Orientações para uma sociedade ética – Parte 2

Artigo Escrito por Gabriel Bizzotto

Parte 2 de 3

Esta é uma série de três artigos baseados em um ensaio escrito por Gabriel Bizzotto. Acesse aqui a Parte 1. Para acessar o documento na íntegra, siga este link.

Nesta segunda parte são expostas as necessidades derivadas dos axiomas expostos na Parte 1: planejamento de longo prazo no uso dos recursos, troca dos interesses pessoais por interesses comuns como motivadores, eliminação do conceito de troca, acesso e posse ao invés de propriedade, entre outros. Boa leitura!

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Parte 2 : Necessidades derivadas dos axiomas

            Aceitos os axiomas, podemos raciocinar sobre a maneira em que devemos (ou não) nos organizar como sociedade. Nesta parte, não procuramos fazer uma crítica do modelo socioeconômico atual. Em vez, tentamos explorar as consequências dos axiomas. A rejeição do nosso modelo socioeconômico não é uma hipótese inicial a ser verificada, é apenas uma consequência desta exploração.

Planejamento de longo prazo no uso dos recursos

            Podemos fazer a distinção entre os recursos naturais primariamente finitos, aqueles que não são renováveis ou se regeneram em escalas de tempo geológicas como petróleo, e aqueles renováveis, como árvores, peixes e solo, cuja capacidade regenerativa está na escala de uma vida humana. Há aqui uma diferença de grau, não de natureza, entre os recursos, já que recursos considerados não renováveis como petróleo na verdade são renováveis, porém em escalas de tempo irrelevantes para nosso planejamento, e recursos considerados renováveis, como energia solar, na verdade não são (o sol um dia parará de brilhar), porém podem ser consideradas infinitas para qualquer planejamento prático. Tudo depende da escala de tempo considerada. Então podemos escolher, arbitrariamente, uma escala de tempo da ordem dos milhares de anos e categorizar os recursos de acordo para simplificar nosso argumento : renovável se as reservas voltarem a 100% em menos de 1000 anos, finitas se não.

Recursos renováveis

O uso dos recursos renováveis precisa contemplar a capacidade de regeneração dos sistemas. Para que a extração de um material renovável seja sustentável, a quantidade extraída num período de tempo não pode ultrapassar a quantidade regenerada no mesmo período. Para sistemas vivos, o período de tempo usado como base de cálculo deve levar em conta a duração do ciclo de reprodução das espécies. Devemos calcular qual é o tamanho  ótimo da população para maximizar a extração sustentável. Para madeiras, quanto maior a floresta, maior a capacidade de extração, mas existem sistemas mais complexos.

Vamos usar como exemplo a população de uma espécie de peixe. Num ambiente natural inalterado, a população desse peixe entra em equilíbrio com o tamanho do ecossistema ou com outras espécies. A população se mantêm estável com um certo grau de variações naturais. A regeneração da população de peixe provavelmente seguiria uma curva comparável à seguinte.

GB1

Evolução de uma população.
A velocidade de reprodução depende do tamanho da população.

Com pouquíssimos indivíduos, a população cresce pouco em número absoluto. Quando a população está praticamente em equilíbrio com as demais em seu ambiente, também cresce pouco ou fica estável. Existe um ponto em que o potencial de crescimento da população é maior. A derivada da curva acima é uma curva em sino parecida com uma distribuição normal[1]. Basta encontrar o ponto mais alto dessa derivada, que corresponde à maior inclinação da curva acima. Esse ponto, por sua vez, é o tamanho que a população de peixes deve ter para mais crescer durante o período. Pescando todo ano, ou ciclo, a mesma quantidade, correspondente ao aumento da população, esta população seria mantida estável e a quantidade pescada seria maximizada.

Também seria preciso estudar o ecossistema para garantir que o tamanho da população desta espécie, mantido menor que o natural pela pesca, não o desestabilizaria. Se sim, o ecossistema perturbado pode vir a comprometer a capacidade de regeneração daquela espécie pescada (e de outras espécies animais e vegetais exploradas), diminuindo nosso acesso a esses recursos naturais com o tempo. A população de peixes provavelmente deveria ser mantida maior. Pescaríamos menos mas evitaríamos desequilibrar o ecossistema. A quantidade pescada, apesar de não parecer máxima, poderia ser mantida no tempo, o que é a própria definição de sustentabilidade.

Este é um exemplo de equilíbrio dinâmico. O ponto de equilíbrio precisa ser calculado e respeitado para atingir a sustentabilidade.

Recursos não renováveis

O uso dos recursos finitos requer outro tipo de planejamento onde a regeneração não entra em conta. A reciclagem permite a redução das perdas, mas nunca é perfeita. Por exemplo, certos metais se oxidam, são reduzidos a pó e são espalhados na natureza pelo vento e a chuva, sem chance de recuperação. Da mesma forma garrafas de vidro quebram e pedaços são perdidos. Além dessas perdas, alguns recursos finitos não podem ser reciclados, como os combustíveis fósseis.

Esses recursos precisam ser usados com muita parcimômia. Seu uso deve incluir a geração de novas tecnologias de substituição com design do berço ao berço[2], uma forma de produção industrial onde todos os resíduos podem ser reutilizados no mesmo processo de fabricação, em outros processos ou, no pior caso, são biodegradáveis, para que não haja perda definitiva de matéria prima.

Por exemplo, combustíveis fósseis e outras fontes de energias renováveis precisam ser usados para o desenvolvimento da exploração de fontes de energia renováveis como a solar e a eólica. Novamente, o petróleo, usado hoje na produção de plásticos, borrachas, remédios e inúmeros produtos sintéticos, precisa ser usado em pesquisas na área da química para que os mesmos produtos, ou compostos químicos de susbstituição, possam ser produzidos com matéria prima renovável, como por exemplo fibras vegetais.

Uma vez encontradas soluções alternativas , as soluções antigas devem ser eliminadas imediatamente se seu uso gera impacto negativo, como os combustíveis fósseis. Outras podem continuar sendo usadas até o esgotamento progressivo da matéria prima. Por exemplo, certos metais sujeitos a perdas por oxidação podem continuar sendo usados até seu esgotamento, já que o preço ambiental já foi pago durante a mineração e a criação das estruturas industriais para seu processamento.

Em todas as fases de uso de um recurso não renovável, a efemerização ajuda a diminuir a pressão sobre esse, na medida em que o efeito rebote[3] (o aumento do consumo gerado pela economia proporcionada por uma nova tecnologia, por exemplo a criação de um carro mais leve e mais barato, que consuma 10% menos combustível, leva a um aumento de 15% do número total de carros provocando, no final das contas, um aumento do consumo de combustível) não ultrapasse os 100% e o consumo daquele recurso permaneça dentro do planejado.

Capacidade de carga da Terra

Considerando

  • a disponibilidade dos recursos naturais, calculada como o excedente gerado pela natureza o qual podemos extrair sem ameaçar os sistemas,
  • a eficiência no uso desses recursos, dada pela tecnologia e o conhecimento disponíveis no momento,
  • as necessidades básicas fisiológicas e psicológicas, e os meios técnicos de suprí-los,

podemos calcular a capacidade de carga[4] da Terra que maximize o bem-estar.

A população precisa ser mantida abaixo desse número, já que com uma população maior:

  • se o consumo individual for mantido igual, o consumo total será superior ao limite calculado, gerando pressão sobre os ecossistemas, seja sobre-explorando aqueles já sendo explorados, seja explorando ecossistemas até então virgens; ultimamente, um colapso dos ecossistemas geraria extinções, como está gerando atualmente[5], e sofrimento humano ;
  • se o consumo total for mantido igual, o consumo individual será diminuído, limitando o acesso da população às suas necessidades básicas.

O controle do tamanho da população entra em conflito com a ideia de liberdade. A liberdade de escolher quantos filhos um casal ou uma pessoa quer. Mas, como vimos, não somos livres, vivemos sob a ditadura da natureza, sob suas leis.

Quem deve tomar as decisões ?

A santificação da democracia representativa como última e melhor forma de governo leva a maioria, hoje, a acreditar que a opinião pública é o fator mais importante na tomada de decisões. Paradoxalmente, a maior parte das decisões hoje depende de grupos pequenos como o congresso nacional o ou superior tribunal federal, sem consulta pública. De qualquer maneira, muitas vezes, as decisões independem de opinião. As dúvidas sobre opções de planejamento devem ser resolvidas via estudos e maximização de objetivos, não pela opinião pessoal da maioria.

Por exemplo, uma cidade tem a possibilidade de permitir o transporte por veículos motorizados individuais com piloto ou transporte de massa automatizado. O foco da opinião pública está no conforto e na privacidade oferecidos pelos carros, mas estudos dirão se os benefícios, amplamente indiretos, do transporte público compulsório são ou não maiores na complexa equação do bem-estar geral das pessoas. Os benefícios diretos incluem a segurança e menor tempo de trajeto, os indiretos são menor poluição, menor consumo de energia (por consequência maior disponibilidade para outras atividades), menor ocupação de espaços públicos, etc. Às vezes, o avanço da tecnologia pode oferecer outras soluções como o PRT[6] (espécie de táxi automatizado) que, segundo os estudos[7], maximize todos os objetivos. A solução, então, se torna óbvia.

Outro exemplo, permitir ou não a adoção de crianças por casais homoafetivos. A forte polarização do debate é proveniente de dogmas morais muitas vezes religiosos, não de ética derivada de estudos científicos. Se a autorização ou proibição depender das consequências psicológicas nas crianças de viver com dois pais ou duas mães, posta em dúvida pela opinião pública, a resposta deve vir de estudos sociológicos e estatísticos sobre casos onde houve criação por casais homoafetivos.

Como disse o Neil Degrasse Tyson, um astrofisicista americano contemporâneo: “Toda vez que dois cientistas discordam, é porque possuem dados insuficientes. Então podem entrar em acordo sobre o tipo de dados necessários, obtê-los, e os dados resolvem a questão. Ou um está certo, ou o outro, ou os dois estão errados, e a pesquisa continua. Esse tipo de resolução de conflito não existe na política ou na religião. Falta em tantas das coisas que nós humanos fazemos nesta Terra que é quase trágico”[8].

As decisões precisam ser tomadas com base no estado da arte do conhecimento. Acreditar na democracia é contar com o esclarecimento de toda a população sobre todos os assuntos da vida em sociedade, o que não é uma expectativa razoável. Em vez, colégios de especialistas deveriam chegar a conclusões com base na coleta de dados (inclusive a opinião pública) e na análise de causas e efeitos, seguindo o método científico. Fica em aberto a pergunta da nomeação e da qualificação dos especialistas.

Trocar interesses pessoais por interesses comuns como motivador

Buscar a maximização dos próprios interesses, na sociedade atual, implica em não compartilhar com todos os ganhos no acesso às necessidades básicas ou no conforto. É primariamente antiético e vai contra o axioma 2, de igualitarismo. Um modelo ético de busca dos interesses pessoais não pode levar à diminuição do bem estar alheio, seja essa diminuição absoluta ou relativa.

Por exemplo, se um engenheiro agrícola conseguir produzir uma variedade de uma hortaliça resistente a certo tipo de fungo, seria antiético por parte dele não compartilhar seu método ou sua matriz. Se ele mantivesse isso em segredo para ter vantagem na produção daquela hortaliça, a consequência seria ou um acesso desnecessariamente baixo do resto do mundo àquela hortaliça ou uma pegada ambiental desnecessariamente alta na produção com o método anterior.

Esse tipo de consideração ética foi levado em conta durante a revolução verde, quando variedades de cereais de maior produtividade, como o arroz IR8, foram compartilhadas pela ONG IRRI com países que estavam enfrentando problemas de produção de alimentos[9].

É esse modelo voluntário, colaborativo, participativo e desinteressado que se encontra nas iniciativas de produção de software livre[10]. Raramente há, nesses grupos, interesse pessoal outro que a satisfação pessoal da criação, do sentimento de pertencimento a um grupo e da contribuição com melhorias que beneficiarão todos, inclusive seus autores.

Em consequência, quando se considera a ética, o processo criativo em todos seus aspectos deve ser livre de direitos autorais e patentes. Não implica na eliminação do reconhecimento devido aos autores mas no livre compartilhamento das ideias num sentido amplo (designs, softwares, métodos de produção, produções artísticas, etc).

O círculo vicioso da busca dos interesses pessoais

A partir do momento em que um grupo possui vantagem no acesso às necessidades, entre elas a educação, num sistema onde a maximização dos interesses pessoais é o objetivo, essa vantagem é usada para garantir e ampliar a vantagem inicial. Qualquer comportamento diferente é exceção (e aplaudido como tal) e não pode ser esperado num ambiente que glorifica ou até mesmo tolera o acúmulo pessoal de capital. Não que as pessoas ricas sejam más. Elas apenas tentam, como todos nós, assegurar seu futuro e manter ou melhorar seu padrão de vida. Muitas vezes não enxergam as consequências antiéticas da desigualdade (a violência estrutural, por exemplo), nem têm conhecimento de seus efeitos negativos em suas próprias vidas (a insegurança, por exemplo).

No sistema de economia de livre mercado, é esperado que a maximização dos interesses pessoais tenha como efeito colateral o aumento do bem-estar da comunidade. Pelos motivos citados acima e pela ineficiência inerente à concorrência, esse objetivo pode ser atingido apenas parcialmente. As autoridades podem buscar minimizar os efeitos negativos das desigualdades com políticas socialistas, mas essas sempre serão um remendo, um esparadrapo que pode ser removido a qualquer momento, acima de tudo na medida em que as políticas públicas são criadas por pessoas que seguem as mesmas regras do jogo da maximização dos interesses pessoais, portanto influenciáveis pelos detentores de vantagens.

Leis podem ter um efeito dissuasivo, mas não asseguram a eliminação de comportamentos antiéticos, já que existe um incentivo para tais. A busca dos interesses pessoais como motivador é a fonte dos comportamentos antiéticos que constatamos hoje (crimes contra a propriedade, corrupção, escravidão, etc). Podem ser diretamente antiéticos, como na exploração de pessoas por exemplo, ou indiretamente via externalidades, como poluição, que acabam gerando sofrimento mais cedo ou mais tarde. A remoção desse motivador é necessária para minimizar ou eliminar os comportamentos antiéticos e o sofrimento associado.

Estas considerações sobre interesses pessoais se aplicam tanto a pessoas quanto a grupos de pessoas, inclusive a nações. As tendências nacionalistas e xenofóbicas são muitas vezes alimentadas pelo medo da diminuição do padrão de vida[11], que é, no fundo, o medo da escassez. A escassez é no mínimo parcialmente autosustentada, funcionando num ciclo vicioso. Por exemplo, na geração de alimentos : produzimos alimentos o suficiente para 12 bilhões de pessoas[12], porém os detentores de poder aquisitivo mais alto escolhem produtos transformados que requerem mais matéria prima, como a carne, cuja produção usa um terço das terras aráveis disponíveis no mundo[13]. Com esse desequilíbrio na alocação dos recursos extraídos, uma vasta parte da população vive na escassez de alimentos[14]. Constatando a escassez, todos têm um incentivo para buscar a sua própria segurança alimentar, em detrimento de outrem.

O exemplo do arroz IR8 durante a revolução verde enfatiza o fato que soluções que aliviam o sofrimento vêm da boa vontade e do talento de pessoas que trabalham na base da ética e não de empresas que buscam a maximização dos interesses de seus sócios.

Eliminação do conceito de troca

A Justiça é sempre perdida quando o Comércio entra em jogo.

— Paolo Bacigalupi[15]

Qualquer meio de troca pode ser visto como uma forma de acesso à servidão humana. No contexto da automatização gerada pela revolução industrial, isso está ficando cada dia mais óbvio com o deslocamento da mão de obra de um setor de atividade para outro: da agricultura para a indústria, da indústria para os serviços. O Brasil segue essa tendência: hoje a mão de obra está sendo deslocada para o setor de serviços[16]. A compra de um serviço nada mais é que a alocação semi-compulsória da servidão de uma ou mais pessoas para o benefício de outra, com a transferência de uma dívida no sentido oposto. Pode ser vista como compulsória porque quem presta o serviço (ou simplesmente “trabalha”), atualmente, apenas tem como escolha o destinatário da sua servidão ou então a vida na miséria.

A existência do conceito de troca leva infalivelmente ao uso de um meio de troca. Articular a economia em volta da troca de bens e serviços é a garantia de ver a emergência, mais cedo ou mais tarde, de uma moeda fiduciária[17], um título sem nenhum valor intrínseco cujo valor advém da confiança que as pessoas têm de quem o emitiu. Atrelado à existência de uma moeda (acumulável, alugável com juros e que permita a compra de quaisquer bens e serviços em qualquer quantidade) e à percepção de escassez, vem o incentivo para acumulá-la. E, como vimos, o próprio acúmulo de moeda gera a percepção de escassez, perpetuando a prática.

Além dessas considerações éticas, precisamos reconhecer que a troca baseada em vantagem competitiva, a concorrência, tem efeitos negativos na qualidade dos produtos, conhecidos como obsolescência intrínseca[18], obsolescência programada[19] e obsolescência percebida[20]. A ineficiência do consumo cíclico decorrente vai contra o axioma 1 de minimização da nossa pegada ambiental.

A necessidade de consumo cíclico é reforçada pela natureza das moedas fiduciárias, criadas arbitrariamente por governos ou atreladas a empréstimos bancários a pessoas (físicas ou jurídicas), sempre com juros, sujeitas a aluguel com juros e vistas como commodities[21]. A criação da moeda via empréstimo, feito com juros, impossibilita o reembolso integral da dívida e leva à criação de mais dívidas para o pagamento dos juros. A criação de mais dívida é realizada pelo aquecimento da economia via redução da taxa de juros, o que permite que pessoas (fisicas ou não) contraiam mais dívidas para seu consumo. Naturalmente, para ser pago, o valor dos juros dessas novas dívidas precisa ser extraído da economia que é ela mesma inteiramente constituída de dívida. É um ciclo vicioso que leva a duas possibilidades: a eliminação, sem reembolso, de dívidas por falência e/ou o colapso do sistema. Se os dois forem inaceitáveis, é o próprio conceito de troca que é a rever.

Acesso e posse, não propriedade

O que queremos é ter acesso a bens e serviços no momento em que precisamos deles. Muitos bens e serviços já são compartilhados hoje, garantindo o acesso a todos, sem propriedade privada: satélites de GPS, serviços de bombeiros e polícia, correios, mobília urbana, elevadores, estações de tratamento de água, etc. Faz sentido coletivizar esses itens porque os benefícios da repartição do custo entre as pessoas é maior que o transtorno provocado pela coletivização (por exemplo: demora no acesso).

Os detentores de alto poder aquisitivo podem colocar o limite mais alto na hora da escolha entre opções privativas ou coletivas. Entre os bens e serviços que, nessas circunstâncias, podem ser privados estão piscina, veículos terrestres, marítimos e aéreos, aparelhos de musculação, serviços de segurança, geradores de energia elétrica, etc. O céu é o limite. Entre os menos favorecidos, a necessidade obriga a optar por mais soluções coletivas : eletrodomésticos, linha telefônica e acesso à internet, roupas, etc.

O propósito da coletivização de um item é baixar seu custo financeiro. A coletivização tem como efeito mais interessante a diminuição do custo ambiental. A duplicação em cada lar de objetos como ferramentas, raramente usadas, gera um gasto de matéria prima e energia proporcional ao nível de redundância. A coletivização desse tipo de objetos seria simples, com o acesso permitido por bibliotecas de objetos, exatamente como bibliotecas literárias funcionam hoje.

Esse tipo de transformação teria efeitos positivos além da redução da pegada ambiental: a redução do espaço de armazenamento destinado, em cada moradia, a esses itens, a redução do custo de manutenção (medido em tempo e, também, em pegada ambiental).

A posse[22] (o acesso exclusivo temporário, sem direito à depredação ou transferência, como no aluguel) deve ser concedida apenas em casos em que as ciências (tanto exatas como sociais, no caso) reconhecem a necessidade, seja ela psicológica (uso exclusivo de uma moradia) ou  fisiológicas (uso exclusivo de uma escova de dentes). Com a posse, em oposição à propriedade, o fim do uso não deve atribuir ao titular o direito de escolha da próxima pessoas a gozar da posse, de maneira a permitir que qualquer outra pessoa tenha a chance de acessar à posse também, conforme axioma 2.

Por exemplo, quem deixar uma casa não deve poder escolher quem será a próxima pessoa a gozar da posse. O acesso deve ser igualitário, num modo a ser definido, mas independente da vontade do antigo ocupante.

O princípio de posse em vez de propriedade exclui a possibilidade de herança. A herança contraria o axioma 2 dando vantagem da posse aos descendentes.

Como atender à demanda ?

Como, sem incentivo monetário e sem cair no totalitarismo, atender às necessidades da população ?

“Sem incentivo monetário” não quer dizer “sem incentivo nenhum”. As pessoas têm um incentivo extrínseco para participar do funcionamento e da melhoria de um sistema do qual se beneficiam diretamente. Além delas mesmas se beneficiarem, beneficiam outros : familiares, amigos e desconhecidos. O altruísmo é parte integrante da psyche humana[23], mesmo numa sociedade que encoraja o individualismo como a nossa.

Considerando o axioma 3, de automatização, eliminadas as tarefas árduas, perigosas ou pouco interessantes, ficam as tarefas criativas de design e otimização de sistemas, as quais são gratificantes por si mesmas, interessantes porque envolvem aprendizagem e melhoria das próprias competências, os resultados atingidos beneficiam o trabalhador e também satisfazem seu instinto altruísta beneficiando todos. O modelo de incentivo à criatividade pelo emprego assalariado, que inclui a cobrança periódica por resultados com ameaça de perda de emprego, é nocivo à criatividade[24],[25], mas recompensas de longo prazo podem ser aplicadas, como títulos, medalhas ou a perspectiva de deixar o próprio nome na História.

O processo de automatização está seguindo seu caminho de qualquer maneira[26],[27], o que pode eliminar da equação uma parte suficiente da categoria trabalhador/consumidor para colocar em risco o ciclo de consumo necessário numa economia de mercado, a menos que uma renda básica incondicional[28],[29] seja instaurada para que a população mantenha seu papel de consumidor sem ter que assumir seu papel de trabalhador.

Termos que remendar o sistema atual para mantê-lo em pé é um sinal de que as premissas desse sistema estão erradas. O certo seria aceitarmos as projeções e nos adequar à nova realidade econômica (no sentido logístico[30], não monetário, da palavra) e reorganizarmos a sociedade de acordo.

Os detalhes das transições possíveis para uma organização em que os trabalhos indesejados têm sido eliminados, sem meio de troca, sem propriedade privada e com planejamento de longo prazo, portanto existindo de acordo com os axiomas propostos, serão abordados na Parte 3. Podemos aqui apenas descrever os sistemas de demanda e oferta instalados após a transição, os quais estão alinhados em seu conceito com uma economia baseada em recursos[31], um modelo de sociedade em que o planeta (incluindo a humanidade) é visto como um único sistema a otimizar.

As demandas seriam registradas via um sistema, de preferência eletrônico, para cada pessoa ou grupo de pessoas com ordem de prioridade conforme sua própria variação da pirâmide de Maslow[32]. As demandas de um morador podem incluir os mais diversos itens como mantimentos, móveis, shows ou viagens.

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Hierarquia das Necessidades de Maslow.

            As demandas seriam atendidas de acordo com:

  • as prioridades definidas pelos usuários,
  • as prioridades das necessidades humanas definidas por pesquisas científicas,
  • as demandas de outros usuários, as demandas mais básicas deles sendo prioritárias,
  • a disponibilidade de recursos.

A maior parte das demandas básicas seria atendida por sistemas industriais automatizados (ou assim espera-se), inclusive de entrega e devolução. As demandas que enfrentarem limitações de recursos naturais ou de infraestrutura (por exemplo, vagas limitadas para transporte de longa distância), seriam sujeitas a filas de espera e possivelmente sorteio ou uma combinação dos dois a ser decidida pela comunidade. Nessas situações de escassez, um tipo de meritocracia pode ser integrado ao sistema, oferecendo maior acesso aos desejos dos cidadãos que tiverem previamente contribuído com economias de matéria prima e energia.

 O consumo de carne se insere nesse quadro como um exemplo. Os limites de produção de alimentos podem não atender a todos os desejos por carne de toda a população. A carne sendo opcional na alimentação, sua produção entraria com nível de prioridade mais baixa que de outros alimentos menos custosos em termos ambientais. Se a produção de alimentos consumir uma parte menor da biosfera que o limite estabelecido, a folga pode sim ser usada para a produção de carne. Se isso atenderá à demanda dependerá do limite estabelecido, da demanda e da eficiência dos métodos de produção.

Com esse modelo, o encontro entre oferta e demanda seria o produto de planejamento, não uma propriedade emergente do sistema de preços da economia de mercado. A demanda orientaria a produção alterando seu planejamento. Por exemplo, o aumento da demanda para um certo tipo de fruta provocaria o plantio daquela variedade pelo sistema (em fazendas automatizadas ou orientando os agricultores), em vez de deixar aos agricultores a escolha das variedades plantadas para tentar maximizar lucros, geralmente com altos riscos, como é feito hoje.

Simplificação da mecânica da sociedade atual

As características de igualitarismo, automatização e ausência de meio de troca de uma sociedade desse tipo trazem benefícios intrínsecos: uma quantidade significativa de trabalho e uso de recursos é eliminada by design.

As instituições financeiras e atividades relacionadas se tornam instantaneamente irrelevantes: bancos, sistemas de pagamento, seguros, investimentos, contadores, educadores financeiros, sistemas de tecnologia da informação dedicados, etc. O antigo papel de alocação de recursos para projetos relevantes pelo intermediário do dinheiro carregando a informação entre a demanda e a oferta[33] é substituído por um planejamento central, de preferência global, levando diretamente em conta a demanda e as necessidades implícitas (as pessoas não precisam expressar demandas por ar puro e água potável, entre outros).

O trabalho e os recursos destinados à proteção do patrimônio privado são poupados: circuitos de câmeras de segurança, muros, transportes blindados, escoltas, vigias, etc.

Da mesma forma, podemos esperar uma imensa redução nos crimes contra o patrimônio (furto, roubo, assalto, sequestro, arrastão, invasão, grilagem, abuso de vulneráveis como em igrejas…) e outros crimes e práticas que tenham por objetivo o enriquecimento pessoal (corrupção e desvio de verba pública, tráfico de drogas, armas, pessoas ou mercadorias, falsificação, formação de carteis, obsolescência programada, trabalho escravo…). A necessidade por policiamento e pelo maquinário jurídico-legal será reduzida proporcionalmente, sem contar o efeito positivo direto da eliminação desses tipos de crimes.

O fato de podermos ficar um pouco mais relaxados com o patrimônio tem um efeito colateral positivo no tratamento das crianças. Parte das brigas entre pais e filhos pequenos, hoje, envolvem a proibição do acesso a objetos considerados preciosos ou frágeis. Crianças apenas são curiosas e na maioria dos casos querem descobrir e experimentar[34], muitas vezes destruindo. Proibí-las de experimentar com objetos em seus primeiros anos de vida não ensina à criança a zelar pelos seus bens. Isso vem mais tarde. Apenas desencoraja a curiosidade e é um empecilho para seu desenvolvimento.

Não há mais necessidade para forças de vendas, seja atacado ou varejo: espaços de vendas, vendedores, marketing incluindo propaganda, outdoors. Representavam, em 2012 nos Estados Unidos, mais de 14% da população empregada[35].

Todo esse trabalho e essa infraestrutura representam uma parte importante dos empregos. Muitas pessoas, talvez metade delas, poderiam ficar livres de obrigações e se dedicar a ideias e projetos mais relevantes para elas e para a sociedade, inclusive mais proximidade com os filhos e a família.


[2] Cradle to Cradle: Remaking the Way We Make Things, Michael Braungart e William McDonough, 2002

[5] Açãohumanaalterouritmodeextinçõesemmilvezes, Rafael Garcia em Folha de São Paulo, 2014

[7] MovingaheadwithPRT, European commission for research & innovation, 2005

[8] Entrevista com Neil Degrasse Tyson em Parade, Lynn Sherr, 2014 (tradução livre)

[11] CrisealimentaxenofobianomercadodetrabalhodosEUA, Andrea Murta, Folha de Sâo Paulo, 2009

[13] Livestockamajorthreattoenvironment, Food and Agriculture Organization of the UN, 2006

[14] Thestateoffoodinsecurityintheworld, Food and Agriculture Organization of the UN, 2014, p2

[15] The Windup Girl, Paolo Bacigalupi, 2009. Na edição Night Shade Book de 2012, p54. (tradução livre, texto original : “Justice is always lost where Trade is concerned.”)

[16] PesquisaMensaldeEmprego, IBGE, setembro de 2014, p12

[18] Qualidade reduzida devido a cortes de gastos resultando no uso de matérias primas ou processos industriais inferiores.

[19] Limitação deliberada da vida útil de um produto para forçar novas compras. Exemplo : uso de bateria não removível.

[20] Criação de novas gerações do mesmo tipo de produto que leve o usuário a se desfazerem do produto anterior, mesmo que esteja funcionando.

[24] IncentivesandCreativity: EvidencefromtheAcademicLifeSciences, Pierre Azoulay, Joshua S. Graff Zivin, Gustavo Manso, RAND Journal of Economics, 2010

[25] Punished by Rewards: The Trouble with Gold Stars, Incentive Plans, A’s, Praise, and Other Bribes, Alfie Kohn, 1999

[26] O fim dos empregos, o contínuo crescimento do desemprego no mundo, Jeremy Rifkin, 2004

[27] TheFutureofEmployment: HowSusceptibleAreJobstoComputerisation?, Frey, Carl Benedikt e Osborne, Michael A., Oxford University, 2013

[31] WhatisaResourceBasedEconomy?, Jacque Fresco e Roxanne Meadows, The Venus Project

[33] “Prices perform three functions in organizing economic activity: first, they transmit information; second, they provide an incentive to adopt those methods of production that are least costly and thereby use available resources for the most highly valued purposes; third, they determine who gets how much of the product—the distribution of income. These three functions are closely interrelated“. Free to choose, Milton Friedman, 1980, Capítulo 1

[34] Wantscientificallyliteratekids? Getoutoftheirway, Neil Degrasse Tyson, entrevista por Big Think, 2013

[35] Employmentbymajorindustrysector, United States Department of Labor, 2013

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“Este artigo não expressa necessariamente uma opinião do MZ, mas de seu autor.

O mérito está na contribuição para a discussão da linha de pensamento defendida pelo movimento.”

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