NACIONALISMO: uma doença infantil? – Parte 2

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Alguns dos problemas com que lidamos em nosso dia a dia nascem de uma dificuldade que nós, como seres humanos, possuímos: a falta de tato para lidar com o diferente. Em sala de aulas, ambientes de trabalho, viagens para o exterior ou mesmo em nossos lares, percebemos o diferente e o julgamos a partir de nossa própria compreensão da realidade, muitas vezes falsamente polarizando nossa percepção em conceitos de certo e errado, bom e mau, superior e inferior.
Se, na resolução desses problemas de nosso cotidiano, muitas vezes precisamos aguçar uma capacidade que também nos é característica, que é a empatia, da mesma forma, para a resolução de questões mais amplas e que abrangem várias nações como a solução da fome e da pobreza, essa mesma capacidade é requisitada.
Nessa segunda parte do artigo de Colin Culbreth sobre o nacionalismo, parte desse conceito de diferenças entre as nações é abordado envolvendo um assunto peculiar: o turismo.
Caso não tenha lido a primeira parte do artigo, acesse aqui.
Boa leitura.

Ao viajar para outros países não é incomum encontrar pessoas que acreditem que seu país seja superior aos outros. Esse fato só surpreende aqueles que não viajaram além da fronteira de seus países. Tendo dito isso, muitas pessoas cometem o erro de supor que, só porque têm experiência em viagens, estão qualificadas como culturalmente competentes ou de que possuem uma compreensão mais profunda sobre outras nações. Isso também não é verdade. Viajar a lazer é uma experiência muito diferente do que viver em um país por um longo período de tempo.

Quando uma pessoa viaja, o ato envolve o gasto de sua própria moeda. Isso muitas vezes faz com que um viajante tenha mais poder de compra do que um residente do país visitado, como é o caso dos viajantes norte-americanos e dos britânicos. Por exemplo, a taxa de câmbio atual entre os EUA e a Polônia é cerca de US$1,00 para 3,00zt (Zlotys poloneses), uma proporção de 1:3 [Fonte]. Então, se um cidadão dos EUA fosse viajar para a Polônia com US$1.000,00, após a conversão teria 3.000,00zt em mãos.

Um cidadão britânico com ₤1.000,00 teria bem mais de 5.000,00zt em mãos. Na Polônia, o salário mínimo atual é de cerca de 1.680,00zt (Zlotys) por mês (em 2014) [Fonte], que dá apenas US$548,03 por mês quando convertido em dólares americanos e ₤322,14 por mês quando convertido em libras esterlinas.

Como resultado, um americano que viaje para a Polônia terá o luxo de experimentar um itinerário de baixo custo. Por outro lado, imagine como seria difícil para um cidadão polonês tirar umas férias na Grã-Bretanha. Depois de um cálculo simples, você pode ver quanto tempo um cidadão polonês leva para ganhar ₤1.000,00 [Fonte], [Fonte].

Não é de se admirar o porquê dos cidadãos britânicos queixarem-se de um elevado fluxo de imigrantes poloneses (e da mesma forma como os americanos reclamam de imigrantes mexicanos).

Se todos os países fossem capazes de oferecer melhores salários para dar conta de um custo de vida mais universal, o número de “violações de fronteira” (ou de pessoas que procuram entrar em outro país ilegalmente) provavelmente cairia drasticamente.

A falta de um salário digno é muitas vezes a razão de as pessoas procurarem refúgio em outro país, e isso faz com que países de primeiro mundo se sintam como se devessem proteger seus bens e recursos.

Além disso, muitos americanos que conheço viajam para vários países, gastam uma grande quantidade de dinheiro em hotéis caros, dedicam bastante tempo ao às compras e aos mesmos centros comerciais tradicionais que existem em seu próprio país, e escolhem os restaurantes com base na recomendação do seu guia de viagem ou em quão chique seja a sua aparência. Isso faz com que as pessoas apenas experimentem uma fração, se muito, da verdadeira cultura e potencial do país. É por isso que viajar não se qualifica como experiência.

Viajar não garante que uma pessoa tenha experimentado ou, no mínimo, entendido uma cultura diferente. Apenas prova que uma pessoa rica pode viajar por aí, obter um carimbo no seu passaporte e criar a ilusão de ser um visitante mundial. Mais uma vez, experimentar algo e viver algo são dois cenários muito diferentes.

Por exemplo, um dos melhores restaurantes que eu já comi foi na Malásia. Era uma variedade de alimentos servidos em uma folha de bananeira. Esse restaurante era algo que eu teria evitado no passado, devido à aparência do lugar não se alinhar com o meu modelo pré-concebido. Sem a experiência pessoal de viajar, viver ou imergir em uma cultura por um período prolongado de tempo, como seria possível realmente ter uma opinião formada sobre outras nações?

Da mesma forma, confiar em livros que expliquem ou ensinem sobre as diferenças entre as nações, ou ouvir as opiniões da elite dominante pela televisão também é muito diferente de viver pessoalmente essas experiências. Não foi até eu deixar a América que comecei a perceber como o conceito de superioridade nacional era profundamente ignorante, ridículo e contraproducente.

Por exemplo, devido à representação de grupos étnicos não-brancos nos meios de comunicação televisivos e em livros escolares de história, percebi que todos os mexicanos tinham a pele escura, eram preguiçosos e analfabetos. Quando estive no México e vivi com o seu povo, percebi o quão absurdo era esse retrato das outras nações. A ignorância acerca de outras culturas cria barreiras para as pessoas e limita nossas mentes à visão da realidade do mundo que nos rodeia.

Falta de experiências em outras culturas muitas vezes leva a pessoa a preencher seus padrões com informações imprecisas, e isso influencia em suas crenças. O simples fato de um país ser “diferente” do que aquilo que estamos acostumados é, muitas vezes, suficiente para convencer as pessoas mais mimadas de que uma nação é superior a outra.

Desaprender o que aprendemos, para que possamos nos re-educar, é uma habilidade apenas de alguns e, portanto, a ideia de modificar nossas crenças favoritas sobre o nacionalismo é severamente combatida. Isso é ainda mais evidente quando se descobre que menos de 50% dos cidadãos americanos possuem um passaporte e viajam para o exterior.

Pensar em termos tão bidimensionais não é completamente culpa nossa. Somos todos vítimas da cultura, e o nacionalismo é, ou propositadamente, ou inadvertidamente, reforçado por vários grupos influentes desde o momento de nosso nascimento, como nossos sistemas escolares, nossas igrejas, nossas comunidades e assim por diante.

Quando crianças, não temos como resistir a essas influências ambientais, especialmente quando os pais continuam passando esses pontos de vista para os seus filhos, que, em seguida, os passarão aos seus filhos (ver Doutrinação Infantil). No entanto, há um número crescente de pessoas em todo o mundo que está percebendo essas restrições e barreiras artificiais que continuam a manter as pessoas separadas umas das outras.

“Este artigo não expressa necessariamente uma opinião do MZ, mas de seu autor.
O mérito está na contribuição para a discussão da linha de pensamento defendida pelo movimento.”

 

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