— Introdução ao Pensamento Crítico — Um esboço do lixo intelectual (Parte 2)

Quadro 2 PCTexto de Bertrand Russell com tradução de Vítor Guerreiro, publicado pelo site ateus.net

Parte 2 de 3 (acesse a Parte 1)

Publicado originalmente em 1943

      Há muitas outras fontes de crenças falsas além do orgulho. Uma delas é a atração pelo maravilhoso. Conheci em tempos um prestidigitador imbuído de espírito científico, que tinha o hábito de executar os seus truques diante de uma pequena audiência, e que mais tarde fazia cada um deles, individualmente, escrever o que tinha visto acontecer. Escreviam quase sempre algo mais impressionante do que aquilo que realmente acontecera e, normalmente, algo que nenhum prestidigitador seria capaz de fazer; no entanto todos supunham relatar de modo fidedigno o que tinham testemunhado com os próprios olhos. Este tipo de falsificação é ainda mais comum no que diz respeito a boatos. A diz a B ter visto o Sr. X, eminente defensor da lei seca, na noite anterior, ligeiramente tocado pelo álcool; B diz a C que A viu o pobre homem a cair de bêbado, C diz a D que o senhor foi retirado inconsciente de uma sarjeta, D diz a E que o indivíduo tem fama de desmaiar todas as noites. Aqui, de fato, entra em jogo outro motivo, nomeadamente a malícia. Gostamos de pensar mal dos nossos vizinhos, e estamos preparados para acreditar no pior com base nos indícios mais frágeis. Mas mesmo quando não há tal motivo, o maravilhoso é sempre objeto de fé a menos que contrarie um preconceito arraigado. Toda a historiografia até ao século XVIII está cheia de prodígios e maravilhas que os historiadores modernos ignoram, não porque relativamente a outros fatos, aceitos pelos historiadores, careçam de testemunho, mas porque hoje em dia o gosto acadêmico é mais sensível às entidades que a ciência considera prováveis. Shakespeare relata como na noite anterior ao homicídio de César “um vulgar escravo — conhecem-no bem de vista — levantou a mão esquerda, que se incendiou e ardeu como vinte tochas juntas; e contudo a sua mão, insensível ao fogo, permaneceu ilesa. Além disso — desde então que não ergo a minha espada — contra o Capitólio avistei um leão, que me fitou e passou por mim, mal-humorado, sem me molestar; e cem mulheres horríveis se juntaram, tão transtornadas pelo medo que juravam ter visto homens em chamas rua acima e rua abaixo.”

      Shakespeare não inventou tais prodígios; encontrou-os em respeitados historiadores, que se contam entre aqueles de quem depende o conhecimento que temos de Júlio César. Era normal acontecer este tipo de coisas quando morria um grande homem ou quando se iniciava uma guerra importante. Mesmo há tão pouco tempo como em 1914 os “anjos de Mons” encorajaram as tropas britânicas. O testemunho de tais acontecimentos raramente é dado em primeira mão e os historiadores modernos recusam aceitá-los, exceto, claro, quando o acontecimento tem importância religiosa.

      Todas as emoções poderosas tendem a gerar mitos. Quando a emoção é característica de um indivíduo, este é considerado mais ou menos louco conforme acredite nas suas próprias fantasias. Mas quando uma emoção é coletiva, como no caso da guerra, não há quem critique os mitos que vão surgindo naturalmente. Daqui resulta que em todas as épocas de grande excitação coletiva os rumores sem fundamento são objeto de fé em larga escala. Em Setembro de 1914, quase toda a gente em Inglaterra acreditava que as tropas russas tinham passado por Inglaterra a caminho da frente ocidental. Toda a gente conhecia alguém que os vira, embora ninguém os tivesse visto por si próprio.

     A capacidade de produzir mitos associa-se normalmente à crueldade. Desde a idade média que os judeus são acusados de praticar homicídios rituais. Esta acusação não tem o mínimo de fundamento, e ninguém no seu perfeito juízo que tenha investigado o assunto acredita nisso. Não obstante, a crença persiste ainda. Conheci russos brancos convencidos da verdade de tal ideia, que é também acriticamente aceita por muitos nazistas. Tais mitos dão uma desculpa para se infligir sofrimento e a fé cega nesses mitos atesta o desejo inconsciente de encontrar uma vítima a quem perseguir.

      Até ao fim do século XVIII havia uma teoria segundo a qual a loucura resulta de possessão demoníaca. Concluía-se que qualquer dor sofrida pelo paciente era também sofrida pelos demônios, de modo que a cura mais eficaz era fazer o paciente sofrer de tal modo que os demônios decidissem abandoná-lo. À luz desta teoria, espancava-se brutalmente os doentes mentais. Quando enlouqueceu, o Rei Jorge III foi submetido ao mesmo tratamento, sem sucesso. É um fato curioso e infeliz que quase todos os tratamentos fúteis em que se acreditava durante a longa história da palermice na medicina tenham a característica de provocar grande sofrimento nos doentes. Quando se descobriu os anestésicos, as pessoas religiosas consideravam-nos uma tentativa de fugir à vontade divina. No entanto, sublinhava-se que deus, quando extraiu uma costela a Adão, o fez cair num sono profundo. Isto provava que as anestesia é aceitável no caso dos homens; as mulheres, contudo, tinham de sofrer, devido à maldição de Eva. No ocidente, os direitos das mulheres mostraram a falsidade de tal doutrina, mas no Japão, até aos dias de hoje, não se dá qualquer alívio através de anestésicos às mulheres em trabalho de parto. Como os japoneses não acreditam no Gênesis, este tipo de sadismo tem de ter outra justificação qualquer.

      As falácias acerca do “sangue” e da “raça”, que sempre foram populares e às quais os nazistas deram expressão no seu credo oficial, não têm qualquer justificação objetiva; só são objeto de crença por satisfazerem o orgulho e a tendência para a crueldade. De uma ou outra maneira, tais crenças são tão antigas quanto a civilização; embora mudem de forma, a sua essência permanece. Heródoto relata-nos como Ciro foi criado por camponeses, ignorando por completo a sua ascendência real; com a idade de doze anos, a sua atitude monárquica para com os outros rapazes denunciou a verdade. Esta é a variante de uma velha história presente em todas as nações indo-europeias. Mesmo na atualidade as pessoas têm o hábito de dizer que “o sangue fala mais alto”. É indiferente que a psicologia científica assegure ao mundo não haver qualquer diferença entre o sangue de um negro e o sangue de um branco. A Cruz Vermelha norte-americana, em conformidade com os preconceitos populares, a princípio, quando os Estados Unidos se viram envolvidos na atual guerra, decretou que não se devia usar o sangue dos negros para transfusões. Na sequência de protestos, consentiu-se no uso de sangue de negros, mas apenas em pacientes negros. De igual modo, na Alemanha, o soldado ariano que precise de uma transfusão sanguínea é zelosamente protegido da contaminação com sangue judeu.

     colored No que diz respeito à raça, diversas sociedades têm crenças diferentes. Onde a monarquia se encontra firmemente estabelecida, os reis pertencem a uma raça superior à dos seus súditos. Até há muito pouco tempo acreditava-se universalmente que os homens eram por natureza superiores em inteligência às mulheres; até mesmo um homem tão esclarecido como Espinosa era contrário ao voto feminino com base em tal ideia. Entre os homens brancos, acredita-se que os homens brancos são por natureza superiores aos homens de outras cores, particularmente aos negros; no Japão, pelo contrário, pensa-se que o amarelo é a melhor das cores. No Haiti, quando se esculpem figuras de Cristo e de Satã, fazem-se Cristos negros e Satãs brancos. Aristóteles e Platão consideravam os gregos tão naturalmente superiores aos bárbaros que a escravatura era justificada desde que o senhor fosse grego e o escravo bárbaro. Os nazistas e os legisladores norte-americanos que fizeram as leis de imigração consideram os nórdicos superiores aos eslavos, latinos ou quaisquer outros homens brancos. Mas os nazistas, sob o esforço da guerra, chegaram à conclusão que quase não existem verdadeiros nórdicos fora da Alemanha; os noruegueses, exceto Quisling e os seus poucos seguidores, foram corrompidos pela miscigenação com os finlandeses, lapônios e outros que tais. Assim, a política denuncia a ascendência. O nórdico biologicamente puro adora Hitler, e quem não adora Hitler é porque tem o sangue contaminado.

      Tudo isto é, obviamente, um disparate pegado, e como tal reconhecido por qualquer estudioso da matéria. Nas escolas americanas, as crianças das mais diversas origens são submetidas ao mesmo sistema educativo, e aqueles a quem cabe medir os quocientes de inteligência e de qualquer outro modo avaliar a capacidade inata dos estudantes são incapazes de fazer essas distinções raciais tal como os teorizadores da raça as postulam. Em todos os grupos nacionais ou raciais há crianças inteligentes e crianças estúpidas. Não é provável que nos Estados Unidos as crianças negras se desenvolvam tão integralmente como as crianças brancas devido ao estigma da inferioridade social; mas na medida em que podemos diferenciar a capacidade inata da influência do meio, não há fronteiras nítidas entre os vários grupos. O próprio conceito de raça superior é apenas um mito produzido pela megalomania de quem exerce o poder. Talvez um dia possamos dispor de melhores dados empíricos; talvez, com o tempo, os educadores possam provar (por exemplo) que os judeus são em média mais inteligentes do que os gentios. Mas por enquanto não há tal informação e todo o discurso sobre raças superiores deve ser posto de parte como disparate.

      Há algo de particularmente absurdo na tentativa de aplicar teorias raciais às diversas populações da Europa. Nada há na Europa que se assemelhe a uma raça pura. Os russos têm uma percentagem de sangue tártaro, os germanos são em grande parte eslavos, a França é uma mistura de celtas, germanos e povos do Mediterrâneo, a Itália a mesma coisa, com a adição de escravos importados pelos romanos. Os ingleses são talvez o povo mais miscigenado de todos. Não há quaisquer provas de que pertencer a uma raça superior seria uma vantagem. As raças mais puras que atualmente existem são os pigmeus, os hotentotes e os aborígenes australianos; os nativos da Tasmânia, que talvez fossem ainda mais puros, extinguiram-se. Não foram portadores de uma cultura brilhante. Os antigos gregos, por outro lado, emergiram de uma amálgama de bárbaros nórdicos e populações indígenas; os atenienses e os jônios, que eram os mais civilizados, eram também os mais misturados. Os supostos méritos da pureza racial são, ao que parece, totalmente imaginários.

      As superstições relacionadas com o sangue têm muitas formas que nada têm a ver com a raça. A objeção ao homicídio parece ter tido origem na poluição ritual provocada pelo sangue da vítima. Deus disse a Caim: “A voz do sangue do teu irmão chegou-me aos ouvidos a partir do solo”. De acordo com alguns antropólogos, a marca de Caim era um disfarce para impedir que o sangue de Abel o encontrasse; esta parece ser também a razão original para usar luto. Em algumas culturas antigas não se distinguia entre o homicídio e o homicídio involuntário; em qualquer caso era necessária a ablução ritual. O sentimento de que o sangue polui ainda persiste, por exemplo, na ação de graças das mulheres que acabam de dar à luz e nos tabus ligados à menstruação. A ideia de que uma criança é do “sangue” do pai tem a mesma origem supersticiosa. No que diz respeito a sangue, materialmente falando, o da mãe entra na criança, mas não o do pai. Se o sangue fosse tão importante como se imagina, o matriarcado seria a única forma adequada de traçar a descendência.

      Na Rússia, onde, sob a influência de Karl Marx, desde a revolução se classifica as pessoas segundo a sua origem econômica, surgiram dificuldades semelhantes àquelas que os teorizadores germânicos da raça tiveram com os nórdicos escandinavos. Havia duas teorias a conciliar: por um lado, os proletários eram bons e as outras pessoas más; por outro lado, os comunistas eram bons e as outras pessoas más. A única forma de as conciliar era mudando o sentido das palavras. Um “proletário” passou a ser um apoiante do governo; Lenine, embora nascido em berço de ouro, foi reconhecido como membro do proletariado. Por outro lado, a palavra “kulak”, que supostamente referia os camponeses ricos, acabou por designar qualquer camponês que se opusesse à coletivização. Este tipo de absurdos surge sempre que um grupo de seres humanos se presume por inerência melhor do que outros. Na América, o melhor elogio que se pode fazer a um eminente homem negro depois de este estar pacificamente morto é exclamar “era um homem branco”. Chama-se “viril” a uma mulher corajosa: MacBeth, louvando a coragem da esposa, exclama: “Gerai apenas filhos homens, pois o vosso espírito intrépido não deve produzir senão machos.” Todas estas formas de expressão vêm da relutância em abandonar as generalizações tolas.

      Na esfera econômica há várias superstições largamente aceitas. Por que valorizam as pessoas o ouro e as pedras preciosas? Não é só pela raridade: há vários elementos denominados “metais raros” que são muito mais escassos do que o ouro, mas ninguém dará um centavo por eles, exceto alguns cientistas. Há uma teoria, que tem muito que se lhe diga, de que o ouro e as pedras preciosas eram originalmente valorizados devido às suas supostas propriedades mágicas. Os erros dos governos modernos parecem mostrar que esta crença ainda existe entre as pessoas de quem dizemos terem “sentido prático”. No final da última guerra, concordou-se que a Alemanha teria de pagar quantias avultadas à França e Inglaterra, que por sua vez pagariam quantias avultadas aos Estados Unidos. Todos preferiam ser pagos em dinheiro e não em bens ou serviços; os homens “práticos” não repararam que não havia no mundo tal quantidade de dinheiro. Também não repararam que o dinheiro de nada serve a menos que seja usado para adquirir bens ou serviços. Como não o iam gastar desta forma, de nada adiantou a pessoa alguma. Supunha-se que o ouro tinha uma virtude mística que justificava escavá-lo no Transvaal para voltar a metê-lo num subterrâneo, em cofres-fortes, na América. Os países devedores acabaram sem dinheiro e uma vez que não podiam pagar em bens, seguiu-se o desastre financeiro. A grande depressão foi consequência direta de uma crença persistente nas propriedades mágicas do ouro. É de recear que uma superstição semelhante provoque males de igual magnitude após a guerra atual. A política é em grande parte dominada por estribilhos moralistas desprovidos de qualquer verdade.

      Uma das máximas populares mais disseminadas é: “não se pode mudar a natureza humana”. Ninguém pode saber se isto é verdadeiro ou falso sem antes definir “natureza humana”. Mas do modo como se usa o termo é seguramente falso. Quando o Sr. A profere esta máxima, com ares de solene e irrepreensível sabedoria, o que quer dizer é que todos os homens em toda a parte se vão comportar sempre do mesmo modo que os homens da sua terra natal. Um pouco de antropologia desacreditará esta crença. Entre os tibetanos, uma esposa tem vários maridos, porque os homens são demasiado pobres para sustentar por si sós uma mulher; contudo a vida familiar, segundo narram os viajantes, não é mais infeliz que em qualquer outro lado. A prática de emprestar a mulher a um hóspede é muito comum entre as tribos incivilizadas. Os aborígenes australianos, durante a puberdade, sofrem um doloroso procedimento que lhes diminui drasticamente a potência sexual para o resto da vida. O infanticídio, que poderá parecer contrário à natureza humana, era praticamente universal até ao surgimento do cristianismo, e Platão recomenda-o para controlar o excesso demográfico. Algumas tribos selvagens não reconhecem a propriedade privada. Mesmo entre povos bastante civilizados, as considerações econômicas ganham precedência sobre aquilo a que se chama “natureza humana”. Em Moscovo, onde há grande escassez de habitações, quando uma mulher solteira engravida, acontece vários homens disputarem o direito legal a ser reconhecidos como pai da futura criança, porque quem quer que seja considerado pai adquire o direito de partilhar o quarto da mulher e meio quarto é melhor do que nenhum quarto.

      Na verdade, a “natureza humana” adulta é extraordinariamente volúvel, segundo as condições em que foi educada. A comida e o sexo são requisitos bastante gerais, mas os eremitas da Tebaida abstinham-se completamente de sexo e reduziam o consumo de comida ao mínimo necessário à sobrevivência. Através do jejum e do treino, as pessoas podem tornar-se ferozes ou submissas, poderosas ou escravas, consoante os fins do educador. Não há disparate, por mais absurdo que seja, que não se possa converter em credo da maioria através da ação governativa adequada. Platão pretendia que a sua república assentasse num mito que ele próprio admitia ser absurdo, embora estivesse convencido, com razão, de que era possível fazer as pessoas acreditar nele. Hobbes, que achava importante as pessoas respeitarem o governo, por muito indigno que este possa ser, rejeita o argumento de que poderá ser difícil obter a aceitação coletiva de algo tão irracional, chamando a atenção para que as pessoas foram persuadidas a aceitar a fé cristã e em particular a doutrina da transubstanciação. Se Hobbes fosse vivo agora, encontraria fortes indícios disto na devoção dos jovens alemães ao nazismo.

      O poder dos governos sobre as crenças dos homens tem sido enorme desde a ascensão dos grandes estados. Na sua grande maioria os romanos tornaram-se cristãos depois de os imperadores romanos se terem convertido. Nas regiões do império romano conquistadas pelos árabes, as pessoas trocaram majoritariamente o cristianismo pelo islamismo. A divisão da Europa ocidental em regiões protestantes e católicas foi determinada pela atitude dos governos no século XVI. Mas o poder dos governos sobre as crenças é muito mais vasto nos dias de hoje do que em qualquer momento da antiguidade. Uma crença, por muito falsa que seja, é importante quando controla as ações de grandes massas humanas. Neste sentido, as crenças inculcadas pelos governos japonês, russo e alemão são importantes. Visto serem completamente divergentes, não podem ser todas verdadeiras, embora possam ser todas falsas. Infelizmente têm o poder de inspirar aos homens o desejo ardente de se matarem uns aos outros, mesmo ao ponto de inibir quase por completo o instinto de autopreservação. Ninguém pode negar, face aos indícios disponíveis, que é fácil, uma vez garantido o poder militar, produzir uma população de lunáticos fundamentalistas. Talvez fosse igualmente fácil produzir uma população de gente razoável e sã, mas muitos governos preferem não o fazer, visto que essas pessoas seriam incapazes de sentir admiração pelos políticos que lideram tais governos.

Warner_Brothers_television_westerns_stars_1959      Há uma aplicação particularmente nociva da doutrina de que a natureza humana é imutável. Trata-se da afirmação dogmática de que sempre haverá guerras, porque somos feitos de tal modo que sentimos necessidade delas. A verdade é que um homem que teve uma dieta e uma educação semelhante à dos outros na sua maioria desejará reagir se o provocam. Mas não irá realmente lutar a menos que tenha hipótese de vencer. É extremamente desagradável ser parado por um polícia de trânsito, mas não vamos lutar com ele porque sabemos que tem atrás de si a esmagadora força do estado. As pessoas que não têm oportunidade de fazer a guerra não exibem qualquer disfunção psicológica óbvia. A Suécia não teve uma única guerra desde 1814, mas os suecos eram, há alguns anos, uma das nações mais felizes e satisfeitas do mundo. Duvido que ainda o sejam, mas isso porque, apesar da sua neutralidade, não conseguem evitar muitos dos males da guerra. Se a organização política fosse orientada para tornar a guerra obviamente desvantajosa do ponto de vista do lucro, nada haveria na natureza humana que tornasse forçoso a ocorrência da guerra ou que fizesse as pessoas infelizes na sua ausência. Os mesmíssimos argumentos que hoje se usa para defender a impossibilidade da paz foram em tempos usados para defender a prática dos duelos, e no entanto muito poucos de nós se sentem perturbados por não poder entrar em duelos.

      Estou convencido de que não há quaisquer limites para os absurdos que se podem tornar crença generalizada através da ação governativa. Deem-me um exército apropriado e o poder de lhes pagar um salário e dar uma alimentação melhores do que as pessoas na sua maioria estão habituadas a receber, e comprometo-me, no prazo de trinta anos, a fazer a população acreditar majoritariamente que dois mais dois são três, que a água congela quando aquecida e ferve quando arrefecida, ou em qualquer outro disparate que possa servir os interesses do estado. Evidentemente, mesmo que tais crenças fossem disseminadas, as pessoas não iriam colocar as panelas no congelador quando quisessem ferver água. A ideia de que o frio faz ferver a água seria uma verdade dominical, sagrada e mística, a ser proferida com entoações dramáticas, mas não para ser aplicada na vida quotidiana. Na prática, qualquer negação verbal da doutrina mística seria proibida por lei e os hereges obstinados seriam “congelados” na fogueira. Ninguém que se recusasse a aceitar a doutrina oficial seria autorizado a ensinar ou a ocupar um cargo administrativo. Só os oficiais de mais elevada patente, do alto dos seus galões, comentariam entre si, em voz baixa, o enorme disparate de tudo aquilo; mas logo se ririam e voltariam a beber. Isto mal chega a ser uma caricatura do que realmente acontece em alguns governos modernos.

      A descoberta de que o homem pode ser cientificamente manipulado e que os governos têm a possibilidade de fazer lavagens cerebrais em massa, consoante os seus interesses, é uma das causas do nosso infortúnio. A diferença entre um conjunto de cidadãos mentalmente livres e uma comunidade moldada por métodos de propaganda modernos é tão grande como a que há entre um monte de matérias-primas a um navio de guerra acabado. A educação, que a princípio foi universalizada para que todos pudessem ler e escrever, tem-se mostrado capaz de servir propósitos bem diferentes. Ao inculcar disparates, unifica as populações e gera entusiasmo coletivo. Se todos os governos ensinassem os mesmos disparates, o mal não seria tão grande. Infelizmente, cada qual tem um disparate da sua lavra e a diversidade dá azo a hostilidades entre os devotos de credos diferentes. Para haver paz no mundo, ou os governos concordam em deixar de ensinar dogmas, ou concordam em ensinar todos o mesmo dogma. Receio que a primeira proposta seja um ideal utópico, mas talvez pudessem todos aceitar ensinar coletivamente que todas as figuras públicas, em todo o lado, são completamente virtuosas e perfeitamente sábias. Talvez, quando a guerra terminar, os políticos que sobreviverem considerem prudente estabelecer um programa semelhante.

      Mas se o conformismo tem os seus perigos, o inconformismo também os tem.

(Continua na Parte 3)

Autor: Bertrand Russell

Tradução:Vítor Guerreiro

Fonte: Crítica

Original: Unpopular Essays (Routledge, 1995)

Bertrand-Russell frase 2

“Este artigo não expressa necessariamente uma opinião do MZ, mas de seu autor.

O mérito está na contribuição para a discussão da linha de pensamento defendida pelo movimento.”

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