Redefinindo o Conceito de Trabalho – Parte I

Há alguns séculos nossa sociedade ensina com entusiasmo o valor e a importância social do trabalho. Desde o sujo chão de fábrica da revolução industrial até o moderno executivo do mundo dos negócios, geração após geração cultivou a noção do trabalho como algo central para a existência humana e para o próprio sentido da vida. Isso foi de grande valia para a fantástica geração de riqueza e conhecimento que vemos hoje no mundo. Mas, com toda a mudança experimentada pela humanidade, produzida com todo esse trabalho, esse conceito permanece o mesmo? Qual é hoje o significado de Trabalho – e qual sua real importância para a sociedade?

 trabalho

Possuímos hoje as condições físicas e técnicas de automatizar quase tudo – com certeza os processos industriais e logísticos, e provavelmente quase todos os procedimentos administrativos e burocráticos dos serviços públicos. Aliás, em breve teremos condições de automatizar o próprio processo de automação. Sistemas que gerenciam sistemas, robôs que fabricam robôs.

A automação é uma questão central para o desenvolvimento econômico e social. Os ganhos de eficiência e qualidade tão necessários a uma sociedade sofisticada passam necessariamente pela redução da intervenção humana nos processos administrativos e produtivos. Sim, o ser humano é falho, limitado, sujeito ao cansaço, frustrações, emoções, tudo isso é parte da própria condição humana. Mas preferimos não ter falhas e defeitos em nossos produtos e serviços. A automação pode resolver esse problema – se não totalmente hoje, é só questão de tempo.

Alguns serviços importantes, como aqueles relacionados à saúde ou assistência, ainda precisarão da ação humana, mas mesmo nesses casos a tecnologia disponível reduz sensivelmente a necessidade de mão de obra – e melhora sensivelmente o resultado final. Se hoje não temos uma maior automação em nossos serviços, é porque combatemos o avanço da tecnologia sobre nossos empregos. Para que? Para não ficarmos desempregados. Mas para que precisamos estar empregados então?

Nossa sociedade se constituiu a partir do valor central do trabalho, e pensamos e organizamos nossas vidas em torno de nossos trabalhos, a ponto de não ser considerado um sujeito completo aquele que não trabalha – no conceito mais tradicional do termo. Mas a realidade em que esse valor se criou já não existe mais, na verdade praticamente se inverteu: a mão de obra humana prejudica o avanço tecnológico disponível. Considerada a necessidade de abrir espaço para a automação, para dar maior qualidade a produtos e serviços, abster-se de trabalhar já é quase uma contribuição à sociedade.

Sendo o trabalho humano desnecessário na prática, não faz sentido mantê-lo artificialmente. Claro que há muitos outros conceitos de trabalho, que podem ser usados e são muito mais significativos para o mundo atual do que o conceito tradicional. Um voluntário que ajuda doentes ou crianças carentes, um ativista ambiental ou simplesmente o cidadão comum que se mobiliza por causas coletivas fazem muito mais pelo mundo do que um trabalhador assalariado típico. A grande diferença está na motivação – e na necessidade.

Não é o caso de questionar quantos se dedicariam a alguma causa ou finalidade que fizesse jus a sua existência. Suspeita-se que sim, muitas e muitas pessoas se dedicariam às mais nobres necessidades humanas por simples vocação pessoal. Mas o voluntariado, como o nome sugere, deve ser algo espontâneo de cada um, a ser feito como e quando se aprouver, e não teria sentido de outra forma. Então não é isso que substitui a razão da existência.

A razão da existência seria provavelmente a simples existência em si, de preferência em harmonia e coexistência com seu meio e seus semelhantes, cada um cuidando de seu habitat e de sua comunidade, mas também de si mesmo e do seu próprio espírito. Tendo a automação para fazer por nós tudo aquilo que não nos agrada fazer, teríamos tempo de sobra para todo tipo de ação voluntária ou social, mas também para nos dedicar a tudo aquilo que nos agrada e dá graça à existência. Teríamos uma sociedade de músicos, artistas, escritores, esportistas, pessoas criativas e felizes produzindo coisas bonitas e divertindo-se uns com os outros. Seria estranho preferir o trabalho a isso, mesmo sabendo esse trabalho não ser lá muito necessário.

Ainda hoje, vemos certo preconceito em relação a pessoas que não têm um emprego ou empreendimento com fins econômicos. Há termos pejorativos para quem vive com pouco e trabalha pouco, e pouca admiração por aqueles que se dedicam a causas altruístas. Mas o pior ainda é reservado para aqueles que dedicam-se a curtir a vida, viver bem e fazer o que gostam: vagabundos. Não é inveja, é o valor ultrapassado do trabalho como finalidade da vida, tão enraizado que está. Pois então, para que trabalhamos esses últimos séculos, senão para gerar as condições sociais e econômicas que permitem nos libertarmos da necessidade do trabalho? Essas condições estão sendo rapidamente alcançadas, então podemos começar também a mudar nossos valores.

O indivíduo realmente livre de valores ultrapassados e convenções sociais é o mais criativo de todos. Em uma sociedade de espíritos livres, podemos esperar grande riqueza cultural, artística e científica, mas também uma grande melhora no convívio social, na saúde mental e na realização pessoal. E, provavelmente, um aumento significativo no trabalho voluntário e no envolvimento em causas comuns – que tornem o mundo um lugar melhor -, mas isso não será o objetivo da vida, e sim uma consequência de uma sociedade mais saudável.

Até aqui, esquecemos a questão financeira. Ainda que se concorde com tudo acima, resta a questão do sustento, da sobrevivência em uma sociedade voltada para o capital. Essa é a questão que fica: a grande maioria trabalha hoje uma vida toda em empregos desagradáveis, de pouca contribuição social e ainda menos satisfação pessoal, não por valor ou virtude, mas por imposição de mercado, por uma convenção do sistema vigente. Entender isso é um ótimo primeiro passo para começar a buscar a sociedade que gostaríamos de ter, e não a que achamos que precisa ser.

“Este artigo não expressa necessariamente uma opinião do MZ, mas de seu autor.
O mérito está na contribuição para a discussão da linha de pensamento defendida pelo movimento.”

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1 Response

  1. Com a tecnologia atual já podemos substituir o dinheiro como forma de remuneração pelo trabalho.
    Mesmo o governo instituído ficaria aos poucos obsoleto, com esta forma de “remuneração”!
    Uma sociedade extremamente ativa, produtiva e feliz já é possível.
    Nossos apegos e conceitos nos aprisionam apenas!

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