Para que serve o Movimento Zeitgeist?

Seguindo a série de posts que apresentam o Movimento Zeitgeist, neste artigo será discutido o propósito deste movimento, que apesar de ser bastante claro, às vezes, confunde algumas pessoas que ainda insistem em associar o movimento à série de filmes que antecederam o mesmo.

Peter Joseph

Peter Joseph

A série de filmes Zeitgeist não é o Movimento Zeitgeist. Os filmes são uma criação artística particular de seu autor, Peter Joseph. Eles servem apenas de inspiração para as pessoas que fazem parte dessa organização (assim como muitos outros filmes). O Movimento Zeitgeist é, essencialmente, uma organização de pessoas que reconhece que temos soluções técnicas disponíveis para nós, que não estão sendo implementadas devido à ordem social vigente. E mesmo o seu criador, Peter Joseph, é apenas mais um membro dessa organização.  Mais especificamente, Peter faz parte do Lecture Team do Movimento, que é responsável pela maioria das palestras e materiais produzidos, junto, obviamente, com muitas outras pessoas.

Também é importante lembrar que o MZ não inventou a palavra Zeitgeist, que é usada em outros contextos e por outras organizações (Google Zeitgeist, por exemplo). Então, se mesmo depois disso uma pessoa não conseguir perceber a óbvia dissociação dos filmes com o movimento, é porque não tem interesse em perceber.

Mas, então, para que serve esse movimento?

É bastante normal que depois de assistirem aos filmes da série, algumas pessoas se encontrem num estado bastante motivado para realizar alguma ação que promova algum tipo de mudança. Outras, imaginam que o Movimento é principalmente interessado em criar cidades sustentáveis, baseadas nos modelos de Jacque Fresco. Existem, ainda, aqueles que acreditam que precisamos nos mobilizar e protestar, fazendo as pessoas enxergarem as falhas estruturais do nosso sistema.

Muitas pessoas procuraram saber mais sobre o assunto de comunidades sustentáveis (ou ecovilas) para desenvolver tecnologias que ajudem essas comunidades, ou mesmo como uma forma de escapismo, de se libertar das imposições do sistema. Também existem pessoas que acreditam que a sociedade só irá tomar um caminho diferente com muita pressão e protestos. E há aquelas pessoas que não conseguem conceber uma mudança radical na estrutura social sem que haja um colapso total do sistema.

O movimento, em si, não tem interesse em impedir nenhuma pessoa de seguir um rumo de ação em particular. E nem tem como fazer isso. Apesar de acreditarmos que, sim, protestos têm um impacto na sociedade e que, sim, é necessário pesquisar e criar alternativas práticas de organização social e desenvolver tecnologias e métodos que ajudem nessa “transição” de valores, não é esse o propósito do movimento. O propósito fundamental do Movimento Zeitgeist é fazer as pessoas perceberem a importância da interconexão entre todos os sistemas, ou seja, desenvolver uma abordagem de sistemas. É mudar nossos valores para que cada vez mais pessoas percebam que somos organismos interligados com o nosso planeta, tanto socialmente, quanto ambientalmente.

À primeira impressão isso parece até um pouco óbvio, mas se observar os valores culturais da sociedade de hoje é fácil perceber que não nos importamos nem um pouco em desenvolver essa visão sistêmica dos problemas sociais. Muito pelo contrário, a sociedade tem a tendência de enxergar determinados eventos de maneira equivocadamente isolada.

Alguns exemplos talvez expliquem melhor esse argumento:

  • Um ato de violência qualquer não pode ser percebido como um evento isolado. Se uma pessoa opta por machucar ou mesmo tirar a vida de outro indivíduo, é porque uma série de fatos negativos aconteceram e fizeram essa pessoa tomar tal atitude.  E esses fatos precisam ser avaliados e estudados, para que outras pessoas não precisem passar pelas mesmas experiências, tanto no papel de vítima, quanto no papel de agressor. E é muito claro que não é esse tipo de percepção que observamos nos comentários e reportagens da grande mídia, que reduzem acontecimentos sem se aprofundar nos fatos que antecederam determinado evento.  (Veja mais no livro Violence, de James Gilligan)
  • Dentro da discussão de vícios e dependência, um assunto que apenas costuma girar em torno da comercialização legal ou não de determinada droga, raramente se debate os motivos pelo qual uma pessoa se torna dependente de uma substância qualquer. Nesses casos, deveríamos nos perguntar: que tipo de alívio essa pessoa procura e qual a “dor” que ela está tentando curar? (Veja mais no livro In the Realm of Hungry Ghosts, de Gabor Maté)
  • Talvez o tema mais abordado dentro do movimento seja a questão da economia, em si, porém, de forma bem diferente do que estamos acostumados a assistir na TV e jornais. São poucas as pessoas que refletem sobre esse assunto e que tentam escapar da maneira “bitolada” como observamos a economia, procurando fazer perguntas do tipo: Qual a consequência de uma grande estratificação social em um grupo de indivíduos? (Veja mais no livro The Spirit Level, de Richard Wilkinson e Kate Pickett) Qual a melhor forma de gerenciar todos esses recursos que temos disponíveis na Terra? Como uma economia que necessita de crescimento constante irá sobreviver num planeta de recursos finitos?

São esses e muitos outros assuntos que o movimento aborda, sempre tentando estabelecer uma visão holística do universo de eventos que acontece ao nosso redor. Por outro lado, a grande maioria das organizações procura focar em um problema apenas, defendendo uma causa em particular. Claro que não podemos negar a importância da existência dessas organizações, que, se talvez não existissem, estaríamos vivendo numa situação bem pior como civilização. Cada organização tem um papel funcional e a função do Movimento Zeitgeist é trazer uma abordagem de resolução de problemas diferente, ou seja, uma linha de pensamento diferente.

O movimento, em si, não cria nada e nem clama por propriedade de nenhuma das ideias por ele difundidas. Ele simplesmente existe, pois um grande número de pessoas agora reconhece que os valores e as ações praticadas pela sociedade não estão alinhadas com a Lei Natural do Universo, cujas regras precisam ser seguidas se desejamos viver e prosperar enquanto espécie nesse planeta.

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14 Responses

  1. Jasol disse:

    Esse discurso morno, de que o Movimento não cria nada e tal simplesmente vai servir de piada para os que detém o poder econômico desse planeta.

    • Michael Marques disse:

      Eu não consegui entender o seu comentário, mas posso melhor elaborar o meu para tentar não deixar dúvidas: quando digo que “o movimento não cria nada”, quero dizer que não é objetivo do movimento criar novas tecnologias ou métodos e reivindicar criação ou posse dessas ideias. Eu não sei o que isso tem a ver com “os que detém poder econômico desse planeta”.

    • Graciela Kunrath Lima disse:

      Jasol, acredito que você analisou uma frase isolada sem levar em conta todo o contexto que foi elaborado previamente no texto (o que é exatamente o artifício que os que “detém o poder econômico” utilizam para tentar desmerecer o MZ e vários outros movimentos com uma linha semelhante a ele).

      A questão é que as ideias e linha de pensamento divulgadas pelo MZ não são criação dele, mas de outras pessoas. O que o MZ faz é tentar difundir estas ideias, promovendo a conscientização das pessoas para que elas saibam a real situação em que vivem e conheçam uma alternativa (no caso, a alternativa defendida pelo movimento é a Economia Baseada em Recursos – EBR). O movimento não visa em suas ações uma direta implementação da EBR (como, por exemplo, faz o Projeto Vênus), mas indicar para as pessoas a viabilidade e factibilidade desta, para que estas pessoas possam buscar caminhos para que a EBR torne-se uma realidade.

      Uma nova organização da sociedade requer uma mudança brutal na cultura, nos costumes, no modo de pensar. E não adianta esta nova organização que objetivamos ser aplicada à força, sem que todo o mundo (literalmente, neste caso), esteja consciente e de acordo de que esta é a única solução que temos em nossas condições atuais de desenvolvimento como sociedade. E você com certeza concordará, que fazer “todo o mundo” estar ciente disso é um trabalho hercúleo, bastante pretensioso – difícil de ser feito, com resultados que aparecem muito lentamente. Eu diria que o objetivo do MZ é de “preparar o terreno” para que a EBR possa ser implementada e mantida com sucesso.

      • Graciela Kunrath Lima disse:

        Ah! E como bem disse o mrHouston, este trabalho do movimento não é (e nunca deverá ser) uma doutrinação, e sim uma conscientização – porque não se trata de uma ideologia.

  2. Thiago disse:

    Parabéns! Admiro e participo do movimento já algum tempo! Parabéns!

  3. mrhouston disse:

    Não acho que o total das açôes do movimento seja apenas para criar discussões. Nós defendemos, sim, uma sociedade baseada em recursos, não estamos aqui apenas para “deixar todas as opções na mesa”, não somos tão indefinidos assim…

    Eu penso que, infelizmente, o que muitas pessoas, mesmo muitas que defendem essa idéia, falham em compreender o que exatamente seria uma RBE (sociedade baseada em recursos) em sua essência. Sim, é uma idéia de se usar a Teoria sistêmica natural para o desenvolvimento de uma sociedade, mas porquê? Eu penso que o que Fresco e Buckminster Fuller tinham em mente não é exatamente entendido por muitos dentro do movimento: Que as situações descritas em uma RBE são apenas o resultado de um pensamento mais profundo e central: Colocar a ciência nas decisões organizacionais sociais humanas. Todo o restante é consequência.

    Pelas idéias no fim da idade média no chamado “Iluminismo”, nós colocamos a idéia de que a ciência seria aceita na criação de ferramentas de desenvolvimento da sociedade, porém somente como uma ferramenta a ser usada para a criação de items e mecanismos decididos pelo nosso pensamento cultural e não científico, o poder de decisão não é dado à ciencia, mas à cultura, valores, e, heh, “representantes” de tais culturas.

    Eu penso que o que Fresco e Fuller tinham em mente era a próxima etapa lógica do Iluminismo… O poder de decisão social dado á ciência. Não é um conjunto de regras ideológicas que fazem uma RBE, uma RBE não é uma ideologia, é o resultado temporário de uma pesquisa\experimento científico mental levando tal poder em consideração. Os resultados deste experimento mudam e se adaptam com o tempo, mas não a idéia central.

    Em outras palavras, não é sobre um conjunto de regras sociais (robôs, uma espécie unida, recursos finitos, etc.), mas como esse conjunto é gerado. Sem isso, não somos diferentes dos “ismos”… ideologias geradas por opiniões e culturas. Sem isso, mesmo que consigamos que tais regras sejam aplicadas socialmente, é só uma questão de tempo até que o ambiente mude de novo para termos problemas sociais novamente. Não há plasticidade em ideologias, somente na ciência/pensamento lógico. Eu sei, no entanto que os que realmente entendem isso são poucos…

  4. Rafael disse:

    Interessante,

    Mas como posso ter certeza que essa ideia é a do movimento em si, e não do autor do texto específico?

    Acho que o movimento tem que ser livre em suas ações e não seguir regras específicas.

    Abraço

    • Michael Marques disse:

      Com certeza o autor concorda com todas essas ideias, senão não teria escrito o artigo. Ele participa do Movimento há bastante tempo, então possui mais experiência para orientar pessoas que ainda tiveram pouco contato com o MZ. E como qualquer outro artigo, este também precisou passar pela revisão de outras pessoas que concordaram com a mensagem central do mesmo.
      O MZ não fala nada sobre como você deve levar a sua vida: o que comer, no que gastar, que hora dormir. Entretanto, se você pretende utilizar dos canais de comunicação do MZ (por exemplo, esse blog) então vai ter que seguir certas regras estabelecidas por todo o grupo. É o único jeito de mantermos o mínimo de organização naquilo que tentamos apresentar.

    • Graciela Kunrath Lima disse:

      Rafael,

      Obviamente é impossível uma pessoa escrever um texto totalmente isento de sua visão pessoal. Muitas das ideias apresentadas não estão evidentes nos protocolos e guias do movimento, justamente porque o MZ preza esta ação livre que você comentou – o que abre espaço para que cada um possa mostrar o que pensa. Muitas outras estão descritas no material do movimento, cujos links estão disponíveis para acesso aqui (https://drive.google.com/folderview?id=0BwMycglUaj9AQ0kxalJuVHFCSDg&usp=sharing&tid=0BwMycglUaj9Ad2VueW5OY1RDYmc#list) – onde você pode verificá-las. O fato é que, específicas ou não do movimento, as ideias apresentadas apenas indicam que as pessoas deveriam utilizar o bom senso e as premissas defendidas pelo MZ para nortear suas ações. Ainda que defenda a liberdade e a independência, qualquer organização necessita de alguns parâmetros básicos para conseguir funcionar de verdade.

      Abraço!

  5. Vera disse:

    Seria talvez nosso atual poder econômico, bancos, empresas grandes que por causa de seus lucros não deixam talvez a tecnologia a favor das pessoas viverem melhor? Seria talvez isso? Explica por favor? Sem rodeios.

    • Michael Marques disse:

      Exatamente!
      A sociedade atual adotou um modelo econômico baseado em restrição que impede que certos avanços aconteçam e que coloca a maior parte riqueza nas mãos de poucos.
      Sem rodeios, o que quero dizer é que precisamos atualizar esse nosso sistema econômico.

  6. Djalma Oliveira disse:

    O movimento Zeitgeist propõe uma economia global planificada?

  1. 19 de abril de 2014

    […] linha de ação do MZ já foi bastante explorada no artigo “Para que serve o Movimento Zeitgeist?“, entretanto é sempre bom lembrar o seguinte para as pessoas que insistem em atropelar […]

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