Orientações para uma sociedade ética – Parte 3

Artigo Escrito por Gabriel Bizzotto

Parte 3 de 3

Esta é uma série de três artigos baseados em um ensaio escrito por Gabriel Bizzotto. Acesse aqui a Parte 1 e a Parte 2. Para acessar o documento na íntegra, siga este link.

Nesta terceira e última parte são expostas as possibilidades de transição para uma sociedade ética e a conclusão do ensaio. Boa leitura!

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Parte 3 : Transição

O fato de não ser opcional torna irrelevante o fato de ser difícil.

— Dee Eggers[1]

Estamos aqui no universo das conjecturas. Esta transição pode não ser a primeira[2], mas como será feita é incerto. O objetivo é chegarmos a uma organização que seja ética e portanto sustentável (não só para nós mas para todas as espécies), igualitária, livre de trabalho compulsório e cuja cultura reforce o altruísmo, desencoraje o egoísmo e permita que os seres humanos cresçam tendo suas necessidades atendidas[3].

Vamos explorar aqui os cenários possíveis. Na falta de dados tangíveis, o cenário a adotar é sujeito à opinião, do mais pessimista ao mais otimista. Tentamos esboçar um passo a passo para cada cenário de maneira racional, mas também sujeito a opinião.

Em todos os casos, considera-se que a conscientização e a educação tenham sido suficientes para que uma transição possa acontecer. Se não, sem conscientização, o cenário mais provável é de um simples colapso societal. Sem uma população informada, não há transição intencional possível ou, se houver transição forçada devido a alguma crise, dificilmente o resultado final antenderá às expectativas. Por isso, certas organizações como o Movimento Zeitgeist concentram seus esforços exclusivamente em divulgação e conscientização[4],[5].

Transição catastrófica

Esse modo de transição é o mais pessimista : reconhece que estamos enfrentando crises que têm o potencial de desestabilizar a sociedade global o suficiente para desmontar suas instituições e sua estrutura, e nos levar décadas ou séculos atrás em termos de tecnologia e padrão de vida.

As crises são conhecidas : pico do petróleo[6],[7] com um ápice possivelmente atingido em 2006[8], desigualdade social[9], crise monetária[10], mudanças climáticas[11]… Nestes cenários, considera-se que mesmo que a transição já tenha sido iniciada por alguma (ou mais de uma) das vias descritas nos capítulos abaixo, acontecerá de forma lenta demais para evitar a crise.

Não é a priori uma solução desejável apesar da atração que tal fim do mundo exerce[12], ou da crença popular, fundamentada ou não, que o ser humano só age diante do precipício[13]. Mesmo assim organizações como a Deep Green Resistance, que tira seu nome da categorização das iniciativas verdes por tom da cor[14], esperam ansiosamente o colapso e baseiam suas ações contando com (ou tentando provocar) esse evento : “Quando a civilização chegar ao fim, o mundo vivo festejará”[15].

Transição política

Talvez o modo de transição mais otimista se baseie na crença de que é possível obtermos mudanças reais e profundas pela via política. Esta esperança está se esgotando rapidamente, como demonstram as manifestações de junho de 2013 no Brasil e os movimentos Occupy ao redor do mundo. Talvez um dos maiores exemplos venha dos Estados Unidos com a campanha Hope/”Change” de Barack Obama, que levantou grandes esperanças por mudanças na população e até nas instituições (rendendo a ele um prêmio Nobel da Paz em 2009, menos de um ano após a posse), porém com pouca ou nenhuma mudança real ainda no seu segundo mandato[16]. A classe política, pela sua constatação de que a campanha de Obama foi um golpe de marketing, admite que não há motivo para que haja esperança, já que não há mudanças vindo pela frente.

A profundidade das reformas propostas abaixo levanta dificuldades legais. Essas dificuldades foram postas propositalmente na Constituição para prevenir o desvio do estado democrático para o totalitarismo. Considerando essas dificuldades, por exemplo, a maioria necessária para emendar a constituição ou reformá-la, o apoio, e portanto a conscientização, da população é essencial.

Contudo, a corrupção do sistema político, inerente ao nosso modelo socioeconômico, pode pura e simplesmente impossibilitar tais mudanças, por irem contra os interesses daquelas mesmas pessoas que têm acesso ao controle, fraudulento ou não, do processo legislativo.

Além de tudo, as mudanças precisariam da constituição de um partido e da apresentação de candidatos para o legislativo federal, o que traria descrédito para esses candidatos por culpa por associação, mesmo sendo uma falácia lógica[17], e, por associação ad hominem[18], levaria o público a ligar essas ideias e propostas de reformas à corrupção ambiente generalizada na política do país, eliminando o interesse do povo em parar para analisar as propostas.

Segue um inventário provavelmente incompleto das reformas que a classe política poderia adotar para orientar a sociedade na direção do modelo proposto. As reformas são listadas fora da ordem em que precisariam ser efetivadas. A maioria delas seria certamente nociva à economia atual se adotadas isoladamente sem um plano completo e coerente e poderiam levar a uma crise econômica se não colocadas em prática progressivamente e com cuidados.

Salário máximo[19]

O objetivo é diminuir a busca dos interesses pessoais. Pode ser considerado um ataque às liberdades individuais, ou, visto por outro ângulo, uma forma de tornar obrigatório o comportamento ético em relação ao valor do trabalho: da mesma forma que a lei proíbe o roubo, pode proibir que alguém se aproprie de uma parte desproporcionalmente grande das riquezas da nação.

O salário máximo pode começar com um valor alto, na casa dos milhões, para atingir inicialmente o 1% do 1% e não levar a classe média a se sentir ameaçada, e poderia ser reduzido gradualmente, ao longo dos anos, até ficar próximo ou igual ao salário mínimo (ele também aumentado substancialmente), enquanto as moedas nacionais ainda estiverem em uso.

Imposto sobre lucros

Da mesma forma que um salário máximo, um aumento progressivo do imposto sobre lucros poderia desencorajar a busca por cortes de gastos, os quais levam as empresas a colocarem em segundo plano as preocupações ambientais da população e a praticarem obsolescência intrínseca, programada e percebida e exploração de diversos tipos.

O imposto sobre lucros poderia ser aumentado gradualmente, ao longo dos anos, até atingir 100%.

Imposto sobre patrimônio

Chamado na França de “Impôt de Solidarité sur la Fortune” (ISF), os franceses cujo patrimônio ultrapassa 1,3 milhões de euros têm que contribuir com uma parte (no máximo, 1,5%)[20].

O salário máximo e os impostos sobre lucro e patrimônio são uma forma de redistribuição das riquezas, como já existe no Brasil com a tabela progressiva de imposto de renda que taxa mais os mais ricos[21]. É exigida pelo axioma 2 de igualitarismo, e urgente considerando a concentração atual de riqueza: em 2014, as 85 pessoas mais ricas do mundo possuem a mesma quantia que a metade mais pobre da população da Terra[22].

Serviços públicos progressivamente barateados e finalmente gratuitos

Muitos serviços públicos já são gratuitos, mesmo que limitados na sua eficiência ou acessibilidade. É o caso da segurança, da saúde e da educação. Outras necessidades básicas deveriam se tornar serviço público como o transporte, a alimentação e a moradia.

O financiamento viria do imposto sobre lucros. É uma perspectiva justa, já que as empresas funcionam e lucram graças à infraestrutura paga pela população, graças à educação provida pelo estado, etc.

Gestão democrática das empresas[23]

O desincentivo a ser dono de empresa pode levar as gerências tradicionais a serem substituídas por organizações democráticas, como é o caso da padaria americana Alvarado Street Bakery[24],[25] e de outras empresas[26], até mesmo no Brasil[27],[28]. Com uma gestão pelo povo, uma empresa é menos propensa a tomar decisões que tenham efeitos negativos para a população como poluição ou offshoring[29] (realocação de processos de negócio, como produção, manufatura e serviços, de um país para outro), já que os donos-trabalhadores tendem a morar nos arredores.

Incentivo para a automatização

Para livrar as pessoas da obrigatoriedade do trabalho, conforme o axioma 3, o governo deveria incentivar a automatização dos trabalhos que não seriam desejados se não fosse pelo salário. Instrumentos fiscais podem ser usados durante o período de transição, bem como incentivos para a formação profissional nas áreas relevantes como ciência da computação, mecatrônica, química, agronomia, etc.

Redução da jornada de trabalho

Para responder à automatização e à redução de trabalho humano necessário para manter a sociedade funcionando, porém minimizando a divisão entre os empregados e os desempregados (já libertados), o trabalho pode ser repartido entre mais pessoas, diminuindo a carga horária de cada uma. Seria um benefício direto da automatização.

Por exemplo, um motorista cujo emprego foi eliminado pela automatização dos veículos pode iniciar outra atividade como agricultura, reflorestamento ou instalação de células fotovoltaicas.

Pelo fluxo de novas pessoas entrando nessas profissões ainda não automatizadas, a jornada de trabalho poderia ser diminuída. Os salários provavelmente deverão ser diminuídos também, mas espera-se que a tendência geral será o aumento do poder aquisitivo justamente graças à automatização.

Renda básica incondicional

Os impostos sobre lucro podem financiar também uma renda básica incondicional, paga a todo cidadão indiscriminadamente para diminuir os efeitos das reduções de salários e também a desigualdade em geral. Experiências já foram realizadas em diversos países[30], com efeitos positivos. Uma petição popular foi feita na Suíça para obrigar o parlamento a deliberar sobre tal medida[31]. Não foi votado no momento da redação deste manifesto.

Com uma renda básica incondicional, a substituição de mão de obra por máquinas pode ser bem-vinda. As pessoas poderiam se sentir mais livres para se aposentarem e aproveitar a vida, estudar ou cuidar de seus filhos.

Os empregos continuariam sendo pagos, o salário sendo somado à renda básica. O salário manteria o incentivo para executar as tarefas indesejadas ainda não automatizadas, assim estabelecendo uma forma de meritocracia no acesso aos recursos.

Moedas alternativas locais[32]

Moedas alternativas e sistemas de crédito mútuo locais como os LETS[33] favorecem a (re)localização da produção e ajudam a consolidar e empoderar as comunidades. As prefeituras e governos locais podem incentivar o uso dessas moedas aceitando-as para o pagamento de impostos e gastando-as na comunidade.

As moedas locais são uma ferramenta para reconstruir a autonomia dos bairros e pequenas cidades, aumentando sua resistência a crises monetárias e econômicas externas. Pode levar à diversificação das atividades nas comunidades, protegendo-as mais ainda contra crises em setores específicos de produção como alimentos e energia.

Fim das patentes

As patentes e os segredos industriais promovem a escassez e a ineficiência. Patentes já foram quebradas para o benefício da população como no caso dos medicamentos genéricos. As iniciativas livres, que nada mais são que o compartilhamento de ideias com todos, (re)nasceram, com um quadro jurídico, com o software livre[34]. Já conquistaram outras esferas da criatividade[35] e do conhecimento[36] e estão se enraizando no design de máquinas industriais[37] e na modelização 3D[38],[39].

Em seu tempo agora livre, as pessoas poderiam se dedicar a pesquisas e trabalhos por livre e espontânea vontade, assim, como já vimos inclusive pelo ângulo das motivações, trocando interesses pessoais por interesses comuns. A eliminação das patentes, dentro desse quadro, não eliminaria o incentivo para pesquisas como é esperado no sistema atual[40].

Incentivo para soluções compartilhadas porém distribuídas

O compartilhamento traz efemerização pelas economias de escala. A distribuição (leia-se “descentralização”) traz resistência a falhas e economias no transporte. Por exemplo a geração de energia a partir de fontes renováveis nas residências com uma rede integrando todas as fontes de maneira que o excedente possa ser compartilhado. Outro exemplo, o compartilhamento de bens pouco usados como ferramentas, malas de viagem, equipamentos esportivos e de lazer e eletrodomésticos, e a compostagem de restos de cozinha e o uso local da matéria orgânica na produção de alimentos em condomínios e espaços públicos.

Essas soluções poderiam ser implantadas pelo governo ou gerenciadas pelas próprias comunidades com fundos públicos ou até mesmo ser compulsórias, financiadas pela própria população (por condomínios, por exemplo).

Remoção da herança

Como vimos, a herança perpetua a desigualdade, indo diretamente contra o axioma 2. O imposto sobre herança de dinheiro poderia ser gradualmente aumentado até atingir 100%. A remoção da herança também poderia ser implementada com a designação progressiva de itens e bens não sujeitos à herança. O governo poderia determinar que a partir de uma determinada data, terras não poderão mais ser herdadas, em outro ano, veículos, etc.

Exceções poderiam ser criadas para os casos em que a ciência aponta para certas necessidades, por exemplo, a estabilidade de uma criança para quem seria preferível permanecer na mesma residência até completar uma certa idade[41],[42]. Em caso de falecimento dos pais, uma criança poderia ser beneficiada com a posse de sua residência.

Contudo, o compartilhamento de boa parte dos bens de consumo, a eliminação progressiva do dinheiro como valor acumulável e a abundância geral eviscerariam a herança do seu objetivo de concentração de patrimônio. Não faria muito sentido acumular patrimônio num mundo onde o acesso é livre para todas as comodidades necessárias para uma vida boa. O custo emocional da preocupação e do gerenciamento das riquezas ultrapassariam os benefícios de tê-las.

Fim dos juros

Os juros atrelados ao dinheiro criado pelos bancos na hora de conceder empréstimos são o motivo pelo qual a economia precisa crescer para não desabar. Esse modelo é uma pirâmide de Ponzi[43], portanto fadado a desabar.

A substituição da moeda nacional por moedas locais, sem juros atrelados, pode ajudar a diminuir a dependência de moedas fiduciárias, talvez o suficiente até que a automatização torne as moedas nacionais inúteis. Em outro cenário onde as moedas nacionais continuariam tendo um papel importante, o governo deverá rever a maneira em que gerencia sua moeda, no mínimo tornando os juros ilegais e revendo a forma de criação do dinheiro.

Decrescimento[44]

Talvez baseado no adágio “Há duas formas de ficar rico: 1) ganhar mais 2) desejar menos”, o decrescimento reúne alguns dos pontos acima. Quem advoga pelo decrescimento parte do princípio que podemos viver uma vida satisfatória (ou até mais satisfatória) sem os níveis de consumo hoje atingidos nos países desenvolvidos.

Reforma da educação

Em todos os casos, o sistema educacional atual ficará rapidamente desatualizado. Hoje é orientado à produção de profissionais que se encaixem no mercado de trabalho, e não na busca do desenvolvimento das habilidades e interesses das crianças. O sistema educacional precisa ser reorientado para ajudar as crianças, adolescentes e jovens adultos a buscarem o conhecimento necessário para atingirem seus objetivos, amplamente disponível na era da informação, em vez de impor a memorização de fatos na sua maioria inúteis.

Transição revolucionária

Esse tipo de transição requer uma boa dose de otimismo porque pressupõe a conscientização de uma massa crítica[45] de pessoas, a qual pode ser proporcionalmente pequena (1% da população pode ser suficiente[46]), porém atingir os milhões em número absoluto. A mecânica desse limite teórico de massa crítica é que, no início, grandes esforços precisam ser realizados para a propagação de uma ideia. A propagação é lenta até atingir um certo número de pessoas (por exemplo, 1%). A partir desse ponto, a ideia se propaga quase naturalmente a uma velocidade exponencial.

A revolução francesa foi desencadeada[47] pela combinação de fatores que se encontram novamente hoje em países como os Estados Unidos : guerras custosas[48], desigualdade social, influência das políticas públicas por uma elite[49],[50],[51] e ambiente ideológico favorável a mudanças. A contrapartida contemporânea do iluminismo do século XVIII, que é o desejo por mudanças sociais e econômicas[52], se manifesta nas mídias alternativas viabilizadas pela internet. Mesmo que nem todas sejam um chamado para a revolução, essas vozes carregam uma mensagem que leva à conscientização da condição social em qual se encontram as massas. A revolução pode ser uma consequência natural dessa situação.

Pela situação nos Estados Unidos, descrita acima, e a disponibilidade de tais mídias alternativas em inglês, é possível que a revolução se inicie lá. Os Estados Unidos estiveram à vanguadra das revoluções pró-democracias e mais recentemente pró-capitalismo. O avanço dessa sociedade no sentido desse extremo cultural pode ser um terreno fértil para a quebra do paradigma.

Alguns consideram a revolução como inevitável, necessária e a única forma de se obter resultados tangíveis[53], outros incentivam ativamente à revolução[54] e outros ainda a colocam em prática[55].

Talvez a revolução comece com desobediência civil, como foi o caso de Rosa Parks que em 1955 desafiou as leis de segregação racial do estado de Alabama nos Estados Unidos[56] e assim desencadeou o boicote aos ônibus de Montgomery, que foi o início da participação popular ao movimento dos direitos civis dos negros. Esse caso em si não tinha como intuito desmontar as instituições nem transformar a natureza da sociedade, mas é um exemplo de que um ato aparentemente pequeno pode levar a questionar todo um sistema. Na mesma linha, mesmo que com impacto menor, a desobediência civil do Ron Finley cujas ações (plantar árvores frutíferas e outras plantas comestíveis nos espaços públicos de South Central Los Angeles) levou a prefeitura a mudar a lei para permiti-las[57].

Transição isolacionista

Esse modo de transição é abraçado por quem não acha possível obtermos mudanças sociais pela via política, nem mesmo com revolta. O objetivo é o escapismo: deixar de participar da sociedade atual e construir um sistema paralelo, com a esperança de que o sistema paralelo cresça e o sistema anterior se desintegre aos poucos. Como aconselhado por R. Buckminster Fuller: “Nunca se muda as coisas lutando contra a realidade existente, para mudar algo, construa um novo modelo que torne o modelo anterior obsoleto”[58].

Ecovilas e ecopolos são uma maneira de se isolar geograficamente e de experimentar com modelos organizacionais incomuns. Porém, mesmo que isolados no interior, por estarem inseridos dentro de um país com sua própria legislação, os esquemas de propriedade (ou posse) compartilhada e de participação na entidade legal podem entrar em conflito com as leis locais[59]. Por exemplo, as leis do país podem impedir que o título de propriedade das terras da ecovila seja conjunto entre os participantes e, se a titularidade da propriedade ficar de uma associação, pode ser proibido o loteamento daquela área.

O conceito de comunidade semi-isolada já está sendo experimentado ao redor do mundo. Entre os exemplos, as comunidades Esalen nos Estados Unidos[60], Findhorn na Escócia[61], Damanhur na Itália[62] e Auroville na Índia[63]. No Brasil, no momento da escrita deste ensaio em 2014, o projeto Equilibrium, associado à OSCIP Aliança Luz, prevê a criação de um ecopolo nos princípios da Economia Baseada em Recursos em São Paulo[64].

Em caso de sucesso de tais ecovilas ou ecopolos, fica a pergunta da validade do isolacionismo caso estejamos indo em direção a uma catástrofe. Uma comunidade não poderá continuar em paz num mundo em conflito, principalmente se estiver localizada numa grande cidade ou se possuir recursos naturais valiosos como água e alimentos. Talvez essa consideração seja um motivo adicional para tentarmos evitar uma catástrofe: na ausência de um colapso essas comunidades podem provocar a transformação da nossa sociedade em outra mais ética.

Transição cultural

O movimento Cidades em transição, de origem inglesa mas agora presente em dezenas de países, procura devolver autonomia às comunidades (pequenas cidades ou bairros de grandes cidades), de maneira a aumentar sua resistência a crises externas, como crises energéticas ou monetárias[65]. As iniciativas mais comuns incluem a extração local de energias renováveis, a ocupação de terras públicas com hortas comunitárias e o uso de moedas alternativas.

Esse tipo de iniciativa altera a cultura da comunidade com ações concretas sem a necessidade de isolamento físico. Tem por efeito mudar a forma de ver a sociedade, aproximar os moradores e diminuir a competição entre eles, gerando mais colaboração. Porém, não é apenas um movimento de conscientização. É uma transformação pelo exemplo e pela prática.

Da mesma forma, ações isoladas de desobediência civil para o benefício da comunidade (criação de hortas comunitárias em espaços públicos, arborização, melhoria na acessibilidade, embelezamento…) ou a organização do voluntariado (sopão, limpeza dos espaços públicos, rede de coleta de donativos…) podem ser usadas como veículo de conscientização. Se bem estruturadas e bem divulgadas, tais ações diretas podem ser um incentivo para o ingresso da população nesse tipo de ações, com um efeito bola de neve.

Quando a comunidade estiver suficientemente estruturada em volta desses ideais, pode iniciar atividades mais amplas de transformação da economia, como o uso de uma moeda complementar ou banco de horas, feiras de troca, banco de objetos e talentos, e também militância política.

Num determinado momento, a comunidade pode chegar a ter peso o suficiente para transformar sua estrutura econômica e seu modo de produção, construindo cooperativas e empresas democráticas ou transformando aquelas já existentes, removendo o incentivo ao lucro, coletivizando e relocalizando os meios de produção. Comunidades poderiam chegar ao ponto de iniciar projetos de grande porte como fazendas verticais[66] automáticas para eliminar o trabalho e garantir a gratuidade das necessidades básicas.

Conclusão

É apenas uma escolha. Nenhum esforço, nenhum trabalho, nenhum emprego, nenhuma poupança. Uma escolha, agora mesmo, entre o medo e o amor. Os olhos do medo querem que coloque fechaduras maiores em sua porta, compre armas, se isole. Os olhos do amor, ao invés, nos enxergam todos como um só.

— Bill Hicks[67]

Nossa sociedade não está funcionando de acordo com os valores éticos geralmente aceitos, descritos na Parte 1, os axiomas. Nosso modelo socioeconômico atual promove a escassez, a desigualdade, a degradação do meio ambiente, a servidão, a corrupção, a violência e o medo que, direta ou indiretamente, geram insatisfação, má saúde e sofrimento em geral. Podemos ignorar esses fatos, manter o modelo atual e continuar sofrendo as consequências ou fazer novas tentativas, experimentar com tipos de organizações inovadoras e procurar nos alinhar com o estado da arte em conhecimentos psicológicos e sociais para minimizar o sofrimento e maximizar o bem-estar.

Seja com conversa, com exemplos ou com a prática, todas as frentes de ação são válidas para obtermos mudanças: a busca de reformas políticas, a conscientização, a transformação da economia pela base ou o apelo para uma revolução. Talvez uma combinação de todas as tentativas gere resultados.

O modelo proposto não é perfeito. Problemas existem e talvez alguns deles não tenham solução. Mas a proposta pretende apenas ser melhor que o sistema atual. De qualquer forma, se um mundo melhor é o que procuramos, a transformação será cultural.

Os mais desanimados esperarão por um colapso e, enquanto não vier, se vier, assistirão passivamente à degradação das condições de vida. Os outros escolherão sua frente de atuação, procurarão os grupos já organizados ou organizarão seus próprios movimentos de acordo com suas convicções, opiniões ou habilidades, e serão a mudança que querem ver no mundo[68].

Conduta Ética - Rallé

[1] DolphinsasPersons, Dee Eggers em TEDxAshville, 2009

[2] Theempathiccivilization, Jeremy Rifkin, 2009

[3] Entrevista com Dr Gabor Maté em Zeitgeist: MovingForward, 31:15, Peter Joseph, 2011

[5] Paraqueserveomovimentozeitgeist?, Michael Marques, 2014

[7] Entrevista com Michael Ruppert em Collapse, Chris Smith, 2009

[8] IsPeakOilBehindUs?, John Collins Rudolf em The New York Times, 2010

[9] InequalityforAll, Jacob Kornbluth, 2013

[10] The Crash of 2016: The Plot to Destroy America and What We Can Do to Stop It, Thom Hartmann, 2013

[11] Aúltimahora, Leila Conners, 2007

[12] TheDrawofDoomsday: WhyPeopleLookForwardtotheEnd, Stephanie Pappas em Live Science, 2011

[14] WhatShadeofGreenAreYou?, Kari McGregor em Films For Action, 2014

[15] PrincípiosOrientadosdoDeepGreenResistance, site oficial, acessado em 11/2014.

[16] Entrevista com Noam Chomsky em DemocracyNow!, 2013

[20] Limpôtdesolidaritésurlafortune, site official do governo francês

[24] AlvaradoStreetBakery, site oficial.

[25] Descrita em Capitalism, alovestory, Michael Moore, 2009

[26] TheCaseforWorkerCo-ops, Nancy Folbre em The New York Times, 2009

[27] Flaskô, aúnicafábricasobcontroleoperárionoBrasil, Paloma Rodrigues em Carta Capital, 2014

[41] EarlyChildhoodResidentialInstabilityandSchoolReadiness: EvidencefromtheFragileFamiliesandChildWellbeingStudy, Kathleen M. Ziol-Guest e Claire McKenna em Child Development, Volume 85, Issue 1, p. 103–113, 2014

[42] FrequentResidentialMobilityandYoungChildrensWell-Being, David Murphey, Tawana Bandy e Kristin A. Moore em Child Trends, 2012

[46] Microtrends: The Small Forces Behind Tomorrow’s Big Changes, Mark Penn e E. Kinney Zalesne, 2009

[49] Howmoneytalksinstatelegislatures, Lynda Powell em The Washington Post, 2013

[50] Entrevista com Jack Abramoff em HuffingtonPost, Emily Tess Katz, 2014

[51] Stanfordscholarsexaminebigmoneysinfluenceonelections, Brooke Donald em Stanford University News, 2012

[52] WorldProtests 2006-2013, Isabel Ortiz, Sara Burke, Mohamed Berrada e Hernan Cortes Saenz, Initiative for Policy Dialogue and Friedrich Ebert Stiftung New York, 2013

[53] Entrevista com Chris Hedges em RTAmerica, Abby Martin, 2014

[54] Entrevista com Russell Brand em BBC, Jeremy Paxman, 2013

[55] AmericanAutumn: anOccudoc, Dennis Trainor Jr., 2012

[57] NomorecitationsforcurbsideveggiesinLosAngeles, Kate Torgovnick em TED, 2013

[58] Como citado em Beyond Civilization : Humanity’s Next Great Adventure, Daniel Quinn, 1999 (tradução livre, texto original : “You never change things by fighting the existing reality. To change something, build a new model that makes the existing model obsolete.”)

[59] Vamosconstruirecopolos?, Leandro Zayd, 2014

[67] Revelations, Bill Hicks, 1993 (tradução livre)

[68] Parafraseando uma frase geralmenteatribuidaaGandhi : “We need to be the change we wish to see in the world.”

“Este artigo não expressa necessariamente uma opinião do MZ, mas de seu autor.

O mérito está na contribuição para a discussão da linha de pensamento defendida pelo movimento.”

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