Questões óbvias, mas ignoradas pela maioria

Artigo escrito por Marcelo Machado

É curioso e ao mesmo tempo perturbador notar como contradições óbvias em alguns valores sociais predominantes, relacionados a questões fundamentais para todos, podem ser solenemente ignoradas pela maioria, sem muita objeção relevante por parte da mídia ou de grupos sociais diversos.

O próprio sistema socioeconômico vigente, por meio de suas instituições e seus agentes humanos por trás delas, trata de dar uma aparência de veracidade/normalidade a estes valores sociais contraditórios, por serem eles necessários à sua própria existência, fazendo com que a cultura absorva estes valores como autoevidentes e com enorme naturalidade a ponto de tornar imperceptíveis para muitos as suas enormes incongruências e ausência total de lógica, promovendo-os por meio de fundamentações teóricas sem base na realidade, senso comum, argumentos de autoridade e programação midiática, que embotam as consciências em uma espécie de nevoeiro mental resultando em indiferença, alienação e ausência de pensamento crítico. Tais valores equivocados, enxertados na cultura por instituições que pretendem nada mais do que se perpetuarem através deles, desconsideram convenientemente a realidade com o objetivo de manter o sistema socioeconômico favorável a elas.

A maioria dos valores socialmente predominantes encontram-se equivocados e já obsoletos, necessitando serem radicalmente revistos, dentre eles as noções atuais de propriedade, trabalho, valor, dinheiro, consumo, sustentabilidade etc. Abaixo discorro sucintamente sobre alguns dos valores mais socialmente aceitos e que mais obviamente se chocam com a realidade observável, que consegui encontrar.

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Crescimento infinito

O conhecimento atual sobre a Terra demonstra claramente que nosso planeta dispõe de recursos materiais finitos, que não podem ser de modo algum indefinidamente explorados pelos seres humanos. Mesmo diante desta realidade já altamente constatada, a atual teoria econômica desconsidera totalmente este fato, promovendo largamente o crescimento contínuo de índices econômicos como o PIB, que representa a quantidade de bens e serviços consumidos em um espaço de tempo, como algo totalmente benéfico para a sociedade. Sendo assim, o consumo cíclico dos recursos naturais, na maior quantidade e no menor tempo possível, é visto como positivo mesmo sendo o responsável pela destruição acelerada dos biomas e pelo enorme desperdício de recursos finitos valiosos.

Apesar de evidente o fato de que algo infinito não pode caber dentro de algo finito, nosso sistema socioeconômico, através de seus agentes e instituições, promove o crescimento constante como algo a ser buscado incessantemente por todas as nações do planeta. Como um exemplo local, cito o nosso ex-presidente da república que dizia que “todos devem consumir, para que a roda da economia gire e beneficie a população”, incitando toda a população a ir às compras em nome do crescimento econômico. Protocolos empresariais como a obsolescência programada, uma aberração ecocida, é visto pelo establishment econômico como uma solução brilhante para manter o sistema econômico em funcionamento.

Competição por recursos

A harmonia social, o fim das guerras e a justiça estão entre as coisas mais desejadas pela grande maioria da humanidade. Porém, enquanto tais belas pretensões humanas são defendidas por virtualmente quase todas as pessoas do mundo, incluindo grandes pensadores humanistas, ao mesmo tempo somos empurrados para a barbárie competitiva do todos contra todos. A questão é simples e muito evidente: não há como se conseguir harmonia e justiça fomentando-se maciçamente a competição pela sobrevivência. É totalmente paradoxal desejar alcançar a paz e a solidariedade promovendo-se um ambiente onde temos que competir uns contra os outros para conseguir recursos que garantem não só a vida mas também a qualidade da vida. É algo impossível de se conseguir, a guerra e a violência será sempre a consequência inevitável em tal ambiente.

Mesmo que o argumento de que a competição é a melhor forma que temos para inovar estivesse correto (o que não está correto de forma alguma), ainda assim teríamos que mudar se quiséssemos estabelecer uma sociedade de fato pacífica e equilibrada.

Seres humanos autossuficientes

O conhecimento sobre o funcionamento dos sistemas naturais evidencia que tudo está interligado ao ambiente. Todos os seres vivos, incluindo os humanos, possuem estreita dependência do ambiente natural/material e social à sua volta para a manutenção da vida. O nível da qualidade de vida está diretamente ligado ao nível de estabilidade dos biomas e das estruturas sociais que a suporta. Polua o ar, o solo ou a água e adoeceremos. Extingua animais e biomas responsáveis pela manutenção da cadeia alimentar e morreremos. Viva em guerra com outros seres humanos e aumentará as suas chances de morrer ou de ter péssima qualidade de vida.

Mesmo diante de tal constatação, óbvia até mesmo para quem não possui muito conhecimento sobre ciência e natureza, nosso atual sistema de valores sustenta a noção que somos organismos isolados, ao promover a ideia de que podemos viver numa “bolha” tecnológica, independente do ambiente externo. A visão individualista moderna de que dentro do meu carro com ar condicionado e da minha casa com uma TV Led, com um Estado policial ou sistema de segurança privada que me proteja, serei totalmente intocável independente da forma como interajo com o ambiente social e natural, é totalmente equivocada e irreal. Querendo ou não estamos todos sujeitos à realidade de que tudo está interligado e é interdependente, de que dependemos do todo, ou melhor, que somos o todo. Todos nós, seres vivos e inanimados, fazemos parte de um único grande sistema, sendo que a sustentabilidade deste sistema, em todos os sentidos, depende de como ocorrerão as relações entre todos estes agentes em seu interior.

Uma evidência notável de que estamos todos juntos no mesmo “barco” é a divisão artificial do planeta em países, que é nitidamente ignorada pelo sistema natural. Um caso recente e emblemático é o dos reatores nucleares de Fukushima, no Japão. A radiação liberada com o rompimento de seus núcleos radioativos se espalhou por todo o oceano Pacífico e por vários países, totalmente indiferente a barreiras e fronteiras artificiais criadas pela civilização humana.

“Este artigo não expressa necessariamente uma opinião do MZ, mas de seu autor.
O mérito está na contribuição para a discussão da linha de pensamento defendida pelo movimento.”

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14 Responses

  1. mário soek disse:

    Muito bem sintetizado seu texto Marcelo.

  2. Daniel C. disse:

    Penso que o MZ precisa de muitos textos desta natureza. Seria o caso de buscá-los na literatura internacional e traduzi-los.
    Considero um exagero a quantidade de textos tecnológicos publicados aqui. Em sua maioria representam apenas o estado atual da pesquisa científica, mas de serventia ainda duvidosa para o futuro da humanidade.

    • Graciela Kunrath Lima disse:

      Olá, Daniel!

      Com certeza artigos como o do Marcelo contribuem muito para as mudanças que esperamos, pois vão além da descrição, fazendo uma análise e propondo alternativas. Exatamente porque exige um estudo e uma escrita mais cuidadosa por parte do autor (e também de um tradutor, se for o caso), este tipo de texto acaba sendo menos frequente do que gostaríamos, uma vez que ainda contamos com poucas pessoas contribuindo para o blog.

      Mas os artigos técnicos são importantes para mostrar que existem potenciais alternativas para o padrão de obsolescência, altos gastos, pouca eficiência, e de grande contaminação ambiental que temos hoje. Mesmo que elas não venham a ser todas aplicadas, elas vislumbram um mundo de grandes possibilidades.

      Como o MZ Brasil ainda não tem uma estrutura grande o suficiente para ter canais específicos para cada tipo de texto (como ocorre com o movimento global, que tem o Zeitnews para divulgar textos técnico-científicos, e o Zeitblog para divulgar textos mais analíticos), temos incluído todos aqui no MZBlog, para que aquelas pessoas que não têm domínio do inglês possam ter acesso a estes conteúdos.

      Caso queira ler os conteúdos originais em inglês, direcionados conforme descrito acima, acesse os links abaixo:

      http://blog.thezeitgeistmovement.com/

      http://www.zeitnews.org/

      Agradecemos pela crítica construtiva! Estamos trabalhando para tentar suprir estas demandas…

    • Marcelo Machado disse:

      Oi Daniel, que bom que gostou do texto!
      Como colocado pela Graciela, textos mais técnicos enfatizando a tecnologia também são muito úteis. Muitas pessoas desconhecem ainda a capacidade tecnológica atual e por isto não conseguem vislumbrar a possibilidade de uma EBR funcionando na prática.
      Mas tenho certeza que conforme o Movimento Zeitgeist for crescendo no Brasil, muito mais textos analíticos irão aparecer por aqui.
      Abraços.

  3. Celchess disse:

    Os detentores do poder econômico não são ingênuos. Eles sabem muito bem que os recursos são finitos. Só que para eles, donos do poder no planeta, é mais fácil e útil sustentar uma ilusão de consumo infinito perante as massas. Quando o sistema colapsar, eles simplesmente vão usar o aparato bélico-policial de que dispõe para exterminar a horda de famintos e arruaceiros. Claro que eles fazem todo o possível para manter o povo iludido, como numa Caverna de Platão. Não interessa para eles o caos, desde que possam sempre lucrar em cima dos escravos acorrentados pela ânsia de consumo.

    • Marcelo Machado disse:

      Os donos do poder são também doentes, produtos do sistema socioeconômico vigente, viciados em dinheiro e poder. Eles também devem abrir os olhos para a mudança necessária, antes que tudo vá pelos ares, pois até eles são vitalmente dependentes do ambiente social e natural, e não escaparão das consequências, mesmo que sejam os últimos a sofre-las.

  4. Márcio Braga disse:

    Pena é que os interesses econômicos tenham conseguido reunir forças tão poderosas, QUASE insuperáveis, a ponto de o óbvio, o que salta aos olhos, sofrer tamanha interferência nos caminhos da mente antes que se forme a consciência. A humanidade já foi, em grande parte, racista e, graças aos que denunciavam e lutavam contra a total irracionalidade da ideia de superioridade racial, hoje são poucos os que não percebem o tamanho da estupidez.
    Espero que exista tempo para que gente como você, Marcelo, consiga, novamente, nos salvar de nós mesmos. É isso ou o precipício espacial.
    Parabéns.

    • Marcelo Machado disse:

      Obrigado Márcio.
      Realmente, grandes mudanças sociais, consideradas até então incontornáveis, já ocorreram no passado e isto me dá esperanças de que venham a ocorrer novamente. Como você bem colocou, ou é isto ou é o caos. O que posso fazer é tentar de alguma forma ajudar nesta mudança e convidar você e quem mais se interessar a se juntar a nós nesta tentativa.

  5. Othon disse:

    Excelente. Daria um livro este assunto. O problema é que as pessoas sabem do óbvio mas de uma maneira muito superficial. Seduzidas e iludidas pelos padrões de consumo e modo de vida impostos pela sociedade, não conseguem compreender o óbvio. Necessitamos de compreensão.

  6. Milton Dia disse:

    Que ótimo texto!

  7. Igor disse:

    Muito bom o texto Marcelo. De fato, são questões que não se aprendem na Faculdade de Economia, já que o objetivo é manter tudo do jeito que está. Esse sistema é do jeito que eles querem que seja, absolutamente proposital, já que o uso do dinheiro dá a eles (elite) poder e domínio. O dinheiro e a religião são dois pilares poderosos na servidão moderna e velada. As pessoas são cegas a tudo isso porque em toda parte elas aprendem a aceitar tudo de boa sem questionar nada, são adoecidas pela alimentação envenenada; são alienadas e distraídas pela mídia, esta que só vende e empurra mediocridades e futilidades. Escondem a cura de doenças que eles mesmos criam, só pelo lucro e pelo controle. Tudo se encaixa, não tem como negar as conspirações quando agente junta as peças. Vivemos uma inversão proposital de valores, inclusive espirituais, pois, posso lhes garantir, Ciência e Espiritualidade não podem se separar, fazem parte da mesma realidade fora dessa Matrix em que vivemos.

  8. Alexandre disse:

    É Igor, quando você diz Economia, você quer dizer o Economia Capitalista, porque a Economia nada mais é do que “A Norma da Casa”, ou seja, colocar a casa em ordem. E sim, é tão fácil de ver que consumir por consumir ou crescer por crescer é inutil e contraditório, mas desde de cedo, aprendemos que temos que manter o PIB, e pra isso comprar, que devemos fazer a Economia “girar”, são tantas besteiras que aprendemos, só pra manter o sistema “em pé”.
    Igor, resumiu tudo que disse, que é semelhante a uma religião.

  9. Fernando Sousa disse:

    Parece até ironia, mas creio que seja trágico como quanto mais informados ficamos, mais depreciativamente agimos com relação a divisão e uso de bens e recursos. Mesmo vivendo na era da informação e tecnologia, vendo (algumas) campanhas publicitárias apoiarem a sustentabilidade ou lendo as frases politicamente corretas com a missão e valores das organizações, não sinto que teremos um futuro muito melhor daqui um ou dois séculos. A ironia se daria, quando penso que há milênios atrás, quando não passávamos de coletores e caçadores, interagíamos de forma muito mais harmoniosa com nosso planeta Terra.

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