Humanos x Natureza: uma divisão ilusória

Estamos separados da natureza, fora da ação do seu domínio? Por mais que a resposta dos fatos conhecidos seja que não, muitos ainda tendem a achar o contrário. Até mesmo a ciência formal dá alguma margem a este entendimento, ao ser oficialmente dividida em duas grandes categorias: Ciências Naturais e Ciências Humanas. Isto dá a entender, ao menos inicialmente, que a própria ciência afirma que estamos de alguma forma separados da natureza. Mas tal separação mostra-se arbitrária, pois até onde se pode saber com algum grau de confiabilidade, humanos, assim como todo o resto, são resultantes de forças naturais elementares que atuam na matéria por meio de um processo de causalidade. Os átomos, conjunto de elementos básicos que formam a matéria da qual tudo é constituído, inclusive nós, são moldados por forças/elementos comuns a todos eles. Não há evidências sólidas de que seres humanos, ou qualquer outro animal, sejam produtos da interação de alguma outra força exótica particular, que não atue na formação do restante da matéria do universo, que nos torne únicos ou especiais em nossa constituição.

O que difere uma coisa da outra – objetos animados de inanimados, elefantes de seres humanos, etc – são os tipos de átomos que os formam e as maneiras em que estes átomos estão estruturados. O que torna um tipo de átomo diferente de outro é a variação da intensidade destas forças naturais elementares agindo em seu interior, algo estabelecido no momento em que o átomo passou a existir. Dependendo dos tipos dos átomos que interagem e as estruturas por eles formadas, proporcionarão um efeito específico dentro da realidade. Quanto mais minúcias, inter-relações e retroalimentações uma estrutura possuir, mais intrincado e complexo será o comportamento do sistema que ela forma.

Sistemas, Complexidade e Emergência

A abordagem de sistemas define que um sistema possui comportamento próprio, distinto de suas partes constituintes, que só ocorre com o funcionamento de todo o conjunto, não podendo ser redutível aos seus componentes. Portanto, um sistema é mais do que a soma de seus componentes, pois possui características próprias mais complexas, não encontradas em suas partes separadas.

Sistemas inanimados, como o próprio átomo, são formados pela atuação direta e mecânica das forças naturais elementares. Quando saímos do reino da física e da química puras, adentrando no reino da biologia, as estruturas atômicas passam a possuir arranjos substancialmente mais complexos, com funcionamento mais sutil e intrincado, determinados essencialmente por uma outra estrutura, que os sistemas inanimados não possuem, o DNA. O DNA, existente no interior de cada célula de um ser vivo, acumula informação de forma a tender em muitos casos para um nível cada vez maior de complexidade do sistema biológico que ele determina. O cérebro humano talvez seja o sistema mais complexo existente no universo. Esta extrema complexidade cerebral é que nos leva ao reino das ciências chamadas humanas (sociologia, história, psicologia etc.) ao gerar a consciência ou mente. O que podemos perceber é que há uma tendência a emergir um novo nível de realidade a partir da interação de sistemas demasiadamente complexos, com uma dinâmica particular e leis próprias de funcionamento, não previsíveis ao se analisar suas partes separadamente.

Nesta linha de raciocínio, podemos concluir que não existe de fato uma separação entre nós e o resto da natureza, como se nossas mentes fossem feitas de uma substância que não a própria matéria. A monumental complexidade da mente humana aparentemente deve-se a um número muito elevado de variávesistemas complexois e processos interagindo e a um número também elevado de interconexões entre eles, repletas de retroalimentações e mecanismos de atuações não lineares, que nos proporciona um alto nível de consciência e abstração. Por mais que o que emirja de algo extremamente complexo como o cérebro humano, seja impossível de ser completamente compreendido no momento, não se trata de uma nova categoria não-natural diferente da matéria, mas a conseqüência de uma versão muito complexa dela. Assim como elementos químico-físicos, ao se estabelecerem em sistemas complexos, dão origem aos elementos biológicos, os sistemas biológicos ao adentrarem num nível significativamente maior de complexidade em sua organização, resultam na consciência, que em grau mais elevado se encontra nos seres humanos. Sendo assim, não há que se falar em separação entre natureza e humanidade, mas em sistemas naturais menos e mais complexos. A Teoria dos Sistemas surgiu como uma forma de se estudar o funcionamento dos sistemas, porém, à medida que se tentava entender sistemas cada vez mais complexos, como o cérebro humano e o funcionamento social, novas abordagens se mostraram necessárias, como a Cibernética.

Mesmo tais sistemas extremamente complexos, como a mente ou os sistemas sociais, ainda não podendo ter seus mecanismos de funcionamento totalmente detalhados e compreendidos, não possuindo um alto nível de previsibilidade comportamental, como em sistemas da física, química e alguns da biologia, são processos que possuem padrões e tendências de entrada e saída que podem ser conhecidos e modificados para produzirem alguns resultados sociais macros desejados. É sobre isto que se baseia a ideia de mudança social do Movimento Zeitgeist, a possibilidade de se identificar tendências de padrões comportamentais em sociedade e suas causas, de forma a poder modificá-los para tendências comportamentais sustentáveis. A ciência tem muito a nos ajudar no que se refere a identificar tais tendências e suas causas. Ela tem demonstrado claramente que a consciência sofre interferência do meio e, portanto, modificando-o pode ser estimulada a possuir padrões diferentes.

O fato é que não se sabe ainda como exatamente funciona o mecanismo que gera a consciência. A teoria da emergência para o problema cérebro-mente é apenas a mais aceita no momento por parecer mais coerente com os fatos existentes. Existem teorias alternativas e complementares para explicar o surgimento da consciência, como a Teoria Orch OR (Consciência Quântica). Porém, mesmo que um mecanismo quântico realmente exista dentro do cérebro para ajudar a produzir a consciência, ainda assim estamos falando de efeitos físicos conhecidos (Mecânica Quântica) ocorrendo dentro dos átomos (matéria), gerando um nível ainda maior de complexidade do sistema cerebral, e não de novas forças naturais não causais. O interessante desta teoria é que ela aponta a própria matéria como possível possibilitadora do livre-arbítrio, ao ligar o fenômeno da sobreposição de estados da mecânica quântica e sua decoerência, à ausência de um determinismo causal no funcionamento da consciência.

Determinismo e Livre Arbítrio

Ao abordar a ideia de que nossas mentes são ou não o resultado da interação de forças naturais elementares imutáveis, numa versão ultra complexa, dentro de um processo contínuo de causa e efeito, onde não conhecemos todos os processos e muito menos todas as suas inter-relações, naturalmente somos obrigados a encarar a ideia de livre arbítrio ou a ausência dele. O determinismo suscitado pelo mecanismo causal de constantes elementares pré-determinadas, do qual seríamos produto, nos leva a pensar que talvez não possuamos livre arbítrio algum, sendo que tudo já estaria pré-determinado. Neste sentido, seriamos somente observadores conscientes dos acontecimentos, não podendo mudá-los para um outro caminho que não seja o que já foi pré-determinado pelas forças naturais no momento do Big Bang. De fato, alguns experimentos têm demonstrado que não possuímos livre escolha, ao menos para questões mais simples da vida, como escolher conscientemente entre uma banana e uma maçã. O que não se sabe ainda é se tal ausência de escolha em nível consciente também ocorra em decisões mais complexas.livre arbitrio

 O determinismo absoluto, apesar de muito incômodo por apresentar uma total falta de controle de nossa parte sobre os acontecimentos, é uma possibilidade. Porém o mais aceito é um determinismo menos rígido, como é o caso do co-determinismo, que afirma que possuímos uma quantidade limitada de possíveis escolhas, havendo, portanto, um arbítrio restrito e não livre. A teoria do caos e a da emergência da mente são exemplos de co-determinismo.

O dualismo, ao estabelecer a mente e o cérebro como coisas distintas, é uma corrente alternativa de pensamento que estabelece a existência do livre arbítrio por considerar que a consciência faz parte de um universo não causal, constituído por substância diferente da que constitui a matéria. Porém, tal afirmação carece de evidências.

Não podemos no momento afirmar com apurado grau de certeza se temos ou não livre arbítrio, mesmo que limitado. Particularmente torço para que haja ao menos algum pequeno espaço para manobra consciente livre, para que possamos mudar os rumos das coisas para melhor, principalmente se o melhor não for o que a natureza nos tenha determinado inconscientemente, nos restando pelo menos a possibilidade de tentarmos.

“Este artigo não expressa necessariamente uma opinião do MZ, mas de seu autor.

O mérito está na contribuição para a discussão da linha de pensamento defendida pelo movimento.”

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