Sobre a vaidade

Por Gustavo Gollo

“Este artigo não expressa necessariamente uma opinião do MZ, mas de seu autor. O mérito está na contribuição para a discussão da linha de pensamento defendida pelo movimento.”

Para conhecer mais sobre as diferentes visões a respeito do comportamento humano, que estão além das concepções filosóficas expostas neste artigo, acesse: Uma Nova Forma de Pensar (1) e (2), Aulas do Professor Robert Sapolsky (Universidade de Stanford – Biologia Comportamental Humana) e todo o conteúdo disponibilizado pelo MZ. Com quais vertentes de pensamento você se identifica em relação ao comportamento humano? Quais teriam maior respaldo científico? Quais fontes e referências recomenda para o aprendizado e a discussão desse assunto? Comente e contribua! (Os Editores)

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De todas as nossas características, a mais fundamental, a que mais fortemente nos governa, é o fato de sermos replicadores. Um replicador é qualquer coisa capaz de fazer cópias de si mesma, de modo que, fundamentalmente, somos replicadores porque nos reproduzimos, quero dizer, temos filhos. A relevância de sermos replicadores decorre do fato de que, ao se replicar, ao fazer cópias de si, os replicadores se multiplicam, razão pela qual quase tudo o que vemos ao nosso redor seja, em algum sentido, um replicador. Coisas que não se replicam permanecem únicas, não se multiplicam, sendo, por isso, raras.

Somos replicadores sob vários aspectos: cultural, por exemplo. Entre esses vários aspectos, nossa animalidade tem um papel de destaque. Somos os descendentes de replicadores altamente capazes que conseguiram se impor em um mundo povoado por uma enorme profusão de replicadores, portanto, altamente competitivo (replicadores sempre competem por algum recurso limitante).

Poderíamos ser seres assexuados, não somos, nossa reprodução pressupõe o encontro entre dois indivíduos, um macho e uma fêmea escolhidos mutuamente. Por essa razão, nossa replicação pressupõe uma escolha prévia: só os escolhidos se replicam. Devido a isso, a “propaganda” de nós mesmos, de uma forma ou outra, determina nossa capacidade de replicação. Isso vale especialmente para os machos.

Somos os descendentes de replicadores bem sucedidos, daqueles que se replicaram. Nossos antepassados foram escolhidos por outros replicadores, baseados em como eles eram percebidos; imagem decorrente, em grande parte, da propaganda efetuada por cada um.

Devido à limitação das gestações, e da “perda de tempo” com a gravidez, as fêmeas tendem a ser muito mais seletivas que os machos, o que sugere que os homens tenham que ser muito mais vaidosos do que as mulheres, ou não conseguem se replicar. (As mulheres selecionam os pais de sua quantidade limitada de filhos, enquanto os homens tentam se reproduzir ilimitadamente).

A vaidade feminina se exprime com nitidez em sua apresentação pessoal externa, fato ilustrado claramente pelo tempo gasto pelas mulheres em cuidados com cabelos, unhas e outros detalhes superficiais de sua aparência. O aspecto visual desses processos é preponderante, evidenciando ser esse o foco central da escolha efetuada pelos machos. Homens escolhem mulheres belas. Mulheres que concentram sua atenção na própria beleza foram preferidas por nossos antepassados, razão pela qual as mulheres atuais herdaram a preocupação “exagerada” pela própria aparência. As que assim fizeram antes, foram bem sucedidas.

A vaidade masculina deve se exprimir nas características desejadas pelas mulheres. Mas, o que desejam as mulheres? No que a vaidade masculina se exprime? A afirmação de que os homens sejam mais vaidosos que as mulheres equivale a dizer que os homens gastam mais tempo guiados pela vaidade que as mulheres. Mas, em que gastam esse tempo?

A vaidade masculina se concentra em sua imagem social; o empenho do homem se dirige precipuamente para a ascensão social; sua vaidade faz com que ele se preocupe em ascender socialmente, em atingir posições sociais elevadas pois é isso, principalmente, que uma mulher deseja em um homem.

Sobre machos e fêmeas

Pressupõe-se que machos e fêmeas estejam submetidos a forças seletivas de intensidades diferentes, recapitularei brevemente o caso dos mamíferos: machos investem pouco em cada reprodução; após a cópula, as fêmeas têm o custo adicional da gravidez e da amamentação dos filhotes, o que limita o número de seus descendentes; machos podem ter, potencialmente, um número ilimitado de descendentes. Por essa razão, as fêmeas tendem a ser muito mais seletivas que os machos, escolhendo com muito mais rigor os progenitores de seus próprios descendentes. Aos machos convém apostar na quantidade, às fêmeas na qualidade. Fêmeas seletas (as belas, em nossa espécie) selecionam com imenso rigor,  escolhendo, apenas, os machos mais desejáveis para progenitores de seus poucos descendentes. Machos se empenham na quantidade, sendo muito menos seletivos que as fêmeas.

O resultado desse jogo reprodutivo é uma forte seleção de machos reprodutores em cada geração: machos escolhidos acabam gerando um grande número de filhos, em detrimento da progênie de muitos machos relegados pelas fêmeas, que não se reproduzem. O número de filhotes de cada fêmea tende a ser aproximadamente o mesmo, dependendo apenas secundariamente do fato de terem sido privilegiadas, ou não, pela escolha dos machos. O “intuito” da fêmea é gerar os machos preferidos pelas fêmeas da geração seguinte, esse é seu prêmio máximo. Gerar muitas fêmeas também consiste em prêmio (uma vez que a replicação de uma fêmea, estritamente, significa gerar outra fêmea).

Sobre a riqueza

Dentre as várias peculiaridades de nossa espécie, encontramos a “riqueza”, uma característica compreendida por todos. Muitos animais possuem algo similar, que podemos descrever em analogia à nossa riqueza. Animais territoriais, por exemplo, podem dominar territórios mais ricos que outros, quero dizer, com maior abundância de recursos necessários para a espécie. Nesses casos, a associação a um parceiro “rico”, ou seja, possuidor de um território valioso, abundante em recursos, tenderá a favorecer a maior quantidade de descendentes. Fêmeas escolhidas por parceiros ricos, possuidores de território valioso, tendem, em consequência a ter mais descendentes bem alimentados, portanto, candidatos a indivíduos dominantes. Também é possível que fêmeas bem escolhidas, como as belas em nossa espécie, funcionem como ornamento aos machos, atestando sua posição social e facilitando, por essa razão, o seu acesso a outras fêmeas, mesmo em espécies aparentemente monogâmicas. Em espécies poligâmicas a riqueza de um macho, a posse de um território valioso, lhe outorgará um harém.

Diferentes estratégias

É, então, devido a tais diferenças que machos e fêmeas utilizam estratégias reprodutivas diversas, sendo elas mais seletivas que eles, eles mais imoderados.

Como o propósito de um replicador é ampliar a representatividade de sua descendência nas gerações subsequentes, convém a cada indivíduo cuidar de si mesmo na medida necessária para conseguir satisfazer esse propósito central de replicação e apenas nessa medida. Tendo conseguido os recursos para a própria manutenção, cabe, então, cuidar da própria replicação, o que deve ser feito imoderadamente, sem nenhum limite, uma vez resolvida a sobrevivência. Replicadores que assim o fizeram se replicaram mais que outros, de modo que os replicadores atuais descendem dos que assim procederam, tendo herdado a mesma característica. Se o número de possíveis replicações de um dado replicador é limitado, como o das mulheres, ele acabará por limitar seu esforço com sua própria replicação, passando então a se aplicar na replicação de seus descendentes, uma forma indireta e ilimitada de replicação. A seleção de homens por parte das mulheres faz parte desse esforço de favorecer a replicação de seus descendentes. Fêmeas belas e vaidosas, que cuidaram de sua própria aparência, serão preferidas pelos machos, e poderão escolher “os melhores” entre eles para gerar, com elas, seus próprios descendentes. Machos bem posicionados socialmente terão acesso a grande número de fêmeas, gerando muitos descendentes herdeiros da mesma obsessão pela obtenção de uma alta posição social.

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O que nos move? Por que fazemos aquilo que fazemos?

Essas perguntas, centrais, sobre nossa existência, têm tido relativamente pouco eco, e recebido relativamente pouca atenção, talvez pelo excesso de proximidade com o objeto questionado. A importância delas, no entanto, é imensa. Se queremos nos conhecer, temos que ter plena clareza de tudo o que nos move, e das razões de fazermos o que fazemos. Nesses tempos de depressão, convém saber o que nos estimula a sair da cama.

Tomo por pressupostas as considerações acima, nossa condição de replicadores, o fato de que somos o resultado da replicação dos indivíduos mais aptos nas inúmeras gerações que nos precederam, tendo herdado deles as mesmas características que lhes possibilitaram tal sucesso.

Baseados nesse pressuposto, podemos buscar um caminho para uma primeira resposta à questão. Somos movidos pelas mesmas forças que moveram nossos ancestrais, e que os tornaram vitoriosos na disputada peleja pela reprodução. (Vem-me à mente que a expressão “luta pela sobrevivência” é bem menos descritiva do mundo dos replicadores do que seria “luta pela replicação”; um indivíduo “vitorioso” na luta pela sobrevivência que consiga viver por mil anos, mas sem deixar descendentes acabará não tendo representatividade evolutiva nas gerações seguintes. Indivíduos que morram logo após a reprodução podem ficar vastamente representados em tempos futuros, mesmo tendo a vida curta de bactérias).

Mas, o que movia nossos ancestrais, esses campeões da replicação? Podemos postular que o que os movia era a tentativa de se replicar, façanha na qual foram, todos, bem sucedidos, em detrimento de vasto número de outros que falharam nessa competição. Podemos adivinhar, também, que herdamos suas mesmas características, entre elas a obsessão que permitiu que os representássemos em nosso tempo. E assim, podemos responder que o que nos move seja o constante empenho em nos replicar. Mas, efetivamente, de que maneira se manifesta esse empenho? Manifesta-se através da vaidade, esse motor da auto-propaganda! Toda a nossa vida pode ser vista como um imenso e contínuo empenho em propagandear a nós mesmos, em alardear nossas virtudes como replicadores!

Antes de explicar a constatação surpreendente, elucidarei certas objeções óbvias. Parte de nossas vidas é dedicada à nossa sobrevivência. Temos que nos empenhar em comer, conseguir abrigo e tudo o mais que permita nossa sobrevivência. Muitos de nossos antepassados passaram por maus pedaços, tendo se empenhado decidida e corajosamente em lutas árduas pela sobrevivência contra a aspereza de fatores realmente espinhosos. Sobreviver é uma necessidade óbvia, anterior à reprodução, e tais indivíduos viram-se compelidos a mostrar toda a sua habilidade nesse quesito antes de terem-se replicado. Só depois de uma sobrevivência relativamente longa, a competição pela reprodução passou a ser determinante na biografia de suas linhagens.

Para o leitor, muito provavelmente, tais considerações ecoam como sons longínquos, sendo isso apenas recapitulações de atavismos distantes. Tendo partido da solução prévia de tais questões, o leitor, provavelmente, empenha apenas uma pequena parte do esforço de suas vidas a se dedicar a questões de sobrevivência, permitindo que quase todo o seu tempo seja gasto empenhado em outros focos.

Note que indivíduos que percam o foco na replicação e o voltem para qualquer outro tópico estarão em desvantagem na competição com aqueles que se empenham ininterruptamente na replicação, uma vez que esses últimos, replicadores incansáveis, tendem a se replicar mais que os outros.

Mas, o que estou a dizer? Existirão tais maníacos? Existirá criatura tão absurda que enfoque toda a sua existência na tarefa de se replicar?

Antes de responder, enfatizemos que, caso exista, caso seja possível tal obstinação, tais criaturas, batalhadoras e devotadas, se replicarão mais que outras, se fazendo representar mais numerosamente nas gerações subsequentes que indivíduos menos dedicados.

Mas, seria possível o exercício de obstinação tão absurda? A obstinação direta na replicação pareceria, de fato, tão absurda quanto vã. Uma forma muito mais efetiva de garantir a replicação em sociedades humanas consiste na propaganda. Tendo alardeado suas próprias virtudes, o indivíduo terá muito mais chances de se replicar que outros, sendo nisso que mantemos nosso foco e empenho.

Mas, obviamente, também não alardeamos o fato de maneira direta. De nada adiantaria trombetear nossas virtudes; nosso sucesso costuma advir de ações mais capciosas. Fazemos propaganda mais sutil: lutamos incansavelmente pelo zelo de nossa imagem, enaltecemo-la infatigavelmente! Agimos como pavões ardilosos.

Em nosso mundo, definimos uma escala social e lutamos pelo posicionamento mais alto. Machos bem colocados terão acesso a muitas fêmeas, e se replicarão. Também terão acesso às fêmeas mais belas e de mais alto posicionamento na escala, gerando os descendentes mais cobiçados. Fêmeas humanas ascendem cultivando sua imagem física, razão pela qual a vaidade feminina se revela de maneira muito mais direta que a masculina.

Mulheres costumam gastar um enorme tempo efetuando tarefas que as embelezem, e é nessa atuação direta que sua vaidade se manifesta mais intensamente.

Uma peculiaridade humana que talvez nos surpreenda é o fato de as mulheres se entregarem menos à vaidade que os homens, ainda que de maneira mais óbvia e direta. Em todas as sociedades, muito provavelmente, e certamente na nossa, as mulheres gastam muito mais tempo que os homens em cuidados com a prole, que lhes rouba esse tempo compelindo-as a uma dedicação diversa, que interrompe seu exercício da vaidade. Muito menos sujeitos a tais “atribulações”, muito menos dedicados a cuidados com a prole, os homens podem se entregar à vaidade diuturnamente, sem trégua. Empenham-se, então, ininterruptamente, à tarefa de realçar sua própria imagem de ascender socialmente. Quanto mais elevada a sua imagem, mais facilidade no acesso às fêmeas ele terá, sendo essa a razão última pela qual se empenha um replicador bem sucedido.

Acaso veríamos algum homem possuidor de uma posição social elevada mostrando-se na rua roto, esfarrapado e em apresentação lamentável? Sim, desde que sua posição social o permita, como é o caso de um roqueiro ou qualquer outro cujas características de sua posição peculiar permita, ou exija, determinadas rebeldias. Aliás, as “rebeldias”, entre nós, costumam ter um roteiro bem definido, sendo determinadas bem claramente por modelos delineados previamente. A sociedade ocidental tem, há décadas, enaltecido o tipo “rebelde”, desde que ele siga o roteiro determinado a tal tipo pelos meios de comunicação. Embora possamos hoje ver nas ruas pessoas sob as mais variadas apresentações, não veremos nenhuma das que se empenham em galgar os degraus sociais agindo de maneira deslocada, diferente daquela determinada para os da sua posição. Desse modo, juízes que se apresentem como roqueiros, assim como roqueiros que se apresentem como juízes, desabarão na escala social, razão pela qual raramente o fazem. Existem entre nós, é claro, os que apresentam comportamentos deslocados, e não se comportam da maneira estabelecida para sua posição. Esses vão sendo rebaixados até apresentar comportamento adequado à sua posição, ou se transformar em um pária. Pouquíssimas mulheres estarão dispostas a copular com um mendigo; considera-se entre nós uma espécie de “contágio sexual” das posições sociais, de modo que a cópula tende a igualar os parceiros,  elevando-os, ou fazendo-os decair socialmente conforme o status do companheiro. Um sujeito que acaba de ser visto na TV, por outro lado, terá à sua escolha um vasto número de mulheres encantadas por sua imagem elevada a píncaros pela tela brilhante.

Mulheres gastam tempo com a gravidez e cuidados com os filhos, momentos em que o cuidado com a própria imagem e com a vaidade são postos em segundo plano. Quanto aos homens, quase toda a sua vida pode ser dedicada à vaidade.

Textos de décadas anteriores apresentam os homens de povos caçadores coletores como provedores de alimento. De acordo com essa concepção, os homens dessas sociedades empenhariam parte considerável de seu tempo na tarefa de buscar alimentos para prover o sustento da família. Estudos posteriores mostraram que a maior parte das necessidades alimentares, entre esses povos, é provida pelas mulheres. Pode-se considerar que a alimentação básica para satisfazer as necessidades de sobrevivência seja conseguida por elas, enquanto os homens se encarregam de obter o alimento de luxo. Se tal fato é verdadeiro, e se o alimento obtido pelas mulheres é mais fácil e farto que o dos homens, a ação deles pode ser encarada como uma espécie de exibicionismo desnecessário. Embora lhes fosse mais econômico e útil buscar os mesmos alimentos abundantes encontrados pelas fêmeas, empenham-se em uma atividade arriscada e de certo modo heroica: a caça. O intuito de tal façanha seria, mais que tudo, o de exibir-se ao trazer a caça, e só secundariamente se consideraria o provimento de alimentos, obtido de maneira tão pouco efetiva. Sob esse ponto de vista, toda a comida necessária estaria ao redor; a caça distante consistiria em uma aventura desnecessária e antieconômica, mas com resultados sociais. O caçador bem sucedido apareceria ao grupo do mesmo modo que um jogador de futebol vitorioso; a caça seria uma espécie de esporte, e o resultado dela, troféus.

Sendo esse o caso, entre nossos antepassados as mulheres seriam encarregadas tanto da manutenção  da casa, quanto de seu provento, ficando a cargo dos homens a participação nos jogos e exibição de troféus, enquanto o verdadeiro prêmio para os jogadores vitoriosos seriam as mulheres, e o motor de tudo a vaidade. Outra modalidade de jogos seria constituída pelas rixas com grupos vizinhos, movida também pela vaidade e resultante no mesmo prêmio.

Acredita-se que as rixas entre esses grupos eram criadas e resolvidas pelos homens, deixando as mulheres de fora das lutas. A ausência das mulheres nos combates evidencia o caráter lúdico dessas rivalidades. É provável que embates “sérios”, decorrentes de falta de água ou comida, por exemplo, incluíssem a participação de mulheres, no que seriam lutas pela sobrevivência. No caso de rivalidades mais tradicionais e amenas, o papel das mulheres seria o de torcida, empenhando-se em mostrar-se o mais belas que pudessem para os vencedores, fossem eles quais fossem. Note que mulheres descabeladas, eventuais participantes dos embates, constituiriam prêmios pouco atraentes, e que o prêmio pela torcida das mulheres seriam os vencedores. Talvez a participação feminina nos embates possa indicar a seriedade da rixa, significando com sua participação efetiva um empenho real pela sobrevivência, com sua ausência, a ludicidade da competição, seu caráter ritualístico, um jogo resultante na conquista das mulheres que, nesse caso, se enfeitariam à espera dos heróis vencedores.

Mundo atual

Em nosso mundo, as batalhas masculinas não possuem mais, exatamente, os mesmos perfis das antigas; nossos jogos possuem outros contornos. Homens se empenham em uma ascensão social conectada, quase sempre, ao dinheiro, seu símbolo maior. Lutam de forma ritualística pela ostentação de tal símbolo. Disputam empregos e cargos elevados e, por isso, bem remunerados, e ostentam suas vitórias, exibindo carros, roupas e o consumo de bens variados, nossos novos troféus. O resultado efetivo das exibições, da propaganda, será o mesmo: mulheres.

Quanto às mulheres, sofreram alteração realmente significativa, deixando em segundo plano o tradicional empenho nos cuidados com a prole e passando a jogar, muitas delas, o jogo masculino, disputando os mesmos cargos e empregos que os homens. Constituiria, tal fato, uma refutação da análise anterior que descreve o mundo com base na capacidade dos replicadores em se replicar? Qual o propósito das mulheres, enquanto replicadores, ao relegar a segundo plano os cuidados com a prole empenhando-se em competir diretamente com os machos pela ascensão social? (Deixarei de lado a vantagem de ter filhos em alta posição).

Sob o ponto de vista restrito apresentado acima, e sob o ângulo exclusivo da replicação dos indivíduos humanos, o controle populacional e o modo de vida contemporâneo constituiriam refutações da teoria dos replicadores. Obviamente, em nosso mundo, não passamos a vida empenhados em maximizar nossa reprodução, conforme prognosticado pela teoria. Por que essa constatação não corresponde a uma refutação da teoria acima endossada?

O fenótipo estendido e sua hiperextensão

Richard Dawkins desenvolveu maravilhosamente o conceito de fenótipo estendido, mostrando que diversos parasitas controlam seus hospedeiros obrigando-os a executar comportamentos inadequados, com o propósito de se replicarem eles, os parasitas. Eventualmente, o comportamento paradoxal induzido pelo parasita pode levar o hospedeiro a cometer ações suicidas, como se deixar capturar por um predador, destino desejado pelo parasita e necessário para fechar o ciclo de vida dessa criatura.

Podemos, em certo sentido, nos considerar parasitados por nossas criações: artefatos e instituições. Temos gasto muito tempo e enorme quantidade de energia para a replicação dessas criaturas artificiais que agora nos controlam, obrigando-nos a cuidar delas por mais tempo e a gastar mais energia em sua produção que em nossa replicação. Poderíamos nos reproduzir com um gasto energético equivalente a uma pequena fração da energia produzida no mundo hoje; consumimos todo o resto da energia na replicação delas, e não na nossa.

Como foi possível a essas criaturas, conjuntamente, assumir o controle de nossas vidas, e da energia produzida no planeta, utilizando-a, quase toda, para a replicação delas? Obrigando-nos a viver nossas vidas com o intuito de reproduzi-las.

A  “estratégia geral” de tais criaturas inanimadas, se é possível usar tal expressão, consistiu, tão somente em deslocar nossa vaidade. Em última análise, todas elas, as coisas que nos controlam, são enfeites que usamos. Assim, conjuntamente, vamos vivendo e produzindo a infinidade de objetos e  instituições que nos cercam, e que acabam nos governando. Tinham sido criadas, inicialmente, com propósitos determinados, mas acabaram fugindo do controle e criando um sistema autônomo que, de um modo ou outro, acaba nos governando. Não temos mais a opção de nos livrar dessas criaturas.

A parcela de energia gasta para a replicação dessas coisas revela o seu poder imenso, comparado ao nosso. A parcela de energia gasta para a nossa replicação decresce continuamente, em breve, será apenas uma parte ínfima de toda a energia produzida por nós.

A maneira como essas criaturas inanimadas nos controlam é muito simples: de algum modo, “apelam” para a nossa vaidade, “prometem” nos elevar na escala social seduzindo-nos, assim, a replicá-las. Desse modo, elas vão ganhando espaço, se multiplicando, tornando-se mais numerosas e sugando uma quantidade crescente de energia. Também vão aumentando seu poder sobre nós, da mesma maneira, de modo que boa parte de nossas vidas, hoje, é gasta no empenho em multiplicá-las.

Sob o nosso ponto de vista, elas existem para  nos enfeitar, para nos fazer parecer ricos e poderosos, para alardear nossa posição na escala social, propagandear a nós mesmos. Somos movidos pela vaidade e todo o nosso mundo, tudo o que construímos, é um brado intenso ecoando a mesma mensagem: Vejam como sou maravilhoso!

Uma conclusão “malvada”

Somos criaturinhas fúteis irremediavelmente levianas cavando nossa própria extinção para satisfazer caprichos tolos. Estamos destruindo todo o planeta, aniquilando nossas condições de sobrevivência, impossibilitando a sobrevivência de nossos descendentes por vaidade, para nos fazer parecer algo mais do que somos, verdadeiramente. Consumimos carros, roupas e uma infinidade de objetos para usá-los como molduras para a exibição de nós mesmos.

Somos uns pavões incorrigíveis, cegos para qualquer coisa que não a visão inebriante de nós mesmos, enquanto o nosso legado será o lixo.

A redenção

Podemos nos consolar com o fato de que todos os seres sexuados, os que necessitam encontrar um parceiro para a replicação, revelar-se-ão tão fúteis quanto nós, tão logo tenham conseguido resolver seus problemas com a sobrevivência; somos fúteis por termos sido eficientes em sobreviver. (Criaturas assexuadas cuidam de suas próprias vidas, mantêm-se quietos em seus cantos; pavões, cigarras e demais criaturas exibicionistas que vemos ao redor alardeando a própria grandeza são todas sexuadas).

Amaldiçoados, ou ungidos, pela sexualidade, resta-nos entregar à obsessão de conseguir parceiros para a replicação; maldição e glória de todos os seres sexuados.

Cabe observar, também, que, ao lado do consumismo, essa forma patética de exibicionismo, todas as artes, as ciências, a cultura em geral e todas as maravilhas criadas pelo engenho humano são frutos da mesma tendência fútil; envaideçamo-nos por elas.

Leia também:

Dawkins, R. – O Gene egoísta.

http://www2.unifap.br/alexandresantiago/files/2014/05/Richard_Dawkins_O_Gene_Egoista.pdf

___________ The extended phenotype.

https://web.natur.cuni.cz/filosof/markos/Publikace/Dawkins%20extended.pdf

Gollo, G. – O jogo da ciência.

http://www.recantodasletras.com.br/e-livros/4288149

_________ Ensaios

http://www.recantodasletras.com.br/e-livros/2949301

von Neumann

 

 

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