Redefinindo o Conceito de Trabalho – Parte II

redefinindo_trabalhoAs gerações atuais, mais do que as anteriores, foram preparadas desde cedo para uma vida de trabalho abnegado e uma existência definida com base em uma ocupação ou carreira. A perspectiva de não ter que trabalhar – ou de trabalhar pouco – deixa a maioria das pessoas meio perdida e sem perspectivas. Alguém já disse que devíamos mesmo ser preparados para o ócio – e daí surgiriam naturalmente as vocações, ideias e projetos.

Um erro grave, mas comum, que se comete quando o valor do trabalho é relativizado – sempre referindo-se ao conceito mais “tradicional” de trabalho – é acreditar que todos, se não trabalhassem, se tornariam inúteis ou começariam a causar problemas. Isso pode ser verdade hoje por causa da cultura atual, mas não é próprio da natureza humana. Talvez o próprio desajuste que muitos demonstrem quando em ócio seja devido à sensação de serem párias, menos que cidadãos, o que é fruto da cultura vigente. E a maior prova de que esse tipo de juízo é uma convenção é a diferença entre as classes de desocupados. Um “rico” que não trabalha é admirado e invejado como alguém que sabe viver a vida, mesmo que haja pouco mérito em sua fortuna. Já um “pobre” que não trabalha, mas vive bem com o pouco que tem, é visto como um parasita social ou um fracassado.

As mais significativas contribuições da sociedade costumam ser fruto do ócio. Muitas invenções científicas e avanços tecnológicos devem-se à busca de seus autores por sucesso ou fortuna, mas as mais significativas dentre essas só poderiam ocorrer com uma boa dose de ócio. É aí que aflora a criatividade humana, não no stress e nas obrigações do trabalho cotidiano. E a criação que surge da vocação natural é sempre mais inspirada que aquela que surge da necessidade.

Todo ser humano tem alguma vocação natural ou interesse genuíno. Não é necessário que seja algo essencial para o resto do mundo. O mundo tem bilhões de pessoas, a contribuição individual de cada um não precisa ser grande, o importante é que seja boa – ou seja, feita com boa vontade, talento e desapego. E somadas tantas diferentes contribuições, há de se encontrar de tudo. Desde que o ócio não seja visto como um raro momento de fuga de uma rotina enfadonha – como é hoje para a grande maioria -, o natural é que as pessoas queiram utilizá-lo para aquelas atividades que elas gostariam mas normalmente não encontram tempo de fazer.

Vemos como quase heróis aquelas pessoas que, mesmo sujeitas a uma rotina de trabalho diária, encontram disposição em seu tempo livre para dedicar-se voluntariamente a atividades mais altruístas, em prol de um mundo melhor ou de uma sociedade mais justa, cada uma a sua maneira e conforme suas forças. Mas quantas outras pessoas sentem vontade de fazer algo assim, e certamente têm alguma habilidade a oferecer, e não encontram energia no pouco tempo livre que lhes resta? Quantas pessoas se dedicariam a idosos, crianças, pessoas com necessidades especiais, ou ainda ao meio ambiente, espaços públicos, atividades culturais, sempre voluntariamente, sem nenhum tipo de recompensa direta, e se sentiriam realizadas com isso? Aliás, quantas pessoas se sentem realizadas hoje com seus trabalhos?

É sempre uma possibilidade que alguns realmente queiram levar toda uma vida de puro ócio, talvez por falta de vocação, talvez por nunca terem despertado seus interesses. Se, de alguma forma, representarem efetivamente um fardo para suas comunidades, serão cobrados por isso e se sentirão pressionados a ter uma atitude mais colaborativa. Mas, se não for o caso, que mal há? Se há bom convívio social, ao menos nas pequenas ações e atitudes do dia a dia há alguma contribuição. O valor da contribuição de cada indivíduo para a coletividade só pode ser medido pela própria coletividade, e isso acontece naturalmente e segundo as características de cada comunidade.

Existe ainda aquela contribuição social intangível, não medida, mas que deveria ser altamente valorizada em uma sociedade moderna, que é a contribuição para o nível geral de felicidade e bem estar. Isso pode ser feito através da arte, entretenimento, diversão, atividades culturais, esportivas, enfim, tudo aquilo que possa ser apreciado individualmente e compartilhado coletivamente.

Ou seja, se é verdade que estamos alcançando as condições técnicas para gerar abundância, deveríamos também estar buscando essa sociedade mais feliz, solidária, produtiva e criativa. Longe de ser utopia, é uma conclusão lógica quando consideramos a realidade atual sem preconceitos, nem valores éticos que ultrapassaram seu próprio tempo e não fazem mais sentido prático algum.

You may also like...

1 Response

  1. Julio Cesar disse:

    Excelente texto. Repensar o valor do ócio é de extrema importância uma vez que a automação é um caminho sem volta. Infelizmente o conceito do trabalho mo centro da vida em uma sociedade capitalista promove situações de competição e neuroses sociais que impedem que se possa pensar a tecnologia em prol de todos terem uma vida de conforto. O consumo exagerado e a banalização da ética em uma sociedade de valores líquidos colabora para que a automação providencie lucro para poucos em vez de ócio e solidariedade.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>