Como atingi 1000 pessoas na minha cidade?

Por Gabriel Bizzotto

Atingir o máximo de pessoas possível, com informações as mais relevantes e profundas possível (apontando para as verdadeiras raizes dos problemas), assim provocando mudanças de pensamento e de valores em amigos, familiares, conhecidos e desconhecidos, é no momento o objetivo do Movimento Zeitgeist[1]. Só assim esperamos provocar a transição.

Mas também é a tarefa mais difícil de todas. A maioria das pessoas não se convence na base da conversa nem com dados relevantes[2], até porque nem todos nós sabemos vender as ideias. Os documentários que temos à nossa disposição (Addendum, Moving Forward, Cultura em declínio, mas também The Choice is Ours, Future by Design, A Última Hora e os milhares de outros documentários e curtas relacionados) são ferramentas excelentes, mas levar as pessoas a assisti-los é no mínimo difícil.

 Compartilho aqui minha estratégia para atingir mais pessoas.

Ação direta

Sou fã da ação direta: sair fazendo coisas sem esperar por ninguém, nem por condições melhores, nem mesmo autorizações oficiais. A ação direta tem visibilidade imediata: a limpeza de uma praça, um sopão, uma árvore plantada, etc. Se for para o benefício da comunidade ou algo em prol da sustentabilidade (que está na moda) ou de caráter social, melhor ainda, ganha moral. Se for algo comunitário que tende a agregar pessoas, melhor ainda, agrega força. Se for de graça e voluntário, melhor ainda, impõe respeito.

Mas a grande vantagem da ação direta é que gera questionamento. As pessoas perguntam porque. A mídia pergunta porque. Só então podemos falar com alguém que não está apenas ouvindo e esperando sua vez de falar, mas escutando mesmo, e que volta com argumentos.

A ação direta tem diversos outros efeitos. Junta as pessoas em volta de uma causa, assim fortalecendo as relações entre vizinhos e criando amizades. Os participantes se apropriam das ideias e ideais, tornam seus os conceitos ali trabalhados. A assimilação e o entendimento da linha de raciocínio (train of thought) é muito maior quando a pessoa tem um projeto no qual pensar várias vezes durante a semana, e cujas motivações precisa explicar  para os novatos.

Após assistir Moving Forward, criei alguns projetos na tentativa de conscientizar meus amigos, familiares e o mundo todo. Mandei fazer e distribui caixinhas de coleta de pilhas e baterias[3]. Foi bem aceito mas não agregou novas pessoas e não gerou o questionamento esperado. Criei um site onde as pessoas podem descobrir e marcar o que fazem para ajudar o mundo, ganhando pontos para cada item marcado[4] (“Uso software livre”, “Moro num earthship”…), criei um site permitindo a criação e o uso de moedas alternativas[5]. Comecei um esquema de vermicompostagem no meu prédio e plantei comida na frente do condomínio. Nada disso gerou buzz… Até arrancaram meu milho! Mas estava desesperado, então continuei.

A horta comunitária

Criei o grupo “Hortas de Águas Claras”[6] no Facebook, divulguei sua existência no “Horta Comunitária – Brasília” e chamei para um mutirão em maio de 2014. 3 pessoas apareceram (essas nunca mais voltaram, inclusive), mas outras 4 vieram no mutirão da semana seguinte porque viram a gente capinando na rua, e assim durante 5 ou 6 semanas/mutirões. Até que marcamos o primeiro “café da manhã na horta”, 2 meses depois do primeiro mutirão. O grupo se consolidou alí, com umas 50 pessoas participando, trazendo comida e bebida, mesas e cadeiras.

O grupo continuou crescendo, com pessoas mais comprometidas, e cada vez mais pessoas parando na calçada para falar conosco e perguntar “o que é isso?”, a resposta certa sendo “estamos mudando o mundo”.

A mídia veio depois. Reportou tudo errado, cortando todas as vezes minha fala sobre o Movimento Zeitgeist e transformando a experiência de organização comunitária e voluntária da horta em episódio dos Teletubbies. Mas isso teve um lado positivo: tive como apontar para o desserviço que faz a mídia na divulgação de informações corretas e completas. Espero assim que a galera do grupo tenha procurado mídias alternativas.

Poucos meses depois, criei um evento mensal paralelo, o “Trama filosófica por trás das hortas comunitárias”[7]. Nesse meio tempo, fiz contato e amizade com o pessoal das hortas de outros bairros. Chamei todos para esses eventos, nos quais mostrei documentários como Man de Steve Cutts[8], A História das Coisas[9] e Zeitgeist: Moving Forward[10] (aos poucos porque é muito longo). Seguiram horas de discussão que pareceram improdutivas mas que permitiram que os conceitos fossem  processados.

Em paralelo, continuei desenvolvendo os conceitos de democracia direta e completa (sem tomadores de decisão), até frustrando alguns ao sair dos grupos de conversa criados em paralelo do grupo por quem queria cortar o processo democrático. Criei transparência financeira em relação às doações[11] e submeti à votação todas as compras.

 Graças a isso, fui chamado para dar palestras avulsas em turmas de arquitetura de duas amigas membros da horta, professoras de arquitetura na Universidade Católica de Brasília. Fiz uma intervenção em duas turmas da matéria “sustentabilidade” onde apontei para o ciclo vicioso da economia de mercado (ilustração da minha autoria abaixo), e para o fato de que a falta de sustentabilidade não é algo que se resolve isoladamente.

GB

O ciclo vicioso da nossa sociedade, as consequências se tornando causa

Também fiz uma intervenção na aula de “ciências do ambiente” na qual apontei o papel do ambiente cultural na formação dos valores (essa foi fácil, bastou apresentar o primeiro capítulo de Moving Forward para gerar altos questionamentos até chegar no fundo da questão).

Hoje o grupo Hortas de Águas Claras tem mais de 1000 membros. Convido vocês a ler a publicação comemorativa aqui, que resume e lembra a todos meus objetivos e ideais.

Conclusão

A moral da história é que o público se apega muito mais às ações que às ideias. É fácil criticar uma ideia, mas quando a pessoa vai para a ação com base nessas ideias, tudo fica autoexplicativo e a ideia inicial ganha força. Basta pensar nos serviços voluntários dos espíritas. Mesmo sendo ateu fica difícil criticar uma religião quando se aponta para tais ações positivas. Além disso, a imersão dos membros permite um entendimento muito melhor dos ideais do que uma simples conversa.

Por isso, defendo a ação direta, porque tenho a impressão de que divulgar no site ou na página FB do MZ, com muito respeito ao imenso e excelente trabalho de todos, é pregar o convertido. Sair disso permite atingir pessoas que nunca teriam tido contato com as informações que o Train of Thought carregam.

Horta


[1] Para que serve o Movimento Zeitgeist?, Michael Marques no MZBlog, 2014

 

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