Natureza humana – uma introdução através do livro “Mentes Perigosas” de Ana Beatriz Barbosa Silva

Uma das questões que provocam debates e contestações em relação às ideias do MZ é a da real “natureza” ou “índole” humana. Na verdade, este é um tema que gera discussões há séculos. Desde a Grécia e a Roma antigas, passando por John Locke, Thomas Hobbes e Jean-Jacques Rousseau, discute-se a bondade e a maldade humanas, questionando-se a origem dessas: inata ou adquirida socialmente. As propostas básicas do empirismo e do “contrato social” estão diretamente associadas aos conceitos de “tábula rasa” e do “homem é o lobo do homem”. Percebe-se, assim, que embora os questionamentos a respeito da natureza humana possam às vezes parecer conversa de botequim, são eles que permeiam as justificativas para a instauração do Estado, para a existência dos “Direitos Naturais” e até para justificar o trabalho e a propriedade privada. Todos estes conceitos estão no cerne das sociedades “democráticas” atuais, e influenciaram profundamente na elaboração das Constituições em boa parte dos países.

A filosofia política contribui muito para esta investigação, ao propor questões e visões sobre as quais normalmente não pensamos com muito cuidado. A filosofia nos instiga a pensar. Entretanto, alguns argumentos podem se tornar vazios se não houver um embasamento que vá além do campo das ideias. A argumentação político-filosófica torna-se mais forte se houver comprovações científicas para justificá-la.

Uma base científica inicial para compreender a natureza humana pode ser encontrada no livro “Mentes Perigosas”, de Ana Beatriz Barbosa Silva. A autora é médica psiquiatra, especialista em comportamento humano. Embora não seja pesquisadora do tema, Ana Beatriz oferece referências científicas na bibliografia do livro, as quais embasaram sua exposição – além, é claro, de sua formação e de sua experiência clínica. Ainda que o foco principal seja a psicopatia – um transtorno que é exceção dentro dos padrões de comportamento humano – durante toda a escrita a autora reforça a ideia de que a grande maioria das pessoas é dotada de uma consciência que propicia a “responsabilidade e a interconectividade” (p.56), e a empatia. É uma boa leitura para iniciação neste tema, pois Ana Beatriz utiliza uma linguagem bastante acessível e ilustrativa para um público não especializado. Os Capítulos 10 (“De onde vem isso tudo?”) e 13 (“Alguma coisa está fora da ordem”) são os que melhor abordam a respeito de nosso “senso moral”. Veja alguns trechos:

“É óbvio que não podemos atribuir somente à genética e à evolução biológica nossa capacidade de solidariedade e compaixão. A cultura à qual somos expostos em uma determinada sociedade também nos influencia em diversos aspectos de nossa personalidade. É fundamental não confundir a nossa capacidade inata de distinguir o certo do errado com a capacidade de tomarmos as atitudes corretas ao invés das erradas. Uma coisa é saber o que deve ser feito, a outra é agir de acordo com esse preceito.” (p.156)

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“Nas sociedades ocidentais a conduta psicopática tem-se incrementado de maneira assustadora nas últimas cinco décadas. (…) Tenho a convicção de que todos esses problemas têm se agravado, de modo extraordinário, devido à ação dos psicopatas e de pessoas que vêm adotando formas “psicopáticas” de convívio. Se isso ocorre é porque nossa sociedade está fundamentada em valores e práticas que, no mínimo, favorecem a maneira psicopática de ser e viver. De certa forma, estamos contribuindo para promover uma cultura na qual a psicopatia encontra um campo bastante favorável para florescer.” (p.189)

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“A construção de uma sociedade mais solidária, é, a meu ver, o grande desafio dos nossos tempos. E para tal empreitada teremos que harmonizar o desenvolvimento tecnológico com uma consciência que não faça qualquer tipo de concessão ao estilo psicopático de ser ou de viver. A luta contra a psicopatia é a luta por um mundo mais ético e menos violento, repleto de ‘gente fina, elegante e sincera.” (p.194)

Outras sugestões relacionadas (obviamente, há muitas outras sugestões interessantes – além da obra dos demais autores/pensadores citados. Poste as suas nos comentários!):
Justice – Qual a coisa certa a fazer? Michael Sandel. (Vídeos. Série de aulas do renomado Professor de Filosofia Política da Universidade Harvard. Para a discussão sobre  Locke, assistir a aula 8, “Obediência”).
Estado de Natureza, contrato social, Estado Civil na filosofia de Hobbes, Locke e Rousseau. Marilena Chauí. (Trecho do livro Filosofia. Ed. Ática, São Paulo, ano 2000, pág. 220-223). 

 

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Sugestões para Estudo
Nesta categoria são propostas sugestões de autores, livros, artigos e/ou sites que contribuam para a discussão de temas relacionados à linha de pensamento do Movimento Zeitgeist.
As sugestões não necessariamente são de pessoas alinhadas às ideias do MZ, e nem têm intenção de fazer propaganda e/ou promover produtos, indivíduos ou seus ideais – não havendo nenhuma forma de incentivo financeiro ou troca de favores para a divulgação.
As indicações aqui postadas têm o objetivo exclusivo de promover o debate e a difusão de ideias.

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15 Responses

  1. Celchess disse:

    O Homem jamais será solidário verdadeiramente. Isto porque vive inerentemente em um ambiente hostil e de competição que é o planeta Terra. O ser humano está acorrentado numa cadeia de sobrevivência. É muito fácil falar de solidariedade em tempos de fartura, mas espere vir uma crise e todos querem salvar a própria pele. O Homem como qualquer animal desse planeta é um sobrevivente e está em processo de evolução adaptativa ao ambiente que o cerca. Desenvolveu uma parafernália tecnológica e agora tem dificuldade de conciliar sua natureza bestial e egoísta com as exigências sócio-tecnocratas.

    • Graciela Kunrath Lima disse:

      O homem é um animal, está inserido no mundo natural e sujeito às leis deste – embora, devido à tecnologia, muitas vezes ele se esqueça disso. Entretanto, o ser humano tem uma diferença em relação aos outros animais: ele é dotado de razão, consegue idealizar, fazer inferências. Assim, sabe diferenciar o “certo” do “errado”, o “bom” do “ruim”. O problema, é que, como você bem disse, em determinados contextos culturais, ou em situações extremas, o ser humano é dominado pelo instinto ao invés da razão. A razão é evolutivamente muito “jovem” comparada ao instinto, e talvez por isso ainda não tenhamos aprendido a utilizá-la efetivamente. Se algum dia conseguirmos que a razão tenha força igual ou superior ao instinto, pode ser que superemos nossa “natureza bestial” para sermos mais solidários sempre, independente da situação. Ainda assim, há estudos (http://www.futurepundit.com/archives/005614.html) que indicam que provavelmente a solidariedade foi essencial à sobrevivência dos humanos – ainda que, até o momento, ela seja uma solidariedade referente somente ao grupo ao qual o indivíduo pertence, e não uma solidariedade em relação a toda a espécie humana. Este é um outro ponto que precisamos mudar se quisermos continuar sobrevivendo como espécie, sem destruirmos nosso planeta.

    • Marcelo disse:

      De fato, seres humanos solidários com todos os demais, independente do ambiente, é algo muito difícil de ocorrer, até porque somos produto direto do ambiente ao qual pertencemos. Mas uma das propostas centrais de uma Economia Baseada em Recursos é justamente acabar com a principal origem do comportamento egoísta – a escassez – por meio da utilização da tecnologia sem restrições monetárias. Algo muito mais pragmático e realista do que esperar que os seres humanos venham um dia a agir solidariamente de forma independente do ambiente aos qual estão expostos.

      • Graciela Kunrath Lima disse:

        Com certeza, Celchess! Resumiu tudo muito bem com essas palavras.

        • Celchess disse:

          Para sermos solidário temos que abrir mão. Se contentar com o necessário e suficiente. Fazendo isso, damos oportunidade aos outros. A Ciência Econômica se baseia na máxima “a necessidade humana é infinita e os recursos são finitos”. Está aí a origem dos problemas e das guerras. Com certeza, ainda temos muito que evoluir para que a razão, finalmente, suplante o instinto infinitamente necessitado.

  2. Sandro disse:

    Precisamos construir novos ambientes.
    Atualmente há muitas iniciativas, com este objetivo, como Damanhur na Itália, AuroVille na Índia, Tamera em Portugal e outros tantos. Aqui no Brasil, um projeto que promete é o da Aliança Luz.
    Podemos contribuir a qualquer momento com quaisquer destas iniciativas.
    Grato
    Abraços

    • Daniel C. disse:

      BRUTALIDADE SEM FIM!
      Não conheço tais projetos. Achei o nome Aliança Luz muito sugestivo. Achei que poderia ser algo para mim. Ledo engano. Entrei no site e deparei-me com aquaponia, um projeto literalmente monstruoso, sem metáforas. É um projeto que PRODUZ peixes. Como se o peixe fosse um ser sem cérebro. Senti repúdio e nojo. Mas a explicação veio logo, pois ao centro da página se encontra um brasão do ministério da (in)justiça. Pois é gente, continuem dando trela para a máfia opressora que o resultado será sempre esse: Os escravos NÃO vencerão! (Além de serem motivados a comer cadáveres.)

      • Eduardo disse:

        Meu caro, sugiro de coração mudar um pouco o discurso, existem ótimos argumentos no veganismo para convencer pessoas a diminuir ou parar o consumo de carne de animais tais como devastação de ecossistemas para criação de gado de corte, ineficiência na geração de proteína.
        Chamar outras pessoas de monstros por suas dieta alimentar distancia um numero enorme de pessoas deste modelo de vida, acredito que esta estratégia seja extremamente ineficiente para convencer pessoas a mudarem sua Dieta.

  3. Antônio disse:

    Desculpe, discordo veementemente disso. A psiquiatria não é uma ciência, é uma pseudociência. Também não é medicina baseada em evidências, é medicina tradicional, como a homeopatia.

    • Antônio disse:

      Psiquiatria não é base científica em absoluto.

      • Time MZBlog disse:

        Antônio, relendo nossa conversa penso que talvez tenha havido confusão entre psiquiatria e psicanálise (não percebi isso antes). A psicanálise, concordo, é pseudociência. A psiquiatria, embora seja frequentemente mal conduzida e aplicada em nossa sociedade, teria uma base científica.

  4. Graciela Kunrath Lima disse:

    Antônio, se você observar bem em nenhum momento foi dito que a psiquiatria é uma ciência ou que a autora do livro é cientista. Foi dito que que o livro pode fornecer algumas bases científicas através de algumas referências utilizadas pela autora, embora este não seja o foco do livro. A psiquiatria é uma disciplina composta por diversas matérias – algumas científicas (neurociências, etologia) e outras não. No livro a autora cita alguns trabalhos desenvolvidos de forma científica, nas áreas de neurociência e comportamento, que corroboram algumas de suas visões – embora, é claro, ela misture isso com sua visão pessoal. Concordo que a medicina alopática, especialmente na área da psiquiatria, tem promovido uma “patologização” excessiva, com tratamentos desnecessários e subjetivos. Por outro lado, há dificuldade em se diagnosticar patologias psíquicas, umas vez que estas possuem origens multifatoriais, têm sintomas extremamente variáveis, e a ciência atualmente ainda não é capaz de fazer análises de forma sistêmica/integrada, e conhece muito pouco sobre o funcionamento do cérebro humano. A questão é que muitas dessas doenças psiquiátricas realmente existem (talvez não todas), mas não conhecemos elas o suficiente para fazer diagnóstico e tratamento corretamente.

    É bom lembrar também que a medicina tradicional não necessariamente é descartável. É difícil discernir nela o que é conhecimento empírico (que se baseia em evidências indicadas através da observação) e o que é “mitologia” ou pseudociência, mas há casos em que a medicina tradicional faz uso de princípios ativos reais de forma correta. Inclusive, existe uma disciplina chamada “farmacognosia” (http://pt.wikipedia.org/wiki/Farmacognosia) que muitas vezes faz uso da “etnobotânica” (http://pt.wikipedia.org/wiki/Etnobot%C3%A2nica) para aumentar as chances de se encontrar plantas e princípios ativos de forma mais direcionada e rápida.

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