Faça amor ou faça guerra? O eterno dilema humano está escrito em nossos genomas e em nossa história (Parte 1)

Por Francisco Pereira Lobo

Publicado originalmente no Palpitômica


Qual você escolhe? Fonte da figura hippie: aqui.

Trazemos, dentro de nós em nossos genomas, e ao longo de toda nossa história como humanos, dois conflitos eternos: faça guerra ou faça amor?

Somos capazes das mais nobres demonstrações de amor e dos mais inacreditáveis atos de violência, seja com outros humanos, seja com outras espécies.

Como a observação de nosso parentes mais próximos pode nos ajudar a entender, mitigar e eventualmente resolver esse aparente conflito?

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Somos primatas e compartilhamos com nossos parentes vivos mais próximos uma série de características por causa deste fato.

(Se alguém ainda duvida disso, passe um tempo em um zoológico observando um grande primata, como Darwin fez, e depois pondere se você não enxerga neles comportamentos genuinamente humanos).

(isso dito, gosto cada vez menos de zoológicos, exatamente por me enxergar do lado de lá da jaula).

Compartilhamos com os primatas desde nossos polegares opositores até nosso telencéfalo altamente desenvolvido, e certamente compartilhamos também os genes para fazer os tais polegares opositores e nossos cérebros proporcionalmente imensos.

Compartilhamos também uma parte considerável de nosso comportamento sexual e de nossa agressividade.

Ao observarmos como os primatas não-humanos lidam com o sexo e com o as relações de poder podemos aprender um bocado sobre como funcionamos nesses assuntos-tabu.

(justamente por ser um tabu, o comportamento sexual humano só foi estudado com mais detalhes em um período relativamente recente de nossa história, e não com menos controvérsia (o Palpitômica recomenda veementemente o filme do link anterior sobre o Biólogo Alfred Kinsey (com “B” maiúsculo) que largou os insetos e foi estudar comportamento sexual humanos nos states conservador dos anos 40/50).

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E como é o comportamento sexual das outras espécies de primatas; e como são as relações dessas espécies com o poder?

Em poucas palavras, estes comportamentos são extremamente variáveis.

Há desde espécies que formam casais monogâmicos estritos, onde há somente um parceiro sexual ao longo de toda a vida, até os bonobos, sobre os quais escreverei mais logo abaixo.

Há desde espécies paz&amor, onde virtualmente todos os conflitos internos são resolvidos com sexo, até espécies que intimidam (e eventualmente matam) seus semelhantes corriqueiramente para alcançar posições de poder.

O que a imensa variabilidade comportamental observada nos primatas pode nos ensinar sobre nossos próprios comportamentos?

Se você souber um pouco de biologia e evolução, pode te ensinar um bocado.

A nossa ancestralidade comum com os primatas garante que compartilhamos uma fração significativa de nossos genomas.

Essa porção comum, compartilhada entre todos os primatas, foi capaz de produzir todo o extremo de comportamentos dessas espécies em relação ao sexo e ao poder, e pode consequentemente ajudar a explicar um pouco de nossa própria identidade.

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Nossos ancestrais vivos mais próximos em termos evolutivos (aqueles com os quais compartilhamos um ancestral comum mais recente) são os chimpanzés.

Os chimpanzés são um excelente laboratório/estudo de caso para estudarmos indiretamente a nossa sexualidade e obtermos pistas de como nos comportamos nesse aspecto.

Esse táxon compreende os primatas do gênero Pan, que possui duas espécies vivas: o popularmente conhecido chimpanzé e o bonobo, ou chimpanzé-anão.

(A partir de agora irei me referir a estas espécies como chimpanzé e bonobo, simplesmente).


Comparação morfológica entre o bonobo e o chimpanzé. Pode-se perceber que o bonobo e o chimpanzé são extremamente parecidos morfologicamente. O bonobo é um pouco mais delgado e um pouco menor. Fonte: esse infográfico lindo da National Geographic

Estas duas espécies compartilham entre si um ancestral comum recente (cerca de um milhão de anos), e são teoricamente igualmente distantes de nossa espécie, em termos evolutivos.


Uma árvore filogenética (ou, para os puristas, um cladograma) ilustrando as principais linhagens de primatas próximas à do homem conhecidas. A escala acima indica o momento da separação, em milhões de anos. As duas primeiras linhagens acima representam os primatas do gênero Pan, que divergiram há somente um milhão de anos entre si. Fonte da imagem: aqui.

A semelhança entre as duas espécies de chimpanzé é evidente, ja que eles divergiram há somente um milhão de anos (um nada, em termos do tempo evolutivo).

(Para comparação, nossa linhagem separou da linhagem dos chimpanzés há aproximadamente oito milhões de anos, tempo insuficiente para alterar cerca de 96% de nossos genomas, que são compartilhados entre nossas espécies).

A semelhança morfológica entre os bonobos e os chimpanzés não sugere uma grande diferença comportamental entre essas espécies, certo?

Só que não.

O bonobo e o chimpanzé são extremamente distintos quando observamos seu comportamento, especialmente o comportamento sexual e o comportamento em relação ao poder.

De maneira bem resumida, nas sociedades de bonobos 1) as fêmeas compartilham o poder; 2) os conflitos são resolvidos com sexo e 3) há um intenso vínculo afetivo entre as fêmeas.

Nas sociedades de chimpanzés o que ocorre o seguinte: 1) os machos compartilham o poder; 2) os conflitos são resolvidos com violência e 3) há um intenso vínculo afetivo entre os machos (coalizões).


Principais diferenças comportamentais entre bonobos e chimpanzés. Fonte: esse infográfico lindo da National Geographic

(O Palpitômica recomenda ao leitor interessado a busca por fotos do comportamento sexual dos bonobos; ele será capaz de identificar diversos dos nossos comportamentos sendo praticados com extrema destreza por essa espécie).

Em outras palavras, ao analisarmos o seu comportamento, o bonobo é 100% faça amor, e o chimpanzé é um legitimo representante da vertente do faça a guerra.

O que podemos concluir a partir dessas observações?

Que o nosso ancestral comum mais recente com qualquer outro ser vivo da Terra (que são as duas espécies de chimpanzé), que viveu há aproximadamente oito milhões de anos, tinha em seu genoma componentes para produzir todo o leque de comportamentos sexuais dos primatas, indo do faça amor ao faça a guerra.

E que este potencial para qualquer um dos dois extremos deve caminhar, em graus variáveis, em nossos genomas também.

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Acesse aqui a Parte 2 do texto (será publicada em 10 de Setembro de 2015). Ou acesse o texto completo no Palpitômica

 

 

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