal língua se verão compelidos a retornar ao sistema de validação coletiva, fundamentado no poder. Consistirão, então, em indivíduos coletivos, perdendo a individualidade, tornando-se impossível pensar de maneira diferente do grupo.

“Tal coisa é assim”, repetirão os poderosos, e nesse contexto, a coisa será assim, havendo uma impossibilidade de contestação racional da imposição. Será necessário o uso da palavra “então”, ou de um de seus congêneres, para contestar uma afirmação imposta pelo poder, sustentando, assim, a própria individualidade. Não existe outro instrumento para a contestação do poder, será a argumentação racional, ou a força (o poder).

Assim, a incorporação da linguagem por uma espécie biológica aglutina seus indivíduos transformando-os em seres coletivos sem existência individual. A diluição da “individualidade coletiva” exige a criação prévia da ideia de consequência, da racionalidade, o instrumento de manutenção da individualidade entre falantes, a ferramenta de blindagem contra o poder.

O surgimento da racionalidade

Reintroduzamos a palavra “então”, e consideremos a seguinte inferência: se A é maior que B, e B é maior que C, então, A é maior que C. Uma instância de tal inferência seria a seguinte: “se a caixa Amarela é maior que a caixa Branca, e se a caixa Branca é maior que a caixa Cinzenta, então a caixa Amarela é maior que a caixa Cinzenta”.

Nesse caso, a argumentação se sustenta a si mesma e se impõe independentemente do grupo, e de qualquer autoridade ou poder. (Em condições extremas, sob tortura, podemos ser compelidos a abdicar de inferências análogas, mas a imposição se dissolve ao cessar a ameaça). De posse da palavra “então”, essa poderosíssima ferramenta lógica, o indivíduo pôde se contrapor ao poder, cindindo a unidade coletiva, estilhaçando o ser coletivo e recuperando a existência individual autônoma.

Desse modo, o surgimento da lógica constituiu um paradoxo linguístico fortíssimo. A lógica é uma decorrência da linguagem, e não existiria sem ela; decorreu da invenção da palavra “então”, ou de qualquer outro congênere que a substituísse na composição de inferências racionais; assim sendo, consistiu em um fruto da linguagem, em uma consequência dela. Mas ao propiciar tal ferramenta, a linguagem permitiu o desmembramento dos indivíduos coagulados em grupos existentes então, transformados em partes, ou órgãos, de seres coletivos, pela própria linguagem. Tendo desmembrado a unidade dos seres grupais, a espécie retornou à condição anterior à linguagem, quando imperava a individualidade. Essa mágica extraordinária decorreu, simplesmente, da invenção da palavra “então”, o ponto de partida de toda a racionalidade, de todas as possibilidades existentes de validação de crenças independentes do poder.

Costumamos imaginar a nós mesmos “seres racionais”, e isso parece corresponder aos fatos, mas apenas em certa medida. Quando consideramos, por exemplo, estarmos imersos em um universo de alta tecnologia, a existência de racionalidade entre nós parece indubitável. Ao tentar avaliar que parcela de nossas vidas se baseia na racionalidade, no entanto, percebemos, creio, que o papel dessa característica é consideravelmente reduzido, ainda que suas decorrências sejam fortemente conspícuas. Penso que estejamos hoje, a humanidade, em um ponto intermediário, entre a existência individual baseada na racionalidade, e a grupal, sustentada pelo poder. Também acredito que a repetição ainda tenha uma força de convencimento sobre a maioria das pessoas muito mais intensa que o raciocínio. Ao mesmo tempo em que os indivíduos raciocinam e alcançam conclusões individuais, a massa que compõe o ser coletivo busca a repetição em uníssono dos mesmos rituais, ou clichês.

Não tínhamos perdido a individualidade por completo, mas também não a recuperamos integralmente, de modo que a humanidade tem oscilado de um extremo a outro nos últimos milênios.

O mundo 2

O domínio do sistema de validação das crenças tem uma importância fundamental, especialmente para o mundo 2 (abstrato), cuja própria existência depende, exclusivamente, de crenças. Enquanto o mundo 1 (concreto), o mundo material, das coisas, tem uma existência independente e anterior a nós, o mundo 2, o mundo simbólico, é uma decorrência da linguagem, e a pressupõe. A eliminação da linguagem extinguiria, de imediato, o mundo 2, todo o conjunto das abstrações. Nesse mundo, ser é ser pensado.

Embora estejamos vivendo fundamentalmente no mundo 2, preocupando-nos, em nossa vida cotidiana, mais com ele que com o mundo material, pautando os nossos afazeres por entidades abstratas, mais que pelas reais, a existência desse mundo depende apenas de crenças (pense que o dinheiro, os países e as instituições, em geral, pertencem ao mundo 2). Por essa razão, o sistema de validação de crenças é o sustentáculo de nosso mundo, e de todo o poder. A importância das crenças em nosso mundo é esmagadora.

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Bank_Transfer_Day_poster..jpg

Sugestões de leitura:

Richard Dawins, O gene egoísta: http://www2.unifap.br/alexandresantiago/files/2014/05/Richard_Dawkins_O_Gene_Egoista.pdf

Daniel Dennett, A perigosa ideia de Darwin:

http://www.orelhadelivro.com.br/livros/427494/a-perigosa-ideia-de-darwin/

Richard Dawins, The extended phenotype:

https://web.natur.cuni.cz/filosof/markos/Publikace/Dawkins%20extended.pdf

(Absurdamente, esse livro importantíssimo nunca foi traduzido para o português!)

Gustavo Gollo, O jogo da ciência:

http://www.recantodasletras.com.br/e-livros/4288149

“Este artigo não expressa necessariamente uma opinião do MZ, mas de seu autor. O mérito está na contribuição para a discussão da linha de pensamento defendida pelo movimento.”

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