Comunidades autossustentáveis

Tentar reformar as estruturas disfuncionais das atuais cidades e seus sistemas socioeconômicos caóticos, rumando num caminho socialmente e ecologicamente sustentável, tem se demonstrado muito difícil, sendo provavelmente impossível se o objetivo final forem núcleos populacionais totalmente funcionais e em equilíbrio dinâmico com a natureza. As possibilidades de mudanças reais são muito reduzidas, sendo muito limitadas principalmente pelas atuais estruturas econômicas e políticas engessadas, baseadas em valores que não se adaptam à realidade natural e que tendem a ser reforçados culturalmente. Entre as poucas alternativas que nos restam para tentarmos uma efetiva mudança prática de paradigma em tempo hábil, construirmos cidades totalmente do zero, com um design estrutural projetado para serem centros sociais dinâmicos e sustentáveis, se mostra a possibilidade mais promissora. É evidente que, enquanto o atual sistema social e econômico permanecer hegemônico, uma independência completa é impossível, mas podemos fazer muito a respeito do objetivo de um dia tornar tais sistemas populacionais comunitários a regra no mundo.

Ecovilas são pólos de aprendizagem de permacultura e técnicas sustentáveis diversas, além de serem muito úteis como demonstração prática da aplicação correta de conceitos ambientais e representarem um estilo de vida com mais liberdade aos seus moradores. Porém, tentativas isolacionistas e de rejeição do uso de tecnologias sofisticadas, como é o caso da grande maioria das ecovilas tradicionais, não são a solução se quisermos mudar de fato a realidade de nosso sistema social atual, que aparentemente ruma ao esgotamento. Isolar-se em ecovilas convencionais ou condomínios ecológicos, não irá nos tornar imunes aos reflexos do desastroso mundo em que vivemos, com seus valores sociais dominantes insustentáveis. Mesmo isolados no meio do mato, uma hora ou outra seremos atingidos pela realidade. E a realidade é que não há como fugir, tendo em vista que estamos todos interligados dentro de um sistema único. Podemos no máximo nos esconder por algum tempo, até que tudo inevitavelmente acabe por ruir. Além disto, o uso de tecnologias modernas é essencial para garantir não só um alto padrão de vida, mas também a utilização mais eficiente e sustentável dos recursos.

Existe outro tipo de comunidade, mais promissora como impulsionadora de uma revolução social: comunidades autossustentáveis projetadas para serem expansíveis e replicáveis (não isolacionistas), baseadas em tecnologias open source, economia colaborativa e sistemas de decisão horizontais. Se qecopolouisermos plantar sementes que venham a gerar grandes mudanças sociais num futuro não muito distante, um dos principais caminhos a seguirmos será o de criarmos tais plataformas de convivência, de forma a produzirem qualidade de vida e liberdade em níveis que as tornem atraentes para a massa populacional que estiver fora, sendo convencidos ao verem na prática os novos valores e, por meio da vivência nestes ambientes, internalizarem esta nova forma de pensar em suas consciências e os refletirem em seus cotidianos de vida. O objetivo final é que a evolução destas comunidades torne-se exponencial, formando uma rede global de cidades autônomas interligadas, de forma a esvaziar gradualmente o atual modelo civilizacional, substituindo-o por outro mais sustentável, baseado na administração eficiente dos recursos e não na busca por lucro ou renda. O brilhante visionário e inventor Buckminster Fuller, que nos serve como uma formidável inspiração, enfatizava esta abordagem, afirmando que “nunca mudamos as coisas lutando contra a realidade existente. Para mudar alguma coisa, construa um novo modelo que faça com que o modelo atual se torne obsoleto”.

Tecnologias open source

A tecnologia open source (de código aberto), ou seja, feita colaborativamente e com suas informações de construção totalmente disponíveis para o público em geral, para serem replicadas e melhoradas, é um dos principais pilares destas comunidades autossustentáveis, tendo em vista a sua capacidade de nos tornar independentes de patentes e de máquinas caras, poluentes e frágeis (obsolescência programada e intrínseca ao mercado), bem como a enorme importância da tecnologia na construção e manutenção de sistemas vitais eficientes e sustentáveis, como os de geração de energia, de comida, de transporte, de reciclagem, de compartilhamento etc. O uso intensivo da tecnologia, por meio de seu crescimento exponencial, tem a tendência natural de nos levar a fazer cada vez mais com cada vez menos (fenômeno conhecido como Efemerização), o que a torna indispensável para obtermos abundância para uma sociedade cada vez mais numerosa, sem produzir grandes impactos ambientais e sociais negativos.

Quando unidos em colaboração e focados, podemos alcançar coisas que normalmente são impensáveis (muito devido a sermos induzidos a aceitar que somos irreversivelmente dependentes das corporações), até mesmo construir, de maneira independente, tecnologias industriais sofisticadas e sustentáveis, como maquinários e diversos produtos manufaturados altamente complexos e duráveis. Um exemplo disto é a iniciativa Open Source Ecology, que, por meio de ferramentas colaborativas de projeto e fabricação, promovem a construção de tecnologias open source (Global Village Construction Set), capazes de produzir enorme comodidade e qualidade de vida de forma sustentável, como carros e braços robóticos.

Sistema de decisão horizontal

A necessidade de liberdade para nos expressarmos e participarmos ativamente das decisões que abrangem o coletivo, nos leva a desprezar a democracia representativa e a abraçar a democracia direta. Um sistema elitista de tomada de decisões, como a atual democracia partidária, demonstra-se a pior alternativa por se pautar em alcançar objetivos particulares de certos grupos, em detrimento do bem coletivo.

Economia colaborativa e sustentável

O sistema econômico é o fator principal no que se refere à construção de uma nova forma de agir e de se relacionar em sociedade. É por meio de sua modelagem, com base em conhecimentos sobre o comportamento e as necessidades humanas e na eficiência técnica, que poderemos construir um ambiente sustentável e de qualidade para todos. Até mesmo a existência de uma democracia real é extremamente dependente de um ambiente econômico favorável. Levando-se tais coisas em conta, a solução mais adequada é a adoção de uma economia colaborativa e sustentável, que vise a administração eficiente e a distribuição igualitária dos recursos e não o lucro por meio de competição e exploração do trabalho. Cooperativas, automação, sistemas de compartilhamento, que não visem o lucro como objetivo final, são mecanismos para sua efetivação.

Tentativas anteriores e atuais

Algumas tentativas de comunidades autossuficientes, com seu próprio sistema político e econômico, que intencionavam ser um modelo alternativo de civilização a ser seguido, já existiram no passado. Como exemplos muito interessantes, que infelizmente não conseguiram lograr completo êxito, mas nos servem como inspiração para o que devemos ou não fazer agora, temos a Cidade Jardim, de Ebenezer Howard, e a comunidade Nova Harmonia, de Robert Owen. Atualmente temos alguns exemplos similares em atividade já há algum tempo, como Auroville, na Índia, e Damanhur, na Itália. Existe também uma iniciativa nascendo agora na Inglaterra, chamada Qetema.

nova harmonia

Nova Harmonia

No Brasil, existe em seus primeiros estágios de implantação, o Ecopolo I da Associação Aliança Luz, localizado na cidade de Piracaia-SP. Ecopolos são uma proposta muito realista de comunidades autossustentáveis. Norteada principalmente pelos princípios formulados por Jacque Fresco (Projeto Vênus), visa, como objetivo final, alcançar o pleno desenvolvimento de uma Economia Baseada em Recursos (pós-escassez). Uma cooperativa multisetorial será responsável por elaborar as tecnologias necessárias e por ajudar a produzir uma economia colaborativa e sustentável para os Ecopolos. Um sistema de democracia direta será utilizado para as decisões relativas à administração social. Porém, mesmo a democracia direta, por si só não garante a tomada das melhores decisões, ou seja, as mais eficientes e sustentáveis. Pra que isto ocorra precisamos de conhecimentos técnicos sobre o funcionamento da realidade. Por exemplo, por mais bem intencionado que alguém esteja em produzir abundância de alimentos, não saberá tomar as melhores decisões a respeito se não tiver acesso a conhecimentos em agronomia e áreas afins. Por isto os Ecopolos utilizarão a Democracia Direta Científica (DDC). A DDC, por utilizar-se de princípios científicos e técnicos já comprovados, garante uma integridade muito maior às escolhas feitas. Aqui um vídeo que fala mais detalhadamente sobre a Democracia que será usada nos Ecopolos. E aqui um vídeo bem humorado do Leandro Zayd, falando mais sobre os ecopolos.

“Este artigo não expressa necessariamente uma opinião do MZ, mas de seu autor.

O mérito está na contribuição para a discussão da linha de pensamento defendida pelo movimento.”

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