Moralidade e Ética – Parte 1

*Parte 1 de 3 da tradução parcial do artigo ‘Morality and Ethics‘ escrito por Tio*

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Tenho certeza que você já ouviu estas palavras muitas vezes e como, da política à religião ou à vida cotidiana, as pessoas realmente acreditam que estas palavras têm algum significado particular. No entanto, ninguém parece ter uma definição adequada para elas e, como eu vou mostrar neste artigo, existem razões muito específicas para isso.

A moralidade é geralmente definida como “princípios sobre a distinção entre o certo  e o errado, ou bom e mau comportamento”, que na verdade não significa nada, já que você tem então que perguntar: o que é “bom” e o que é “mau”?

Ética é então dada como “princípios morais que governam  uma pessoa ou um comportamento de grupo”, e se não podemos saber exatamente o que é a “moralidade”, então estamos incompetentemente  tentando definir uma palavra com outra que virtualmente não tem significado nenhum.

No entanto, eu vou mostrar como tais noções mudam de época para época, e ainda diferem significativamente dentro da mesma época, de cultura para cultura. Assim, podemos construir uma visão mais científica dessas noções ao analisar como e porquê elas se formam.

Vamos tomar estas palavras ao passado, ao presente e à ciência.

PASSADO

Há mais ou menos 5.000 anos, em um pequeno pedaço do planeta Terra chamado Mesopotâmia (então considerado o berço da civilização no Ocidente), havia em suas leis que se uma criança dissesse a seu pai ou a sua mãe que eles não eram seus pais, eles poderiam fazer da criança uma escrava, vendê-la por dinheiro ou levá-la para longe de casa.

Portanto, uma rebelião do filho contra os pais poderia colocá-lo à escravidão. Por outro lado, se um pai dissesse ao seu filho que ele não era seu filho, a lei dizia que mesmo assim o filho deveria sofrer e deixar a casa.

Na mesma cultura, se uma mulher fosse infiel ao marido e dissesse: “Você não é meu marido”, ela poderia ser jogada no rio. Se um marido dissesse para a esposa: “Você não é minha esposa”, ele deveria pagar uma multa. Então, se você fosse uma mulher traída nesse período de tempo, era legal (implicando ética)  que você pudesse ser jogada no rio –  para ser morta. Se você fosse um homem, você teria apenas que pagar uma multa.

Se um construtor construísse uma casa para alguém e, devido à sua construção, ela desmoronasse e matasse o proprietário, o construtor deveria se matar também. Essa era outra lei.

Se alguém fosse acusado de algo ilegal naquela época, teria sido dada a opção de pular no rio e, se a pessoa não se afogasse, ela seria declarada livre – não culpada.  Aparentemente, a natação não era uma grande habilidade naquela época, ou talvez os rios fossem muito assustadores.

Você pode achar uma lista mais completa sobre as leis da Mesopotâmia em Fordham.edu.

Os gregos antigos (3.000 anos atrás ou mais) não eram muito melhores quando se trata de derramamento de sangue. A maneira como eles lidavam com o assassinato era deixando a família da vítima fazer sua própria justiça, o que levava à vendetas sangrentas.

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Inicialmente, eles não tinham leis escritas mas confiavam em “regras” passadas oralmente que podiam ser inventadas a qualquer hora. Eventualmente eles começaram um  sistema de leis escritas e um notável conjunto de leis foi criado por Draco (um legislador). As leis escritas de Draco ficaram conhecidas por sua rigidez, e seu nome se tornou  o adjetivo “draconiano”  que significa “severo” ou “rigoroso”. Suas leis eram tão drásticas que você poderia ter sido morto ao ser pego roubando apenas um único repolho.

O mundo antigo está cheio de leis semelhantes que consideramos cruéis e grotescas hoje. Algumas coisas que se destacam a partir desta época são os castigos físicos (cortar a orelha, enforcar, decapitar, tortura), castigos materiais (multas e impostos, tais como pagamentos em moeda e/ou materiais raros, como ouro ou prata), e o fato das leis serem aplicadas de forma diferente pelas classes sociais (mulheres e escravos eram mais drasticamente punidos, por exemplo).

Você pode ler muitos artigos sobre essas leis, datando desde 5.000 anos até 1.000 anos atrás (ou até mais recentes).

Essas leis  balizaram os códigos morais da época. Era algo absolutamente moral possuir um escravo (ou muitos), ou matar alguém que teve relações sexuais com um cão ou tinha roubado um repolho.

Os tipos de regras que estamos discutindo aqui foram aceitos por bilhões de pessoas ao longo de muitos milhares de anos, e as coisas não melhoraram muito ao longo dos últimos 2.000 anos.

A pena de morte, ou de execução, tem sido uma normalidade entre todas as tribos (países) nos últimos 2.000 anos, quando se trata de conceito da justiça. Para ficar ainda mais grotesco, a maioria das execuções foram públicas.

As pessoas se reuniam para ver os outros de sua própria espécie serem torturados em muitas maneiras e formas: ferver até a morte, esfolação, corte lento, estripação, crucificação, empalamento, esmagamento (incluindo esmagamento por elefante), apedrejamento, queimar na fogueira, desmembramento, serragem, decapitação, enforcamento, ou tiro de arma.

Em 1820 na Grã-Bretanha, havia 160 crimes puníveis com morte, incluindo crimes como furtos, roubos, roubar gado, ou o corte de árvores em um lugar público.

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O século XX também foi um período violento. Dezenas de milhões foram mortos em guerras entre Estados-nação, bem como em genocídios perpetrados por Estados-nação contra adversários políticos (tanto percebidos quanto reais), minorias étnicas e religiosas: o ataque turco aos Armênios, a tentativa de Hitler de exterminar os judeus europeus, a dizimação de Khmer Rouge do Camboja, e o massacre dos Tutsis em Ruanda, para citar apenas quatro dos exemplos mais notórios.

Para lhe dar uma pequena amostra dessa história recente, vários estados autoritários –  por exemplo aqueles com governos fascistas ou comunistas –  empregaram a pena de morte como um meio de opressão política em potencial. Segundo Robert Conquest, o principal expert sobre os expurgos de Stalin, mais de 1 milhão de cidadãos soviéticos foram executados durante o Grande Expurgo de 1937-38 – quase todos com uma bala atrás da cabeça.

Ainda assim, a história dos ideais morais humanos não é representada somente por estas leis oficiais. Cultura e religião são dois grandes nomes na formação destas noções.

Por cultura, pode-se compreender as tradições prevalentes e costumes de um determinado período de tempo e um determinado grupo de pessoas (tribo), enquanto a religião é basicamente cultura em esteroides.

Há tantos exemplos que poderíamos examinar, mas vamos olhar para aqueles que têm sido predominantes na maioria das culturas: religião, tribalismo e racismo, rituais e classes sociais.

Religião é difícil de definir e, como eu disse antes, é uma criação da cultura: ideias variadas que se tornaram populares ao longo do tempo. Essas chamadas “religiões” têm pressionado fortemente ideologias, e eu suspeito que elas também popularizaram a noção de moralidade. Mas o que é religião considerada como moral?

Bem, de acordo com muitas delas, algumas das ações puníveis com morte incluem: assassinato, adultério, estupro, sodomia, uma mulher comprometida que não gritar enquanto for estuprada, uma mulher que não é virgem na noite de seu casamento, adorar outros deuses, feitiçaria, tomar o nome do Senhor em vão ou amaldiçoar seu nome, amaldiçoar um pai, e sequestro.

Quer mais? Bem, existem várias outras: casar com a mãe de uma esposa, algumas formas de incesto, relação sexual entre homens, e um filho que persiste em desobedecer seus pais. Cada um desses itens eram puníveis com morte.

Desde preferências sexuais até a maneira como você se veste, o que você come, as palavras e o seu modo de pensar, as religiões têm punição ‘draconianas’ cobrindo todas elas.

Em nome dessas ideologias, muitas pessoas foram mortas ou torturadas. Tenha em mente, mais uma vez, que quando esses fanáticos religiosos executaram estes atos de violência, eles estavam agindo totalmente em nome de moralidade; eles acreditavam plenamente que estavam fazendo algo bom.

O tribalismo levou a muitos conflitos. Todas as guerras (ou pelo menos a maioria delas) baseiam-se na separação cultural das pessoas. Hitler decidiu que seria bom matar 11 milhões de pessoas com base em algumas ideias que ele tinha. Ele pensava que algumas pessoas mereciam viver, enquanto outras não. Muitos acham que é imoral matar seres humanos, mas muitas dessas mesmas pessoas vão reconsiderar quando se trata de seres humanos de diferentes tribos.

O racismo é um outro guarda-chuva sob o qual os valores morais têm se escondido. Como um grupo, a Ku Klux Klan matou milhares de pessoas, acreditando que ter uma cor de pele diferente lhe concedia o direito de fazer isso. Muitas pessoas basearam seus julgamentos de certo e errado em relação a marcadores biológicos, tais como cor da pele, forma dos olhos, sexo, altura, peso e assim por diante.

siftingthepast_de-ketelschuurster_abraham-van-strij_Mulheres de toda a história foram escravizadas de uma forma ou outra e tratadas com muito menos respeito do que os homens. De religiões à políticas, as mulheres representaram mais uma ferramenta do que um ser humano.

Na Grécia antiga, mulheres não tinham personalidade e não tinham direito à propriedade. Na Roma antiga, mulheres não podiam votar, não podiam obter cargos públicos ou servir no exército. Em diversas culturas, mulheres não tinham direito para trabalhar, eram feitas para o serviço de casa, não podiam entrar em determinados lugares, e assim por diante.

Até recentemente (séculos XIX e XX), mulheres em muitas culturas foram restringidas em seus direitos. Por exemplo, certas descobertas científicas feitas por mulheres não foram reconhecidas devido ao racismo de gênero.

O ritual é outra barulhenta e colorida expressão (se é que posso dizer isso) de ética, moral, costumes de bom e ruim, demonstrando o que as pessoas pensam dos valores humanos.

É loucura pura dar a você um sabor próprio do ridículo, do macabro, do sem-noção e da crueldade desses rituais por causa de seus números significativos ao longo dos milênios. Mas eu vou mostrar cinco deles, só para apontar rapidamente o que algumas pessoas consideram como algo “moral a se fazer”.

1-    Algumas pessoas entram numa dieta de 6 anos para perder gordura. Elas até bebem veneno intencionalmente para vomitar tudo o que estiver dentro de seus estômagos. Eventualmente elas farão um ritual planejado no qual elas assumirão a posição de lótus (estilo monge) e simplesmente esperar para morrer. Por que elas estão fazendo isso? Porque elas pensam que é certo fazê-lo.

2-    Em algumas culturas, as pessoas cortam os testículos dos garotos só para preservar uma voz de canto masculina intocada.

3-  Em um período específico, quando os faraós morriam eles eram enterrados junto aos seus servos – que estavam vivos. Eles acreditavam que os servos deveriam servir o faraó na outra vida.

4-   Em algumas culturas, as pessoas achavam que era uma boa ideia deixar a cabeça dos bebês pontuda. Elas forçavam o desenvolvimento do couro cabeludo dos bebês para eles crescerem desse modo.

5-    Sutttee e Seppoku são dois rituais de tribos diferentes. O primeiro é da India e consiste em uma viúva aceitar ser queimada viva com seu falecido marido, enquanto o segundo é do Japão e tem a ver com um suicídio voluntário grotesco seguido da perda de honra de alguém.

A história dos humanos é cheia de rituais assim, geralmente resultando na matança de muitos de seus próprios. Você pode ler mais na Wikipedia sobre vários tipos de sacrifícios humanos e rituais por toda a história humana.

As classes sociais são outro aspecto da história humana que foi projetado com ideias morais em mente. Por exemplo, era uma normalidade, ao que parece, para a maioria das tribos dividir seus membros de acordo com a riqueza e poder. Aqueles no poder aceitavam a situação como sendo “direito” (nós merecemos essa riqueza, enquanto aqueles que são escravos nascem assim ou merecem ser escravos).

Na história da humanidade, não há falta de tais atos cruéis em nome de ideais morais, mas alguém pode argumentar que todos esses atos foram impostos por ditaduras de muitos tipos diferentes, de modo que talvez não sejam uma representação da moralidade aceita geral. No entanto, considere que os que fizeram essas decisões o fizeram em nome da ética e valores morais (a maioria das vezes). Além disso, pessoas comuns aceitaram esses valores (a maior parte do tempo), mesmo participando em torturas públicas, rituais ou outras atividades do tipo.

Por favor, tenha em mente que estes exemplos são apenas uma pequena amostra de uma pequena fração da cultura humana.

A fim de verdadeiramente compreender a moral e a ética, você deve observar como essas noções evoluíram ao longo do tempo e compará-las lado a lado para reconhecer que elas foram sempre um desenvolvimento cultural, ou até mesmo uma criação/invenção pessoal/individual.

Para ler o artigo original na íntegra da revista do “The Venus Project” , clique aqui (páginas 24 a 77).

 

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1 Response

  1. carlos homolibero junior disse:

    Muito bom artigo… Obrigado

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