O Estudo Genético da Genialidade

Caique Simão Taborda

Em 1921, Lewis Terman [1], eugenista* e ferrenho defensor da inteligência inata decidiu começar o que viria a ser o maior estudo longitudinal da história [2].

O objetivo do estudo era detectar “crianças excepcionais” (isto é, com boa pontuação no Teste de QI e Teste de Inteligência Nacional) em idade escolar e as acompanhar por toda a vida, para descobrir se tal genialidade se mantinha. Se a inteligência fosse um dom inato, “coisa da genética”, a primeira e mais plausível hipótese é de que ela [a inteligência] se manteria nos “mesmos níveis” por toda a vida. O resultado dessa genialidade seria o destaque e a diferenciação acentuada da maioria dos indivíduos daquela sociedade.

d67ff70809ff061c6380ab5fc4956372A amostragem do estudo contou com 1500 crianças em idade escolar do estado da Califórnia, que fizeram entre 135 à 200 pontos nos testes (a maioria das pessoas apresenta 100 pontos). As coletas de dados foram feitas, em média, de cinco em cinco anos após o inicio do estudo. A amostragem contava com 856 homens e 672 mulheres, em sua grande maioria branca e de classe média. Havia apenas dois negros no grupo, esses que Terman afirmou que eram “parcialmente brancos” e que “a proporção de sangue branco” era desconhecida [3]. O estudo segue até os dias de hoje, com apenas 200 pessoas da amostragem original ainda vivas (à época da publicação do estudo, por volta de 2008) [4].

O resultado do estudo, para a decepção de Terman e outros, foi o contrário de sua hipótese. Todos os 1500 não mantiveram suas posições de gênios na fase adulta e,ainda, quatro dos que foram descartados por Terman tiveram grande destaque no futuro. Dois deles ganharam o prêmio Nobel (Luis Walter Alvarez, Nobel de Física em 1968 e William Bradford Shockley, Nobel de Física  em 1956.) e os outros dois se tornaram músicos e compositores internacionalmente conhecidos (Isac Stern, Violinista Compositor e Yehudi Menuhin, Violinista Compositor e Maestro). Embora vários deles tenham tido algum destaque, publicando bons artigos científicos e sendo donos de algumas patentes, a maioria concorda que não teria sido diferente se tivesse sido selecionado um grupo aleatório de crianças com os mesmos “antecedentes sociais”. Além disso, Terman apadrinhava muitos deles, mandando cartas de recomendação para universidades e empresas (ele era bem influente), o que contaminou completamente a amostragem [5].

 A decepção ainda maior foi com a “nata” do grupo, os 5% que fizeram 180 pontos ou mais.

“No geral, a impressão que fica é a de que os indivíduos estudados que fizeram acima de 180 pontos não são tão extraordinários quanto o esperado. Sem dúvidas eles se saíram melhor do que a população em geral na maior parte das categorias mais importantes, e há algumas evidências (porém não muitas) de que foram mais bem-sucedidos em suas carreiras do que o grupo com 150 de QI. No entanto, quando recordamos o otimismo inicial de Terman em relação ao potencial de seus objetos de estudo e a afirmação de Hollingworth (1942) de que “as crianças que alcançam um resultado acima de 180 pontos em testes de QI constituem a ‘nata’ dos universitários formados”, temos a sensação decepcionante de que eles poderiam ter ido mais longe na vida, conclui David Henry Ferman, em uma reavaliação do estudo feita em 1984 [6].

Alguns anos depois Ferman concluiu sua pesquisa com seis crianças prodígio na área da música, arte, xadrez e matemática. Nenhum deles teve desempenho extraordinário na vida adulta.

Ellen Winner descobriu a mesma coisa em seu estudo.

“Em grande parte, as crianças talentosas, e até mesmo as crianças prodígio, não se tornam grandes criadores na fase adulta” [7].

Ann Hulbert, outra pesquisadora da área, acrescenta:

“Ao se concentrarem em um pequeno grupo de crianças com QI acima de 180, os estudos de caso de Hollingworth não puderam fornecer evidências claras de que o sucesso em testes de QI na infância pudesse prever uma excepcionalidade futura” [8].

Ericsson afirma o mesmo:

“Está claro que comprovadamente existem poucos prodígios, como Mozart, Picasso e Yehude Menuhin, que continuaram tendo sucesso na vida adulta – a maioria fica aquém das expectativas” [9].

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Por que isso acontece?

“Uma criança de seis anos de idade que conseguiu multiplicar número de três dígitos de cabeça, de resolver equações de álgebra, ganha reconhecimento. Mas assim que entram na vida adulta, ela precisa descobrir alguma nova maneira de solucionar um problema matemático não resolvido, ou descobrir novos problemas ou áreas para investigar. Caso contrário, ela não deixará sua marca no mundo da matemática… A situação se repete na arte ou na música. Perfeição técnica faz com que o prodígio seja aclamado, porém, se o mesmo prodígio não consegue ir além disso, estará fadado ao esquecimento”, explica Winner [10].

Ou seja, os atributos necessários para ser extraordinário na infância não são os mesmos necessários para ser extraordinário na fase adulta. Uma criança de seis anos que consegue multiplicar números de três dígitos de cabeça é impressionante pelo fato de ser uma criança de seis anos, mas para um matemático adulto, esse tipo de problema é bastante simples.

O segundo motivo é fruto da própria psicologia de ser extraordinário. A criança prodígio geralmente se destaca, aparece na mídia, faz apresentações ao vivo, etc; e são cercados de elogios a todo tempo. Isso a coloca numa zona de conforto que faz com que tenha um medo enorme de novos desafios que podem gerar fracassos. A maioria se recusa a ir além dos próprios limites (o que é necessário para que novas habilidades floresçam).

“Prodígios podem ficar congelados em suas próprias especialidades. Este é um problema que atinge especialmente aqueles cujo trabalho foi aclamado e se tornou público, como instrumentistas, pintores ou crianças anunciadas como “superdotadas”… É difícil se libertar da especialidade técnica e assumir o tipo de risco necessário para se tornar criativo”, afirma Winner [11].

Conclusão: As evidências fornecidas pelo estudo de Terman e outros pesquisadores dessa área da psicologia mostram que a inteligência não é apenas moldada por alguns genes que agraciam alguns poucos sortudos. É incrível como tantos anos depois e após tanto conhecimento gerado nessa área o discurso de senso comum ainda seja basicamente o mesmo de antes. A população ainda sofre, em muitas instâncias, com a franja da ideologia eugenista.

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*Eugenia: termo criado por Francis Galton, definido como o “estudo dos agentes sob o controle social que podem melhorar ou empobrecer as qualidades raciais das futuras gerações, seja física ou mentalmente”. Implicaria na utilização de técnicas de melhoramento genético e/ou de controle social para uma suposta melhoria da espécie humana. A proposta, eticamente questionável, incentivou muitos movimentos de caráter racista, como por exemplo, o nazismo.  Para saber mais sobre a eugenia e o movimento eugenista, acesse esse artigo da Revista “História Viva”.

Referências

[1] – Lewis Terman, Wikipedia

[2] –  The Vexing Legacy of Lewis Terman

[3] – Genetic Studies Of Genius Volume I Mental And Physical Traits Of A Thousand Gifted Children, p. 56

[4] Christmann, E. P., & Badgett, J. L. (2008). Interpreting assessment data. NTSA Press.

[5] Christmann, E. P., & Badgett, J. L. (2008). Interpreting assessment data. NTSA Press.

[6] A Follow-up of Subjects Scoring Above 180 IQ in Terman’s Genetic Studies of Genius, p. 518-23

[7] – The Origins and Ends of Giftedness, p. 159-69

[8] – The Prodigy Puzzle

[9] – Giftedness and Evidence for Reproducibly Superior Performance: An Account Based on the Expert Performance Framework, p. 3-56

[10] – The Origins and Ends of Giftedness p. 159-69

[11] – The Origins and Ends of Giftedness p. 159-69

Recomendações

O Gênio em Todos Nós – Por Que Tudo o Que Você Ouviu Falar Sobre Genética, Talento e QI Está Errado, de David Shenk

A Inteligência – Canal do Slow #17 (YouTube)

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