MZ em Discussão: Porque questões de Gênero e Raça têm tudo a ver com o Movimento Zeitgeist (Parte 1 de 3)

Por Eduardo Cormanich

“Este artigo não expressa necessariamente uma opinião do MZ, mas de seu autor.
O mérito está na contribuição para a discussão da linha de pensamento defendida pelo movimento.”

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Meu nome é Eduardo e eu sou branco, homem e heterossexual. Aí, a primeira pergunta que vem é, “mas porque raios você inicia um texto precisando dizer ‘quem é’, ou ‘de que cor é’, etc”. Pelo simples fato de que “não existe um texto, sem contexto” (Paulo Freire). E o que quer dizer essa expressão?! Simples, não há um escritor, narrador, colunista, ator, etc, que seja neutro. Não existe neutralidade. Não existe neutralidade num texto e em nenhuma outra ação humana. Estamos sempre envolvidos por uma cultura, por um tipo de pensamento que nos circunda e nos (de)forma o tempo todo.

Com isso, quero dizer que questões de gênero e questões raciais só podem ser totalmente compreendidas por aqueles atores que vivem as situações cotidianamente relacionadas às questões citadas. Isso não quer dizer que não seja possível a empatia, ou a compreensão do como esta ou aquela pessoa vivencia tais circunstâncias. Mas é muito diferente do que dizer “como” e “porque” essas pessoas vivem isso.

Se um homem pudesse viver o medo que a mulher sente ao passar numa rua escura, diante de uma construção abandonada; se o homem pudesse viver o medo de ter o corpo penetrado violentamente, contra uma pessoa mais forte do que ela, e que por isso faria este sentir-se vulnerável a todo instante, aí, talvez, ele conseguisse entender, um pouco mais, do que se trata a causa feminista e a luta pelo direito de usar qualquer roupa que quiser na rua, sem que isso fosse confundido com a intenção de querer ser estuprada. O mesmo vale para as questões de raça: se o homem ou mulher branca pudesse sentir o preconceito que é ser tratado como menos competente, ou ter sempre sua índole colocada em suspeito por causa de sua cor, estes talvez iriam começar a repensar um pouco mais seriamente sobre as questões que envolvem a luta dos negros – e das demais etnias.

O Movimento Zeitgeist (MZ) é um movimento que busca uma transformação social e econômica através de uma revolução na organização da sociedade. Busca a implementação da Economia Baseada em Recursos (EBR) que parece ser uma ótima alternativa ao consumo desenfreado dos recursos naturais da Terra – o único planeta habitável conhecido e que tem suas reservas naturais finitas (esse é um dos principais argumentos do MZ). Pois bem, a implementação de uma EBR pressupõem que a alta tecnologia irá suprir as maiores necessidades humanas de uma maneira muito mais sustentável que a atual e que, com isso, acabará com os principais problemas atuais, como a falta de acesso aos recursos como o alimento, moradia, lazer, estudo, etc. O que o MZ não conseguiu ainda é definir coisas importantes como 1) como se dará essa mudança; e 2) o que seria necessário para que ela ocorresse. Há várias correntes tentando solucionar esses dois pontos citados, mas não é o foco deste texto. A questão do texto está exatamente na total – ou quase total – omissão do MZ à questões básicas de relação entre pessoas.

Parece que devido à crença na metodologia científica, como uma metodologia capaz de superar todos os problemas da humanidade – o que nos remonta, obviamente, ao pensamento positivista que dominou boa parte do século XIX e o início do XX – alguns assuntos são tratados como “menos importantes” ou apenas tangenciais ao MZ. E este texto visa exatamente argumentar contra isso. À partir da constatação de uma contradição positivista: a pseudo neutralidade do cientista. Os cientistas, os mais positivistas pelo menos, acreditam que o sujeito não interfere no experimento que realiza. Como se os fatos “falassem por si só”. Essa postura denota que, há uma crença “positiva” no método científico, de tal maneira que, qualquer um, em qualquer lugar do mundo é capaz de reproduzir aquele experimento independente de quem o faça. Daí a alegação que a ciência – e o cientista – são neutros. Pois bem, em relação ao experimento, parece-nos que sim, há uma certa neutralidade metodológica (desde que resguardados os procedimentos, etc). Mas quanto a escolha das hipóteses a serem testadas? Quem as escolhe? E quanto a qual método usar, e qual tipo de abordagem estatística utilizar para tratar os dados? Quem define isso? Vamos mais longe agora: quem define qual o tipo de fármaco que será testado? Quem define para qual área de estudo haverá maiores recursos e maiores investimentos? Afinal de contas, todas as conclusões científicas são isentas de um viés político e econômico? A essa altura, acredito que já ficou claro a fundamentação da contestação da pseudo neutralidade científica, certo?

Mas e se fosse possível um mundo onde não houvesse essas tais influências externas, como a política e a econômica, por exemplo, então a neutralidade científica poderia ser resgatada? Seria possível defender que essa neutralidade do cientista exista? Infelizmente, não. Ou seria felizmente?! Pois, se realmente quisermos levar a sério o trabalho do cientista, este não poderá se esquivar de questões óbvias sobre o que motivou ele ou ela a tratar aquele fato. Ou sobre como ele projeta suas expectativas sobre os experimentos que observa. Tudo isso ocorre, mesmo que o cientista busque ao máximo se esquivar deles. Existem, é óbvio, cientistas sérios que, utilizando-se de ferramentas metodológicas buscam diminuir os “vieses”, que são vários (externos, internos, de escolha, interação interpretação, etc).

maxresdefaultE, se agora, a pesquisa desenvolvida tivesse como objetivo fundamentar uma hipótese, por exemplo, de que homens e mulheres têm desempenhos diferentes quando realizam um teste de direção automotiva? Parece óbvio que iremos encontrar diferenças, não?! Não, não é óbvio! É um viés, um viés machista, sexista, que busca encontrar diferenças fisiológicas para justificar diferenças  culturais. Nesse exemplo, inclusive, há estudos que apontam que a mulher teria uma visão periférica ruim, em relação ao homem. Mas será mesmo?!?! Será que se a mulher fosse treinada desde cedo, em atividades que exigem tais percepções, como esportes próprios para “meninos”, sua visão periférica seria tão ruim assim? Na verdade, algumas pesquisas sequer levam em consideração alguns fatores, pelo simples fato de que os pesquisadores desconhecem ou tratam como óbvios alguns pontos que não são óbvios, como, por exemplo, acreditando que as diferenças culturais podem ser encontradas através de diferenças biológicas. Como se as diferenças biológicas, pura e simples fossem capazes de sustentar afirmações do tipo: “mulheres fazem amor e homens fazem sexo”; ou ainda “mulheres são mais sensíveis e homens mais racionais”. Tais afirmações, com toda certeza, não conseguem atingir o objetivo do que propõem, pois são incapazes de abarcar toda a complexidade e os fatores que tais problemas exigem. O mesmo, obviamente, vale para as questões de raça, etnia, onde se pressupõem que as diferenças seriam apenas de ordem biológica, sem levar em conta os fatores culturais e históricos que formam e deformam tais indivíduos.

Diante desses pontos, podemos concluir que, se o próprio MZ, quiser, de fato, propor uma “nova sociedade” e, com isso, um novo tipo de pensamento, precisará reformular, também, a própria ciência. E, não apenas a ciência, enquanto conteúdo, mas enquanto metodologia. Vencer e ultrapassar paradigmas não é tarefa fácil – ainda mais se o paradigma já está enraizado em nossa cultura ocidental, de maneira que as tais “verdades científicas” se colocam sobre toda e qualquer discussão como se fossem uma versão fundamentalista – tal qual a humanidade já viveu na idade média, por exemplo.

Haveriam outros motivos tão importantes quanto os que foram aqui apresentados para defender a tese de que o MZ precisa incorporar os assuntos relevantes a nossa cultura atual. Mas isso será tema de outros textos. Visando o caráter mais pedagógico e conciso deste texto, focaremos  nesses pontos somente. Mas, para finalizar, gostaria de explicitar uma diferença que ocorre no entendimento a respeito das pautas das chamadas minorias. Não são os integrantes do MZ que precisam discutir ou não se tais temas precisam ser abordados. A própria obviedade que constitui os fatos atuais das grandes diferenças raciais e de gênero que permeiam nossas relações sociais falam por si só. Portanto, os membros não deveriam questionar a pertinência dos temas – se serão ou não incorporados – mas como é que esses temas têm de ser tratados – e quais seriam as soluções ao modo EBR e do Movimento Zeitgeist para essas questões que são tão urgentes quanto a própria economia e a questão ambiental em si.

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2 Responses

  1. anonymus disse:

    ” sem que isso fosse confundido com a intenção de querer ser estuprada”

    Você está fazendo uma afirmação sem qualquer sentido, para ser cordial na argumentação.

  2. José disse:

    Pode-se entender como “… sem que isso fosse confundido como um convite à olhares indiscretos, assédios verbais e, em último caso, ao sexo, que no caso seria sem consentimento dela, ou seja, estupro.” Não é difícil entender o medo que uma mulher sente de QUALQUER homem que ela aviste numa rua escura e vazia em praticamente qualquer lugar do mundo. E esse medo deve ser ainda maior se você é uma mulher trans.

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