Crowdfunding: o fim do sistema bancário como o conhecemos?

Créditos da imagem: Banalities

Créditos da imagem: Banalities

Texto escrito por Tony Greenham. Tradução para PT-BR por Fábio Queiroz.

No mês passado, a Financial Conduct Authority divulgou uma declaração sobre crowdfunding delineando as partes dessa indústria que estão agora sob sua regulação. Cobrindo empréstimos peer-to-peer e investimentos baseados em crowdfunding, a publicação lista os benefícios e os riscos desse setor relativamente jovem.

Com sua presença cada vez mais destacada, vale a pena pensar sobre o quão diferente o crowdfunding é do sistema bancário já conhecido. E o que poderia estar no horizonte se, como está previsto, essa indústria continuar o seu crescimento?

O fim do sistema bancário como o conhecemos

A maior parte das zonas comerciais britânicas ainda são agraciadas pela reconfortante arquitetura em pedra das agências bancárias, mesmo que seja cada vez mais provável encontrar pubs e adegas do lado de dentro. Uma das principais ferramentas de “marketing” dos primeiros bancos era comunicar a sua confiabilidade, credibilidade e talento profissional através da qualidade de suas instalações. Deixe conosco, eles parecem dizer, nós cuidaremos de tudo.

Hoje um crescente número de indivíduos e empresas não querem entregar seu dinheiro a banqueiros, por mais impressionantes que sejam seus edifícios, mas preferem empréstimos e investimentos por meio de mercados virtuais feitos diretamente com pessoas que provavelmente nunca se encontrarão. A Associação de Crowdfunding Britânica define três tipos diferentes de crowdfunding: participação/equity, empréstimo peer-to-peer e financiamento por doação ou recompensa.1 O número de plataformas está proliferando e o crescimento do setor está previsto em US$ 5,1 bilhões globalmente em 2013.

Será que a ascensão do crowdfunding – e a desintermediação dos bancos – significa o fim do sistema bancário como o conhecemos?

Desintermediação é uma palavra feia (particularmente para os intermediários), e é definida pelo Dicionário Inglês Oxford como “redução no uso de intermediários entre os produtores e os consumidores, por exemplo, através do investimento direto no mercado de valores mobiliários, em vez de através de um banco”.

Mas espere um pouco. As primeiras sociedades bancárias na Inglaterra eram certamente não mais do que um tipo de esquema precoce de crowdfunding. Baseadas não em torno da internet, mas na tecnologia das tavernas do século XVIII: a primeira sociedade bancária foi fundada em 1775 por Richard Ketley, o proprietário da Golden Cross Inn [uma antiga taverna] em Birmingham.

Ou um retorno às raízes do sistema bancário?

Então, crowdfunding pode ser visto como um agradável retorno às raízes das instituições financeiras de varejo. Mais diretamente, é correto dizer que as plataformas crowdfunding são intermediárias?

No mínimo elas oferecem um ponto de encontro – um quadro de avisos online para permitir que aqueles que procuram e oferecem financiamento encontrem uns aos outros – e a tecnologia para a realização das operações, inclusive a movimentação do dinheiro. Normalmente, elas oferecem muito mais do que isso. Credores peer-to-peer verificam as qualificações de crédito de potenciais mutuários, rejeitam aqueles considerados não-solventes, e dividem o resto em diferentes categorias de risco. As plataformas cada vez mais oferecem um mercado secundário que proporcione liquidez para aqueles que desejam lucrar antecipadamente com seus investimentos. O crowdfunder britânico BankToTheFuture pretende até solicitar uma licença bancária completa para expandir a sua gama de produtos.

Será que os bancos serão obrigados a tentar seguir o mesmo caminho, com produtos muito mais transparentes? Vamos esperar que sim.

No horizonte

Eu prevejo que, logo que a indústria de crowdfunding tome uma fatia significativa dos negócios bancários, então será só uma questão de tempo antes de vermos grandes bancos adquirindo os principais atores. Então, talvez, uma questão mais interessante seja: como pode o crowdfunding mudar o setor bancário? Aqui estão três maneiras potencialmente significativas para pensarmos sobre:

  1. O núcleo do crowdfunding é a transparência e o controle. Alguém poderia argumentar que nas melhores atividades bancárias já se consegue isso – basta olhar para a divulgação completa dos mutuários do Banco Triodos. Os bancos éticos e sociais também dão aos clientes algum controle sobre a forma como o seu dinheiro é usado. Mas o crowdfunding leva isso a um patamar totalmente novo, e essa só pode ser uma boa notícia para os consumidores. Será que os bancos serão obrigados a tentar seguir o mesmo caminho, com produtos muito mais transparentes? Vamos esperar que sim.
  2. Uma maior transparência e controle pode levar a uma mudança na natureza do que é financiado. Será que as decisões de milhões de indivíduos, muitas vezes motivados por retornos sociais e ambientais, bem como financeiros, resultaria em um impacto global muito mais positivo para a sociedade do que as de um sistema financeiro controlado por uma elite relativamente pequena?
  3. O impacto mais imprevisível está sobre a quantidade de dinheiro em circulação, em vez de quem empresta a quem. Bancos de depósitos têm o poder de criar dinheiro. Apenas os empréstimos bancários podem expandir (ou contrair) a oferta total de dinheiro na economia pela criação de novos depósitos bancários. Essa é a essência do sistema de reservas fracionárias. Nós não podemos prever facilmente o impacto macroeconômico no fornecimento de dinheiro de uma mudança de crédito bancário para crowdfunding.

Uma ameaça ao sistema de reservas fracionárias?

Há uma longa história de eminentes economistas que pedem a separação das funções de dinheiro e de crédito dos bancos e, portanto, a abolição do sistema de reservas fracionárias. Nos EUA, o Plano de Chicago propôs isso em 1930. Nunca foi promulgado pelo Congresso, mas uma intrigante possibilidade do crowdfunding pode ser a de que o mercado obtenha sucesso onde o Congresso não conseguiu – não uma desintermediação dos bancos, mas o fim do sistema de reservas fracionárias como nós o conhecemos.

1De acordo com uma classificação brasileira mais usual, o crowdfunding poderia ser dividido em 4 tipos: doação (sem contrapartida para os participantes), empréstimo (há devolução do dinheiro arrecadado), retribuição (o doador recebe uma recompensa, que pode ser o próprio produto) e participação/equity (o solicitante cede uma parte do seu negócio aos participantes). FONTE: http://abiliodiniz.uol.com.br/empreendedorismo/crowdfunding.htm

 

-

Artigo publicado originalmente em 20 de Maio de 2014 no blog do nef, e também aqui.

“Este artigo não expressa necessariamente uma opinião do MZ, mas de seu autor.
O mérito está na contribuição para a discussão da linha de pensamento defendida pelo movimento.”

You may also like...

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>