Quem o trabalho dignifica?

Artigo escrito por Marcelo Machado

cartoon-44588_640O trabalho é uma instituição social construída ao longo da história humana, ligada a valores distintos conforme o sistema social de cada época e local. Em geral, o trabalho tem sido considerado como algo natural e necessário ao ser humano.

A definição de trabalho pode variar, por isso esclareço que usarei aqui a definição de trabalho no sentido de atividade compulsória, controlada e necessária para a manutenção da vida de quem trabalha.

A palavra trabalho deriva do latim tripalium ou tripalus, uma ferramenta que imobilizava cavalos e bois para serem ferrados. Também era o nome de um instrumento de tortura usado contra escravos e presos. Na tradição bíblica, o trabalho foi um castigo imposto por Deus, ao condenar o homem (Adão) à labuta diária pela sobrevivência. Para os gregos antigos e monarquias feudais da idade média, o trabalho era considerado algo inferior, destinado às classes também inferiores, como mulheres, escravos e camponeses¹.

Pode-se observar que, durante boa parte da história, a noção de trabalho foi usada em sentido pejorativo, sendo considerada uma atividade de segunda classe. Algo totalmente oposto ao que ocorre dentro da cultura moderna que, apesar de não ser consenso absoluto, em geral considera que “o trabalho dignifica o homem”. Alguns pensadores famosos definiram-no como essencial ao ser humano, entre eles Voltaire, que afirmou: “O trabalho afasta de nós três grandes males: o tédio, o vício e a necessidade”. Mas o que teria retirado do trabalho compulsório o rótulo de inferior e elevado o mesmo ao patamar atual?

Com a queda do sistema feudal na idade média e a ascensão do Mercantilismo promovido principalmente pela descoberta de novas rotas marítimas e consequente aumento do comércio e circulação de produtos entre os países, o trabalho sofreu um alto grau de especialização ao não ser mais feito pelos donos dos meios de produção, mas por profissionais de áreas específicas que trabalham para eles. Depois, com o advento da Revolução Industrial, ocorreu o passo definitivo que abriu caminho para a completa assimilação cultural e econômica do trabalho como algo revestido de status social positivo. Isto fica fácil de se entender ao levarmos em conta como era conveniente para que a burguesia (classe social dominante ao desbancar a monarquia) conseguisse suprir suas necessidades tanto de trabalhadores motivados para suas fábricas e escritórios, como de consumidores para seus produtos e serviços. Até mesmo a abolição da escravatura no mundo ocidental envolveu motivações econômicas da burguesia, justamente por precisarem de trabalhadores assalariados em suas fábricas que pudessem depois ser consumidores dos seus produtos, o que não poderia ser feito em quantidade satisfatória para os capitalistas se houvesse a manutenção do sistema de escravidão.

Verifica-se que a adoção de valores positivos relacionados ao trabalho, que o colocam como essencial para o pleno desenvolvimento mental, e os trabalhadores como pessoas dignas e possuidoras de direitos, foi promovida principalmente pela necessidade de manutenção do poder da classe dominante e pelo surgimento de novas tecnologias de produção e distribuição, não tendo relação com uma suposta necessidade humana inata ou desígnio divino, nem mesmo tendo ocorrido com o objetivo de melhoria social.

O trabalho compulsório já se tornou obsoleto e desnecessário. Atualmente, dispomos de tecnologias que permitem a melhoria da sociedade de forma sem precedentes na história humana, bastando apenas modificarmos alguns de nossos valores socialmente predominantes, entre eles aqueles relacionados ao trabalho. A utilização da automação e sistemas econômicos baseados nos recursos, e não no lucro, podem modificar a atual noção de trabalho a ponto de torná-lo praticamente indistinguível do lazer. Um novo nível de liberdade seria alcançado pela humanidade se acabássemos com o imperativo de termos que trabalhar para suprir nossas necessidades básicas.

Fontes

¹ Ética & Trabalho – Nely Wyse Abaurre e Maria Helena Barreto Gonçalves

Wikipédia:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Trabalho_(economia)

http://pt.wikipedia.org/wiki/Trabalho_assalariado

http://pt.wikipedia.org/wiki/Sociologia_do_trabalho

“Este artigo não expressa necessariamente uma opinião do MZ, mas de seu autor.
O mérito está na contribuição para a discussão da linha de pensamento defendida pelo movimento.”

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9 Responses

  1. ShadowsAV disse:

    Ótimo texto.

    Os sistemas monetários atuais corrompem o trabalho, pois precisam de mão de obra e trabalho para manter o ciclo destrutivo, mesmo que o trabalho e o resultado não sejam relevantes. Existem milhares de trabalhos inúteis, que nada ajudam na saúde, manutenção ou aprimoramento dos valores humanos, criando multidões de pessoas dando seu suor de forma inútil.

    O texto também mostra a fragilidade do sistema, e a manipulação dos valores. A manipulação da massa e da própria classe trabalhista, onde um médico que dizem ter “valor moral elevado”… mas quem se importa, quando vão escolher a pessoa para se casar escolhem a de maior poder monetário e não pelo valor moral. Sistema corrompido, moral corrompida e milhares de pessoas, alienadas ou não, sofrendo com essas manipulações, não por incompetência, mas por falta de oportunidade e de dinheiro! Gente morrendo de doenças que já existem remédios para cura, tratamento ou prevenção, morrendo de fome etc…

    É incrível como tem gente tão alienada que acha que o dinheiro e a política podem resolver tudo e não percebem que estes dois são os maiores causadores de desgraças, o dinheiro criando escassez desnecessária e as desigualdades e os políticos mantendo o sistema monetário falho e se, pelo menos aqui no Brasil, se aproveitando do próprio povo que os elege.

  2. Anderson disse:

    Ótimo texto, a dignidade de um homem nunca foi em decorrência de seu trabalho, o capitalismo moldou uma das maiores mentiras existenciais.

    • Marcelo Machado disse:

      Olá Anderson.
      Verdade, o trabalho compulsório, obrigatório para sobreviver, não dignifica, ele explora. O que proporcionaria dignidade de fato, a nós e aos outros, seria nossa atividade livre e espontânea, com o objetivo de melhorar a vida em sociedade.

  3. Flaviano Starling Loureiro Alves disse:

    O profissionalismo é só um eufemismo para a escravidão. Trabalho não tem nada a ver com a relação empregatícia, pois qualquer atividade demanda esforça, seja físico ou psíquico, ou ambos, portanto é uma forma de trabalho. É necessário, em nossa sociedade, a criação de uma nova mentalidade que seja baseada na cooperação, no esforço mútuo, na qual as pessoas possam exercer suas atividades livremente, em favor do bem comum, sem estarem ligadas ou dependentes de alguma instituição.

  4. fab disse:

    Pqp quem escreveu esta merda devia voltar aos bancos escolares.essa merda nao se auatenta.
    2 claro q o cara e um vagabundo q nao gosta de trabalho.assim como marx.mais uma teoriazinha idiota pra deixar néscio dw boca aberta

    • Time MZBlog disse:

      “Se uma opinião contrária à sua o irritar, isso é sinal de que sabe, implicitamente, que não tem boas razões para pensar da forma que pensa.” Bertrand Russell

  1. 13 de novembro de 2014

    […] industrial até o moderno executivo do mundo dos negócios, geração após geração cultivou a noção do trabalho como algo central para a existência humana e para o próprio sentido da vida. Isso foi de grande valia para a fantástica geração de riqueza […]

  2. 27 de novembro de 2014

    […] gerações atuais, mais do que as anteriores, foram preparadas desde cedo para uma vida de trabalho abnegado e uma existência definida com base em uma ocupação ou carreira. A perspectiva de não ter que […]

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