— Introdução ao Pensamento Crítico — Um esboço do lixo intelectual (Parte 3)

Quadro 2 PCTexto de Bertrand Russell com tradução de Vítor Guerreiro, publicado pelo site ateus.net

Parte 3 de 3  (acesse a Parte 1 e a Parte 2)

Publicado originalmente em 1943

      (…) se o conformismo tem os seus perigos, o inconformismo também os tem.

      Alguns “pensadores avançados” acham que qualquer pessoa que discorde da opinião geral tem de ter razão. Isto é ilusório; se não o fosse, a verdade seria bem mais fácil de alcançar do que efetivamente é. Há infinitas possibilidades de erro e os excêntricos, na sua maioria, sentem-se mais atraídos por erros impopulares do que por verdades impopulares. Conheci em tempos um engenheiro eletrotécnico que se apresentou com as seguintes palavras: “Como está? Há dois métodos de se curar através da fé, o que era praticado por Cristo e o que é praticado pela maior parte dos cientologistas. Eu pratico o método praticado por Cristo.” Pouco depois, este homem foi preso por fraude fiscal. A lei não vê com bons olhos a intromissão da fé neste departamento. Ouvi também falar num eminente psiquiatra que se dedicou à filosofia e começou a ensinar uma nova lógica que, como abertamente confessou, aprendera com os seus pacientes. Ao morrer deixou um testamento que estipulava o financiamento de uma cátedra para o ensino dos seus novos métodos científicos, mas infelizmente não deixou quaisquer bens. A aritmética mostrou ser refratária à lógica lunática. Em dada ocasião, um homem veio pedir-me que lhe recomendasse alguns dos meus livros, visto que se interessava por filosofia. Assim fiz, mas ele regressou no dia seguinte, dizendo-me que estivera a ler um deles, tendo encontrado apenas uma frase que conseguiu compreender, a qual lhe parecia falsa. Perguntei-lhe que frase era, ao que ele respondeu ser a afirmação de que Júlio César está morto. Quando lhe perguntei por que motivo discordava, ele empertigou-se todo e respondeu: “Porque eu sou Júlio César”. Tais exemplos têm de ser suficientes para mostrar que ser excêntrico não é garantia de se ter razão.

      A ciência, que sempre teve de combater as crenças populares, enfrenta agora uma das suas batalhas mais difíceis no campo da psicologia.

      As pessoas que julgam saber tudo sobre a natureza humana ficam sempre irremediavelmente à deriva quando têm de lidar com uma anomalia. Alguns rapazes nunca chegam a aprender aquilo que nos animais domésticos se chama “ser asseado”. O tipo de pessoas incapazes de tolerar qualquer disparate lida com esses casos através do castigo; o rapaz leva uma tareia, e se repetir a façanha leva uma tareia maior. Todos os médicos que investigaram o assunto sabem que o castigo só agrava o problema. Por vezes a causa é física, mas normalmente é psicológica, apenas curável com a remoção de uma dor reprimida e talvez inconsciente. Contudo, a maioria das pessoas gosta de castigar quem as irrita, pelo que rejeitam a abordagem médica como conversa fiada. O mesmo se aplica a homens que são exibicionistas; enviam-nos para a prisão vezes sem conta, mas assim que saem repetem o delito. Um médico especialista em tais doenças assegurou-me que o exibicionista pode ser curado pelo simples método de usar calças que abotoam atrás e não à frente. Contudo, um tal método não é experimentado porque não satisfaz os impulsos vingativos das pessoas.

      De uma maneira geral, é provável que o castigo previna crimes cometidos por pessoas sãs, mas não aqueles que resultam de anomalias psíquicas. Isto é já reconhecido em parte; fazemos uma distinção entre o roubo simples, resultante daquilo a que podemos chamar autointeresse racional, e a cleptomania, que indicia algo anormal. Não se trata psicopatas homicidas da mesma maneira que homicidas vulgares. Contudo as aberrações sexuais provocam uma tal repulsa que é ainda impossível dar-lhes tratamento clínico em vez de punitivo. A indignação, embora seja uma força socialmente útil em geral, torna-se nociva quando dirigida contra vítimas de doenças apenas tratáveis pelo saber médico.

      O mesmo acontece com as nações. Durante a última guerra, muito naturalmente, as pessoas voltaram os seus sentimentos vingativos contra os alemães, que foram severamente castigados após a derrota. Agora muitos argumentam que o tratado de Versalhes foi ridiculamente brando, visto não ter sido capaz de ensinar uma lição; desta vez, dizem-nos, tem de doer a sério. A meu ver, é provável que sejamos mais bem-sucedidos em evitar uma repetição da agressão alemã olhando para as hostes nazistas do mesmo modo que vemos os loucos do que pensando neles simplesmente como criminosos. Os loucos, como é óbvio, têm de ser controlados; não lhes permitimos o porte de armas de fogo. De igual modo, a nação alemã deverá ser desarmada. Mas os loucos são controlados por uma questão de prudência, não como castigo, e na medida em que a prudência o permite, tentamos fazê-los felizes. Toda a gente concorda que fazer sofrer um psicopata apenas fará que se torne um homicida pior. Hoje em dia, na Alemanha, há obviamente muitos entre os nazistas que são simplesmente criminosos, mas tem de haver também muitos que são mais ou menos insanos. Pondo de parte os líderes (não defendo que sejamos brandos com eles) há maior probabilidade de o grosso da nação alemã aprender a cooperar com o resto do mundo sendo sujeita a um tratamento médico benigno mas firme do que tornando-se pária entre as nações. Os que são castigados raramente aprendem a acalentar bons sentimentos para com aqueles que os castigam. Enquanto os alemães odiarem o resto da humanidade, a paz será instável.

      Quando lemos acerca das crenças dos selvagens, ou dos antigos babilônios e egípcios, estas surpreendem-nos pelo que têm de arbitrário e absurdo. Contudo, crenças tão absurdas como essas continuam a ser defendidas pelos ininstruídos mesmo nas sociedades mais civilizadas. Garantiram-me veementemente, nos Estados Unidos, que as pessoas nascidas em Março são azarentas e as que as nascidas em Maio são particularmente atreitas aos calos. Desconheço a história destas superstições, mas derivam provavelmente do zelo sacerdotal babilônio e egípcio. As crenças têm origem nos estratos sociais superiores, e então, como a lama de um rio, penetram gradualmente nas camadas mais ininstruídas; podem levar 3000 ou 4000 anos a escorrer completamente. Pode-se ouvir de um trabalhador asiático um comentário que vem diretamente de Platão — não as partes citadas pelos estudiosos, mas aquelas em que o disparate é óbvio, como a ideia de que os homens que não procuram a sabedoria nesta vida renascem como mulheres. Os comentadores dos grandes filósofos ignoram sempre, educadamente, os seus comentários tolos.

      Aristóteles, apesar da sua reputação, fartou-se de afirmar tolices. Diz que se deve conceber as crianças no Inverno, quando o vento sopra do norte, e que se as pessoas casam demasiado novas os filhos serão do sexo feminino. Diz-nos que o sangue das fêmeas é mais escuro que o dos machos; que o porco é o único animal atreito à rubéola; que se deve esfregar os ombros com sal, azeite e água morna a um elefante que sofra de insônias; que as mulheres têm menos dentes do que os homens, e por aí em diante. Ainda assim, a maioria dos grandes filósofos o considera um modelo de sabedoria.

      As superstições sobre dias de sorte e de azar são quase universais. Na antiguidade estas crenças determinavam as ações dos generais. Entre nós, o preconceito contra a Sexta-feira e o número treze é muito intenso; os marinheiros não gostam de navegar às Sextas, muitos hotéis não têm décimo terceiro andar. As superstições sobre a Sexta-feira e o número treze foram em tempos objeto de crença pelos reputadamente sábios; hoje tais homens consideram-nas tolices inofensivas. Mas talvez daqui a 2000 anos se venha igualmente a considerar tolices muitas das crenças dos homens sábios dos nossos tempos. O homem é um animal crédulo, tem de acreditar em alguma coisa; na ausência de um fundamento sólido para a crença, satisfaz-se com maus argumentos.

      15808-a-nurse-washing-her-hands-in-a-sink-pvA crença na “natureza” e no que é “natural” é fonte de muitos erros. Costumava ser, e em grande medida ainda é, bastante útil em medicina. O corpo humano, entregue a si mesmo, tem algum poder de autorregeneração. Os pequenos cortes, regra geral, saram, as constipações passam, por vezes até as doenças graves desaparecem sem intervenção médica. Contudo, auxiliar a natureza é algo desejável, mesmo nesses casos. Os cortes podem provocar septicemia se não forem desinfetados, as constipações podem converter-se em pneumonia e as doenças graves só são deixadas sem tratamento por aventureiros em regiões remotas, quando não há alternativa. Muitas práticas que se veio a considerar “naturais” foram inicialmente tidas por “antinaturais”, por exemplo, vestir e lavar o corpo. Antes de usar vestuário, os homens consideraram certamente que a vida era impossível em climas frios. Nos locais onde não há um mínimo de higiene, as populações sofrem de várias doenças de que as nações ocidentais se libertaram, como o tifo. Muitos se opunham (e há ainda quem se oponha) à vacinação por considerá-la “antinatural”. Mas tais objeções são inconsistentes, pois ninguém acredita que um osso partido se possa regenerar através de um comportamento “natural”. Comer alimentos cozinhados é “antinatural”; como aquecer a casa. O filosofo chinês Lao-Tsé, que viveu cerca do ano 600 a.C., opunha-se às estradas, pontes e barcos por serem “antinaturais” e a sua repulsa por tais engenhos mecânicos levou-o a sair da China para viver entre os bárbaros ocidentais. Todos os avanços de civilização foram considerados antinaturais quando eram ainda recentes.

      A objeção mais comum à contracepção é esta ser contra a “natureza”. (Por alguma razão não é permitido dizer que o celibato é contra a natureza; não vejo outra razão para isso tirando o fato de não ser novidade). Malthus via apenas três formas de controlar o crescimento demográfico: a abstenção, o vício e a miséria. A abstenção não era suscetível de se praticar em larga escala. O “vício”, isto é, a contracepção, encarava-a, enquanto clérigo, com horror. Restava a miséria. No conforto da sua casa paroquial, Malthus ponderava a miséria da grande maioria como justa, salientando as falácias dos reformadores que esperavam aliviá-la. Os modernos inimigos teológicos da contracepção são menos honestos. Fingem pensar que deus garante o sustento, não importa quantas bocas houver para alimentar. Ignoram o fato de não o ter feito até agora, tendo deixado a humanidade exposta a fomes periódicas, durante as quais sucumbiram milhões. Devemos considerar que defendem, se é que acreditam no que dizem, que deste momento em diante deus vai obrar continuamente o milagre da multiplicação dos pães e dos peixes, coisa que até à data deus entendeu ser desnecessária. Ou talvez afirmem que o sofrimento cá em baixo é de pouca importância; o que importa é o além. Segundo a própria teologia que defendem, muitas das crianças que virão a existir graças à oposição ao controlo da natalidade vão parar ao inferno. Devemos supor, portanto, que se opõem à melhoria das condições de vida na terra, pois acham bem que muitos milhões sofram a condenação eterna. Comparado com eles, Malthus parece misericordioso.

      As mulheres, enquanto objeto dos mais fortes sentimentos masculinos de amor e repulsa, provocam emoções complexas que se exprime na “sabedoria” proverbial.

    Quase toda a gente se permite alguma generalização de todo injustificável acerca das mulheres. Os homens casados, quando generalizam sobre esse tema, fazem-no a partir das suas esposas; as mulheres a partir de si próprias. Seria divertido escrever uma história das opiniões masculinas acerca das mulheres. Na antiguidade, quando a supremacia masculina era inquestionável e a ética cristã ainda desconhecida, as mulheres eram vistas como inofensivas mas algo tolas, e um homem que as levasse a sério era de certo modo desprezado. Platão achava que era um grande mal do teatro o fato de o dramaturgo ter de imitar mulheres ao criar papéis femininos. Com a chegada do cristianismo a mulher assumiu um novo papel, o da tentadora; mas ao mesmo tempo também a viam capaz de alcançar a santidade. Nos tempos vitorianos deu-se muito mais ênfase à imagem da santa que à da tentadora; os homens vitorianos não podiam admitir ser suscetíveis à tentação. A superior virtude das mulheres tornou-se uma razão para as excluir da política, onde, segundo se pensava, era impossível manter uma virtude ideal. Mas as primeiras feministas viraram o argumento do avesso, afirmando que a participação das mulheres tornaria a política mais nobre. Tendo-se mostrado que isto era uma ilusão, fala-se menos na superior virtude das mulheres, embora ainda haja homens que aderem à visão monástica da mulher como a tentadora. As próprias mulheres, na sua maioria, veem-se como o sexo sensível, cuja função é remediar os males que resultam das impetuosas parvoíces masculinas. Da minha parte, desconfio de todas as generalizações acerca das mulheres, favoráveis ou desfavoráveis, masculinas ou femininas, antigas ou modernas; todas, devo dizer, nascem da falta de experiência.

      A atitude profundamente irracional de ambos os sexos para com as mulheres é visível na literatura, particularmente na má. Nos maus romances escritos por homens, há a mulher por quem o autor está apaixonado, que normalmente tem todos os encantos, mas que é de algum modo indefesa e requer a proteção masculina; por vezes, contudo, como a Cleópatra de Shakespeare, é objeto de um ódio exacerbado, encarada como profunda e irremediavelmente malévola. Ao caracterizar a heroína, o autor masculino não escreve a partir da experiência, limitando-se a objetivar as suas próprias emoções. No que respeita aos seus outros personagens femininos, torna-se mais objetivo e talvez até se apoie no bloco de notas; mas quando se apaixona, a paixão cria uma neblina entre si e o objeto da sua devoção. As romancistas, de igual modo, enchem os seus livros com dois tipos de mulher. Um deles é a própria autora, atraente e simpática, objeto de desejo pelos que têm mau caráter e de amor pelos bondosos — sensível, nobre, sempre incompreendida. O outro tipo é representado por todas as outras mulheres, normalmente caracterizadas como mesquinhas, maliciosas, cruéis, traiçoeiras. Dir-se-ia que ajuizar as mulheres imparcialmente não é tarefa fácil, quer para homens quer para mulheres.

     As generalizações acerca das características nacionais são tão comuns e injustificadas como as generalizações acerca das mulheres. Até 1870, os alemães eram considerados uma nação de caixas-de-óculos, indo buscar tudo à consciência íntima, e pouco cientes do mundo exterior, mas desde 1870 teve de se repensar profundamente esta concepção. Os norte-americanos, na sua maioria, pareciam imaginar os franceses perpetuamente metidos em intrigas amorosas; Walt Whitman, num dos seus catálogos, fala do “adúltero casal francês no pecaminoso sofá”. Os norte-americanos que vão viver para França ficam perplexos e talvez desapontados com a intensidade da vida familiar. Antes da revolução russa, atribuía-se aos russos uma alma eslava mística, que, embora os impedisse de ter um comportamento sensível normal, dava-lhes uma espécie de sabedoria profunda a que as nações mais pragmáticas não podiam aspirar. De súbito, tudo mudou: o misticismo tornou-se tabu e só se tolera os ideais mais terrenos. A verdade é que aquilo que uma nação entende ser o caráter de outra depende de alguns indivíduos notáveis, ou da classe que por acaso se encontre no poder. Por esta razão, todas as generalizações nesta matéria se sujeitam a ser desmentidas por qualquer mudança política importante.

     De modo a evitar as várias opiniões tolas a que a humanidade é atreita, não é preciso ter uma inteligência sobre-humana. Algumas regras simples bastam para nos resguardar, não de todos os tipos de erro, mas ao menos das palermices.

       Se se puder resolver o assunto através da observação, faça-a o próprio leitor. Aristóteles podia ter evitado o erro de pensar que as mulheres têm menos dentes do que os homens simplesmente pedindo à Sra. Aristóteles que abrisse a boca enquanto os contava. Não o fez porque estava convencido de que sabia. Pensar que sabemos algo quando na verdade não sabemos é um erro fatal, a que todos somos vulneráveis. Acredito que os ouriços comem besouros negros porque me disseram que é assim; mas se estivesse a escrever um livro acerca dos hábitos dos ouriços, não devia comprometer-me antes de ver um deles desfrutar de tal refeição nada apetecível. Aristóteles, contudo, foi menos cauteloso. Os autores antigos e medievais sabiam tudo acerca de unicórnios e salamandras; nenhum deles achou necessário evitar afirmações dogmáticas acerca destas criaturas pelo fato de nunca terem visto uma.

      Muitas questões, contudo, não se deixam resolver tão facilmente pela experiência. Se, como os seres humanos na sua maioria, o leitor tem muitas convicções firmes acerca de tais assuntos, há formas de se aperceber dos seus próprios preconceitos. Se uma opinião contrária à sua o irritar, isso é sinal de que sabe, implicitamente, que não tem boas razões para pensar da forma que pensa. Se alguém afirmar que dois mais dois são cinco, ou que a Islândia fica no equador, sentirá pena e não raiva, a menos que seja tão ignorante em aritmética e geografia que esta opinião abale as suas próprias convicções contrárias. As controvérsias mais violentas são as que dizem respeito a assuntos acerca dos quais não há indícios suficientes que sustentem qualquer uma das posições. Usa-se a perseguição em teologia e não na aritmética, porque na aritmética há conhecimento, ao passo que na teologia só há opiniões. Portanto, sempre que der consigo a ficar zangado por causa de uma diferença de opinião, fique alerta: provavelmente descobrirá, pensando outra vez no assunto, que as suas crenças ultrapassam aquilo que a informação disponível permite afirmar.

      Uma boa maneira de se libertar de algumas formas de dogmatismo é ganhar consciência das opiniões que se defende em círculos sociais diferentes dos seus. Quando era jovem, vivi muito tempo fora do meu país, na França, na Alemanha, na Itália e nos Estados Unidos. Vi que isto foi muito útil para diminuir a força dos preconceitos insulares. Se não puder viajar, procure as pessoas com quem discorda, leia um jornal que pertença a um partido que não o seu. Se as pessoas e o jornal lhe parecerem loucos, perversos ou maus, lembre-se de que é assim que você parece aos olhos deles. Nesta opinião, ambos os partidos podem ter razão, mas não podem ambos estar enganados. Esta reflexão devia inspirar alguma prudência.

   Conhecer os costumes estrangeiros, contudo, nem sempre tem um efeito benéfico. No século XVII, quando os Manchu conquistaram a China, era costume entre os chineses as mulheres terem pés pequenos e entre os Manchu os homens usarem rabo-de-cavalo. Em vez de ambos abandonarem o seu hábito pateta, cada um deles adotou o costume pateta do outro e os chineses continuaram a usar rabos-de-cavalo até acabar o domínio dos Manchu, com a revolução de 1911.

      Para os que têm uma imaginação suficientemente fértil, é boa ideia imaginar uma discussão com alguém que tenha uma opinião diferente. Isto tem uma vantagem, e só uma, relativamente a uma conversa real com um adversário; é o fato de este método não estar sujeito às mesmas limitações de tempo e espaço. Mahatma Ghandi despreza os caminhos-de-ferro, os barcos a vapor e as máquinas; Ghandi gostaria de reverter o processo da revolução industrial. É possível que nunca tenha a oportunidade de encontrar alguém que defenda verdadeiramente esta opinião, porque nos países ocidentais as pessoas na sua maioria pressupõem que a tecnologia moderna é uma vantagem. Mas se se quiser certificar de que tem razão ao concordar com a opinião dominante, verá que é boa ideia testar os argumentos que lhe ocorrem tendo em conta o que Ghandi poderia dizer para refutá-los. Por vezes cheguei mesmo a mudar de opinião em resultado deste tipo de diálogo imaginário, e quando não chegava a esse ponto, tornei-me amiúde menos dogmático e presunçoso, ao me aperceber da possível razoabilidade de um adversário hipotético.

    564px-Bundesarchiv_Bild_135-KB-15-083,_Tibetexpediton,_Anthropometrische_UntersuchungenTenha muito cuidado com as opiniões que suscitam orgulho. Tanto os homens como as mulheres, nove em cada dez, estão firmemente convictos da superioridade do seu sexo. Há indícios suficientes para ambas as partes. Se for homem, poderá dizer que a maior parte dos poetas e cientistas são do sexo masculino; se for mulher, poderá responder que também os criminosos na sua maioria o são. A questão em si mesma não tem resposta, mas o orgulho faz que as pessoas na sua maioria não vejam isto. Todos pensamos, seja qual for a parte do mundo onde nascemos, que o nosso país é superior a todos os outros. Ao ver que cada nação tem os seus méritos e deméritos típicos, ajustamos o nosso cânone de valores de modo a deixar claro que os méritos da nossa nação são os que realmente importam, ao passo que os seus deméritos são comparativamente triviais. Aqui, mais uma vez, o homem racional admitirá que a questão não tem qualquer resposta que se possa provar. É mais difícil lidar com o orgulho do homem enquanto homem, visto que não podemos discutir o assunto com qualquer tipo de mente inumana. A única forma que conheço de lidar com esta vaidade humana geral é lembrarmo-nos de que o homem é um breve episódio na vida de um pequeno planeta no canto do universo, e que, tanto quanto sabemos, noutras partes do cosmos pode haver seres tão superiores a nós como nós somos superiores às alforrecas.

      Outras paixões, além do orgulho, são fontes comuns de erro; entre estas talvez a mais importante seja o medo. O medo por vezes age diretamente, inventando-se rumores de catástrofe em tempo de guerra, ou imaginando-se objetos de terror, como os fantasmas; por vezes age indiretamente, gerando a crença em algo reconfortante, como o elixir da longa vida ou o paraíso para nós próprios e o inferno para os inimigos. O medo tem muitas formas — medo da morte, medo do escuro, medo do desconhecido, medo das multidões, também aquele medo vago e generalizado que afeta os que escondem de si próprios os seus terrores mais específicos. Antes de ter admitido a si próprio os seus medos e de se ter protegido através de um difícil exercício de vontade contra o poder destes medos para criar mitos, não pode esperar ser verdadeiramente capaz de pensar em vários assuntos de grande importância, particularmente aqueles que envolvem crenças religiosas. O medo é a principal fonte de superstição e uma das principais fontes da crueldade. Conquistar o medo é o começo da sabedoria, tanto na busca da verdade como na tentativa de alcançar um modo de vida digno.

     Há duas formas de evitar o medo: uma delas é convencer-nos de que somos imunes ao desastre, a outra é praticando abertamente a coragem. A última é difícil e torna-se impossível para todos, para lá de certo ponto. A primeira sempre foi portanto a mais popular. A magia primitiva tem a função de garantir a segurança, quer prejudicando os inimigos quer protegendo o próprio através de talismãs, feitiços e encantamentos. Sem qualquer mudança substancial, a crença em tais maneiras de evitar o perigo sobreviveu ao longo dos muitos séculos de civilização babilônia, espalhando-se da Babilônia através do império de Alexandre e adquirida pelos romanos quando estes absorveram a cultura helênica. Dos romanos passou à cristandade medieval e ao islã. A ciência desintensificou a crença na magia; contudo, muitas pessoas têm mais fé nos amuletos do que se dispõem a admitir, e a feitiçaria, embora condenada pela igreja, continua a ser oficialmente um pecado praticável.

      A magia, contudo, era uma forma primitiva de fugir aos terrores e além disso não muito eficaz, pois os feiticeiros malvados podiam sempre mostrar-se mais poderosos do que os bons. Nos séculos XV, XVI e XVII, o terror às bruxas e feiticeiros levou à morte de centenas de milhares na fogueira, condenados por tais crimes. Mas as crenças mais recentes, em particular no que diz respeito à vida futura, procuraram formas mais eficazes de combater o medo. Sócrates, no dia da sua morte (a acreditarmos em Platão), exprimiu a convicção de que na vida seguinte iria desfrutar a companhia dos deuses e heróis, rodeado de espíritos justos que jamais levantariam objeções aos seus argumentos infinitos. Platão, na sua República, deixou claro que o estado tem de impor o otimismo acerca da vida futura, não por este ser verdadeiro, mas por fazer que os soldados fiquem mais dispostos a morrer em batalha. Platão não tolerava quaisquer dos mitos tradicionais acerca do Hades, pois estes representavam os espíritos dos mortos como infelizes.

      O cristianismo ortodoxo, durante a idade da fé, estabeleceu regras muito concretas para a salvação. Em primeiro lugar, a pessoa tem de ser batizada; depois, tem de evitar todos os erros teológicos; por fim, antes de morrer, tem de se arrepender dos pecados e receber a absolvição. Nada disto a salvaria do purgatório, mas garantiria a sua eventual entrada no céu. Nem era necessário saber teologia. Um eminente cardeal afirmou peremptoriamente que os requisitos da ortodoxia seriam satisfeitos se a pessoa murmurasse no leito de morte: “acredito em tudo o que a igreja acredita; a igreja acredita em tudo o que eu acredito”. Tais orientações bastante precisas deviam assegurar aos cristãos que encontrarão o caminho para o céu. Não obstante, o pavor do inferno persistiu e provocou, em tempos mais recentes, uma suavização dos dogmas relativamente a quem será condenado. A doutrina, professada por muitos cristãos modernos, de que toda a gente irá para o céu devia suprimir o medo da morte, mas, na verdade, este medo é demasiado instintivo para que se possa vencer facilmente. F. W. H. Meyers, a quem o espiritualismo converteu à crença numa vida futura, questionou uma mulher, que recentemente perdera a filha, acerca do que pensava que tivesse sucedido à alma dela. A mãe respondeu: “Bem, suponho que esteja a gozar a felicidade eterna, mas preferia que não falasse em assuntos tão desagradáveis”. Apesar de tudo aquilo de que a teologia é capaz, o céu continua a ser, para maioria das pessoas, um “assunto desagradável”.

      As religiões mais refinadas, como a de Marco Aurélio e de Espinosa, preocupam-se ainda com a conquista do medo. A doutrina estoica era simples: defendia que o único bem verdadeiro é a virtude, da qual nenhum inimigo me pode privar; consequentemente, não há necessidade de temer os inimigos. A dificuldade estava em que ninguém podia acreditar verdadeiramente que o único bem era a virtude, nem mesmo Marco Aurélio, que, como imperador, procurou não apenas tornar virtuosos os seus súditos, mas protegê-los contra os bárbaros, a peste e a fome. Espinosa ensinou uma doutrina semelhante. Segundo ele, o verdadeiro bem consiste na indiferença face às riquezas mundanas. Ambos procuraram escapar ao medo fingindo que coisas como o sofrimento físico não são verdadeiramente más. Esta é uma forma nobre de fugir ao medo, mas continua a basear-se numa crença falsa. Se fosse genuinamente aceita, teria o efeito negativo de tornar os homens indiferentes, não apenas ao seu próprio sofrimento, mas também ao de outros.

    Sob a influência do medo intenso, quase toda a gente fica supersticiosa. Os marinheiros que atiraram Jonas borda fora imaginaram que a sua presença era a causa da tempestade que ameaçava o navio de naufragar. Imbuídos de um espírito similar, os japoneses, quando do terremoto de Tóquio, lançaram-se a massacrar coreanos e liberais. Quando os romanos alcançaram a vitória nas guerras púnicas, os cartagineses convenceram-se de que o seu infortúnio se devia a um certo laxismo para com o culto a Moloch. Moloch gostava que lhe sacrificassem crianças, e preferia as da aristocracia; mas as famílias nobres de Cartago adotaram a prática de substituir secretamente os seus próprios filhos por crianças plebeias. Isto, acreditava-se, desagradou ao deus, e nos piores momentos até as crianças da mais alta aristocracia foram devidamente imoladas pelo fogo. Por estranho que pareça, os romanos saíram vitoriosos apesar desta reforma democrática por parte dos seus inimigos.

      O medo coletivo estimula os instintos gregários e tende a gerar hostilidade para com aqueles que se não considera membros do rebanho. Assim foi durante a revolução francesa, quando o pavor aos exércitos estrangeiros criou o reino do terror. É de temer que os nazistas, à medida que a derrota se aproxima, intensifiquem a sua campanha de exterminação dos judeus. O medo gera impulsos cruéis e portanto cria as superstições que parecem justificar a crueldade. Não se pode esperar que um homem, uma multidão ou uma nação ajam humanamente ou pensem de modo saudável sob a influência do medo intenso. Por esta razão, os covardes são mais dados à crueldade do que os homens corajosos e também mais dados à superstição. Quando digo isto, penso em homens que são corajosos em todos os sentidos, não apenas no que respeita a enfrentar a morte. Muitos homens terão coragem de morrer heroicamente, mas não terão coragem de afirmar, ou mesmo de pensar, que a causa pela qual se lhes pede que morram é indigna. A calúnia é, para os homens na sua maioria, mais dolorosa do que a morte; essa é uma razão por que, em tempos de exaltação coletiva, tão poucos homens se atrevem a discordar da opinião dominante. Nenhum cartaginês renegou Moloch, porque fazê-lo exigia mais coragem do que a necessária para enfrentar a morte na batalha.

    Mas temos sido demasiado severos. As superstições nem sempre são cruéis e sombrias; muitas vezes contribuem para a jovialidade da vida. Uma vez fui contatado pelo deus Osíris, que me deu o seu número de telefone; nessa altura, vivia num subúrbio de Boston. Embora não me tenha juntado aos seus seguidores, a carta deles encheu-me de prazer. Recebi frequentemente cartas de homens que se apresentavam como sendo o messias, pedindo-me que não omitisse nas minhas palestras este fato tão importante. Durante a lei seca, havia uma seita que defendia que a celebração da comunhão com whiskyem vez de vinho; esta crença deu-lhes o direito legal ao abastecimento de bebidas espirituosas e a seita cresceu rapidamente. Há uma seita em Inglaterra segundo a qual os ingleses são as dez tribos perdidas; há uma seita mais austera, que defende serem apenas as tribos de Ephraim e Manasseh. Sempre que encontro um membro de uma destas duas seitas declaro ser membro da outra, e daqui resulta uma argumentação muito agradável. Gosto igualmente dos homens que estudam a grande pirâmide, com vista a decifrar a sua sabedoria mística. Muitos bons livros se escreveram sobre este assunto, alguns dos quais me foram apresentados pelos seus autores. É um fato singular que a grande pirâmide prediga sempre com exatidão o curso da história mundial até a data de publicação do livro em causa, mas que após essa data se torne menos fiável. Em geral, o autor espera, muito em breve, a ocorrência de guerras no Egito, seguidas pelo Armageddon e a vinda do anticristo, mas por esta altura já se identificou tanta gente com o anticristo que o leitor se deixa levar relutantemente ao ceticismo.

      Admiro em particular uma certa profetiza que vivia na margem de um lago, a norte do estado de Nova Iorque, cerca do ano de 1820. Anunciou aos seus vários seguidores que tinha o poder de caminhar sobre a água e que comprometeu-se a fazê-lo às onze horas, numa certa manhã. Na hora anunciada, os milhares de fiéis reuniram-se na margem do lago. Ela falou-lhes, perguntando: “Todos vós estão convencidos de que posso caminhar sobre as águas?” Todos responderam em uníssono: “Estamos”. “Nesse caso”, anunciou ela, “não há necessidade de que o faça”. E todos foram para casa muito comovidos.

      Talvez o mundo perdesse algum do seu interesse e diversidade se tais crenças fossem completamente substituídas pela ciência fria. Talvez nos possamos alegrar com os abecedarianos, assim chamados porque, tendo rejeitado todo o ensino profano, consideravam imoral que se aprendesse o abc. E podemos apreciar a perplexidade do jesuíta sul-americano que se perguntava como foi possível a preguiça ter viajado, desde o tempo do dilúvio, do Monte Ararat até ao Peru — uma viagem que parecia quase incrível, dada a lentidão dos seus movimentos. Um homem sábio desfrutará os bens que há em abundância, e de lixo intelectual encontrará abundante dieta, no nosso tempo como em qualquer outro.

Autor: Bertrand Russell

Tradução:Vítor Guerreiro

Fonte: Crítica

Original: Unpopular Essays (Routledge, 1995)

Bertrand Russell

“Este artigo não expressa necessariamente uma opinião do MZ, mas de seu autor.

O mérito está na contribuição para a discussão da linha de pensamento defendida pelo movimento.”

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