O Jogo Monetário e Além – TVP Magazine (Parte 4)

Autor: Tio | Editor: Ray

Tradução e Revisão por membros do Time Linguístico do MZ:

Luiza Nora Branagan | Bruna Sahão | Gustavo Canto |

Graciela Kunrath Lima | Gabriel Bizzotto

Esse artigo foi traduzido a partir do original em inglês “The Money Game and Beyond”, publicado na TVP Magazine, disponível aqui.  A tradução dos artigos desse ebook serão divulgados aqui no MZBlog numa série de publicações. Esta é a Parte 4.  As partes já publicadas podem ser acessadas abaixo:

Parte 1 – Introdução

Parte 2 – Movimentação de Coisas e pessoas: Introdução | O Dilema | Quadros e Pixels

Parte 3 – Movimentação de Coisas e Pessoas: Inventando o Dinheiro

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1 – MOVIMENTAÇÃO DE COISAS E PESSOAS
(A Confiança | A Loucura)

A CONFIANÇA

Uma das rotas/estradas populares de comércio que surgiram foi chamada de “Rota da Seda“, que ganhou notoriedade cerca de 2.000 anos atrás, uma vez que esta foi criada especificamente para negociar todos os tipos de coisas: animais, roupas, têxteis, madeira, vegetais, metais, etc. A rota ganhou o seu nome porque a ‘seda’ era um material primário que os chineses usavam para criar roupas e era um material muito útil naquele momento.  Os chineses descobriram como fazer tecido de ‘seda‘  cerca de 5.000 anos atrás ‘ordenhando’ insetos, mas a seda não se expandiu para o comércio global por mais de 3.000 anos ou mais. A “Grande Muralha da China” foi construída como uma medida de proteção para o crescente ‘sistema’ de comércio da “Rota da Seda”.  Mas havia um problema com o uso de “moeda” para negociação neste período de tempo: a insegurança.  Uma coisa é usar uma moeda dentro de uma única tribo, mas a história é bem diferente quando você tenta usá-la globalmente.

Então imagine a cena: em nossa tribo temos muitas vacas, enquanto a outra tribo tem muita seda.  Precisamos de roupas, eles precisam de comida.  As duas tribos são incapazes de produzir ‘outras coisas’ devido a diferenças no clima ou talvez simplesmente por não conhecem a técnica para produzir uma boa seda ou não têm os recursos adequados para a criação de vacas saudáveis.  Em nossa tribo, achamos inútil criar mais vacas do que precisamos sem a certeza de que podemos trocar essas vacas por seda com a outra tribo. Uma vez que isto está estabelecido e a outra tribo diz: “Eu humildemente juro sobre a minha seda que vamos negociar com vocês, ‘parças’!”, você não pode mais armazenar valor somente em termos de vacas.

Mantenha a frase “valor armazenado” em mente.  Todas as vacas extras que a sua própria tribo não precisa se tornam um valor armazenado, o que significa que você tem valor disponível para a sua tribo conseguir outras coisas, como a seda, por exemplo. Esse valor armazenado também pode ser refletido em algum tipo de moeda que for estabelecida em acordo (temos N moedas de ouro, o que significa que temos um valor armazenado nessas moedas de ouro – e assim podemos “comprar” coisas com elas).  As duas tribos em seguida criam algum tipo de fazenda, com a nossa especializando-se na criação de vacas e a deles na produção de seda.  Assim que as duas tribos confiam uma na outra, elas podem armazenar valor em suas tribos (vacas, seda, ou apenas moedas de ouro).

Como é então que eles chegaram a confiar uns nos outros?  Medo.  Primeiro de tudo, fizemos um acordo.  Se você se recusar a nos dar a sua seda por nossas vacas, então podemos chutar o seu traseiro com o nosso exército e pegar a sua seda.  Mas não foi apenas por esse tipo de medo.  Também estava incluído o medo de perder as vantagens que a outra tribo estava oferecendo em troca.  Quando a moeda foi usada entre as tribos, os benefícios mútuos mantiveram uma maior “confiança” entre um e outro.  Quando ambas as tribos dependiam do fornecimento e serviços uns dos outros, eles tinham que respeitar uns aos outros, ou então corriam o risco de perder essa vantagem. Isso funcionou, mas não o tempo todo.  Se tivermos muitos acordos de troca, onde nós fornecemos o abastecimento de alimentos e especiarias por suas armas e têxteis, mas finalmente ‘acharmos’ que seria mais vantajoso para nós invadir sua tribo com as nossas armas compradas, tomar o seu suprimento de alimentos e forçar seu povo a continuar produzindo roupas e armas para minha tribo, então podemos fazer isso.  Na verdade, muitos têm feito exatamente isso, em toda a história.

Então moedas de ouro (e outros tipos) começaram a ser ‘espalhadas’ ao redor dos continentes, seguindo a movimentação de coisas (bens comprados com as moedas), de tribo para tribo.  As tribos com exércitos maiores e mais moedas eram aquelas que tinham mais vantagem.  Mas aqui é onde o comércio teve de ‘evoluir’, não só na confiança entre tribos, mas também na confiança para fisicamente transportar “coisas”.  Se estamos felizes com o acordo comercial proposto entre nossas tribos, então temos que ter certeza de que os tecidos de seda que você envia da China para a Europa chegarão até nós.  Se enviarmos as vacas para você, mas os tecidos de seda forem perdidos ou roubados pelo caminho, isso seria um desastre.

Para ajudar a tornar as entregas mais seguras, eles adicionaram um sistema de segurança na estrada de seda: exércitos/pessoas que garantiam que o material não seria roubado. E foi assim que os impostos foram inventados.  Se você quer que seu produto seja entregue com segurança, dê-nos uma porcentagem do seu valor armazenado (em moedas) e assim iremos protegê-lo.  A mesma coisa foi aplicada às terras.  Cerca de 500 anos atrás, metade da Europa ainda não era “propriedade” de ninguém. Daí as pessoas com moedas (e com o poder que estas lhes davam) ergueram cercas em torno de pedaços de terra, declarando-as como suas propriedades, e então disseram a outras pessoas “Você quer criar suas vacas com segurança onde ninguém possa roubá-las?  Então você pode usar a nossa terra manejada e protegida, mas primeiro você precisa nos dar uma porcentagem do seu valor armazenado (suas vacas ou seus subprodutos).”

Estes impostos eram uma maneira de tornar o comércio mais seguro e a agricultura mais útil.  Uma vez que esta “proteção” se tornou disponível, as pessoas puderam cultivar e produzir mais, sem medo de seus produtos serem roubados.  Naquela época as pessoas estavam ‘roubando’ todos os tipos de coisas, e basicamente pelas mesmas razões que o fazem hoje: a falta de acesso a alimentos, abrigo e outras necessidades.  Consideremos então como a noção de ‘roubar’ parece aplicar-se apenas para alguns, mas não para aqueles que tomaram terras que não lhes pertenciam, cercando e impondo taxas sobre elas.

Interessante…

De qualquer forma, esses impostos evoluíram como parte de um serviço prestado para a proteção, qualidade, segurança, etc, mas também como um meio de controlar as pessoas e a sociedade como um todo, além de também produzir mais moedas de ouro.

Pode ler em mais detalhes sobre a história do comércio aqui .

Trade shipA LOUCURA

O comércio de bens e serviços tornou-se gradualmente uma loucura: produtos circulavam da Noruega até a Austrália, alimentos cultivados em uma parte do planeta eram transferidos para outra parte, e até mesmo elefantes e girafas africanos levados para a China.  Contando que você tivesse uma moeda aceitável e pudesse pagar por algo a ser feito, provavelmente seria feito.  Em consequência, os valores primitivos de alguns poucos foram capaz de desencadear um desastre em todo o mundo.  Por quê?   Se o rei Idiota III quisesse uma girafa, quatro leões, 45 escravos e 22 esposas, então era agora mais fácil do que nunca obtê-los, já que tinha as moedas e outros concordariam em “satisfazer seus desejos” e ganhar as moedas para seus próprios interesses.  Se o rei Idiota IV mais tarde quisesse um grande palácio construído em forma de seios, só porque isso refletiria como ele se sentia, ele poderia facilmente “comprar” 300 escravos para construí-lo para ele. Milhões de pessoas (principalmente da África) foram sequestrados e escravizadas para esse sistema de negociação e vendidos para vários reis e tribos.  Eles se tornaram os “pilares da criação”, pois eles foram obrigados a trabalhar para produzir as coisas que as tribos então usavam ou comercializavam.

Como mais um exemplo de onde essa loucura poderia ir, mais de 12 milhões de pessoas foram trazidas da África para a América para trabalhar como escravos e assim produzir açúcar, café e tabaco, recursos que não são necessários para a sobrevivência de ninguém, mas importantes para a loucura do comércio mundial (fonte). A sede de ‘consumismo’ fez até mesmo alguns escravos capturarem outros escravos e vendê-los por dinheiro.

O comércio de bens e serviços pode ter começado como um meio razoável de fazer circular coisas, proporcionando um maior acesso e abundância para mais pessoas, mas rapidamente transformou-se em um sistema mundial absurdamente perturbado onde se poderia ‘negociar qualquer coisa’. Assim, esse comércio foi alterando os valores de quase todas as pessoas. Onde antes trabalhava-se para sobreviver e ter uma vida melhor, agora o objetivo era gerar mais e mais moedas, para ter mais e mais coisas.  Bilhões de pessoas e animais morreram diretamente devido ao comércio, muitas vezes trabalhando de forma árdua para produzir ou transportar material de um lugar para outro, tentando proteger produtos dos outros, incapazes de ‘pagar’ por produtos com um preço muito alto, e muitos foram torturados, violados, escravizados, coagidos e até executados em nome desse sistema.  Tudo isso, para pouco mais do que encher o estômago de alguns, e satisfazer o corpo: comida e conforto.  Ao crescer dentro de um sistema de valores primitivos que diz que produzir mais e mais moedas de ouro é “o objetivo”, as pessoas nunca pensaram em considerar o impacto do que elas fazem.  Elas só tinham esse objetivo de ganhar mais e se tornarem mais poderosas.

Comercializar coisas se tornou um tipo de ‘droga’, e as pessoas se tornaram rapidamente viciadas.

O sistema de comércio também criou a noção de “empregos” (já que as pessoas tiveram de vender suas habilidades), o que levou à criação de “escolas” para treinar pessoas para se tornarem trabalhadores.

A escola foi tornada obrigatória em algumas partes do mundo, mas nem tanto em outras.  No entanto, o resultado de não frequentar a escola era enfrentar a rejeição social, o estigma, e, mais importante, perder sua vantagem de ser “empregável”.  Escolaridade mais tarde foi confundida com “educação” pelo público, com as pessoas começando a pensar que, de preferência, o sistema escolar estava lá para ensiná-los sobre o mundo, ao invés de prepará-los para um trabalho (fonte).

Não importa o quão chatos ou difíceis os empregos passaram a ser. Esta tornou-se a única maneira de fazer o seu caminho no planeta Terra, uma vez que os recursos e serviços já eram propriedade e operados por aqueles que estavam lá antes de você.  As pessoas tinham que trabalhar a fim de acessá-los ou para ganhar privilégios, pois a sua própria sobrevivência dependia disso.

Naturalmente, estes sistemas de auto-serviço interligados ainda existem atualmente.

A maioria das guerras (se não todas) foram para ganhar recursos para alimentar os “desejos” loucos de uma tribo e muitas de suas necessidades. Mas quando as pessoas eram enviadas para a guerra, isso significava que ainda mais recursos eram necessários para apoiar suas tropas, enquanto o resto da população passava mais fome ainda.  Eles lutavam por recursos, mas também perceberam que muitos morriam devido ao aprofundamento na redução desses recursos, induzido por estarem em um estado de guerra.  19,5 milhões de pessoas foram mortas e 20 milhões morreram de fome como resultado direto da Segunda Guerra Mundial.  A fome matou mais do que a guerra.  Quando Hitler ‘começou’ a guerra há 70 anos, ele também tinha um plano “secreto” para invadir tribos vizinhas e tomar suas terras e usá-las para a agricultura ( fonte ). Os japoneses também estavam considerando essa abordagem.  Assim, grandes guerras são influenciadas pela falta de recursos, e esses conflitos são muito recentes.  Conflitos menores (em comparação com guerras mundiais) ainda acontecem constantemente hoje e pelas mesmas razões.

Mais bens e serviços são produzidos com o aumento da mecanização, o que permite que pessoas com valores distorcidos (o consumidores compulsivos) acumulem e consumam ainda mais, como se os recursos do planeta fossem infinitos.  Desde uma centena de anos atrás, a propaganda tem desempenhado um papel chave neste consumo massivo.  No seu início, a propaganda era algo como “Café muito bom” mais alguns detalhes sobre como era feito, um subconjunto do que você encontra no rótulo dos produtos hoje.  Hoje, no entanto, a publicidade é sobre quase tudo, menos sobre o produto, e é tão abundante que é quase impossível para qualquer um (inclusive você) escapar de forma eficaz.  Cerca de US $ 500 bilhões são gastos em propaganda – nada mais do que a promoção de produtos – ano após ano após ano (fonte). Em contraste, apenas cerca de US $ 200 bilhões estão sendo investidos em energias renováveis ​​a cada ano, em uma situação onde os especialistas dizem que se os humanos não aumentarem o investimento para pelo menos US $ 1 trilhão por ano até 2030, estamos ferrados pela acumulação dos efeitos das alterações climáticas provocadas por nosso uso fanático de combustíveis fósseis (fonte).

Efetivamente, mover coisas por aí ficou dissociado da realidade há muito tempo, com pouca ou nenhuma preocupação com o meio ambiente ou as pessoas, mas muita para um sistema de comércio em funcionamento.  Fomos ensinados a chamar tudo isso de ‘a economia’ (definição do dicionário: gestão cuidadosa dos recursos para evitar despesas desnecessárias ou desperdício) e é algo que tomamos como garantido hoje.  Damos a este sistema muito pouca atenção, principalmente porque os chamados especialistas dizem que a forma como ele funciona é muito complicada.  Eles estão certos, é claro, por causa da enorme quantidade de regras que foram aplicadas a este sistema de comércio mundial.

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