Telhado Verde como uma opção sustentável

Por Silvana Gonçalves Pereira

Graduada em Gestão de Recursos Humanos pela Faculdade Dom Bosco e acadêmica do Curso de Arquitetura e Urbanismo da Faculdade Assis Gurgacz (FAG).

A proposta do uso do telhado verde como uma opção sustentável, para diminuir a escassez dos recursos naturais, surge da interação entre sustentabilidade e a inovação. Sendo a sustentabilidade a aplicação consciente de atividades que suprem as necessidades humanas, sem comprometer o futuro das próximas gerações, usando os recursos naturais de forma inteligente para que eles se mantenham no futuro, e a inovação considerada a exploração de novas ideias e reinvenção, sugere-se a utilização da criação de novas ideias e até as redescobertas de meios esquecidos no passado em prol da preservação do meio ambiente. Seguindo estes parâmetros, a humanidade pode garantir o desenvolvimento sustentável, fundamental para o desenvolvimento econômico, através da arquitetura sustentável, que é a continuidade mais natural da bioclimática, sendo com isso possível harmonizar as relações do homem e a natureza, com atitudes simples e inovadoras.

A escassez dos recursos naturais principalmente no que se refere ao uso da água e as previsões catastróficas dos especialistas em meio ambiente, com alertas de que o crescimento do consumo acelerado levará a humanidade a um colapso em 40 anos[1], a preocupação deve-se ao fato de que os processos de fabricação dos produtos industrializados dependem da água, e a falta dela é cada vez mais frequente, já que normalmente quanto maior a renda de uma pessoa maior será o seu consumo de água.  A notícia mais recente publicada é de que os satélites da NASA descobriram que os reservatórios subterrâneos dos aquíferos que abastecem os rios das cidades do mundo estão secando devido ao aquecimento global, e que atitudes de preservação devem ser emergenciais[2]. No dia mundial da água promovido pelas nações unidas em 23 de março de 2015, o Papa Francisco em seu pronunciamento pediu à comunidade internacional para proteger a água e garantir o seu acesso universal[3], alertou também os fiéis de que a mudança de atitude se faz necessária para que a humanidade não fique sem água ainda neste século.O pontífice, da janela do Palácio Apostólico Vaticano, afirmou: “A água é o elemento mais essencial para a vida e de nossa capacidade de salvá-la e compartilhá-la depende o futuro da humanidade”. Ainda, “Encorajo, portanto, a comunidade internacional para que vigie as águas do planeta para que estejam adequadamente protegidas e que ninguém seja excluído ou discriminado do uso deste bem, que é um bem comum por excelência.”

Estudos comprovaram que uma das formas de melhorar a qualidade do meio ambiente urbano é ampliando as áreas verdes, e que sua implantação nos terraços de prédios surge como uma possibilidade interessante[4]. A utilização de telhados verdes melhora as condições termo- acústicas do imóvel, no inverno e no verão, dispensando o uso de sistemas de ar condicionado ou climatização, diminuindo assim o consumo de energia elétrica, contribui para a manutenção da umidade relativa do ar, combate às chamadas ‘ilhas de calor’, formadas nos centros urbanos pela presença excessiva de estruturas de concreto, reequilibra o bioclima mantendo em 13% a menos a temperatura interna da edificação, colabora na batalha contra o aquecimento global, capturando partículas de carbono da atmosfera, ajuda no combate às enchentes em locais nos quais o solo é asfaltado e impermeabilizado, dificultando a absorção da água da chuva.

City_Hall_Green_Roof_Doors_Open_Toronto_2010

Em todo o mundo várias experiências demonstraram que a alternativa do telhado verde é viável e produz efeitos benéficos. A Dinamarca instituiu a política dos telhados verdes em 2010, a qual visa à obrigatoriedade da implantação de vegetação sobre as coberturas, já que elas têm a reconhecida função de isolamento térmico e chegam a absorver de 50% a 80% da água da chuva. Em Copenhague[5] a qualidade de vida da população será beneficiada por esta e outras medidas implementadas com objetivo de que até o ano de 2025 possa alcançar a marca neutra de emissão de carbono.

O Brasil é o quarto maior consumidor de água do mundo, e nove de seus estados já ultrapassaram ou estão no limiar do estresse hídrico, o estado de São Paulo sofreu dias caóticos com a falta de água, consequências principalmente das ilhas de calor, poluição, enchentes e inundações, além do aquecimento global.  O Edifício Conde Matarazzo, sede da Prefeitura de São Paulo que possui um amplo telhado verde, foi ambiente de estudos científicos dos pesquisadores da USP[6], que concluíram a eficácia do telhado verde como uma opção sustentável, dando ênfase à decisão do prefeito Fernando Haddad de estabelecer a lei de compensação ambiental[7] ou construção de telhados e paredes verdes nas construções já existentes, caso as novas necessitem fazer intervenções ao meio ambiente. Além disso, encontra-se em tramitação na  câmara dos deputados federais o projeto de lei 1703/2011[8], que indica que os poderes públicos dos estados, do Distrito Federal e dos municípios deverão estabelecer condições para aplicação do telhado verde disposto nesta lei, mediante critérios específicos, com normas locais a serem elaboradas pelos entes federativos, que poderão ser na forma de incentivos fiscais, financeiros ou creditícios, ou compensação ambiental.

Através do exposto fica evidente que é possível minimizar os efeitos da escassez de recursos naturais, principalmente no que se refere à água, auxiliando na solução de problemas ocasionados pelo aumento populacional e pela falta de planejamento das grandes cidades, como os ruídos, as inundações, as enchentes, as ilhas de calor, através de uma arquitetura sustentável com o uso do telhado verde. O arquiteto é parte fundamental deste processo, já que tem a oportunidade de transformar a sociedade através da composição de espaços criativos e inovadores, e até mesmo na criação de novas soluções para a proteção e preservação do meio ambiente.

REFERÊNCIAS

CORBELLA, Oscar; YANNAS, Simos. Em busca de uma arquitetura sustentável para os trópicos: Conforto ambiental. Rio de Janeiro: Editora Revan, 2003.

DEÁK, Csaba; SCHIFFER, Sueli Ramos [org]. O Processo de Urbanização no Brasil. 1.ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2004.

JOURDA, Françoise-Hélène. Pequeno Manual do Projeto Sustentável. 1.ed. São Paulo: Gustavo Gill, 2013.

LAMBERTS, Roberto et al. Eficiência Energética na Arquitetura. 2.ed. São Paulo: ProLivros, 2004.

LIRA FILHO, José Augusto de. Paisagismo: Princípios Básicos. 2.ed. Viçosa: Aprenda Fácil Editora. 2001.

MASCARO, Juan Luis [org]. Estrutura da Paisagem. Porto Alegre: Masquatro Editora, 2001.

PRONSATO, Sylvia Adriana Dobry. Arquitetura e Paisagem projeto participativo e criação coletiva. 1.ed. São Paulo: Annblume Editora, 2005.

Revista Guia Exame Planeta Sustentável 12/2012 – Dez/2012 – SEGALLA, Mariana. Água: a escassez na abundância. São Paulo: Editora Abril S.A., 2012.

VIDAL, Ana et al. Vila Barulho d’ Água: Um Caso de Arquitetura Sustentável. 18.ed. São Paulo: ProLivros, 2005.


[8] http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=510512

“Este artigo não expressa necessariamente uma opinião do MZ, mas de seu autor.

O mérito está na contribuição para a discussão da linha de pensamento defendida pelo movimento.”

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5 Responses

  1. Alexandre disse:

    Da pra dizer que a sustentabilidade não funciona pois usamos um sistema que só funciona com desperdício?

    • Time MZBlog disse:

      Certamente, Alexandre. Se não forem acompanhadas de uma mudança do sistema, ações de “sustentabilidade” isoladas servem apenas como alívio superficial, não seriam soluções reais. Porém, podem ser utilizadas também como forma inicial se sensibilização e educação, se forem bem direcionadas – além de permitirem desenvolver algumas das técnicas que necessitamos para construir essa nova realidade.

  2. Odilon disse:

    Achei muito bom o artigo, parabéns é de iniciativas assim que deixaremos um mundo melhor para nossos filhos.

  3. Pipa disse:

    Alguém face isso no Brasil?

  4. Excelente artigo, inteligente e muito bem escrito. Parabéns a toda a equipe por disponibilizar deste riquíssimo material que vem agregar cada vez mais conhecimentos,

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