O Inicio da Catástrofe

Caique Simão Taborda

Kituwah_AcademyNós, seres humanos, somos a espécie de maior plasticidade cerebral do planeta. Ou seja, mais que o resto dos mamíferos e mais que os outros primatas, nosso cérebro possui a capacidade de se modificar conforme os estímulos ambientais aos quais é exposto. As mínimas situações fazem toda a diferença. Essa plasticidade é ainda maior na infância, especialmente até os sete anos de idade. Centenas de estudos estão disponíveis para nos mostrar isso, e o volume deles só tende a crescer mais e mais.

Hoje farei um breve resumo de uma publicação que me chamou bastante atenção, e que serve para evidenciar o quão sensível é essa “máquina” que carregamos dentro do crânio. No último texto falei sobre um estudo que mostrou como um alto QI na infância não garante excepcionalidade na vida adulta. Já neste, falarei sobre outro estudo que mostrou como o ambiente pode transformar radicalmente nossas capacidades e intelecto.

Em 1965, o governo dos Estados Unidos decidiu criar o Head Start, um programa de saúde e recursos humanos, que atende nas áreas de educação, nutrição, saúde e serviços abrangentes envolvendo os pais. Ele passou por diversas mudanças desde seu inicio, sendo a mais radical delas feita em 2007. Não vou me aprofundar muito no funcionamento e características do mesmo, pois esse não é o objetivo deste ensaio

Felizmente, o Head Start trouxe progresso, mas não tanto quanto o que era esperado de um programa que é relativamente bem financiado. Vários institutos de pesquisa notaram o baixo progresso das crianças no desempenho escolar, classificando o progresso nas áreas de alfabetização e vocabulário como “ligeiros e moderados”, e sem impacto algum nas habilidades em matemática.

E é ai que entram em cena dois cientistas curiosos do estado do Kansas, Betty Hart e Toddy Hisley. Eles resolveram iniciar um estudo longitudinal para descobrir o porquê dessas crianças, mesmo com um programa aparentemente bem planejado e financiado, ainda apresentavam um progresso abaixo do esperado. Para isso eles desenvolveram uma longa e complicada metodologia. Foram reunidas 42 famílias de três grupos socioeconômicos diferentes: (1) lares de baixa renda (2) lares dependentes de assistência social (3) lares de profissionais liberais; e computar alguns dados, entre eles o número de palavras  e o número de incentivos/censuras direcionadas aos filhos.

Em um ano, crianças cujos pais eram profissionais liberais ouviram, em média, 8 milhões de palavras a mais que crianças de lares dependentes de assistência social. Nos quatro anos de duração do estudo, foram computadas 32 milhões de palavras a mais, em média. Nesses mesmos quatro anos, crianças filhas de profissionais liberais ouviram 560 mil vezes mais incentivos do que censuras, enquanto crianças de lares de baixa renda ouviram apenas 100 mil vezes mais incentivos que censuras. Já as crianças de lares dependentes de assistência social ouviram 125 mil vezes mais censuras do que incentivos. Infelizmente, o programa – que se iniciava quando a criança completava quatro anos – chegava tarde demais.

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Gráfico: “O vocabulário das crianças varia bastante com os grupos de renda”. O eixo Y (vertical) demonstra a variação no número cumulativo de palavras do vocabulário; o eixo X (horizontal) demonstra a idade da criança em meses. A linha tracejada superior demonstra o perfil de crianças de famílias de profissionais liberais, a linha do meio demonstra o perfil de crianças de famílias da classe trabalhadora, e a linha inferior demonstra o perfil de crianças cujas famílias dependem de assistência social. Fonte: Hart e Risley, The Early Catastrophe.

“Contudo, a experiência linguística da criança não diferiu apenas quanto ao número e à qualidade das palavras ouvidas. Podemos extrapolar, de forma semelhante, as diferenças relativas que os dados demonstraram quanto à experiência da criança, calculada em horas, com afirmações (palavras de incentivo) e censuras por parte dos pais. Uma criança-padrão de uma família de profissionais liberais acumulava 32 afirmações e cinco censuras por hora, uma média de seis incentivos para uma reprimenda. Uma criança-padrão de uma família de baixa renda acumulava doze afirmações e sete censuras por hora, uma média de dois incentivos para uma reprimenda. Já uma criança padrão em uma família dependente de assistência social, no entanto, acumulava cinco afirmações para onze censuras por hora, uma média de um incentivo para duas reprimendas. Em um ano de 5.200 horas, isso resultaria em 166 mil incentivos para 26 mil reprimendas em uma família de profissionais liberais; 62 mil incentivos para 36 mil reprimendas em uma família de baixa renda; e 26 mil incentivos para 57 mil reprimendas em uma família dependente de assistência social. Extrapolando esses números para os primeiros quatro anos de vida, uma criança-padrão de uma família de profissionais liberais acumularia 560 mil mais incentivos do que censuras, enquanto uma criança padrão de uma família de baixa renda acumularia 100 mil mais incentivos do que censuras. Porém, uma criança-padrão em uma família dependente de assistência social acumularia 125 mil mais censuras do que incentivos. Aos quatro anos de idade, a criança-padrão em uma família dependente de assistência social poderá ter 144 mil incentivos a menos e 84 mil reprimendas a mais quanto ao seu comportamento do que uma criança-padrão em uma família de baixa renda. Se extrapolarmos as diferenças relativas na experiência calculada em horas da criança, podemos estimar sua experiência cumulativa durante os primeiros quatro anos de vida e, assim, vislumbrar o tamanho do problema que necessitará de intervenção. Seja qual for a margem de erro de nossas estimativas, ela não será tão grande a ponto de 60 mil palavras se tornarem seis mil ou 600 mil. Mesmo que nossa estimativa da experiência dessas crianças esteja 50% mais alta, as diferenças entre elas aos quatro anos de idade em termos de experiência acumulada são tão grandes que mesmo o melhor dos programas assistenciais tem pouquíssimas chances de evitar que as crianças de famílias dependentes de assistência social fiquem ainda mais para trás em relação a crianças de famílias de baixa renda” Hart e Risley, The Early Catastrophe

Não só o número de palavras e incentivos eram maiores para as crianças filhas de profissionais liberais, mas os pesquisadores também notaram uma diferença acentuada no tom e na complexidade de tais palavras e incentivos.

Isso mostra não só como a infância é um período importantíssimo na vida de um ser humano, como também mostra como as conseqüências da pobreza podem ser maiores e muito mais ‘escondidas’ do que imaginamos. Que possamos dar mais importância às duas questões, por favor.

Referências

> Hart e Risley , “The Early Catastrophe

>“Head Start Impact Study, First Year Findings”, junho de 2005, estudo realizado pelos institutos de pesquisa Westat, The Urban Institute, Chesapeake Research Associates, Decision Information Resources, Inc., e American Institutes for Research para a Divisão de Planejamento, Pesquisa e Avaliação da Secretaria de Administração para Crianças e Famílias do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA, Washington, D.C.

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