NACIONALISMO: uma doença infantil? – Parte 4

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Para a perpetuação da identidade cultural ou territorial de uma nação se fazem necessárias instituições e valores que protejam essa entidade de pressões externas ou mesmo internas. No mundo globalizado de hoje, um dos valores centrais e que poderia ser considerado a força motriz dessas entidades é o lucro. É por ele e através dele que sociedades se impõem, impérios se estabelecem e guerras são travadas. Sua força é tamanha que questões éticas e humanitárias são automaticamente colocadas em segundo plano quando confrontadas com esse que é o dogma do mundo moderno.

Nessa quarta e última parte do artigo sobre o nacionalismo, entre outros pontos, são apontadas as consequências dessa escolha coletiva de pautar nossas relações sociais através do lucro e que, cedo ou tarde, deveremos abandonar esse padrão.

Caso você não tenha lido as partes anteriores, acesse aqui, aqui e aqui.

Boa leitura.

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Hoje, se as pessoas não puderem enriquecer, nenhuma mudança ou progresso é realizado. É por isso que a política segue falhando. É por isso que o nosso planeta continua a ser poluído, destruído e saqueado em nome do lucro. É também por isso que hoje vemos poucas empresas tomarem o caminho do que é certo. Todos os nossos sistemas de suporte são apenas funcionais se houver lucro envolvido.

Precisamos entender que, enquanto esta for a nossa força motriz na vida, uma mentalidade consumista e egoísta, que só busca dinheiro em prol de interesses egoístas de uns poucos, o progresso nunca se realizará e acabaremos por criar um planeta inabitável.

Esta realidade está cada vez mais próxima. É por isso que temos que abandonar todos os sistemas monetários e começar a pensar em atender as necessidades das pessoas, dos animais e do meio ambiente acima de tudo.

Claro, a resistência a essa ideia seria enorme – principalmente por parte daqueles com medo de perder a sua riqueza e status -, mas a maioria das pessoas poderia ser persuadida a ver o contexto mais amplo, caso sejam capazes de abandonar crenças seculares e improdutivas, como o nacionalismo.

É errado atribuir um preço às necessidades da vida. Quando alguém rouba um carro, podemos racionalizar este ato como sendo errado; um carro não é uma necessidade. No entanto, quando uma nação acumula recursos como água ou comida, fomos condicionados a chamar esse ato de “nacionalismo”.

Quando em conversa com pessoas sobre o conceito de uma nação superior, muitas vezes eu perguntava-lhes “como um país se torna superior?” Explicava para elas que é muito difícil, e talvez impossível, para qualquer nação ou país escalar até o topo da hierarquia financeira simplesmente através da competição, sendo o cara legal e jogando dentro das regras.

Quanto mais se estuda a história, mais se percebe que as posições favoráveis se estabelecem através de meios malévolos.

As pessoas estão tão cegas pelo seu sucesso atual e tão distraídas pela riqueza material que eles não pensam em questionar seu passado ou como o seu passado afetou outras nações. O que quero dizer é que ninguém questiona os luxos que experimenta cotidianamente. Por exemplo, por que é que os Estados Unidos têm produtos tão baratos? Não teria algo a ver com o fato de que estivemos em guerra com vários países que nos forneceram, ao longo da nossa história, sua produção … teria?

Ou com como companhias como a Nike poderiam obter lucros pela terceirização de empregos para o exterior em fábricas que empregam crianças com salários horrendos? (Fonte).

Ou com como temos estado, ou em guerra, ou em relações amigáveis com muitos países que possuem grandes reservas de petróleo? Todos os luxos que experimentamos diariamente foram – ou são – definidos através da exploração do trabalho de outra nação lutando para se manter. No entanto, ninguém quer pensar nessas coisas.

Somos simplesmente sugados pelas mentiras que nos contam, de que a América está garantindo todos esses luxos através de uma competição justa e inteligente, e não por meio de exploração.

Os partidários do sistema monetário capitalista diriam que a razão para a estratificação social atual é o esforço próprio ou suor do próprio rosto. Eles também poderiam argumentar a favor do livre pensamento, criatividade ou que a nossa nação é uma sociedade livre que recompensa empreendedores e inovadores.

Habilidades manuais superiores, ética de trabalho, incentivos remuneratórios, benefícios empregatícios ou vários outros fatores poderiam igualmente ser levantados. Esses princípios, embora parcialmente verdadeiros, não são completos. A razão dessas crenças serem falsas é porque as pessoas não conseguem entender os fatos que trouxeram à tona esses benefícios. Em vez de questionar por que temos um padrão mais elevado de vida nos EUA, é muito mais fácil simplesmente acreditar que o nosso país é ótimo e será sempre uma força do bem no mundo.

Como recompensa pela nossa ignorância, os Estados Unidos, e outros países como nós, proporcionam ao público luxos de consumo a preços acessíveis e nos vendem o orgulho nacional. O fato é que, se os países gastassem tanto dinheiro em educação como o fazem em guerra, mais da metade dos problemas da terra seriam eliminados para sempre (junto com os grandes lucros que eles proporcionam).

Além disso, “os Estados Unidos gastaram mais de 87 bilhões de dólares na condução da guerra no Iraque, enquanto a Organização das Nações Unidas estima que com menos da metade desse montante poderíamos fornecer água limpa, dietas adequadas, serviços sanitários e educação básica para cada pessoa no planeta” (Fonte).

Patriotismo é apenas o objeto brilhante que é vendido ao público de modo que eles fiquem distraídos do que realmente está acontecendo ao seu redor. Enquanto os países estiverem voltados uns contra os outros, a raça humana nunca se unirá.

A história do mundo está inundada com disputas territoriais e violência. A Europa é talvez o principal exemplo, pois cada um de seus países e fronteiras foi anteriormente controlado e habitado por uma cultura ou civilização diferente (Fonte).

Não é de admirar por que existem tantas guerras e disputas territoriais contínuas nesta região do mundo – já que cada lado não entende ou descaradamente ignora o fato de que todo o território foi roubado de um proprietário anterior. Mesmo no caso dos Estados Unidos da América, a aquisição do seu atual território foi realizada quando os colonos e cidadãos americanos e seus soldados dizimaram milhões de nativos americanos e roubaram suas terras. Devido à complexidade do tema e do número de violações das tribos e dos tratados, existem inúmeras fontes que poderiam ser pesquisadas online, mas aqui vai apenas um exemplo.

A história não é diferente no continente australiano. O fato é: não existe posse sobre a terra, apesar das barreiras arbitrárias modernas criadas por aqueles com as armas. Se estamos sinceramente inclinados a corrigir os problemas monstruosos em nosso mundo, devemos abrir mão de pontos de vista ultrapassados e ignorantes como o nacionalismo.

Se isso for difícil de engolir, talvez os livros de história sejam o melhor método para questionar a validade da história de qualquer nação. Os livros de história raramente descrevem os erros dos políticos ou dos líderes. Na verdade, irei ao ponto de dizer que eles nunca o fazem. Só com escândalos como os de Nixon e o de Watergate ou os de Clinton e Lewinsky é que os erros dos políticos chegam a aparecer nos livros de história.

Os livros de história descrevem como os políticos, funcionários do governo, exército e outros líderes sempre tomam as decisões corretas. Se você está estudando sobre a Segunda Guerra Mundial a partir de uma perspectiva americana, você vai aprender sobre os esforços do General George Patton e de como ele foi a razão do sucesso da invasão aliada na Europa; como ele ajudou a derrotar a Alemanha nazista e como ajudou a acabar com a Guerra da Coréia. Você já ouviu falar dos erros que ele cometeu? Acontece o mesmo em outras áreas. Os erros e as escolhas erradas feitas por cada figura de destaque não são devidamente registrados em nossos livros de história.

De acordo com Jacque Fresco, “Todo mundo nos livros de história sempre diz a coisa certa. Thomas Edison teve que testar 7000 elementos diferentes antes de encontrar um que queimasse. Nenhum político toma só decisões corretas. Eles cometem erros. Eles tomam decisões erradas”.

Não está convencido? Considere como nós ensinamos às nossas crianças assuntos como as expedições Colombo e Lewis e Clark, a história dos nativos americanos, a Primeira e Segunda Guerra Mundial e tantos outros.

Os livros de história ensinam todos os detalhes desagradáveis e as terríveis verdades desses atos significativos da história, ou esses detalhes são pulados ou propositadamente omitidos caso sejam desabonadores?

Pense sobre a importância deste conceito por um momento: Qual precisão o registro histórico pode realmente possuir se cada político ou líder tem um histórico quase impecável? Ter um livro de história que descreve que sempre foram tomadas as decisões corretas é ridículo. Ninguém é capaz disso.

Então, por que as pessoas são vítimas desse sistema falso de crenças? De acordo com Dale Carnegie, autor de Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas, Sigmund Freud disse que “tudo o que você e eu fazemos se baseia em dois motivos: desejo sexual e desejo de grandeza” (ou desejo de se sentir importante) (Fonte).

Desde o nascimento até a idade adulta, as pessoas estão sempre buscando maneiras de se sentir importante. Sem esse sentimento, a busca de riqueza e status não teria sentido; assim como os estereótipos associados às profissões: doutores, advogados, professores, lixeiros.

Na visão nacionalista, o desejo de se sentir importante é a motivação para a competição.

No entanto, pelo fato da competição criar, inevitavelmente, um mundo que favorece certas pessoas deixando outras de fora, o resultado é uma distribuição desigual da riqueza. Mas apenas a distribuição desigual de riqueza nem sequer explica uma pequena parte do atual estado das coisas. Uma disparidade de 98% não tem nada de desigual. É simplesmente criminosa. A competição garante que exista um vencedor e um perdedor, e isso deixa um deles sentindo-se pouco importante.

Além de causar separação, a competição favorece ressentimentos. Enquanto um país ascende na escala, outro deve descer pelo efeito gangorra do capitalismo, que não oferece nenhuma outra alternativa. Por muitos países não se beneficiarem da competição, um ressentimento surge em relação aos países favorecidos no jogo.

Não se engane; o capitalismo é um jogo, e está aparelhado de forma a beneficiar a classe rica e privilegiada. O capitalismo é o principal fator que contribui para a estratificação global da riqueza. Não é apenas uma mera consequência da ganância. Em meu livro, disponível gratuitamente no meu site, discuto um exemplo disso em relação ao sistema de tributação americano (os chamados impostos progressivos) na Parte 2: A Mídia. À medida que a disparidade entre os países continua crescendo, surge a impressão de que não se trata mais de competição, mas de roubo.

Considerando que o capital inicial não começa equilibrado desde o início, é fácil notar as disparidades. Tome-se, por exemplo, a América do Norte. É o continente que mais cedo foi tomado pela era industrial e, consequentemente, sofreu menos poluição, menos extração de recursos, e é fonte de um grande número de recursos que não estão disponíveis na maioria dos países.

Nos Estados Unidos, por exemplo, temos praias tropicais, montanhas enormes, terras cultiváveis abundantes, vastas regiões para extração de madeira e com animais selvagens, climas amenos, água fresca e limpa, petróleo, aço e reservas minerais, e muito mais. Se examinarmos os recursos disponíveis em outros países, veremos que muitos não possuem tais recursos prontos para uma negociação dentro do sistema capitalista.

O único continente que tem recursos mais valiosos do que os Estados Unidos é o africano – e podemos perceber como os tiranos da indústria escravizaram e dizimaram completamente o potencial de participação desse continente no jogo.

A verdade é que o jogo está comprometido desde o início e o avanço na hierarquia social é quase sempre realizado através de padrões morais flexíveis ou desonestos. O avanço só serve para punir as nações menos afortunadas em recursos ou que são incapazes de se defender contra a exploração externa. Para qualquer nação que subiu ao topo, uma lente de orgulho e nacionalismo passa a ser utilizada, o que só desperta o ressentimento das nações opositoras.

Durante longos períodos e sem uma vontade de compartilhar o que deveria ser herança de todas as pessoas, o avanço começa a despertar a raiva, inveja, ressentimento e uma série de outras emoções humanas potencialmente violentas, e que inevitavelmente levam à guerra.

O conteúdo deste artigo foi escrito originalmente para e publicado no livro GRATUITO de Colin Culbreth chamado, “As Lentes da Verdade: A ganância, a Mídia, e Nós” e que está disponível para download em www.colinculbreth.com.

“Este artigo não expressa necessariamente uma opinião do MZ, mas de seu autor.
O mérito está na contribuição para a discussão da linha de pensamento defendida pelo movimento.”

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