Biologia generalizada e linguagem (Parte 4)

Por Gustavo Gollo

Parte 4 de 4.  Acesse nos links as partes 1, 2 e 3; e o texto completo aqui.

O poder

Existe um poder autônomo, que, embora seja fruto de nossas mentes, pode ser compreendido como uma forma autônoma, ainda que imaterial, que em vasta medida governa nosso mundo e nossas ações. Esse complexo amorfo se baseia em um sistema de validação por repetição, e deve sua existência a ele. Constitui-se como uma imensa rede, congregando e conectando todas as pessoas através da linguagem. Trata-se apenas de um software, mas governa amplamente nossas vidas, definindo nossas crenças, metas e todo o curso de nossa existência. Reforça-se constantemente através de repetições, definindo nossos hábitos, crenças e construindo assim o mundo 2, no qual passamos a viver, especialmente após termos inventado a divisão de trabalho e deixado as tarefas necessárias à sobrevivência, como a produção de alimentos para um pequeno contingente.

Mas, o que é o poder?, ou melhor, o que queremos dizer com a palavra poder? A pergunta propicia inúmeras respostas, muitas delas extremamente longas e complexas. Penso que diversas respostas, diversas explicações alternativas se complementarão na tentativa de formulação de uma resposta exaustiva à questão. Darei uma sugestão complementar, correspondente a um modo incomum de ver o mundo: o poder pode ser visto como sendo o parasita linguístico que se desenvolve em nossas mentes. Isso seria, basicamente, o seguinte: o germe linguístico original tem infectado toda a espécie humana, passando, usualmente, da mãe para seu bebê nos primeiros anos da infância. Esse parasita nos coliga, a todos, e nos governa. Constitui nossas mentes e nos compele a executar todas as ações que fazemos. Esse ser enraizado em todos nós, aprisiona-nos e controla-nos através de uma imensa rede.

Os parágrafos abaixo ilustrarão a gênese de disputas complexas, como resultado de contendas elementares disparadas por ações de extrema simplicidade.

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Lotz_Oxcart.jpg

Bois de canga

A canga é uma trave de madeira utilizada para atar parelhas de bois, com o intuito de atrelá-los aos carros-de-boi, usualmente puxados por um par de animais conectados um ao outro com esse apetrecho. Ao se conectar dois bois, um ao outro, ao atá-los por uma trave agrilhoada a seus pescoços, os animais lutam para se desvencilhar do incômodo; o resultado, no entanto, assemelha-se a uma luta pelo poder, para determinar qual dos dois governará os movimentos da dupla. Depois de uma intensa disputa inicial, quando cada um dos bois tenta impor sua vontade e assumir o controle da dupla, um deles acaba imperando, e determinando os movimentos da parelha. Quando isso acontece, a disputa cessa e ambos podem descansar e se dedicar a comer; o prolongamento da disputa impõe sacrifícios aos dois.

Estabelecida a hierarquia, os dois passam a agir como uma criatura única, de 8 patas e duas cabeças, cujos movimentos são determinados pelo boi dominante. “Erros” do subalterno em acompanhar o líder serão punidos com um safanão. As tentativas do subalterno de insubmissão, disparadas por safanões aplicados por ele, resultarão no recomeço da disputa pela liderança, e no prolongamento da luta acirrada pelo controle da dupla. Convém à dupla estabelecer uma sinalização determinada pelo boi dominante e acatada pelo outro, de maneira que, ao sinal do líder, ambos se deslocam da maneira proposta por ele, para a frente, ou para um dos lados… o estabelecimento de um código de sinalização entre ambos permite que o subalterno saiba para onde se deslocar, fazendo isso com precisão, de modo a minimizar desencontros dolorosos. Compreendendo a ordem do líder, o outro pode segui-lo evitando a ocorrência de desgastes decorrentes de safanões. A partir de então, a dupla se mantém sincronizada e coesa, mesmo que a trave seja retirada. Mesmo livre da canga, a dupla continuará se comportando como se estivesse ligada por ela, caminhando lado a lado, sincronicamente.

Pode-se fazer um paralelo entre essa disputa e outra, ocorrida anteriormente, em cada um dos seres, entre os dois hemisférios dos seus cérebros. Essa luta, ocorrida em todos nós um dia, pela determinação de nossos movimentos por essas duas entidades quase independentes (os hemisférios) foi, talvez, a contenda final, em cada um de nós, de uma longa sequência de lutas entre entidades ainda menores em conflito pela dominância. É possível que alguma entidade bem simples, um pequeno grupo de neurônios agrupados em rede, tenha “lutado” com outros pela dominância, resultando em uma criatura individual, una e coesa, dominada, fundamentalmente, por uma única entidade. A não obtenção de tal dominância determinaria um ser conflitante e múltiplo, um “indivíduo” desestruturado, com uma existência em mosaico. É provável que “lutas pela dominância” aconteçam com muita frequência, internamente, no desenvolvimento dos seres individuais.

Note que os hemisférios cerebrais disputam o controle pela determinação dos movimentos do indivíduo conectados por interações elétricas, do tipo que conecta os neurônios, enquanto que a conexão que determina a disputa entre os bois é, inicialmente, a trave de madeira, substituída posteriormente por algum sinal visual que continua a governar a interação entre os bois, mesmo na ausência da trave, o que mostra ser irrelevante o meio através do qual a conexão entre as partes é estabelecida. É provável que os hemisférios cerebrais tenham percebido o corpo do indivíduo do mesmo modo que os bois percebem a trave de madeira, em sua luta pela dominância dos movimentos do indivíduo.

Cangas sociais

O casamento e outras inúmeras instituições sociais podem ser vistos como cangas sociais. A exemplo dos bois quando atrelados a cangas, os casais recém-constituídos tendem a se empenhar em disputas pelo controle das deliberações conjuntas do casal. Conexões sonoras, visuais e tácteis serão utilizadas pelo casal, alternativamente à canga dos bois, substituindo esse apetrecho pelo controle verbal e outros.

Cangas sociais são utilizadas, por exemplo, para domesticar crianças, tendo a escola um papel preeminente nessa tarefa.

Trabalhadores também usam cangas sociais, passando a ter uma parte considerável de suas horas determinadas por mecanismos de controle de vários tipos.

Cangas sociais são estabelecidas utilizando-se ordens verbais em substituição à canga de madeira. Normas escritas também, entre outras, podem ter papéis determinantes no processo de controle dos indivíduos.

Enquanto a canga original, de madeira, palpável, corresponde a um hardware, as cangas sociais são estabelecidas através de softwares, sendo, no entanto, tão efetivas, umas, quanto outras.

Softwares

A palavra “software” tem sido muito utilizada mas pouco compreendida. Softwares não são coisas materiais, palpáveis, mas apenas redes de conexões. Qualquer conjunto de conexões entre coisas pode ser considerado um software.

Existem redes de conexões que se destroem e reconstroem seguidamente, dando a impressão de movimento, assim como sucessivos fotogramas estáticos compõem a ilusão do cinema. Formam, desse modo, redes dinâmicas.

Todo o nosso conhecimento é adquirido e armazenado dessa maneira, constituindo uma imensa combinação de estados dinâmicos, dados pelas conexões entre nossos neurônios. Tudo o que sabemos, tudo o que vivenciamos, e até nosso próprio eu corresponde a um conjunto de conexões, relações estabelecidas entre neurônios.

Usualmente um software é determinado por um mesmo tipo de conexão, quero dizer, conexões cerebrais, por exemplo, entre neurônios, são constituídas por sinais elétricos. Entre pessoas as conexões são determinadas pelas locuções verbais. Entre os bois de canga, pela canga.

Uma característica interessante e surpreendente dos softwares é a absoluta irrelevância do modo de conexão que o define. Assim, apenas por conveniências tecnológicas os computadores atuais usam circuitos conectados por fios pelos quais fluem correntes elétricas. Não há nada que os obrigue a funcionar dessa exata maneira. Caso as mesmas conexões sejam efetuadas por um mecanismo mecânico, ou seja, caso o mesmo software seja implantado em um circuito mecânico análogo a um computador, desenvolverá a mesma dinâmica, chegando, exatamente, aos mesmos resultados. É apenas por conveniências industriais, pela velocidade conseguida entre as interações, por exemplo, que os computadores usam tecnologia eletrônica.

Temos usado, nos últimos anos, conexões sem fio entre circuitos. Para o resultado da execução do software, terá sido irrelevante que as conexões tenham sido estabelecidas através de fios, ou sem eles. Do mesmo modo, também não terá tido importância para o resultado do processo que as conexões que determinam o software tenham sido sonoras, por meio de voz, ou tácteis, através de uma trave ou chicote.

https://www.flickr.com/photos/turatti/29104967731

Surgimento e evolução de redes: softwares e evolução

O estudo da evolução corresponde ao pressuposto de uma simplicidade original gerando toda a diversidade e complexidade atual. A tentativa de compreensão da evolução da vida sugere a postulação de uma complexidade crescente advinda de um momento inicial despojado de formas complexas originárias.

Consonante a tais pressupostos, podemos imaginar células solitárias percorrendo os mares livremente, em busca de alimento, crescendo, para se dividir em seguida, duplicando-se desse modo.

Também podemos supor alguma espécie de falha em tal processo, impossibilitando a desconexão final entre as duas células resultantes da duplicação. Teriam surgido assim seres duplicados compostos por duas células independentes, como gêmeos siameses. A repetição do mesmo erro resultaria em colônias de seres independentes, mas atrelados uns aos outros.

Tal conexão entre as células teria sido deletéria para ambos, impossibilitando o desmembramento e acirrando a competição entre os irmãos, incapazes de se separar um do outro. Considere formas livre-natantes, deslocando-se pelas águas em busca de alimentos. A existência de 2 ou mais comandos independentes determinando o movimento do grupo gera antagonismos que só dificultam a vida de todos eles. Enquanto um comando impele o grupo para um lado, o outro se opõe, tentando impor outra direção. O resultado é um movimento dissonante, ineficiente, gerado por criaturas independentes em busca de metas independentes.

Tais criaturas devem ter tido graves problemas decorrentes do acoplamento, consistindo em linhagens frágeis e logo extintas. A repetição do evento deve ter ocorrido muitas vezes, até que uma outra ocorrência, um outro equívoco ocorrido durante a duplicação dos seres acrescentou à dupla um sistema de acoplamento do movimento. Bastaria para isso que o sistema de detecção utilizado pelos indivíduos para a determinação do movimento passasse a incluir a detecção da determinação do parceiro/antagonista. Levando em conta essa determinação, uma disputa entre ambos deveria conduzir à definição de comando da dupla. Uma vez adquirida essa definição, ambos os indivíduos passariam a unir esforços em direção o aos mesmos propósitos, passando a “remar em conjunto”, não mais um para cada lado. Podemos imaginar a vantagem imediata de tal aquisição. Remando em uníssono, a dupla teria adquirido uma mobilidade sem precedentes, ganhando velocidade e eficiência.

Tal processo teria levado à formação do primeiro verdadeiro indivíduo multicelular, um ser coeso, guiado por uma única meta. A competição entre as células se repetiria durante a definição de comando de todos os seres múltiplos, repetindo-se, posteriormente, novamente frequentes vezes, durante o processo de aquisição de complexidade resultante na formação de seres multicelulares complexos, constituídos pela infinidade de células que compõem os seres atuais.

Agora, atentemos, tal processo não corresponde a uma coisa material; processos são conexões de eventos, redes de acontecimentos. Correspondem a softwares; bastante simples, mas sem dúvida softwares, processos imateriais, formas de interações entre seres, sistemas de conexão em rede. Teria surgido assim a primeira rede entre seres distintos. (Nada de novo sob o sol, se pensarmos que podemos descrever inúmeros processos celulares internos como redes, convém acrescentar).

De volta aos vários ângulos

Retornemos agora ao modo de ver o mundo sob múltiplos ângulos. O software insipiente aventado acima pode ser visto como um modo de interação entre dois 2 seres. Alternativamente, pode ser descrito, também, como uma entidade autônoma, como uma espécie de parasita imaterial se imiscuindo entre os seres e governando suas vontades, à maneira do fenótipo estendido. Tal descrição pode ser encarada, apenas, como um modo auxiliar para o esclarecimento de outros processos, pouco importando que se lhe dê credibilidade maior que a instrumental, considerando-a apenas uma ferramenta útil, como uma metáfora. Insisto, no entanto, que a consideração do software como criatura independente pode ser extremamente útil, e elucidar inúmeros fenômenos.

Evolução

Esse tipo de competição se processa internamente, ainda hoje, repetindo a saga original de nosso primeiro antepassado multicelular. Referi-me anteriormente, ao tratar dos bois e dos hemisférios cerebrais, à competição encerrada por essa última contenda, entre as duas partes do cérebro. É provável que as redes de neurônios que compõem nossos cérebros sejam o resultado de “jogos” desse tipo, de competições realizadas por criaturinhas extremamente simples, por minúsculas redes de conexões originais, cujo intuito seja se conectar mais e mais, transformando-se assim em imensas redes complexas, a maior das quais já abarca todo o nosso planeta. Perceba que foi essa conexão original geradora do primeiro ser multicelular que acabou resultando em todos os desenvolvimentos posteriores, nas redes de conhecimentos que habitam nossos cérebros e que agora se derramam e se espraiam pelos computadores, conectando-nos, todos nós pessoas e máquinas, em um único ser descomunal.

http://orig05.deviantart.net/6811/f/2008/017/2/1/mechanica_by_joelfaber.jpgA linguagem, epílogo

O ponto de vista alternativo proposto nas páginas anteriores, conecta uma série de fenômenos tratados usualmente de maneira desconexa. Propõe uma interpretação da linguagem como entidade autônoma, como um ser imaterial vivendo em nossos corpos, constituindo nossos eus, e controlando nossos corpos dessa maneira, como uma espécie de zumbi. Também propõe a analogia entre a linguagem e os sistemas operacionais. A multiplicidade de ângulos defendida acima, permite ver a linguagem como um ser independente vivendo em nossos corpos, e também como um ambiente, um sistema operacional no qual desenrola-se todo o mundo 2, o mundo de nossas criações mentais, nossas abstrações; nossas instituições, crenças, sonhos e conexões em geral, essas coisas sem existência material, que mesmo assim governam nossas atenções e mentes.

A descrição proposta sugere também o início do processo de transbordamento da linguagem, de nossos cérebros para as criaturas eletrônicas que agora construímos em profusão, e que logo adquirirão autonomia completa. Também descreve a formação da imensa rede envolvendo todo o planeta, de um ser único tendente a nos englobar a todos, a envolver nossas mentes e capturar cada um de nós, transformando-nos em partes da criatura imensa, como neurônios de um cérebro descomunal.

A aventura da vida tem se acelerado imensamente e, nesse instante, adentramos o olho de um imenso turbilhão prestes a nos engolir a todos. O momento é de enorme apreensão, inúmeros caminhos se nos apresentam, muitos deles com feições de pesadelos horrendos.

Sugiro, apesar disso, encaramos a grande aventura como uma criança em um parque de diversões. Gritemos desesperados, cortejemos o pânico e alucinemos em meio à barafunda desconexa na qual nos metemos, e o façamos confiantes e alegres, como loucos adentrando o cenário lisérgico a se descortinar ante toda a humanidade. Que o absurdo ganhe os contornos mais alegres que consigamos dar, e que a aventura seja loucamente feliz.

Iuuuuuuurrúuuuuulll!

                                                                Rio, 30 de setembro de 2016

                                                                                               Gustavo Gollo

Sugestões de leitura:

Richard Dawins, O gene egoísta: http://www2.unifap.br/alexandresantiago/files/2014/05/Richard_Dawkins_O_Gene_Egoista.pdf

Daniel Dennett, A perigosa ideia de Darwin:

http://www.orelhadelivro.com.br/livros/427494/a-perigosa-ideia-de-darwin/

Richard Dawins, The extended phenotype:

https://web.natur.cuni.cz/filosof/markos/Publikace/Dawkins%20extended.pdf

(Absurdamente, esse livro importantíssimo nunca foi traduzido para o português!)

Gustavo Gollo, O jogo da ciência:

http://www.recantodasletras.com.br/e-livros/4288149

“Este artigo não expressa necessariamente uma opinião do MZ, mas de seu autor. O mérito está na contribuição para a discussão da linha de pensamento defendida pelo movimento.”

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