Meritocracia

podiumNum mundo que é resultado de escassez e, também por isto, movido por valores sociais dominantes como competição e propriedade, a estruturação da sociedade naturalmente ocorre por meio de enorme hierarquização e pela sua divisão em classes. A meritocracia é o sistema normalmente usado para a definição destas hierarquias e divisões, considerado em geral também o mais justo. Ela estabelece critérios para ascensão na pirâmide social e consequente acesso aos recursos por meio da valorização de méritos pessoais, como capacidade, competência, conhecimento etc., que, em teoria, proporcionariam enorme justiça e liberdade para cada indivíduo na busca por mobilidade social. Mas isto se mostra totalmente diferente na prática, pois é evidente que nem todos começam do mesmo ponto e com as mesmas oportunidades, portanto, não possuindo as mesmas possibilidades. A própria divisão da sociedade em classes, com mais e menos acesso a recursos, promove a existência de vantagens enormes para alguns indivíduos, o que facilita muito sua ascensão em detrimento dos demais. Por exemplo, o filho de uma faxineira que cria sozinha seus filhos com dificuldade e ausência de recursos básicos, como moradia, comida e educação de qualidade, tem chance muito menor de possuir méritos dentro deste sistema do que o filho de uma família rica e bem estruturada.

Porém, antes mesmo de ser totalmente injusta dentro de sistemas sociais com enormes desigualdades, como é inerente ao sistema monetário capitalista, a meritocracia é carente de lógica. Pois, se não escolhemos nem o ambiente em que nascemos e nem a carga genética que carregamos, os dois elementos que interagem para a definição de quem somos (personalidade, interesses, habilidades, conhecimento), não faz sentido algum merecer ou desmerecer alguém por algo que não dependeu em grande parte de sua escolha para ser como é. É semelhante a afirmar que alguém merece mais por ser branco ou por ter os olhos claros. Se não possuo interesse ou inclinação para desempenhar atividades altamente valorizadas dentro da sociedade, como jogar bem futebol ou ser um médico ou um político, tendo maior interesse e capacidade para o artesanato ou jardinagem, mereço realmente ser obrigado a ter menos acesso aos recursos e à menor estima social ou passar a vida fazendo/tentando algo que não gosto e/ou que não tenho possibilidades de fazer?

Independente de questionamentos sobre a natureza humana ser ou não inerentemente competitiva, a meritocracia, por se basear em competição, também se mostra uma opção tecnicamente ineficiente para a administração e maximização da sociedade. Um simples exercício de lógica matemática demonstra a sua ineficiência estrutural: um indivíduo plenamente desenvolvido e com acesso a recursos gera X para a sociedade (por trabalho, criação e disposição). Um indivíduo subdesenvolvido e privado de recursos retira Y da sociedade (através de violência, destruição e improdutividade). Suponhamos ainda, que exista um coeficiente Z que seja incrementado conforme se aumente o número de indivíduos desenvolvidos (fator cooperação, liberdade de patentes etc.). Em uma sociedade meritocrática, portanto competitiva e desigual, apenas alguns poderão se desenvolver ao máximo de suas capacidades. Teríamos, portanto, X – Y (obviamente a quantidade de X e Y variaria bastante). Já uma sociedade igualitária e cooperativa, além de ter um número X muito maior, ainda teria os efeitos exponenciais do fator de cooperação (produtivo, intelectual e tecnológico), ou seja X * Z. Portanto, é lógico supor que uma maior quantidade de indivíduos desenvolvidos gerará mais produtividade e desenvolvimento tecnológico.

Ainda sobre a ineficiência promovida pela competição inerente ao modelo meritocrático de sociedade, vejamos:

“Há dois ângulos principais a serem considerados: o primeiro é (a) como a concorrência afeta a própria produção industrial, o segundo é (b) como ela de fato afeta a inovação ou o desenvolvimento criativo.

(a) Se examinarmos o formato da produção industrial atual, vemos um sistema de interação global complexo; de recursos, materiais e bens movendo-se constantemente de um local para outro para fins diversos de produção ou distribuição. Os negócios, em sua busca por lucro e custo-benefício, procuram, a todo momento, invariavelmente, trabalho, equipamentos e instalações baratas para se manter competitivos no mercado. O que pode assumir a forma de trabalho local imigrante pago com um salário mínimo, um “trabalho escravizante” no exterior, fábricas de processamento relativamente barato por todo o país, etc.

A questão fundamental é que a partir do ponto de vista da eficiência de mercado, a taxa de lucro sobre o custo é tudo o que importa, mesmo se a produção global estiver desperdiçando quantidades desproporcionais de combustível, transporte, força de trabalho, etc. A noção de “eficiência proximal”, neste caso a eficiência derivada da distância entre os pontos de produção industrial e de distribuição, não é levada em conta, e a globalização hoje, na prática, empenha-se em uma movimentação dispendiosa de recursos ao redor do mundo, baseando-se quase inteiramente em um interesse por economia de dinheiro, e não por eficiência técnica otimizada.

Esse desprezo pela importância da “eficiência proximal” por parte das indústrias, sejam nacionais ou internacionais, é fonte de muito desperdício. Hoje em dia, a produção industrial é quase inteiramente internacional, especialmente na era tecnológica. O grau em que isso se faz necessário, do ponto de vista técnico, é mínimo, na pior das hipóteses. Enquanto, historicamente, a produção agrícola tem sido regional, dada a propensão de certas regiões para a produção de certos tipos de bens, ou, talvez, pelo ambiente mais propício para outros cultivos, essa é uma pequena produção em relação à grande maioria de bens industriais produzidos, sem contar as diversas possibilidades tecnológicas atuais que permitem superar tais necessidades regionais.

(…)

Como uma nota final sobre esse assunto de como a competição limita a eficiência técnica da produção industrial, aumentando o desperdício – a realidade da “multiplicidade” de bens é outro problema. Toda a produção de empresas concorrentes entre si é normalmente orientada em torno de estatísticas históricas sobre qual é sua “cota de mercado” e quantos bens elas podem, em média, vender por região; paralelamente, o próprio fato de várias empresas, que trabalham no mesmo gênero de produção de bens, produzirem produtos quase idênticos, com apenas pequenas diferenças, só contribui para as fontes desnecessárias de desperdício.

(…)

(b) A segunda questão aqui, como já dito, tem a ver com a forma como a concorrência afeta a própria inovação ou desenvolvimento criativo. Conquanto ainda exista hoje a suposição de que recompensas distintas pela contribuição de alguém motiva outras pessoas a buscarem a mesma recompensa, o que também é uma comum justificativa sobre a existência de “classes”, estudos sociológicos modernos apontam visões conflitantes. A ideia de que os seres humanos são motivados por uma necessidade inerente de “vencer” os outros, ganhando, por exemplo, mais recompensas materiais e financeiras que os outros, não tem justificativa confiável fora a visão intuitiva extraída da condição do mercado, por design altamente competitivo e voltado para a escassez, em que a humanidade encontra-se hoje.

Resumindo, o sistema competitivo procura sigilo quando se trata de ideias de negócio, em geral universalmente, contra o fluxo de livre conhecimento. O uso de patentes e direitos autorais ou “segredos comerciais” não perpetua o avanço da inovação, como muitos defensores do mercado competitivo assumem – mas o retarda.

(…)

No entanto, se pararmos para pensar sobre isso de um modo geral, o compartilhamento de conhecimento não tem um resultado negativo fora da premissa econômica de propriedade para fins de exploração por lucro. Não há nada a perder e, sem dúvida, muito a ganhar socialmente através da partilha de informação.”O Movimento Zeitgeist: uma nova forma de pensar.

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