Relativismo, Ciência e Sociedade

Artigo escrito por Marcelo Machado

escherAtualmente vivemos no momento da história denominado de Pós-Modernidade. Dentre os aspectos que caracterizam este momento histórico, encontra-se a radicalização do relativismo. O relativismo pode ser definido como a ausência da verdade universal, a decretação da impossibilidade da existência de uma realidade objetiva. A pós-modernidade traz consigo exatamente isso: o fim das grandes narrativas, colocando todos os discursos como válidos, com todos os pontos de vista possuindo a mesma relevância.

A ciência, dentro do pensamento relativista atualmente predominante, torna-se apenas mais uma narrativa, tão válida como qualquer outra. Um típico relativista diria que o método científico é um meio tão válido de se definir a realidade quanto, por exemplo, uma cigana jogando cartas. No que se refere a questões relacionadas à administração da sociedade, tal forma de pensar se torna especialmente crítica.

Esta relativização exacerbada não possui nenhum crédito do ponto de vista da satisfação das necessidades reais dos seres humanos, já que duas coisas contraditórias não podem ser ambas verdadeiras, além de que, sem saber como funciona a realidade, é impossível interferir a ponto de nos adequarmos favoravelmente a ela. Por exemplo, durante muito tempo se achou que a Terra era plana, porém, por mais que os sistemas de pensamento arcaicos da antiguidade afirmassem isto, ela jamais deixou de ser esférica, muito menos pode ela ser esférica e plana ao mesmo tempo, isso é totalmente ilógico, além de improdutivo, pois para efeitos práticos de navegação e localização geográfica, considerá-la plana em vez de esférica só atrapalha.

Por sermos um fenômeno produzido pela natureza e parte constituinte da mesma, estamos todos sujeitos à atuação das leis do sistema natural, numa relação direta de causa e efeito, e desconsiderar tal “ditadura” da natureza é garantia de ter que arcar com consequências desagradáveis. Precisamos conhecer as exigências naturais, para nos adaptarmos a elas da melhor forma possível usando a razão e a lógica. A ciência, apesar de não estar imune a erros, é o meio mais eficiente que dispomos até agora para conseguirmos decifrar tais leis naturais, através de modelos em contínua construção, que se aproximam cada vez mais da realidade conforme novos fatos vão surgindo. Ela nos dá provas práticas disso ao verificarmos tudo aquilo que ela nos proporciona para facilitar nossas vidas e que de fato funcionam no mundo real como o esperado, de tratamentos médicos a satélites.

“O ponto aqui é que se provou, cientificamente, que somos produto de uma causalidade rastreável, e é este entendimento que pode nos permitir desacelerar e até mesmo dar fim ao comportamento “criminoso” ou aberrante que vemos em sociedade de hoje, tal como abuso, assassinato, roubo e semelhantes. A lógica, uma vez que os efeitos do condicionamento humano são compreendidos, é remover os atributos ambientais que estão possibilitando o surgimento de tais reações.” – Faq do Movimento Zeitgeist

Apesar de reprimida por questões financeiras e direcionada para fins insustentáveis, como o lucro e a obtenção de poder, ainda assim a ciência demonstra seu poder de realizar façanhas incríveis para a melhoria das condições humanas. Imaginemos, então, como seria se fosse totalmente direcionada para a solução dos problemas sociais, sem as amarras monetárias e culturais de um sistema econômico inerentemente corrupto como o atual. A boa notícia é que um sistema econômico cientificamente orientado e socialmente direcionado é possível, chama-se Economia Baseada em Recursos.

Não estou aqui afirmando que todos devam pensar da mesma forma e invalidar suas maneiras pessoais de verem a vida, mas relativizar os tipos de conhecimentos, e considerar todos igualmente válidos, só produzirá paralisia e enormes inconsistências no que se refere principalmente à administração social. Precisamos possuir um ponto objetivo como referência para a tomada de decisões que afetem a coletividade. Adotar uma abordagem subjetiva para a tomada de decisões, baseada em opiniões pessoais, tradições culturais sem fundamento na realidade e formas de conhecimento irrelevantes do ponto de vista das leis naturais, invariavelmente produzirá uma sociedade disfuncional e estagnada, como a atual.

Para finalizar, coloco aqui um trecho do Guia do Movimento Zeitgeist, do capítulo “Distúrbio do Sistema de Valores”, tópico “Características da Patologia”, que diz respeito ao tema em questão:

“O fato é que as crenças não são iguais em sua validade. Algumas são mais verdadeiras do que outras e, portanto, algumas são mais disfuncionais do que outras no contexto da vida real. O método científico de chegar a conclusões é a referência definitiva sobre o qual a integridade dos valores humanos pode ser medida, e esta realidade moderna desmistifica a defesa ‘relativista’ comum da crença humana subjetiva.

Não se trata de ‘certo’ e ‘errado’, mas sobre o que funciona ou não. A integridade de nossos valores e crenças só é tão boa quanto a forma como ela está alinhada com o mundo natural. Esta é a base comum que todos nós compartilhamos.

Este conceito está diretamente relacionado com a sustentabilidade no contexto mais amplo da própria sobrevivência humana, já que um sistema social sustentável naturalmente deve ter valores sustentáveis ​​para facilitar e perpetuar a estrutura. Infelizmente, a bagagem evolutiva de nossa história cultural manteve estruturas de valores que são tão poderosas, e ainda assim tão claramente dissociadas da realidade, que nossas suposições pessoais e sociais de felicidade, sucesso e progresso continuam a ser profundamente pervertidas e existem em discordância com as leis governantes de nosso habitat e natureza humana. O ser humano, de fato, tem uma natureza comum e enquanto nada parece 100% universal em relação às espécies, algumas pressões e causadores de estresse podem gerar, em média, graves problemas de saúde pública. Da mesma forma, se nossos valores apoiarem comportamentos que não estão em conformidade com a nossa sustentabilidade física no planeta Terra, então, naturalmente, podemos esperar problemas cada vez maiores em nível ambiental.”

 

“Este artigo não expressa necessariamente uma opinião do MZ, mas de seu autor.
O mérito está na contribuição para a discussão da linha de pensamento defendida pelo movimento.”

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2 Responses

  1. Ubiratã disse:

    O relativismo não pode ser ideologizado, o indivíduo pode simplesmente constatar diante do relativismo uma maior complexidade para aferir verdades. Na coletividade o relativismo pode funcionar como desconstrutor de verdades absolutas, no caso das religiões e sistemas políticos. Mas a ciência e seus métodos também sofrem destas mesmas problemáticas, a ciência se sobressai por um instante, por trabalhar com um conjunto de idéias um tanto mais necessária e utilitarista, mas não desprovidas dos jogos de valores humanos, pois cada objeto novo projetado pela ciência visa primeiramente os valores humanos e não os valores da natureza, valores estes que a ciência julga proteger na produção dos seus métodos. Um indivíduo não pode dizer ser relativista, a não ser que ele tenha pleno entendimento te todos os conceitos e pressupostos que constroem a ideia de mundo, ou seja, uma consciência de todas as causas e efeitos, um Deus. O relativismo nada mais é que uma constatação dos limites da condição humana diante de tudo.

  1. 3 de novembro de 2014

    […] seja numa democracia direta ou numa democracia representativa, a massa populacional, por si só, não possui imparcialidade nem conhecimento sobre o funcionamento dos mecanismos geradores dos fenô…, essenciais na tomada de decisões conscientes e […]

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