Faça amor ou faça guerra? O eterno dilema humano está escrito em nossos genomas e em nossa história (Parte 2)

Por Francisco Pereira Lobo

Publicado originalmente no Palpitômica

Acesse aqui a Parte 1 do texto.

Uma outra fonte recente de informação sobre a nossa sexualidade vem do sequenciamento de DNA fóssil.

Ao sequenciarmos trechos do genoma de ossos humanos antigos humanos, ou dos ossos de outras espécies extintas proximamente relacionadas à nossa, como o do Neanderthal, por exemplo, podemos obter informações valiosas sobre o nosso histórico sexual.

Como assim?

Na história de nossa espécie, antes que o homem anatomicamente moderno surgisse, houve várias outras linhagens de hominídeos que evoluíam em paralelo com a nossa (vide a árvore filogenética acima).

No caso do chimpanzé e do bonobo, as duas linhagens produziram espécies atuais.

Em nosso caso (novamente vide a figura da árvore filogenética acima), aparentemente não.

Todas as linhagens dentro do gênero Homo estão extintas, com exceção da nossa.

Será mesmo?

A história da espécie humana é a história de uma espécie curiosa.

Migramos em nosso planeta muitas e muitas vezes, mesmo antes de nos tornarmos humanos.

Principais rotas de migração da espécie humana a partir de sua origem na África (vermelho). Migrações de outros hominídeos, anteriores ao surgimento de nossa espécie, destacadas em laranja e amarelo. Fonte: Wikipedia.

A espécie humana surgiu na África, mas diversas linhagens de hominídeos pré-humanos surgiram lá e migraram para fora do continente.

Uma dessas linhagens de hominídeos deu origem ao homem de Neanderthal, que ocupou a Europa muitos milênios antes de nossa espécie sair da África em direção a esse continente (mancha laranja no mapa acima).

Em outras palavras, houve uma migração inicial de Neanderthal para a Europa antes do surgimento do homem anatomicamente moderno; uma segunda migração para este mesmo continente ocorreu, dessa vez de indivíduos da nossa espécie (vide a figura acima).

A chegada do homem anatomicamente moderno à Europa “coincide” com o desaparecimento quase simultâneo do homem de Neanderthal do registro fóssil.

Uma “coincidência” muito estranha, que vem sendo estudada pelos paleontólogos desde então.

Quando me formei em biologia, a hipótese corrente para explicar a extinção do homem de Neanderthal era que esta espécie havia sido extinta por nós, humanos, na base do “faça a guerra”.

Afinal nós, humanos anatomicamente modernos, não tivemos nenhum problema em promover inumeras chacinas de outros humanos anatomicamente modernos ao longo de nossa história de impérios, como na invasão da América e da Austrália pela Europa, por exemplo.

Se tratamos seres humanos anatomicamente indistinguíveis de nós mesmos dessa maneira, o que não faríamos com outra espécie?

Mas, apesar dessa hipótese ser bastante plausível, provável até, há diversas outras possibilidades para a extinção do homem de Neanderthal, como competição por recursos e mudanças climáticas, por exemplo.

Uma dessas hipóteses alternativas é justamente um “seja extinto fazendo amor”.

A população relativa de Neanderthal era provavelmente muito menor que a humana (ou seja, havia muito mais indivíduos Homo sapiens do que Homo neanderthalensis).

Por conta disso, um cenário bastante plausível seria o “sumiço” dos genes da população de Neanderthal dentro do conjunto de nossa espécie, consideravelmente maior, via uma espécie de “diluição” dos genes de Neanderthal causada pelos intercruzamentos entre essas duas espécies com um número tão diferente de indivíduos.

Algumas gerações de intercruzamentos entre as duas espécies produziria híbridos entre elas e o “sumiço” das espécies originais por meio de sua mistura.

Se isso fosse verdade esses híbridos (que nada mais são do que nós, humanos modernos) deveriam conter somente uma pequena fração do DNA de Neanderthal, já que o número de Neanderthal era muito menor do que o número de humanos modernos.

Como toda boa ciência, essa é uma hipótese testável em ao menos duas instâncias.

Primeiro teste falseável: como uma parte das populações humanas nunca saiu da África, essa parte não deveria conter nenhum traço de DNA de Neanderthal

(Em outras palavras, ironia do destino e “chupa essa, Hitler”, os únicos humanos “sangue puro” seriam os africanos, o resto de nós seriamos híbridos dos humanos que saíram da África com os pré-humanos que saíram antes desse continente, como os Neanderthal, por exemplo.

Segundo teste falseável: deveríamos observar nas populações humanas fora da África trechos de DNA de Neanderthal, se a hibridização entre as espécies tiver realmente ocorrido.

Proposta para o surgimento do homem moderno e para a extinção do Neanderthal baseado na hipótese do “faça amor”. A linha verde-escura indica o evento de hibridização entre o Neanderthal e o ancestral humano das populações humanas que migraram para fora da África (representados pelos French, Han-chinese e Papuan). As populações de humanos na África (representados pelos Yoruba e San) não possuem eventos de hibridizaçao com o DNA, já que permaneceram na África , consequentemente, e não tiveram contato com essa espécie.

O sequenciamento de DNA fóssil de Neanderthal foi possível a partir de 2004, com a invenção da nova geração de sequenciadores de DNA, que permitia a análise de DNA em quantidades ínfimas extraído a partir de amostras de fósseis.

Essa análise culminou com o projeto genoma do homem de Neanderthal.

Este sequenciamento, somado à análise das mutações encontradas em populações humanas nativas da África e nativas de fora desse continente, revelou um cenário interessantíssimo:

Genomas de humanos de populações que sempre viveram na África aparentemente não apresentam traço de DNA Neanderthal.

Já os genomas de humanos de populações de fora da África possuem 1 a 4% de seu DNA em comum com o genoma dos Neanderthal.

(o autor, por exemplo, descobriu no 23andme que cerca de 2.7% do seu genoma é de origem Neanderthal, como o legítimo vira-latas que ele acredita ser).

Há um detalhe importante aqui: as hipóteses para a extinção do homem de Neanderthal não são mutuamente excludentes.

Ou seja, a extinção dos Neanderthal pode ter se dado por uma soma de fatores.

Eles possivelmente foram extintos na base da guerra e do amor.

Aqui cabe uma questão: o que o DNA dos Neanderthal deixou de herança em nossa espécie?

Em termos funcionais, diversas questões interessantes já puderam ser observadas: há diversos genes do sistema imune de Neanderthal que aparecem em nosso genoma e que parecem influenciar processos importantes como a resistência a parasitas e a ocorrência de alergias, e um gene Neanderthal é comprovadamente importante paraaumentar a eficiência de nosso sangue transportar oxigênio em populações humanas que vivem em lugares elevados.

Além disso agora podemos afirmar, sem demagogia, que os Neanderthal não foram oficialmente extintos, e sim queuma parte deles ainda vive em nossos genomas.

***

A análise do comportamento dos outros primatas e o sequenciamento de DNA fóssil se encontram e conversam entre si em nossa espécie.

Estas análises comparativas nos permitem também contar parte a nossa história e entender melhor a maneira como funcionamos.

Temos o potencial para o amor e a guerra caminhando juntos em nossa existência, e comprovadamente já fizemos uso de ambas estratégias para chegarmos onde chegamos.

Está escrito em nosso corpo, e em nosso genes, bem como nos nossos parentes mais próximos.

Apreciamos o amor livre em várias civilizaçoes humanas e, paradoxalmente, somos ciumentos e possessivos com nossos cônjuges em outras tantas.

Temos em nossos genomas o pano de fundo para o amor e a guerra, e praticamos ambos copiosamente em nosso passado remoto e recente.

Essa contradição aparente só pode ser resolvida com conhecimento, nunca com tabus e assuntos sobre os quais não se conversa, não se pesquisa e não se aprende.

(Há, por exemplo, um estudo interessantíssimo sobre a correlação entre o peso relativo dos testículos em primatas machos e a fidelidade das fêmeas da mesma espécie. Basicamente, quanto mais infiel for a fêmea, maior será o peso relativo dos testículos dos machos, de modo a maximizar a chance da vez dele com a fêmea ser a vez que vai fecundar o óvulo e, consequentemente, transmitir os genes de testículos grandes para a próxima geração; that’s the evolution, baby).

(E sim, a ciência é auto-consistente; os bonobos possuem testículos particularmente grandes, uma consequência direta da orgia constante que ilumina os céus daquela espécie).

O estudo da correlação positiva entre o peso relativo do testículos de primatas machos com a fidelidade média das fêmeas da mesma espécie é um bom exemplo de como a comparação de nossa espécie com outros primatas permite que conheçamos mais sobre nós mesmos.

Nesse estudo é possível medir a nossa própria espécie e colocá-la lado a lado com os outros primatas.

Como é a fidelidade média em nossa espécie de acordo com o peso relativo de nossos testículos (e, mais importante ainda, quem cedeu os seus para serem pesados)?

Digamos que nossa tendência é de uma fidelidade até razoável, mas certamente passa longe de uma monogamia exclusiva.

Como outra evidência desse fato sempre gosto de mencionar a porcentagem média de indivíduos de nossa espécie que não têm o pai biológico que acham que têm.

Qual número o estimado leitor considera o mais próximo da realidade?

Há alguns estudos que estimam que até 30% dos filhos em nossa espécie não têm o pai biológico que acreditam.

(como a maior parte desses estudos é feita utilizando tipos sanguíneos, esse número é certamente menor que a realidade, já que o pai biológico e o suposto pai podem ser do mesmo grupo sanguíneo e, consequentemente, nestes casos não é possível ter certeza que o filho não é do suposto pai biológico).

Em outras palavras, temos o potencial em nossos genomas (e em nosso comportamento atual e ancestral) para sermos fiéis, amorosos, libertários, agressivos e violentos, muitas vezes em um mesmo indivíduo e em um curto período de tempo.

Há certamente “humanos bonobos” e “humanos chimpanzés” em nossa espécie, e uma série de desdobramentos por conta desse fato.

Temos dentro de nossa espécie forças aparentemente antagônicas, e somente com a aceitação de sua existência, com o conhecimento de sua origem e de seus limites seremos capazes de alcançar a verdadeira tolerância com o comportamento do próximo.

No momento atual, depois de ler sobre isso tudo para escrever esse texto, o autor certamente prefere a modalidade do amor e o caminho dos bonobos.

(isso até ele descobrir que foi eventualmente traído ou que tem um bando ali do lado mexendo com a mulher dele e se comportar como um chimpanzé, é claro) ;-)

 MSDQUFO FE003

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