O Jogo Monetário e Além – TVP Magazine (Parte 2)

Autor: Tio | Editor: Ray

Tradução e Revisão por membros do Time Linguístico do MZ:

Luiza Nora Branagan | Bruna Sahão | Gustavo Canto |

Graciela Kunrath Lima | Gabriel Bizzotto

Esse artigo foi traduzido a partir do original em inglês “The Money Game and Beyond”, publicado na TVP Magazine, disponível aqui.  A tradução dos artigos desse ebook serão divulgados aqui no MZBlog numa série de publicações. Esta é a Parte 2.  As partes já publicadas podem ser acessadas abaixo:

Parte 1 – Introdução

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1 – MOVIMENTAÇÃO DE COISAS E PESSOAS
(Introdução | O Dilema | Quadros e Pixels)
 
INTRODUÇÃO

Olhando ao redor do mundo, quase todo mundo usa dinheiro: moedas e papéis especiais, brilhantes ou pálidos, passando de mão em mão e agora principalmente de um computador para outro em sua forma digital, não-física, trocando a propriedade limitada de bens, acessando serviços, de fato permitindo (ou não) indivíduos de sobreviver, escravizar, mentir, promover, aprimorar, motivar, fraudar, sentir-se feliz ou triste, mantendo famílias unidas ou destruindo-as, alterando comportamentos, mudando conceitos e valores, ou a superfície e o clima da Terra.  Tudo está conectado ao dinheiro.  Sem ele, você pode ficar sem comer, dormir ou, para ser franco, nem ir ao banheiro.

1O dinheiro pode ser tanto útil como prejudicial, e de formas extremas.  No entanto, o saldo parece atualmente estar fortemente inclinado para um lado e, ao longo desta série, vamos apresentar qual lado parece ser.  A jornada que faremos aqui não é de culpa, mas de uma compreensão mais ampla de como o sistema monetário funciona e o que pode ser feito para melhorá-lo ou mudá-lo.  Sem compreender suas fraquezas fundamentais ou olhar para o passado e presente, com suas muitas regras, governantes, sistemas e culturas, não é possível entender por que precisamos de um novo tipo de sistema, ou como um novo sistema poderia ser.  Propor a substituição da abordagem monetária global por um sistema não-monetário ainda parece algo de outro mundo, até mesmo ridículo para muitas pessoas. Mas, como vamos mostrar nesta série, parece não haver outro caminho a seguir e as alternativas que vamos destacar talvez revelem ser muito melhores e muito, muito diferentes do mundo a que estamos acostumados hoje.

Como a maioria dos artigos sobre o sistema monetário são escritos para economistas e não para “humanos”, vou me esforçar em fazer esta série completamente não-chata, usando palavras descomplicadas e muitas, muitas analogias para ajudar a colocar as coisas em uma perspectiva bem mais clara. Espero conseguir fazer isso.  Vamos começar!

O DILEMA

3Eu identifico muitos dilemas sobre o mundo em que vivemos que acredito que muitos de vocês também.  Por exemplo, porque pode haver tanta diferença de preço entre dois carros?  Um carro de US$ 10.000 tem quatro assentos e mais espaço interno do que outro de US$ 450.000, que só tem dois assentos.  Então, por que o modelo de dois lugares é muito, muito mais caro do que o outro?  Uma banana é mais cara em uma tribo do que em outra, mesmo quando vem da mesma plantação?  Se eu vivo na Espanha, por que a internet é cinco vezes mais lenta e cinco vezes mais cara do que quando eu vivo na Romênia?  Por que algo é mais caro em uma tribo do que em outra?  Como é que este quadro tem o mesmo valor que mil destas enormes mansões? Pode a recompensa monetária justificar adequadamente o trabalho das pessoas?  Quem faz todos esses preços e o que eles refletem?  Se você está tão confuso quanto eu sobre esse jogo monetário mundial, então me acompanhe nesta jornada, enquanto eu tento descobrir todas essas coisas.

Para entender tudo isso, precisamos ver como o dinheiro foi inventado. Como você verá, não é tanto uma história sobre dinheiro, mas uma história sobre movimentar coisas: o comércio.

 QUADROS e PIXELS

Antes de embarcar nesta jornada da história monetária, vamos olhar um mapa da paisagem atual.  As cores delineiam a separação das tribos em nossos dias atuais, mas essas cores/fronteiras mudaram significativamente ao longo de milhares de anos.  Elas se expandem, encolhem e são até eliminadas às vezes, por guerras, fome, clima e ideais (religião, nacionalismo, etc.). Imagine a mudança das fronteiras territoriais ao longo do tempo como um filme, com cada quadro representando vários anos.  Assista este vídeo para ver como as regiões de diferentes tribos mudaram ao longo dos últimos 5.000 anos:

https://www.youtube.com/watch?v=ewd4l2rD2_U

2Essas tribos (chamadas de países hoje) são basicamente um grupo de pessoas com valores e interesses semelhantes, agrupadas em pequenas manchas na superfície do planeta Terra.  São capazes de manter seu status tribal por muitas razões diferentes: vantagem diferencial sobre outras tribos, ideias, ideais, disponibilidade de recursos, leis, força militar, etc.  Mas muito raramente é devido a: “Ei, cara, parece que pensamos da mesma forma.  Que tal reunir todas as pessoas como nós para fazer uma tribo, para que possamos beber, brincar, fazer sexo e nos sentirmos bem juntos!?”  A maior parte das tribos modernas foram formadas por pessoas que trabalhavam para os poucos que as governavam.  No Império Romano (apenas cerca de 2.000 anos atrás), 30 a 40% da população eram escravos (fonte), e era assim em quase todas as tribos. Muitas pessoas que viviam lá não escolheram isso, mas foram escravizadas ou coagidas, de uma forma ou de outra, para fazer parte da tribo.  Muitas tribos conquistaram outras tribos por meio da guerra, e então aquelas pessoas eram forçadas a tornar-se parte da nova tribo.

Isso nos leva a um ponto muito importante: o pixel no quadro. A História parece tão simples: tribos com fronteiras, tribos com novas fronteiras, líderes e regimes.   Mas não é só isso.   Quando você vê uma tribo delineada em um mapa, essa tribo não é uma “coisa”.  É um monte de coisas: pessoas com valores ligeiramente diferentes, leis regionais e diferentes reforços às leis, diferentes tipos de coerções, negócios, infraestrutura e assim por diante.  Tudo isso está espalhado por diferentes pontos (pixels) dentro dessa fronteira.   Então, se uma tribo parece ser uma “coisa” que é de alguma forma significativamente diferente de outras tribos, ela está longe de ser essa “coisa” simples e definida.  É composta de múltiplas partes complexas e em constante movimento.

Eu nasci na tribo romena e às vezes as pessoas perguntam: “Como é na Romênia?”  Mas o que posso realmente dizer a elas sobre isso?  Há muitos cães de rua, muitas pessoas pobres (por quaisquer padrões), algumas pessoas ricas (por alguns padrões), algumas pessoas que são gays, algumas pessoas que não gostam de gays, pessoas que enganam outras pessoas, muitas leis que muitos não conhecem, muitas maneiras diferentes de fazer cumprir as mesmas leis com base na região e influência, muitos tipos de construções, religiões, corrupção, pessoas gentis, ladrões, salvadores e muito mais.  Mas perceba que eu extraí isso de viver em apenas duas cidades na Romênia, por cerca de 20 anos.   Não é possível, para mim, resumir com precisão o que é a “Romênia”, porque é composta de um grande número de variáveis, e temos que ter em mente que, quando as pessoas falam sobre a história e as tribos e como era a vida em tais tribos, elas também podem falar apenas sobre um ou mais pequenos pixels dentro dos quadros muito maiores: pequenas manchas de populações e eventos dentro de pequenos momentos de tempo, dentro de uma tribo.   A Roma antiga não era sobre César e o Império, mas muito mais sobre a luta dos cidadãos com a vida diária, estupros, fome, diferentes leis interpretadas de diferentes maneiras, pensadores, valores, etc.

É vital compreender corretamente tudo isso.  Todos os exemplos que você ouvir, incluindo os desta série, são apenas sobre pixels dentro de quadros muito maiores, e eles só podem tentar atingir uma percentagem relativamente pequena dos quadros que compõem o grande filme completo.

Tentar aprender com precisão o que moldou civilizações humanas ao longo dos anos, mesmo no mundo de hoje, é muito difícil devido a tantas influências, mas podemos agrupá-las em: recursos e serviços; e valores (religiões, rituais, crenças e assim por diante).  Nós já conversamos longamente sobre valores em nosso artigo especial sobre moralidade e ética [em português, aqui], por isso vamos nos concentrar aqui em recursos e serviços, especialmente o comércio, pois foi o comércio que movimentou recursos de uma parte do globo para outra, de mão em mão.O comércio é também um dos maiores influenciadores das sociedades, moldando fronteiras, fusos horários, estradas, bem como os valores das pessoas.  O conceito de comércio leva-nos ao sistema monetário, de modo que compreender como ele chegou aqui dará uma visão bem informada do mundo de hoje, e uma projeção mais estável do que o futuro pode se tornar.

Se quiser ler mais sobre por que o dinheiro não pode avaliar adequadamente o valor de «serviços» humanos ou habilidades, leia este artigo , já que não abordaremos esse aspecto aqui.

Algumas das referências ao longo desta série são provenientes desta palestra sobre a história do mundo (ver História do Mundo 1 e 2), e nós recomendamos vê-la. Todos os outros links de referência são fornecidos como de costume.

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