— Introdução ao Pensamento Crítico — Um esboço do lixo intelectual (Parte 1)

Quadro 2 PCTexto de Bertrand Russell com tradução de Vítor Guerreiro, publicado pelo site ateus.net

Parte 1 de 3

Publicado originalmente em 1943

      O homem é um animal racional — pelo menos foi o que me ensinaram. No decurso de uma vida longa, procurei diligentemente indícios que apoiassem esta afirmação, mas até agora não tive a sorte de os encontrar, embora tenha percorrido vários países em três continentes. Pelo contrário, vi sempre o mundo afundar-se cada vez mais na loucura. Vi grandes nações, outrora líderes de civilização, transviadas por pregadores do disparate altissonante. Vi a crueldade, a perseguição e a superstição ganharem terreno, gradualmente, até quase chegarmos ao ponto em que, por elogiar a racionalidade, uma pessoa é tida por antiquada, como se, para seu infortúnio, tivesse sobrevivido a uma era obsoleta. Tudo isto é deprimente, mas a tristeza é uma emoção inútil. A necessidade de a evitar levou-me a estudar o passado com maior atenção do que antes lhe dedicara, tendo-me apercebido, como Erasmo, de que embora a loucura seja uma constante em todas as épocas, a humanidade sobrevive. Os excessos do nosso próprio tempo tornam-se mais toleráveis quando examinados contra o pano de fundo das loucuras do passado. Talvez o resultado deste esforço nos ajude a perspectivar o nosso próprio tempo, a vê-lo como não muito pior do que outras eras, em que os nossos antepassados viveram sem sucumbir à catástrofe.

      Aristóteles foi, tanto quanto sei, o primeiro homem a declarar explicitamente que o ser humano é um animal racional. O seu motivo para defender tal ponto de vista não causa agora grande impressão; não era senão o fato de algumas pessoas serem capazes de fazer somas. Aristóteles pensava que há três tipos de alma: a alma vegetal, partilhada por todos os seres vivos, plantas ou animais, ligada apenas à nutrição e ao crescimento; a alma animal, relacionada com a locomoção e partilhada pelo homem com os animais inferiores; finalmente a alma racional, ou intelecto, que é a mente divina, mas na qual os seres humanos participam em maior ou menor grau, na razão direta da sua sabedoria. É em virtude do intelecto que o homem é um animal racional. O intelecto manifesta-se de várias maneiras embora isso seja mais evidente no domínio da aritmética. O sistema numérico grego era bastante mau, o que tornava a tabela de multiplicação bastante difícil, de modo que só as pessoas mais inteligentes conseguiam fazer cálculos complicados. Hoje em dia, contudo, as máquinas de calcular fazem somas melhor do que as pessoas mais inteligentes e no entanto ninguém argumenta que estes instrumentos tão úteis são imortais ou que funcionam por inspiração divina. À medida que a aritmética se foi tornando mais fácil, tornou-se menos respeitada. O resultado é que, apesar de muitos filósofos continuarem a tentar convencer-nos de como somos uns tipos porreiros, já não o fazem com base nas nossas aptidões aritméticas.

      Como o espírito da época já não nos permite exibir as crianças que sabem somar como prova de que o homem é racional e a alma, pelo menos em parte, imortal, procuremos noutros sítios. Onde devemos procurar primeiro? Entre os distintos homens de estado, que tão triunfalmente conduziram o mundo ao estado em que se encontra? Ou devemos eleger os homens de letras? Ou os filósofos? Todos têm as suas pretensões, mas julgo que devemos começar por aqueles a quem todas as pessoas de bom senso reconhecem como os mais sábios, além de os melhores entre os homens, nomeadamente, o clero. Se eles se mostrarem incapazes de racionalidade, que esperança resta a nós, meros mortais? E infelizmente — embora o diga com todo o respeito — momentos houve em que a sua sabedoria não foi muito óbvia e, por estranho que pareça, foi precisamente nesses momentos que o clero teve mais poder.

        Schongauer_Anthony      A idade da fé, que os nossos neo-escolásticos tanto admiram, era o tempo em que o clero de tudo dispunha à sua maneira. A vida quotidiana andava cheia de milagres forjados por santos e feitiços perpetrados por demônios e espíritos. Queimaram-se muitos milhares de bruxas na fogueira. Os pecados humanos eram punidos com a pestilência e a fome, com terremotos, inundações e pelo fogo. E no entanto, por estranho que pareça, os homens eram ainda mais pecaminosos do que são hoje em dia. Muito pouco se sabia do mundo, em termos científicos. Alguns homens de letras conheciam argumentos gregos que defendiam que a terra é redonda, mas na sua maioria as pessoas troçavam da ideia dos antípodas. Era heresia supor que existiam seres humanos nos antípodas. Era letra comum (embora os católicos modernos adotem um ponto de vista mais moderado) que a maioria dos seres humanos estava condenada. Acreditava-se que em cada esquina espreitavam perigos. Os demônios metiam-se na comida que os monges estavam prestes a ingerir, apoderando-se dos corpos daqueles incautos que se esquecessem de fazer o sinal da cruz antes de cada colherada. As pessoas mais antiquadas têm ainda o hábito de exclamar “Santinho!” quando alguém espirra, mas a razão de tal hábito caiu no esquecimento. Isto devia-se à crença de que a alma das pessoas saía com o espirro e antes que pudesse voltar ao corpo este poderia ser possuído por demônios emboscados; mas se alguém exclamasse “Santinho!”, os demônios assustavam-se.

      Ao longo dos últimos 400 anos, em que o gradual progresso da ciência mostrou aos homens como obter conhecimento dos processos naturais e domínio sobre as forças da natureza, o clero travou uma batalha perdida contra a ciência, na astronomia e na geologia, na anatomia e na fisiologia, na biologia, na psicologia e na sociologia. Desalojados de uma posição, instalavam-se noutra. Depois de sofrer a derrota na astronomia, fizeram o possível para evitar a ascensão da geologia; lutaram contra o darwinismo na biologia e atualmente lutam contra as teorias científicas da psicologia e da educação. Em cada fase, tentam fazer que o público se esqueça do obscurantismo anterior, de maneira que não se reconheça como tal o seu obscurantismo presente. Debrucemo-nos sobre alguns exemplos de irracionalidade entre o clero desde a ascensão da ciência para ver então se o resto da humanidade vai muito melhor.

      Quando Benjamin Franklin inventou o para-raios, o clero, tanto na Inglaterra como na América, com o apoio entusiástico de George III, condenou-o como tentativa ímpia de contrariar a vontade de deus. Pois, como todas as pessoas de bom senso sabiam, os raios eram enviados por deus para punir a impiedade ou qualquer outro pecado grave — os bons nunca são atingidos por raios. Portanto, se deus quer atingir alguém, Benjamin Franklin não devia frustrar tal desígnio; na verdade, fazê-lo é o mesmo que proporcionar a fuga aos criminosos. Mas deus mostrou-se à altura do desafio, a acreditarmos no eminente Dr. Price, um dos teólogos mais destacados de Boston. Tendo as “hastes de ferro inventadas pelo sagaz Dr. Franklin” tornado anódinos os raios, o Massachusetts foi abalado por terremotos, que o Dr. Price entendia serem fruto da ira divina contra as “hastes de ferro”. Durante um sermão sobre o assunto afirmou: “Instalaram-nos mais em Boston do que em qualquer outro lado na Nova Inglaterra, e Boston parece ser mais gravemente afetada. Oh! Não há como fugir ao poderoso punho de deus”. Ao que parece, contudo, a Providência terá desistido de regenerar Boston da sua malvadez, pois, embora os para-raios se tenham tornado cada vez mais comuns, os terremotos no Massachusetts continuaram raros. Não obstante, o ponto de vista do Dr. Price, ou algo muito semelhante, continua a ser defendido por um dos mais influentes homens vivos. Quando, a dada altura, houve vários terremotos graves na Índia, Mahatma Ghandi avisou solenemente os seus compatriotas de que tais catástrofes eram um castigo pelos seus pecados.

      Mesmo na minha ilha natal, tal ponto de vista ainda perdura. Durante a última guerra, o governo britânico esforçou-se por fomentar a produção de alimentos em território nacional. Em 1916, quando as coisas não corriam de todo bem, um clérigo escocês escreveu aos jornais opinando que o fracasso militar se devia a ter-se plantado batatas no Domingo, com a aprovação do governo. Contudo, evitou-se a catástrofe, porque os alemães desobedeciam a todos os dez mandamentos, em vez de apenas a um.

      Por vezes, a acreditarmos nos homens de religião, a compaixão divina é curiosamente seletiva. Toplady, o autor de Rock of Ages, mudou-se de uma paróquia para outra; uma semana após a mudança, a residência que ocupou antes incendiou-se, para grande prejuízo do novo vigário. Pouco depois, Toplady agradeceu a deus; mas o que terá feito o novo vigário não sabemos. Borrow, na sua Bible in Spain, relembra como atravessou incólume um desfiladeiro infestado de bandidos. O grupo que viajava atrás deles, contudo, foi emboscado, roubado e alguns dos seus membros assassinados; quando Borrow tomou conhecimento do que sucedera, agradeceu a deus, como fez Toplady.

      Embora aprendamos a astronomia copernicana nos manuais escolares, esta ainda não penetrou no nosso sentido religioso ou moral, e nem sequer conseguiu destruir a crença na astrologia. As pessoas ainda acreditam que o desígnio divino favorece os homens e que uma providência especial não só olha pelos bons, como também castiga os maus. Sinto-me por vezes chocado com as blasfêmias daqueles que se julgam piedosos — por exemplo, as freiras que nunca tomam banho sem ter um roupão permanentemente vestido. Quando se lhes pergunta a razão, dado que nenhum homem as pode observar, respondem: “Oh, mas não podemos esquecer o bom deus”. Ao que parece, imaginam deus como um voyeur cuja onipotência lhe permite ver através das paredes da casa de banho, mas que é frustrado por um roupão. Este modo de ver as coisas deixa-me perplexo.

      Todo o conceito de “pecado” me parece deveras intrigante, sem dúvida por causa da minha natureza pecaminosa. Se o “pecado” consistisse em provocar sofrimento desnecessário, podia compreendê-lo; mas, pelo contrário, o pecado consiste normalmente em evitar o sofrimento desnecessário. Há alguns anos, na Câmara dos Lordes em Inglaterra, introduziu-se uma moção para legalizar a eutanásia em casos de doença incurável e dolorosa. Seria necessário o consentimento do paciente, assim como de vários certificados médicos. Para mim, na minha ingenuidade, parece natural exigir o consentimento do paciente, mas o antigo Arcebispo de Cantuária, especialista oficial em pecado na Inglaterra, explicou a incorreção desse ponto de vista. O consentimento do paciente transforma a eutanásia em suicídio e o suicídio é pecado. Suas Senhorias escutaram a voz da autoridade e rejeitaram a moção. Consequentemente, para agradar ao Arcebispo e ao seu deus, a acreditarmos nas suas palavras — as vítimas de câncer têm ainda de suportar meses de agonia perfeitamente inútil, a menos que os seus médicos ou enfermeiros se mostrem suficientemente humanos a ponto de arriscarem uma acusação de homicídio. Considero problemática a ideia de um deus que retira prazer da contemplação de tais tormentos; e caso houvesse um deus capaz de tal crueldade gratuita, seguramente que não o consideraria digno de qualquer veneração. Mas isso apenas mostra a que ponto fui corrompido pela depravação moral.

      Intrigam-me igualmente as coisas que se considera ou não ser pecado. Quando a Associação Protetora dos Animais solicitou ao papa o seu apoio, este recusou-o, sob o pretexto de que os seres humanos não têm quaisquer obrigações para com os animais inferiores e que a crueldade para com os animais não é pecado. Isto se deveria ao fato de os animais não terem alma. Por outro lado, é pecado casar com a irmã da esposa defunta — pelo menos é o que ensina a igreja — por muito que ambos desejem casar. Isto não se deve a qualquer infelicidade que daí resulte, mas a certas passagens na Bíblia.

      A ressurreição do corpo, um artigo de fé dos apóstolos, é um dogma com várias consequências curiosas. Havia um autor, há não muitos anos, que tinha um engenhoso método de calcular a data do fim do mundo. Argumentava que tem de haver ingredientes necessários ao corpo humano em quantidade suficiente para garantir a presença de todos no dia do juízo. Calculando cuidadosamente a matéria-prima disponível, concluiu que a dada altura toda esta teria sido já consumida. Quando tal data chegar, o mundo tem de acabar, pois de outro modo a ressurreição do corpo seria impossível. Infelizmente esqueci-me da data, mas creio que não falta assim tanto.

      S. Tomás de Aquino, o filósofo oficial da igreja católica, discutiu em profundidade um problema bastante sério, o qual receio que os teólogos modernos subestimem indevidamente. Imagina um canibal, que nunca comeu outra coisa que não carne humana e cujos pais tinham tendências similares. Cada partícula do seu corpo pertence por direito a outra pessoa. Não é razoável supor que todos os que foram devorados por canibais tenham de minguar por toda a eternidade. Mas, se assim for, o que restará ao canibal? Como será devidamente assado no inferno se todo o seu corpo for devolvido aos legítimos donos? Esta é uma questão intrigante, como o santo justamente percebe.

      No que respeita a este assunto, a ortodoxia tem uma curiosa objeção à cremação, o que parece denunciar uma compreensão insuficiente da onipotência divina. Presume-se que deus terá mais dificuldade em regenerar um corpo que foi cremado do que um corpo enterrado e convertido em vermes. Sem dúvida que recolher as partículas do ar e reverter todo o processo químico da combustão seria bastante trabalhoso, mas é seguramente blasfemo supor que tal tarefa é impossível para a divindade. Concluo que a objeção à cremação implica uma grave heresia. Mas duvido que a minha opinião tenha grande peso entre os ortodoxos.

      Foi só muito lenta e relutantemente que a igreja aceitou a dissecação de cadáveres associada ao estudo da medicina. O pioneiro da dissecação foi Vesalius, médico da corte do Imperador Carlos V. A sua perícia médica fez o imperador protegê-lo, mas depois da morte do imperador ficou em apuros. Espalhou-se o rumor de que um cadáver que Vesalius dissecava mostrou sinais de vida sob o escalpelo e acusaram-no de homicídio. O Rei Filipe II solicitou à inquisição que agisse com tolerância, condenando-o apenas a uma peregrinação à terra santa. De regresso a casa sofreu um naufrágio e morreu de exaustão. Séculos depois, os estudantes de medicina na Universidade Papal de Roma só podiam operar manequins, dos quais se omitiam os órgãos sexuais.

      O caráter sagrado dos cadáveres é uma crença comum. Foi levada ao extremo pelos egípcios, entre os quais resultou na prática da mumificação. Ainda existe em força na China. Um cirurgião francês, contratado pelos chineses para ensinar medicina ocidental, relata que o seu pedido de cadáveres para dissecar foi recebido com grande horror, embora lhe assegurassem que podia receber, ao invés, um fornecimento ilimitado de criminosos vivos. A sua objeção a esta alternativa era completamente ininteligível para os seus patrões chineses.

      Embora haja muitas formas de pecado, sendo sete mortais, o campo mais fértil para os artifícios de Satã é o sexo. A doutrina católica ortodoxa a este respeito encontra-se em S. Paulo, Santo Agostinho e S. Tomás de Aquino. O melhor é ser celibatário, mas aqueles que não têm o dom da continência podem casar. O ato sexual no casamento não é pecado, desde que causado pelo desejo de procriar. Todo o ato sexual fora do casamento é pecado, assim como o ato sexual no casamento se se usar qualquer método contraceptivo. A interrupção da gravidez é pecado, mesmo se, em termos médicos, for a única maneira de salvar a vida da mãe; visto que a opinião médica é falível e deus poderá sempre salvar uma vida por milagre, se assim o entender. (Este ponto de vista tem expressão na lei do Connecticut.) As doenças venéreas são castigo divino pelo pecado. É verdade que, por meio de um marido culpado, este castigo pode recair sobre uma mulher inocente e os seus filhos, mas neste caso trata-se de uma misteriosa exceção da providência, que seria ímpio questionar. Não devemos igualmente perguntar por que razão as doenças venéreas não foram instituídas por decreto divino antes do tempo de Colombo. Dado tratar-se do castigo oficial para o pecado, todas as medidas tomadas para o evitar são igualmente pecado — à exceção, como é óbvio, de uma vida virtuosa. O casamento é nominalmente indissolúvel, embora muita gente que pareça casada não o seja de fato. No caso de católicos influentes, pode-se frequentemente encontrar razões para uma anulação, mas para os pobres não há tal escapatória, exceto talvez em casos de impotência. As pessoas que se divorciam e voltam a casar são culpadas de adultério aos olhos de deus.

      A expressão “aos olhos de deus” intriga-me. Seria de supor que deus vê tudo, mas aparentemente não é assim. Ele não vê Reno, pois não se pode ser divorciado aos olhos de deus. Os ofícios públicos são testemunho duvidoso. Tenho reparado que as pessoas respeitáveis, que jamais visitariam alguém que viva abertamente em pecado, se dispõem a visitar pessoas que se casaram apenas pelo registro civil; de maneira que aparentemente deus vê os ofícios públicos.

      Alguns homens importantes acham mesmo que a doutrina da igreja católica é lamentavelmente permissiva no que diz respeito ao sexo. Tolstoy e Mahatma Ghandi, na velhice, afirmaram que todo o ato sexual é perverso, mesmo dentro do casamento e com o intuito de procriar. Os maniqueístas pensavam da mesma maneira, seguros de que a perversidade natural dos homens lhes renovaria constantemente as fileiras de discípulos. Esta doutrina, contudo, é herética, embora seja igualmente herético defender que o casamento é tão louvável como o celibato. Tolstoy acha que o tabaco é quase tão mau como o sexo; num dos seus romances, um homem que pensa cometer um assassínio fuma primeiro um cigarro, de modo a gerar a necessária fúria homicida. O tabaco, contudo, não é proibido pelas escrituras, ainda que, como Samuel Butler observa, S. Paulo o tivesse seguramente condenado, caso soubesse da sua existência.

      É estranho que nem a igreja nem a opinião pública moderna condenem as carícias, desde que parem a dada altura. A partir de que momento começa o pecado é assunto a respeito do qual os casuístas discordam. Um eminente teólogo católico conservador afirmou que um confessor pode acariciar os seios de uma freira, desde que o faça sem perversidade. Mas duvido que as autoridades contemporâneas concordem com ele neste ponto.

      A moral moderna é uma mistura de dois elementos: preceitos racionais sobre a coexistência pacífica em sociedade, por um lado, e tabus tradicionais que vêm de superstições antigas, por outro, mas mais próximas dos livros sagrados, cristãos, islâmicos, hindus ou budistas. Até certo ponto, ambos são compatíveis; a proibição do homicídio e do roubo, por exemplo, tem fundamento quer na razão humana quer no mandamento divino. Mas a proibição de comer carne de porco tem apenas a sustentação da autoridade teológica e ainda assim apenas em algumas religiões. É estranho que os homens modernos, conscientes do que a ciência tem feito no sentido de produzir novos conhecimentos e alterar as condições da vida social, se disponham ainda a aceitar a autoridade de textos que dão voz às opiniões de sociedades tribais, pastorais ou agrícolas, bastante antigas e ignorantes. É desanimador que muitos dos preceitos cujo caráter sagrado é assim tão acriticamente aceito sejam de uma natureza tal que infligem grande quantidade de sofrimento absolutamente desnecessário. Se os impulsos altruístas do homem fossem mais fortes, este encontraria maneira de explicar que não se deve tomar à letra tais preceitos, como não se toma à letra o mandamento que diz “vende tudo o que tens e dá-o aos pobres”.

      A ideia de pecado levanta algumas dificuldades lógicas. Dizem-nos que o pecado consiste na desobediência aos mandamentos de deus, mas também que deus é onipotente. Se o é, nada que fosse contrário à sua vontade poderia acontecer; portanto, se o pecador desobedece às suas ordens, deus tem de ter pretendido que tal acontecesse. Santo Agostinho aceita arrojadamente este ponto de vista e defende que os homens são levados a pecar por força de uma cegueira com que deus os aflige. Mas, na sua maior parte, os teólogos hoje em dia sentem que, se deus leva o homem a pecar, não é justo mandá-lo para o inferno por algo que ele não pode evitar. Dizem-nos que pecar é agir contra a vontade de deus. Isto, contudo, não afasta a dificuldade. Aqueles que, como Espinosa, levam a sério a onipotência divina, deduzem que não pode existir algo como o pecado. Isto leva a consequências terríveis. “Quê!” Exclamaram os contemporâneos de Espinosa, não foi Nero perverso ao assassinar a mãe? Não foi Adão perverso ao comer a maçã? Será que qualquer ação é tão boa como qualquer outra? Espinosa retraiu-se, mas não encontrou uma resposta satisfatória. Se tudo acontece de acordo com a vontade divina, deus tem de ter pretendido que Nero assassinasse a mãe; portanto, como deus é bom, o homicídio teve de ser uma coisa boa. Não há como fugir a este argumento.

      Por outro lado, os que estão mais convictos de que o pecado é a desobediência a deus sentem-se forçados a afirmar que deus não é onipotente. Esta solução evita todos os puzzles lógicos e é o ponto de vista adotado por uma certa escola de teólogos liberais. Tem, contudo, as suas próprias dificuldades. Como podemos saber o que é realmente a vontade de deus? Se as forças do mal têm algum poder, podem levar-nos a aceitar como escritura aquilo que é na verdade obra sua. Era este o ponto de vista dos gnósticos, que consideravam o antigo testamento produto de um espírito maligno.

      Witch-scene4Assim que abandonamos a nossa própria racionalidade e nos contentamos com a autoridade, as nossas atribulações não têm fim. Autoridade de quem? Do antigo testamento? Do novo testamento? Do Corão? Na prática, as pessoas escolhem o livro que é tido como sagrado pela comunidade em que nascem, escolhendo desse livro as partes que lhes agradam, ignorando outras. A dada altura, o texto mais influente da bíblia era: “Não tolerarás que uma bruxa sobreviva” (Êxodo 22,18). Hoje em dia, as pessoas ignoram esta passagem, em silêncio se possível; se não, com uma desculpa. Assim, mesmo quando temos um livro sagrado, continuamos a eleger como verdade seja o que for que convenha aos nossos próprios preconceitos. Nenhum católico, por exemplo, leva a sério o texto que afirma que o bispo deve ser marido de uma esposa.

      As crenças das pessoas são causadas por várias coisas. Uma delas é haver um fundamento para a crença em questão. Aplicamos esta regra a questões de fato, como “qual é o número de telefone de fulano?” ou “quem ganhou o campeonato de basebol?” Mas mal passamos a assuntos mais controversos, o fundamento das crenças torna-se menos defensável. Acreditamos, sobretudo, naquilo que nos faz sentir bem conosco próprios. Sr. Fulano, se não sofre do estômago e tem um bom rendimento, pensa para consigo como é mais sensível que o vizinho Sr. Sicrano, que casou com uma mulher caprichosa e perde dinheiro constantemente. Pensa como a sua cidade é superior à cidade vizinha, a 50 milhas de distância: tem uma câmara de comércio mais ampla, uma Fundação Rotária mais empreendedora, além de que o seu presidente da câmara nunca esteve preso. Pensa como o seu país supera tão indiscutivelmente os demais. Se é inglês, pensará em Shakespeare e Milton, em Newton ou Darwin, em Nelson ou Wellington, conforme o seu temperamento. Se é francês, rejubilar-se-á com o fato de durante séculos a França ter liderado o mundo no que diz respeito à cultura, à moda e à culinária. Se é russo, refletirá em como pertence ao único estado é verdadeiramente internacional. Se é jugoslavo, gabar-se-á da suinicultura nacional; se vive no principado do Mônaco, gabar-se-á de liderar o mundo no que respeita a cassinos.

      Mas estes não são os seus únicos motivos de orgulho. Não pertence ele à espécie dos homo sapiens? Os únicos seres do reino animal que têm almas imortais, além de racionalidade; sabe distinguir entre o bem e o mal e aprendeu a tabela da multiplicação. Não é verdade que deus o criou à sua imagem? Não foi tudo criado para o conforto do homem? O sol foi criado para iluminar os dias, a lua para iluminar a noite — embora a lua, devido a algum lapso, apenas ilumine durante metade da noite. Os frutos da terra existem para a subsistência humana. Até as caudas brancas dos coelhos, segundo alguns teólogos, têm um propósito, nomeadamente, tornar mais fácil a sua detecção pelos que praticam o desporto da caça. Há, de fato, alguns inconvenientes: os leões e os tigres são ferozes, o Verão é muito quente, o Inverno demasiado frio. Mas tais coisas só começaram depois de Adão ter comido a maçã; antes disso, todos os animais eram vegetarianos, a Primavera durava todo o ano. Se ao menos Adão se tivesse contentado com pêssegos e nectarinas, uvas, peras e ananases, tais bênçãos ainda seriam nossas.

      O orgulho, individual ou coletivo, é a raiz da maior parte das nossas crenças religiosas. Até o pecado é um conceito derivado do orgulho. Borrow conta-nos como encontrou um pregador galês que estava sempre triste. Ao ser amigavelmente questionado acabou por revelar a causa da sua tristeza: que com a idade de sete anos cometera um pecado contra o espírito santo. “Meu caro amigo”, exclamou Borrow, “não se deixe perturbar por isso; conheço dezenas de pessoas na mesma situação. Não pense que tal coisa o distingue do resto da humanidade; se perguntar, encontrará multidões de pessoas que sofrem da mesma infelicidade.” Desse momento em diante, o homem ficou curado. Ser-se único é uma coisa, mas pertencer a um rebanho de pecadores não tem piada. A maior parte dos pecadores é muito autocentrada; mas os teólogos gostam sem dúvida de sentir que o homem é objeto peculiar da fúria divina, bem como do seu amor. Depois da queda — segundo Milton — “O sol recebeu primeiramente ordens para se mover e brilhar de modo a afligir a Terra com frio e calor quase intoleráveis, para invocar do norte o decrépito Inverno, do sul o solsticial calor de Verão.”

      Por muito desagradáveis que fossem as consequências, Adão não podia deixar de se sentir algo lisonjeado com o fato de se causar acontecimentos astronômicos de tal amplitude só para lhe ensinar uma lição. Toda a teologia, tanto no que diz respeito ao inferno como ao céu, pressupõe que o homem é a mais importante das criaturas no universo. Visto que todos os teólogos são humanos, tal postulado não tem sofrido muitas objeções.

      Desde que o evolucionismo entrou na moda, a glorificação do homem ganhou nova expressão. Dizem-nos que a evolução foi orientada por um grande desígnio: ao longo dos milhões de anos em que apenas havia lama e trilobitas, ao longo da era dos dinossauros e fetos gigantes, das abelhas e flores silvestres, deus preparava o grande clímax. Por fim, chegado o momento, criou o homem, inclusive espécimes como Nero e Calígula, Hitler e Mussolini, cuja glória transcendente justifica o longo e doloroso processo. A meu ver, até a condenação eterna parece menos incrível, e seguramente menos ridícula, do que esta conclusão inepta e vazia que nos convidam a admirar como maior feito da onipotência. Mas se deus é de fato onipotente, por que não produziu o glorioso resultado sem um prólogo tão extenso e monótono?

      Para lá da questão de saber se o homem é tão glorioso como os teólogos da evolução afirmam, temos a dificuldade adicional de que a vida neste planeta é quase seguramente temporária. A Terra esfriará, a atmosfera desaparecerá, haverá escassez de água ou, como Sir James Jeans genialmente profetiza, o sol explodirá e os planetas transformar-se-ão em gás. O que acontecerá primeiro, ninguém sabe; mas em todo o caso a humanidade acabará por perecer. Como é óbvio, tal acontecimento é de somenos importância do ponto de vista da teologia ortodoxa, visto que os homens são imortais e continuarão a existir no céu e no inferno quando já ninguém restar ao cimo da terra. Mas, nesse caso, por que preocupar-se com o curso dos acontecimentos terrestres? Os que sublinham a lenta progressão que vai do lodo primordial ao homem atribuem um valor a esta esfera mundana, o que os devia afastar da conclusão de que toda a vida na terra é apenas um breve interlúdio que separa a névoa do gelo eterno, ou talvez uma névoa de outra. A importância do homem, a qual constitui o único dogma indispensável dos teólogos, não tem qualquer fundamento à luz de uma visão científica sobre o futuro do sistema solar.

(Continua na Parte 2 e na Parte 3)

Autor: Bertrand Russell

Tradução:Vítor Guerreiro

Fonte: Crítica

Original: Unpopular Essays (Routledge, 1995)

Bertrand Russell, 1951

“Este artigo não expressa necessariamente uma opinião do MZ, mas de seu autor.

O mérito está na contribuição para a discussão da linha de pensamento defendida pelo movimento.”

You may also like...

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>