Desenvolvimento paralelo para o Movimento Zeitgeist

Artigo de Andres Delgado* publicado originalmente no TZMBlog e no Medium
Tradução por Graciela K. Lima | Revisão por Fábio L. O. Queiroz

1Hoje eu estava lendo “O Movimento Zeitgeist: Uma Nova Forma de Pensar” novamente. Eu fiz isso porque eu sinto a necessidade de expressar certa frustração neste/meu movimento social, mas não encontrei as palavras certas. Eu também não queria fazer falsas suposições sobre sua arquitetura, então fui direto à fonte com uma caneta na minha mão.

Eu atravessei as nove páginas que constituem a visão geral e extraí algumas notas que eu gostaria de postar aqui:

O MZ define-se como um movimento de conscientização que é explicitamente baseado em métodos não violentos de comunicação ao público, a fim de “pôr em funcionamento uma linha de pensamento”, que será explicada mais adiante no livro. Seu mais amplo imperativo? Mudar o sistema social.

Ele explora as falhas estruturais do sistema, em comparação com o potencial de melhorar a humanidade através da ciência e da tecnologia modernas. Devido a isso, eles consideram o movimento como um novo movimento de direitos civis. Portanto, poderíamos dizer também que seu principal objetivo é baseado nos direitos humanos (não necessariamente aqueles definidos pela ONU) e sustentabilidade social, o que me fez pensar nos direitos da natureza como um pré-requisito para que isso seja cumprido.

O livro resume as ações do MZ como diagnosticar, educar e criar. Aqui é onde eu detecto possíveis melhorias para o texto. Ele diz:

“Um verdadeiro diagnóstico deve procurar o menor denominador causal possível e trabalhar a esse nível de resolução.”

Concordo plenamente com este conceito, a causa raiz de qualquer problema deve ser finalmente abordada. Deve-se notar que você não pode esperar para resolver todos os problemas diretamente sempre, uma vez que às vezes é preciso uma estratégia longa e elaborada para finalmente chegar ao ponto em que você pode “consertar” o problema final, como quando você tem que estabilizar um paciente antes de tentar uma cirurgia. Não é afirmado de forma explicita que eles não vão aceitar abordagens laterais, mas me pergunto se esta definição de diagnóstico e tratamento está impedindo os ativistas de tomar certos caminhos em direção à meta.

Quando o livro do MZ fala sobre a educação como a mais poderosa ferramenta para a mudança social, eu também me pergunto: que tipo de educação? Uma vez que é isso o que define o nosso ativismo. Educação por meio de meros exercícios intelectuais, ou, ainda, acoplada à educação dual durante a tentativa de mudar o sistema? Se você analisar as atividades organizadas pelo Movimento Zeitgeist, elas são principalmente focadas em conferências, perguntas e respostas, projeções de filmes, debates, por vezes, até mesmo em livros, mas não há tal coisa como aprender fazendo. Alguns membros começaram iniciativas ganhando o apoio dos membros, mas eles têm se separado do movimento, a fim de fazer tal coisa.

A terceira ação, “criar”, é a que me é menos confortável:

“O MZ trabalha para considerar detalhadamente como um novo sistema social, baseado em eficiência econômica ótima, apareceria e operaria, dado o nosso estado atual de capacidade técnica.”

Minha crítica aqui é que este “criar” é mais um “imaginar”, o que não vejo problema algum, mas eu realmente penso que nós estamos falhando em responder a algumas perguntas sobre como realmente criar algo sustentável. Peter Joseph, o fundador do movimento, abordou essas críticas dizendo que, se você está doente, mas você não conhece a cura, ainda é aceitável explicar ao público em geral o que é estar saudável. Mas eu não tenho certeza de que estamos descrevendo ‘saudável’, eu acho que estamos descrevendo ‘perfeito’ e até mesmo um ser humano imortal super-inteligente.

Usando a mesma metáfora, eu me pergunto o que aconteceria se você vai a um homem moribundo, ignorante de sua condição, e você explica-lhe que ele está morrendo, mas se restringe de ir além. O Movimento Zeitgeist faz uma coisa dessas devido ao conforto psicológico? Espero que não, eu penso que era necessário que tomássemos tempo suficiente para descrever o desejável, mas eu também acho que é hora de avançar e encontrar uma cura para esse cara. Será que o MZ também pensa assim? Parece que a resposta é não:

Até que a tradição socioeconômica e seus resultantes valores sociais sejam desafiados e atualizados para apresentar os entendimentos contemporâneos; até que a maioria da população humana compreenda a linha de pensamento subjacente básica tecnicamente necessária para apoiar a sustentabilidade humana e a saúde pública, derivada do rigor da validação pela investigação científica objetiva; até que grande parte da bagagem de falsas suposições prévias, superstição, lealdades divisórias e outros obstáculos culturais socialmente insustentáveis e geradores de conflitos sejam superados – todas as possibilidades que agora temos em mãos para melhorar a vida e resolver problemas permanecerão em grande parte dormentes.”

Onde estão as evidências? Concordo que precisamos de massa crítica para a mudança social, mas que não é o mesmo que dizer a maioria, para começar. Em segundo lugar, eu duvido bastante que a massa crítica poderia ser alcançada sem quaisquer ações de qualquer natureza, este é um ciclo de feedback positivo.

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Fluxo de feedback (retorno) positivo como descrito pelo autor.

Em segundo lugar, se você estiver realmente criando um novo sistema sem usar da violência, deve-se entender que os dois sistemas (o sistema EBR/LN e nosso atual sistema em suas diversas formas) irão coexistir durante um longo tempo. Podemos contrabalançar esta forças, a fim de ganhar mais espaço para qualquer alternativa? Sim, nós podemos.

Previamente, ouvimos que as críticas sobre não fazer o suficiente são geralmente ou remendos para o sistema ou agendas ocultas que tentam ganhar dinheiro ou pessoas para causas diferentes. Mas este não é sempre o caso. Se você vai lutar contra persuasão política, você tem democracia digital. Se você é contra a economia de mercado, desmercantilização é fundamental para este processo (por exemplo, cada novo acordo comercial assinado é um passo para trás). Trabalho-por-renda?  Há um alternativa para isso. Por que não estamos pressionando por menos horas de trabalho ou por uma renda básica incondicional em um esforço coordenado global? Isso também permitiria que pessoas comuns se envolvessem no que chamamos de ativismo e outras participações políticas. Finalmente, se queremos declarar todos os recursos da Terra como patrimônio comum de todos os povos/pessoas do mundo, por que não estamos lutando, pelo menos, pelo conhecimento? Regimes de propriedade intelectual são completamente ultrapassados e as pessoas sabem, por que não podemos pressionar por uma nova Convenção de Berna ou regimes mais flexíveis dentro de cada país?  Eu gostaria de ver tudo que é custeado com fundos públicos disponível gratuitamente, pelo menos.

O que eu gostaria de sugerir ao MZ é adotar um processo de desenvolvimento paralelo para a esta nova civilização. Esta abordagem é o que grupos como o “Open Source Ecology” usa a fim de avançar com poucos recursos. Isto é especialmente útil quando você entende que as pessoas dentro do movimento têm diferentes níveis de consciência e habilidades. Nem todo mundo deveria estar aprendendo ou a ensinando exclusivamente. Na verdade, alguns ativistas estão lidando com coisas do “mundo real”, mas não podem ser mencionados como exemplos do que o ativismo é dentro do movimento zeitgeist. Por quê? Negar esta realidade tem feito um monte de gente boa não contribuir junto ao MZ mais, enquanto um grupo de pessoas se sentem perdido porque eles não sabem “como” mudar o mundo.

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Processo de desenvolvimento paralelo utilizado pelo Open Source Ecology. A princípio, se um projeto pode ser dividido em um número grande de módulos, então, um time de projeto equivalentemente grande pode envolver-se paralelamente – permitindo uma rápida velocidade de desenvolvimento. Além disso, se um projeto é open source (de livre acesso), uma documentação bem organizada permite que novos desenvolvedores se auto-orientem rapidamente, resultando em agilização do início dos projetos.

Desenvolvimento paralelo permite ao Open Source Ecology fazer o serviço de um trator mesmo não tendo condições nem para o serviço de uma pá. Eles não carecem de uma visão holística, mas eles entenderam que deveriam diminuir a barreira para os voluntários se eles quisessem avançar. Nosso objetivo é mais complexo e não temos os planos ainda, mas sabemos o que não queremos e como enfraquecer o sistema atual. A liberação de ambos, recursos e tempo, é fundamental se queremos criar uma alternativa viável ao capitalismo. Uma vez que nós estabelecemos algumas estratégias para alcançar este objetivo, o que está impedindo os ativistas do MZ de agir?

As pessoas estão mais propensas a aceitar pequenas mudanças do que uma substituição completa da economia, assim são também os governos. Poderíamos abordar quem está no poder com novos conhecimentos e ao mesmo tempo redistribuir o poder ao povo, de forma que eu não vejo uma razão pela qual todos os ativistas não estão fazendo isso agora.

Se não criarmos espaços para alternativas, é menos provável que projetos como o Global Redesign Institute, o Localized Solutions Project ou o Collaborative Design System (que já existe em certa medida, dentro da comunidade open-source) prosperem. Estes projetos poderão também beneficiar do desenvolvimento paralelo de uma metodologia, inclusive.

Ontem eu estava verificando a Fanpage no Facebook do meu capítulo, e eu queria saber por que ninguém estava compartilhando as mensagens (recém publicamos nove palestras realmente cheias de ideias) então eu perguntei a minha namorada, que é solidária ao movimento. Ela disse:

“Depois que eu percebi que você não têm um plano, eu decidi não seguir vocês mais.”

De verdade, para onde estamos indo?

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*Andres Delgado fundou o Capítulo Equatoriano do MZ (Zeitgeist Movement Ecuador), contribuiu para a FLOK Society e contribui para outra iniciativas, como a Open Source Ecology e a Apertura Radical. Você pode saber mais sobre Andres Delgado e os projetos dos quais participa(ou) nos links que seguem: aqui, aqui, aqui, aqui.

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4 Responses

  1. Reg disse:

    Olá,

    …lembro-me bem do “choque intelecto-social” que recebi quando assisti a triologia Zeitgeist, depois daquilo eu queria ver mudanças, queria que as pessoas mudassem, queria compartilhar com todos, todo o conhecimento que adquiri vendo os filmes, cheguei até mesmo a gravar alguns DVDs gratuitamente e os distribuí, mas devido ao pouco ou quase nenhum interesse das pessoas, acabei por desistir de fazer isso.
    Sempre que comentei com meus amigos sobre a ideia de que devemos mudar o sistema, toda vez me perguntavam as mesmas coisas, que seriam mais ou menos isso: “…tá, mas quem vai controlar tudo? …seremos escravos de um computador? …iremos trabalhar de graça? …quem irá trabalhar se não haverá pagamento? …qual a motivação para trabalhar?”
    …por mais que conseguia responder tais questões, o paradigma monetário parece uma lei da física, algo que muitas pessoas não conseguem ver uma real possibilidade de que seja diferente.
    Enfim, sei que frustrei-me muito com o fato de notar que as pessoas procuram um novo líder que faça as coisas melhores e mais justas, elas não querem debater ideias e as colocar em ação novos métodos sociais, elas querem alguém que faça isso por elas…

  2. thiago cross disse:

    ficar na cerca? Ou fazer algo? Espero seu contato amigo!!

  3. Cicero disse:

    Um caminho seria criar pequenas comunidades independentes.

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