Como a ciência deveria lidar com a influência do poder econômico?

Por Francisco Pereira Lobo

Publicado originalmente no Palpitômica

A ciência está quebrada? (Clique na imagem para acessar a fonte da mesma)

A ciência está quebrada?
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Editoras/associações científicas consagradas, como Springer e IEEE, colocaram sua credibilidade em xeque ao publicar artigos científicos gerados aleatoriamente por programas de computador.

Pior: muitos dos artigos são gerados com o mesmo programa, mostrando um tipo de contrafação que seria facilmente identificado por uma revisão minimamente séria, seja feita por seres humanos, seja com ajuda de computadores treinados para detectar fraudes em textos.

Um exemplo extremo: um artigo que contém somente as palavras “get me off your f*ing mail list” foi aceito para publicação em uma revista dita científica (esse fato foi devidamente tratado pelo Palpitômica neste link).

Enquanto isso, um número inaceitavelmente elevado de artigos científicos contém resultados simplesmente falsos ou não reprodutíveis.

Esse fenômeno é causado por uma gama de fatores como falhas em desenho experimental, pressa para se publicar resultados científicos impactantes de maneira a se garantir a autoria da descoberta, o que muitas vezes dificulta a devida confirmação independente dos resultados por parte de outro grupo, má-fé e falta de massa crítica em determinada área de modo a permitir uma revisão pelos pares científicos, para citar apenas alguns exemplos.

Nessa conta entram também os recentes escândalos da autocitação, em que os autores referenciam seus próprios artigos para inflar artificialmente sua relevância como cientistas, a qual é medida muitas vezes levando-se em consideração o número de citações recebidas por trabalhos publicados.

(O Palpitômica já tratou da importância e dos viéses da citação científica de trabalhos publicados como bom indicador de relevância científica aqui e aqui).

E por que isso está acontecendo?

Porque a ciência não existe sem o mundo dos homens, e nós a estamos tratando como um mercado como qualquer outro.

Para as editoras, entra uma grana considerável relativa a cada artigo científico publicado e acessado, a depender do modelo de negócios de cada uma delas.

Isso, invariavelmente, gera pressão no sentido de provocar a queda da qualidade do filtro crítico das publicações, ao longo do tempo, a fim de se manter aberta a torneira da grana.

(Lembrando: artigos científicos sérios são revisados pelos pares antes de serem publicados, e os filtros para sua divulgação deveriam ser criteriosamente elevados de modo a se garantir a qualidade do que está sendo divulgado, já que essa informação pode, literalmente, salvar vidas ou contribuir para a morte de muitas pessoas).

Do lado dos autores, diversos aspectos relevantes da carreira de cientista (progressão salarial, fama, financiamentos etc.) variam, clara e diretamente, em função de sua produtividade, usualmente – e grosseiramente – medida tanto pelo número quanto pelas citações de artigos publicados (trata-se do famoso fator H, tratado pelo Palpitômica aqui).

Jovens cientistas, lutando para se estabelecer no campo extremamente competitivo da ciência, muitas vezes também adotam a saída fácil de publicar artigos em revistas predatory open access.

Na queda-de-braço entre o poder econômico e qualquer outra atividade humana, precisa falar quem ganha a disputa?

***

Felizmente, a ciência não vive de dogmas e não é uma atividade humana qualquer.

Sua própria natureza autocorretiva já está propondo e avaliando algumas soluções interessantes para minimizar os problemas acima enumerados, numa abordagem bastante distinta de outros campos do conhecimento que relutam, ainda hoje, em abandonar certos dogmas frente às evidências cristalinas do contrário.

Uma das soluções interessantes propostas pelos cientistas é o movimento movimento slow science, que prega justamente a redução do ritmo do fazer científico para permitir a reflexão sobre o que se faz e onde se quer chegar.

Embora estejamos limitados por diversos fatores – que vão desde o tempo de financiamento de um projeto até a duração da própria vida ativa de um pesquisador – ainda assim, progredimos e conseguimos realizar experimentos que já ultrapassam os 400 anos de existência, sendo mantidos por gerações e gerações de cientistas até os dias de hoje.

Outra iniciativa interessante é o movimento da reprodutibilidade, o qual visa a recompensar estudos que sejam reproduzidos por diferentes grupos de pesquisa.

Nesse caso, os estudos de um grupo cujos resultados forem replicados por outros agrupamentos ganharão um selo especial – “independently validated” – o qual indicará que as conclusões obtidas por aquela pesquisa são mais confiáveis que as publicadas por um único grupo e que, portanto, não tiveram reprodução independente.

A ciência sabe cortar na própria carne como ninguém para melhorar seus próprios métodos: estudos recentes de reprodutibilidade em psicologia, por exemplo, detectaram que somente 39 estudos em um universo de 100 puderam ser confirmados por outro grupo de pesquisa.

Resultados assim promovem um duplo benefício: promovem o expurgo da ciência mal-feita e dão credibilidade a quem faz um trabalho de qualidade, ainda que possivelmente mais demorado e/ou criterioso.

***

A ciência não é uma corrida de 100 metros, mas uma maratona sem linha clara de chegada, contendo caminhos em labirinto, em geral nunca dantes percorridos, com os competidores tropeçando em obstáculos desconhecidos lá na fronteira do conhecimento (quase sempre engloba também um aluno de doutorado no seu pé precisando do resultado pra defender sua tese).

Ciência bem feita não pode ser realizada em escala industrial nem mensurada apenas pela quantidade de artigos publicados.

Ciência bem feita é aquela que permite, por exemplo, descobrir a cura (ou não) de uma doença.

Ciência bem feita é a que busca a produção de alimentos para uma população humana de mais de sete bilhões, gerando ferramentas para se lidar com a fome em escala mundial.

Essa ciência nos permite “gastar tempo” para descobrirmos que somos feitos de estrelas e temos nosso destino ligado ao do universo de maneira indissociável, dando-nos a consciência do numinoso que só mesmo ela pode nos proporcionar.

Fazer ciência requer tempo, inclusive – arrisco-me a dizer principalmente – para revisar o trabalho dos outros e para aguardar que os outros revisem o seu.

Embora, atualmente, sofra um ataque inédito em diversos níveis, o que afeta sua credibilidade como nunca, a boa ciência resiste, em grande parte, porque seu próprio mecanismo autocorretivo detecta os problemas apontados e exige um aprimoramento imediato de seus métodos de reconhecimento.

Por isso, ela (sobre)vive.

“Este artigo não expressa necessariamente uma opinião do MZ, mas de seu autor.

O mérito está na contribuição para a discussão da linha de pensamento defendida pelo movimento.”

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4 Responses

  1. Alexandre disse:

    Olá, eu sou Alexandre, estudante de Comércio Exterior na Fatec, e sempre vejo os posts do grupo, vi também os vídeos de Peter Joseph.
    Parabéns pelo trabalho, hoje, cada vez que escuto algo na TV ou no próprio curso eu me questiono, se faço isso é graças a Blog Zeitgeist.
    Abraços

    • Time MZBlog disse:

      Oi Alexandre!

      Sempre ficamos muito felizes ao receber mensagens como a sua! Isso nos dá muita satisfação e mais vontade de continuar o trabalho. Agradecemos!!!

      Abraços

      • O meu curso mesmo sendo na área econômica, e devo confessar que gosto do que estudo, apesar de não trabalhar ainda, eu penso que a Economia atual poderia usar a tecnologia para fazer o bem. As vezes penso, pra que alguém trabalhar 8 ou mais horas por dia sendo que com a tecnologia do modo que esta nós poderiamos reduzir para 4, assim todos teriam empregos e tempo pro lazer, pra arte, cultura e o tempo necessário pra fazer nada.
        Mas quando vejo que tudo se baseia em apenas lucro, dinheiro e que as necessidades humanas no nosso atual sistema são deixadas de lado, nesse momento que vem a minha mente a tristeza por perceber que o atual e tão forte sistema se tornou obsoleto e atrasado.
        O trabalho atual se mostra como forma pra nos prender, igual dizia no artigo anterior de Russell.

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