Orientações para uma sociedade ética – Parte 1

Artigo Escrito por Gabriel Bizzotto

Parte 1 de 3

“A tecla do fim do mundo já foi muito batida. Muitos já não querem mais saber de pico do petróleo, de aquecimento global ou de desemprego tecnológico. Alguns nunca deram ouvido, classificando isso tudo como teoria da conspiração. A boa notícia é que não precisamos da narrativa do medo para conscientizar as pessoas e provocar o desejo por mudanças sociais. Podemos abordar os mesmos temas com base na ética. Todo mundo acha que é uma pessoa ética. Falta perceberem o que ‘ser ético’ realmente significa.”

Esta é uma série de três artigos baseados em um ensaio escrito por Gabriel Bizzotto. Para acessar o documento na íntegra, siga este link.

Nesta primeira parte são expostos os axiomas que proporcionariam uma sociedade mais ética, considerando-se que a humanidade teria como objetivos: ser ética, garantir seu futuro sem deixar de ser ética, maximizar o bem-estar sem deixar de ser ética ou comprometer seu futuro, e, procurar objetivos maiores. Boa leitura!

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Resumo

            Neste ensaio, construímos um modelo de sociedade partindo de regras simples (sermos éticos, garantir o bem-estar atual e futuro da população, maximizar a saúde pública, etc), óbvias o suficiente para serem chamadas de axiomas. Dos axiomas, deduzimos regras de organização da sociedade e diretrizes a serem aplicadas à nossa sociedade atual para sua transformação. Essas regras visam a eliminação da transgressão dos axiomas, transgressão promovida pelo nosso modelo socioeconômico, e, em consequência, a minimização de seus efeitos negativos. Estas diretrizes podem ser consideradas como plano de transição.

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Parte 1 : Axiomas

Na lógica tradicional, um axioma ou postulado é uma sentença ou proposição que não é provada ou demonstrada e é considerada como óbvia ou como um consenso inicial necessário para a construção ou aceitação de uma teoria. Por essa razão, é aceito como verdade e serve como ponto inicial para dedução e inferências de outras verdades (dependentes de teoria).

— Wikipédia

Postulado principal : O objetivo da humanidade é…

Ser ética

A palavra “ética” vem do grego ἠθικός (ethikos), e significa aquilo que pertence ao ἦθος (ethos), que significava “bom costume”, “costume superior”, ou “portador de caráter”. Diferencia-se da moral, pois, enquanto esta se fundamenta na obediência a costumes e hábitos recebidos, a ética, ao contrário, busca fundamentar as ações morais exclusivamente pela razão.

— Wikipédia

Partindo do conceito de “não fazer a outro o que não gostaria que faça a você”, uma pessoa que procura ter um comportamento ético procura eliminar os efeitos negativos de suas ações para os outros. “Os outros” inclui seres humanos e demais seres vivos, próximos ou não no espaço e no tempo. Isto inclui vidas geograficamente distantes e gerações futuras.

Implica em não explorar seres vivos, humanos ou não, em más condições e não levá-los à extinção. Levar uma espécie à extinção não necessariamente envolve o sofrimento de seus indivíduos, mas é certamente algo que a espécie humana não gostaria de vivenciar.

Talvez uma boa linha de conduta seja a primeira lei da robótica do escritor americano de ficção científica Isaac Asimov : “Um robô não pode ferir um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano sofra algum mal”[1]. Já que é o que esperamos de criaturas artificiais com um comportamento supostamente perfeitamente ético em relação a nós, humanos, seus criadores, talvez deveríamos nos comportar da mesma maneira em relação a todos os seres vivos.

Garantir seu futuro sem deixar de ser ética

Sustentabilidade: Suprir as necessidades presentes, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de suprir suas próprias necessidades.

— Relatório Brundtland, ONU, 1987

A sustentabilidade é uma forma de ética no tempo. É a preocupação com o bem-estar das gerações futuras, com uma resguarda: o objetivo da minimização do sofrimento das gerações futuras não pode justificar o sofrimento das pessoas hoje. Todos precisam receber o mesmo tratamento.

Mais uma vez, o Isaac Asimov pode ter formulado este axioma em outro contexto: “Um robô deve proteger sua própria existência, desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira e Segunda Leis” (o teor da segunda lei é irrelevante neste ensaio). Mais uma vez, se for isso que esperamos de seres programados para serem perfeitos, talvez devamos nós mesmos por a regra em prática. Reformulando a lei : “Uma pessoa ou grupo de pessoas deve atender às suas necessidades, desde que não entre em conflito com a ética”.

Sustentabilidade não significa funcionamento em ciclo fechado com regras imutáveis. Os meios de satisfação das necessidades podem evoluir e incluir aporte externo de energia e matéria prima. Não devemos nos considerar presos a um sistema de produção e sim planejar a evolução da tecnologia. Técnicas não sustentáveis podem ser consideradas, desde que abram as portas para a continuação das nossas atividades. Por exemplo, reservas finitas de matéria prima e de energia podem ser dedicadas à construção de uma unidade de extração sustentável de energia ou de matéria prima até então inacessíveis.

Nosso planeta não é um sistema estável que se manterá inalterado para sempre. Por exemplo, a Terra tem uma alternância natural entre eras frias e quentes. A preocupação com a sustentabilidade não deve ser um empecilho, e é na verdade um motivo, para nossa evolução na Escala de Kardashev[2].

Maximizar o bem-estar, sem deixar de ser ética ou comprometer seu futuro

O bem-estar envolve a satisfação das nossas necessidades fisiológicas básicas como ar, água, alimentos, vestimenta, abrigo, cuidados médicos, etc, mas também nossas necessidades psicológicas como liberdade, sentimento de pertencimento, amor, sentimento de propósito, expressão da criatividade, etc. No contexto da saúde, não há distinção entre esses tipos de necessidades. O bem-estar está ligado tanto às necessidades fisiológicas quanto às psicológicas.

Um certo nível de conforto material é necessário para satisfazer as necessidades humanas fundamentais[3] (subsistência, proteção, afeição, entendimento, participação, lazer, criação, identidade, liberdade), mas foi demonstrado[4] que não há melhora na felicidade no dia-a-dia acima de um certo nível de conforto material.

A efemerização[5], o progresso tecnológico que permite fazer mais com menos, tem um papel fundamental nessa busca, permitindo que cada vez mais necessidades básicas sejam atendidas, com cada vez menos recursos naturais.

Queremos, naturalmente, minimizar nosso sofrimento, tanto pessoal quanto, se a ética for aplicada, dos outros.

Procurar objetivos maiores

            A definição de objetivo maior é subjetiva. Pode ser a expressão artística, a exploração, o conhecimento matemático, a busca de contato com civilizações extraterrestres, etc. Todos entram na categoria de necessidades psicológicas e portanto devem estar ao alcance de todos. É improvável e desnecessário que haja um dia consenso sobre o objetivo da humanidade. Mas para ter uma vida plena, cada um deve ter a possibilidade de realizar sua busca espiritual, seja lá qual for.

            Entre os “sonhos da humanidade” comumente encontrados na cultura popular estão a exploração da espiritualidade e do espaço, como sintetizado pelo humorista e filósofo americano Bill Hicks : “poderiamos explorar o espaço juntos, espiritual e sideral, para sempre, em paz”[6].

Axioma 1 : Respeitar os limites naturais

            Vivemos num planeta finito, com recursos finitos. Temos uma certa quantidade de petróleo, de carvão, de urânio, de rios, de minérios, de florestas, de solo. Pode ser muito, mas nunca é infinito: por exemplo, após o início da exploração petrolífera no meio do século XIX[7], foi preciso esperar 100 anos para que M. King Hubbert previsse o início do fim da extração[8] (o momento em que o ritmo de extração atinge seu ápice e começa a cair). Durante 100 anos, e mesmo até hoje, consumimos estes recursos como se não houvesse amanhã.

            Precisamos reconhecer que, nesse aspecto, não somos livres. Vivemos numa ditadura sob as leis da natureza e devemos alinhar nossa conduta de acordo ou sofrer as consequências.

            Voltarmos a usar apenas 100% do que a natureza produz ainda é insuficiente. O princípio de precaução implica na preservação de áreas intocadas as maiores possíveis de maneira a manter os ecossistemas em funcionamento. Portanto, a minimização da nossa pegada ambiental deve ser um objetivo. A preservação dos ecossistemas e da diversidade das espécies são necessárias já que são eles que garantem a estabilidade dos sistemas que por sua vez mantêm a vida humana possível, principalmente a produção de alimentos e a distribuição de água pelas chuvas.

Axioma 2 : Pôr o igualitarismo em prática

            A ética nos leva a reconhecer que todos precisam ter suas necessidades básicas fisiológicas e psicológicas atendidas incondicionalmente, ou seja, independentemente de talento, capacidade, empenho ou mérito. Seria injusto atribuir o excedente produzido pela natureza a certas pessoas e não outras, particularmente considerando o Axioma 3.

Esta afirmação entra em conflito com o conceito de meritocracia. Quando aplicada à seleção de talentos para cargos mais altos de gerenciamento dentro de empresas ou governos, a meritocracia faz todo sentido. Mas a ascensão em qualquer hierarquia burocrática é indissociável de vantagens e ganhos econômicos. À pessoa selecionada por meritocracia é atribuído um maior acesso aos recursos produzidos pela sociedade, em detrimento das outras pessoas. Portanto o caráter antiético do aspecto econômico dessa prática.

            Uma sociedade igualitária é uma sociedade mais saudável[9]. Por exemplo, o estresse crônico, que pode ser provocado pela preocupação com o status ou a possibilidade da perda de acesso às necessidades básicas (sendo demitido), desencadeia a liberação constante de cortisol no fluxo sanguíneo, tendo inúmeros efeitos negativos na saúde[10],[11]. A pobreza, descrita por Gandhi como a pior forma de violência[12], é hoje englobada no conceito de violência estrutural[13] (quando as instituições e a estrutura da sociedade impedem as pessoas de satisfazerem suas necessidades básicas, prejudicando-as). A igualdade na partilha dos recursos e nas oportunidades individuais é uma questão de saúde pública.

            Uma sociedade igualitária é uma sociedade mais segura[14],[15]. A grande maioria dos atos de violência é relacionada à falta de acesso às necessidades básicas ou aos desejos fomentados pela falta de acesso ao luxo ostentado pelas classes mais ricas ou pela propaganda, luxo percebido como inalcançável na prática. A garantia de acesso às necessidades básicas e o tratamento igualitário dos cidadãos diante do acesso a itens raros hoje considerados luxo, ou seja, diante da escassez, elimina a motivação para esse tipo de violência.

            O igualitarismo se entende geralmente como a advocacia da igualdade entre as pessoas humanas[16]. Mas, se aderir à crescente percepção de que muitos animais têm senciência[17],[18], a capacidade de sofrer ou sentir prazer ou felicidade, e até sapiência[19], sabedoria ou a capacidade de agir segundo um julgamento como grandes primatas ou cetáceos, talvez devamos incluir os animais no princípio de igualitarismo, considerando-as pessoas não humanas[20],[21] com direito a vida, habitat e liberdade.

Os veganos partem do fato que animais têm senciência e da constatação que não há como consumir produtos animais de maneira ética. Os não veganos reconhecem que existe sofrimento na natureza selvagem, onde animais sencientes são mortos por outros para sua alimentação. Os veganos objetam que, como seres pensantes e capazes de ética, podemos escolher gerar ou não sofrimento. Paradoxalmente, as pessoas aceitam amplamente como antiética a criação e o abate de animais por sua pele, mas raramente admitem o mesmo para o consumo de carne, mesmo que ambas sejam práticas ancestrais hoje opcionais.

A redução do consumo de carne vai além das considerações éticas: por diminuir a pegada ambiental[22], tem ramificações com o axioma 1. Essas ramificações serão exploradas na Parte 2 em Como atender à demanda?.

            Numa sociedade igualitária, não há necessariamente uma divisão exata dos recursos entre todos. Uns podem abrir mão de certas coisas, como os veganos dos produtos animais. Certas pessoas podem escolher, por gosto, tomar banhos menos quentes, usando assim menos energia. O excedente criado por tais comportamentos pode então ser distribuído entre todos. Assim, uma pessoa que deseje comer mais carne ou usar mais energia poderá sim, mas apenas na medida em que outras pessoas abram mão de sua parte da produção.

Mas o consumo total da humanidade não deve ultrapassar os limites ditatoriais da natureza, e o consumo de um não pode acontecer em detrimento do acesso de outro. Isto não leva à renúncia compulsória a qualquer tipo de conforto, pois mesmo nessas condições, temos hoje os recursos tecnológicos e conhecimento científico o suficiente para garantir um alto padrão de vida para todos. Apenas temos um sistema socioeconômico que não permite caminharmos nessa direção, porque não há lucro na eliminação de problemas.

Axioma 3 : Visar a automatização máxima

O objetivo do futuro é o desemprego total, assim poderemos brincar.   É por isso que precisamos destruir o sistema político-econômico atual.

— Arthur C Clarke[23]

            Trabalhos árduos, repetitivos, tediosos ou perigosos e que não sejam parte de uma atividade intrinsecamente satisfatória (uma atividade intrinsecamente satisfatória, ainda que possa ser repetitiva ou árdua, permite a expressão da criatividade, o aprendizado, ou a melhora da saúde) são uma forma de sofrimento físico ou psicológico e portanto precisam ser eliminados. Nos tempos preindustriais, o trabalho era muitas vezes delegado a escravos. Em algumas situações, essa delegação libertou os cidadãos e possibilitou seu desenvolvimento artístico, cultural, técnico e filosófico. É o caso dos gregos[24] e dos romanos[25].

            Obviamente, a escravidão é antiética, mas o uso de trabalho externo para substituir a mão de obra humana continua até hoje com a automatização iniciada na revolução industrial. Hoje os motivos não são mais ideológicos, são econômicos, e por coincidência também têm por efeito a eliminação dos trabalhos mais árduos e menos gratificantes já que são os mais simples de automatizar.

                Considerações éticas deveriam, independentemente das premissas do nosso modelo econômico atual, nos levar a buscar a automatização completa das tarefas árduas ou desinteressantes de maneira que todos sejam realmente livres, e não coagidos, para praticar atividades realmente gratificantes, como eram as elites gregas e romanas. Isto não implica na eliminação de todas as atividades repetitivas ou difíceis. Estas podem ser objeto de desejo como na prática de esportes, na busca de superação ou como expressões artísticas ou espirituais. A automatização apenas remove a obrigatoriedade.

etica1


[1] Runaround, Isaac Asimov em Astounding Science Fiction, 1942

[2] A Escala de Kardashev é um método proposto pelo astrofísico russo Nikolai Kardashev para medir o grau de desenvolvimento tecnológico de uma civilização baseado na quantidade de energia coletada, utilizando três etapas ou tipos em escala logarítmica. Tipo I : uma civilização capaz de aproveitar toda a energia potencial de um planeta, aproximadamente 1016 W. Tipo II : toda a energia potencial de uma estrela, aproximadamente 3.86×1026 W. Tipo III : toda a energia potencial de uma galáxia, aproximadamente 1036 W. Aplicada ao consumo de energia da humanidade, a formula produz o valor 0,725. Fonte: Wikipédia.

[4] High income improves evaluation of life but not emotional well-being, Daniel Kahneman e Angus Deaton em ProceedingsoftheNationalAcademyofSciences, 21 de setembro de 2010, vol. 107 no. 38, http://www.pnas.org/content/107/38/16489.full.pdf

[6] Revelations, Bill Hicks, 1993 (tradução livre)

[9] The spirit level, Richard Wilkinson & Kate Pickett, 2009

[12] Como citado em A Just Peace through Transformation: Cultural, Economic, and Political Foundations for Change (1988) pela International Peace Association (tradução livre, texto original : “Poverty is the worst form of violence.”)

[13] Violence, Peace, and Peace Research, Johan Galtung, 1969

[14] Violence, James Gilligan, 1992

[15] Inequality and violent crime, Pablo Fajnzylber et al, Journal of Law and Economics, vol. XLV (April 2002)

[21] Thecasefornon-humanpersonhoodrights, Eric Michael Johnson em The Huffington Post, 2012

[23] Entrevista com Arthur C Clarke em Los Angeles Free Press, Gene Youngblood, p. 42-43, 47. April 25, 1969, como citado em The Making of 2001: A Space Odyssey, Stephanie Schwamm, Modern Library, 1a edição, p. 267, 2000. (tradução livre, texto original : “The goal of the future is full unemployment, so we can play. That’s why we have to destroy the present politico-economic system.”)

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“Este artigo não expressa necessariamente uma opinião do MZ, mas de seu autor.

O mérito está na contribuição para a discussão da linha de pensamento defendida pelo movimento.”

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