Três Questões: O que você propõe?

Peter Joseph apresenta três questões que possivelmente representam a  fragilidade da Economia de Mercado Capitalista, e que impossibilitariam este modelo de prosseguir indefinidamente. Você concorda com elas? Se discorda, responda com outra solução ou argumento (após ter visto todo o vídeo e consultado as referências).

Veja a seguir o vídeo e a transcrição do mesmo.


Olá. Sou Peter Joseph e seja bem-vindo ao: “3 perguntas – O que você propõe?”

Este exercício de pensamento é destinado tanto para o cidadão comum, preocupado com os problemas globais como para aqueles que ainda estão confusos sobre ou mesmo em oposição ao Movimento Zeitgeist.

Vou colocar três questões básicas aqui. Se você discordar de minhas respostas ou talvez até mesmo a própria premissa das questões, encorajo-o a responder com outra solução ou argumento.  Se optar por fazer isso, certifique-se de ter visto as fontes listadas aqui e mantenha o foco. De novo: isto é sobre as três perguntas, apenas.

Agora, antes de começar, o termo “economia de mercado” será usado o tempo todo aqui. E já que as pessoas logo se perdem no significado de “capitalismo”, ou no que “livre-mercado” supostamente é ou não é, vou definir o meu contexto agora, evitando qualquer confusão semântica.

Ao usar o termo economia de mercado, estou me referindo aos atributos centrais comuns a todas grandes variações do sistema de mercado no mundo atualmente. E apenas 3 características básicas são necessárias aqui.

A 1ª é: “trabalho para a renda”. Toda a economia global se baseia em emprego, pois é assim que as pessoas obtêm dinheiro para sobreviver e gastar de novo no sistema, mantendo-o funcionando.

A 2ª é que todos os recursos, bens e serviços mantêm um “valor de propriedade”, transferido pela troca monetária. Bastante óbvio. Tudo é comprado e vendido através do uso de dinheiro, mediado pelo próprio mercado.

A 3ª: a estratégia geral de incentivos é baseada em competição por demanda, seja pessoa para pessoa ou instituição para instituição tudo voltado ao interesse de (A) economizar dinheiro na produção e (B) maximizar os lucros sobre as vendas finais. Novamente, este é a lógica mais básica presente no mercado.

É isso. Simples, e de novo, essas características são universais para todas as economias em funcionamento no mundo de hoje.

Primeira pergunta:

Dado que a economia de mercado requer consumo a fim de manter demanda para emprego humano e promover crescimento econômico, existe um incentivo estrutural para reduzir o uso de recursos, a perda de biodiversidade, a emissão global de poluição e contribuir para a crescente necessidade de melhorar a sustentabilidade ecológica no mundo atualmente?

O mais básico dos mecanismos do mercado é a movimentação do dinheiro. E, assim como o pedal do acelerador em um carro, se a circulação monetária cai, a demanda e volume de negócios diminuem, e o efeito comum é a perda de postos de trabalho, perda de renda e redução no crescimento econômico.

Portanto, consumo é o combustível do sistema de mercado e quanto mais consumimos, melhor a “saúde” da economia global. No entanto, esta necessidade de consumo constante e cíclico está em completa contradição com o que é necessário para a básica sobrevivência da espécie a longo prazo.

Não seria responsável concluir que o objetivo de qualquer economia viável não é apenas satisfazer as necessidades da população mas fazê-lo da maneira mais estratégica, eficiente e conservadora possível?

No entanto, o mercado incentiva justamente o comportamento oposto devido a essa necessidade de constante volume de negócios. Na verdade, todo o fundamento do mercado pode ser resumido em um paradoxo:
“O mercado justifica a sua existência pelo reconhecimento da escassez mas, devido à sua mecânica estrutural na realidade promove e recompensa o consumo infinito.”

Se isso lhe confunde, talvez seja porque esta contradição permaneceu bastante escondida no passado.

200 anos atrás, nossos meios técnicos eram primitivos e a ideia de poder manufaturar tão rapidamente como fazemos agora, tendo fácil acesso a grandes recursos, era um sonho. Simplesmente não possuíamos a eficiência tecnológica naquela época. Por exemplo, 300 anos atrás, um sapateiro poderia produzir alguns pares de sapatos de alta qualidade por dia. Hoje, qualquer fábrica de calçados automatizada pode produzir um par a cada 30 segundos ou mais de 4.000 por dia.[1]

Então, o nível de eficiência da produção aumentou tão dramaticamente, que não temos mais problema em superar qualquer “escassez de meios” o problema agora é manter as pessoas consumindo.

E se você está se perguntando por que, na sequência desta grande produtividade ainda existem bilhões de pessoas que não têm os bens mais básicos isso é o resultado de um mecanismo de mercado diferente que será discutido na questão 3: “A inevitabilidade da pobreza e da desigualdade gerada pelo mercado.”

Enfim, de volta ao assunto: a economia moderna não é mais baseada na escassez, neste momento. É baseada no consumo pois precisa de altos volumes de negócios para manter as pessoas empregadas e o crescimento constante. E, claro, o efeito colateral disso é o esgotamento acelerado de recursos, perda de biodiversidade e poluição desestabilizadora.

Existem hoje inúmeros estudos que confirmam como o mundo está aumentando em sua deficiência de atender às necessidades das populações futuras. Algumas estimativas dizem que a humanidade precisará de mais 27 “planetas Terra” em 2050 para atender a demanda, por exemplo.[2][3][4][5][6]

A desenfreada perda de biodiversidade não está apenas desregulando as funções básicas da biosfera, como agora é fato de que praticamente todos os sistemas de apoio à vida estão em declínio com 50% da vida selvagem tendo sido destruída apenas nos últimos 40 anos.[7][8]

Com relação à poluição, ela está apenas acelerando, tanto aquática quanto atmosférica, criando uma enorme desestabilização e contínuos danos ambientais e resultados nocivos à saúde pública.

E lembre-se, como explicado em detalhes no material do Movimento Zeitgeist esses problemas não são imutáveis. Eles podem ser corrigidos se uma reorientação econômica e industrial longe da economia de mercado fosse efetuada. No entanto, esses detalhes não são o tema desta conversa. Para saber mais, por favor leia nosso livro on-line gratuito: O Movimento Zeitgeist: Uma Nova Forma de Pensar (português).

Agora, como evidência final, uma análise superficial de todas as tentativas históricas recentes para conter o consumo excessivo, reduzir a perda de biodiversidade e a poluição, foram virtualmente barradas pela comunidade empresarial.

Não há mistério a esta tendência, porque o fato é: agir de uma forma preservadora, verdadeiramente eficiente e sustentável é, literalmente, o oposto do que o mercado exige para funcionar a longo prazo, mantendo a máquina de lucros constante.

Por exemplo, a “Agência de Proteção Ambiental” (APA) dos EUA tem sido constantemente atacada por interesses preocupados com uma perda de lucros e crescimento. No mês passado, o Jornal Wall Street publicou uma manchete “A mais recente ameaça da APA para o Crescimento Econômico” atacando a APA por ter agido no interesse de melhorar os padrões de qualidade do ar.[9]

E eles estão certos. Se a APA continuar a agir, muitos empregos e bilhões de dólares serão perdidos. Isso é o que acontece quando a eficiência em redução de resíduos, eficiência técnica e preservação são aplicadas ao sistema.

Se você precisar de um exemplo mais visceral olhe para o que as nações em desenvolvimento estão fazendo enquanto se esforçam para manter o constante crescimento econômico e elevar os padrões de vida. Tudo está sendo feito à custa do ambiente.

O impulso da China de industrialização massiva e crescimento foi possibilitado mantendo baixos padrões ambientais e agora a China tem 16 das cidades mais poluídas do mundo. De novo, se olhar com cuidado, todas as nações em desenvolvimento estão fazendo o mesmo. Elas simplesmente não dispõem de métodos industriais mais “verdes”.[10]

No que diz respeito à excedência de recursos e perda de biodiversidade, talvez a descrição mais clara desse embate foi feita no relatório da Convenção de Diversidade Biológica de 2010. Em 2002, 192 países se reuniram e concordaram em reduzir a perda de biodiversidade só para voltar, oito anos mais tarde, completamente derrotados, afirmando:

“Nenhum dos 21 sub-objetivos vinculados ao objetivo geral de reduzir significativamente a taxa de perda de biodiversidade até 2010 foi definitivamente alcançado globalmente. Ações para promover a biodiversidade recebem uma pequena fração de “financiamento” quando comparadas com desenvolvimentos de infra-estrutura e industriais. Além disso, considerações sobre biodiversidade são frequentemente ignoradas quando tais desenvolvimentos são projetados… A maioria dos cenários futuros projetam altos níveis de extinções e perda de habitats ao longo deste século.”[11]

E, claro, por que tudo isso seria uma surpresa? Nossa economia não possui, literalmente, nenhum incentivo estrutural para se ajustar não há, no mercado, nenhuma recompensa direta em preservar recursos, habitats ou reduzir o consumo em geral. Tudo o que se sabe é que as pessoas precisam continuar comprando e quanto mais comprar, melhor tudo supostamente seria.

Então pergunto novamente:

Dado que a economia de mercado requer consumo a fim de manter demanda para emprego humano e promover crescimento econômico, conforme necessário, existe um incentivo estrutural para redução do uso de recursos, perda de biodiversidade, emissão global de poluição e assim contribuir para a crescente necessidade de melhorar a sustentabilidade ecológica no mundo atualmente?

A resposta é não. Existe apenas o incentivo externo ou seja, o clamor de cidadãos frustrados, preocupados, exigindo esta ou aquela mudança, que, na verdade, simplesmente não vai mudar nada a longo prazo.

Por quê? Porque vai contra a premissa mais básica da própria funcionalidade do mercado.

A única e verdadeira solução é superar a falha estrutural, não combatendo-a com legislação, mas mudando o sistema. Para fazer isso, devemos substituir o atual modelo econômico com um que estruturalmente incentive e recompense a preservação, a verdadeira eficiência técnica e a sustentabilidade global.

E em uma consideração final, neste momento é seguro projetar que, devido à destruição do habitat, perda de biodiversidade, excedência de recursos e poluição de CO2, podemos muito bem estar entrando no período de o que é chamado: “A Sexta Grande Extinção na Terra”. E a menos que as coisas mudem rapidamente, a próxima geração vai ser uma de grande sofrimento e desordem.

Pergunta dois:

Em um sistema econômico em que as empresas procuram limitar seus custos de produção a fim de maximizar lucros e permanecer competitivas contra outros produtores, qual é o incentivo estrutural existente para manter os seres humanos empregados, no despertar de uma condição tecnológica emergente, onde a maioria dos trabalhos podem ser realizados de forma mais barata e eficaz através da automação de máquinas?

A longa e permanente defesa dos que afirmam que não existe problema com máquinas substituindo trabalho humano é que a inovação tecnológica global vai simplesmente equilibrar tudo com a eventual criação de novas ocupações humanas, absorvendo qualquer um que for deslocado. E, enquanto essa perspectiva pode ter parecido viável durante os lentos períodos iniciais da mudança tecnológica, o constante avanço exponencial do potencial de automatização está superando em muito a criação de novos papéis de trabalho exclusivamente humanos.

E como as tendências mostram, é simplesmente uma questão de tempo antes que se torne mais rentável, confiável e produtivo automatizar, em todos os principais campos econômicos.

Primeiro, vamos considerar o potencial. Existem numerosos estudos que comprovam a capacidade de automatização concluindo que neste momento mais da metade dos empregos do mundo pode ser mecanizada.[12][13]

Em segundo lugar, é preciso considerar (A) as tendências de mudanças de emprego por setor industrial (B) o aumento vertiginoso da produtividade relacionada, e (C) como os custos de automação estão sendo inferiores aos custos do trabalho humano.

Utilizarei os EUA como uma base estatística, pois se algo se aplica aos EUA, com seu avançado estado tecnológico, aplica-se também para o resto do mundo no contexto de tendências e potencial.

Mudanças nos Setores Há três setores econômicos fundamentais. Agricultura, Indústria e de Serviços.

Em 1870, cerca de 75% dos norte-americanos trabalhavam na agricultura, enquanto hoje são cerca de 2%.[14] Por quê? Bem, certamente não houve perda de demanda agrícola.[15] E, enquanto as importações de alimentos nos EUA têm crescido para cerca de 17%,[16] isso obviamente não equilibra a queda de quase 98% em seu setor de trabalho relacionado, desde 1870.[17] E nem os aumentos nas importações têxteis e afins. Essa queda é quase que inteiramente resultante da automação.

Para onde é que os trabalhos foram? Para os setores industrial e de serviços. O trabalho industrial norte americano atingiu o seu pico por volta de 1950 reduzindo de quase 40% para cerca de 20%[18]. Por quê? Bem, a suposição comum é que a globalização e a terceirização do trabalho na indústria é a causa.

E enquanto podem haver relevâncias regionais e de curto prazo relacionadas a isso, em escala global, a longo prazo, é completamente irrelevante. Pois virtualmente todas as nações, especialmente os países desenvolvidos, estão enfrentando exatamente as mesmas tendências.[19] E o motivo é o mesmo, como aconteceu com a agricultura: Aplicação tecnológica deslocando o trabalho humano.[20]

Agora vamos ao setor de Serviços. Hoje mais de 80% dos postos de trabalho existem neste setor.[21] Tem sido a “zona segura” já que este tipo de trabalho é menos físico e muito mais uma questão de raciocínio e pensamento. É mais versátil e mais difícil. E até o final do século 20 a ideia de “máquinas pensantes” e máquinas avançadas que poderiam substituir essas versáteis funções laborais era apenas considerada ficção científica.

No entanto, este setor está agora rapidamente sendo ameaçado devido ao exponencial avanço na inteligência programável e robótica.[22][23] Caixas bancários eletrônicos, sistemas telefônicos automatizados, Quiosques de venda automatizada, programas de processamento de software, automação de restaurantes, transporte automatizado… Qualquer coisa que puder pensar, alguém está trabalhando para automatizar.

E, assim como os setores agrícola e industrial, o uso de automação também está assegurando (A) maior produtividade (B) redução de custos para a empresa. Estatísticas de tendência provam o fato sem nenhuma dúvida.

(A) Produtividade: emprego humano agora se mostra inverso à produtividade, na maioria dos casos o que significa que em todos os casos de automação não só ela elimina empregos como também aumenta a eficiência dos resultados. Aqui há um clássico exemplo traçado desde a fabricação. A linha azul é o aumento da produção a linha vermelha é o emprego humano. é uma divergência impressionante.

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(B) Com relação a redução de custos, o que precisa ser entendido é que toda inovação tecnológica está se tornando “Tecnologia da Informação”. Seja, literalmente, programação digital, tal como um software controlando uma máquina, ou o próprio processo da criação de uma máquina.

E qual a tendência de desenvolvimento da tecnologia baseada em informação no século 21? Exponencial. E isto não só se refere ao avanço da tecnologia em si, fazendo coisas menores, mais resistentes e mais eficientes, ela também reduz as necessidades de recursos e o custo da tecnologia emergente, inevitavelmente, tornando-se mais barato.

Um exemplo clássico: é por isso que um chip de um telefone celular é milhares de vezes mais poderoso e barato que o super computador da década de 70.

É, portanto, só uma questão de tempo que um grande número de ferramentas de automação, antes fora de uso, como robôs inteligentes que poderão exercer praticamente qualquer papel de um ser humano e tornarão-se tão acessíveis, que não automatizar torna-se uma péssima escolha pro negócio.

E se você é um daqueles apologistas ao tecno-capitalismo que diz que esta redução do preço de custo vai simplesmente tornar os preços dos produtos muito mais baratos, compesando diminuições de renda gerados pela uso de automação, você está ignorando uma premissa central do nosso mercado. O mercado precisa de escassez para funcionar. Abundância não tem utilidade na mecânica do mercado. A própria estrutura de lucrar, não vê redução de custos como meio para simplesmente aumentar a acessibilidade do seu produto, ele faria isso, premeditadamente para aumentar seus lucros.

A única razão pelo qual se vê redução nos preços é por causa da competição que ocorre na indústria, uma vez que cada companhia tenta superar a eficiência de custo das outras através de métodos semelhantes. O ponto é, independentemente de como as coisas se tornem mais baratas em algum momento, a deficiência de consumo resultante do número de pessoas desempregadas pela automação, anularão qualquer grau de acessibilidade que foi gerada por produtos de menor custo criados. É inevitável.

E lembre-se, pois isso é crucial, só é preciso uma taxa 20 a 30% de desemprego para desestabilizar a sociedade, levando à desordem e revoltas. É isso. Então, a questão não é “vamos automatizar tudo?”. A verdadeira questão é em que ponto a eficiência de custo da automação aplicada vai produzir desemprego “suficiente” para causar desestabilização social e perda debilitante do crescimento econômico.

Então pergunto novamente: Em um sistema econômico em que as empresas procuram limitar seus custos de produção a fim de maximizar lucros e permanecerem competitivas contra outros produtores, qual é o incentivo estrutural existente para manter os seres humanos empregados, no despertar de uma condição tecnológica emergente, onde a maioria dos trabalhos podem ser realizados de forma mais barata e eficaz através da automação de máquinas?

A resposta é que não há este tipo de incentivo, pelo menos não estruturalmente.

Algum tipo de incentivo geral pode existir dada o consenso de que as pessoas precisam de empregos para a economia de mercado funcionar mas reconhecer isso implica que os empregadores devem ignorar tal redução de custos, eficiência e melhorias na tecnologia de segurança, apenas para dar emprego às pessoas.

A realidade é que, se uma empresa tivesse a escolha entre uma máquina e um ser humano, e a máquina fosse mais produtiva e acessível eles escolheriam a máquina pois, conforme a lógica do mercado, toda vez que não o fizessem, perderiam uma vantagem competitiva já que um de seus piores concorrentes certamente escolheria a máquina.

Portanto, a única verdadeira solução lógica e responsável, neste cenário, é remover o sistema de trabalho por por renda em si, removendo, consequentemente, o mercado e evoluindo para um novo tipo de interação econômica.

Pergunta 3:

Num sistema econômico que, inerentemente, gera estratificação de classes e a desigualdade no geral como os efeitos da “violência estrutural”, um fenômeno, observado por pesquisadores de saúde pública, que mata mais de 18 milhões por ano, gerando uma vasta gama de malefícios tanto sistêmicos, como distúrbios comportamentais, emocionais e físicos, podem ser minimizados ou até mesmo removidos?

Hoje, muitos falam sobre o horror da morte e sofrimento desnecessários. De acidentes dramáticos à violência comportamental psicopata até genocídios históricos, guerras e outras atrocidades. Nisso, podemos notar uma espécie de relativismo moral em que a sociedade prioriza como mais condenável frequentemente destacando a visceral violência, do ser humano contra ele mesmo, ao invés de tomar uma visão mais objetiva.

Estatisticamente, se quiser realmente ser abrangente em localizar as causas mais proeminentes, onipresente, e desnecessárias de morte e sofrimento no mundo, descobriríamos um catalisador principal: A desigualdade de classes e o baixo status socioeconômico.

A desigualdade de classes e o baixo status socioeconômico desbancam qualquer outra forma de violência e ameaça pública, sem sombra de dúvida. A principal causa de morte no planeta Terra é a pobreza relativa e absoluta. Ponto final.

Cada ano, o equivalente a quase dois holocaustos, quase 20 milhões de pessoas,[24][25] são mortos pela ineficiência inerente à economia de mercado e sua inevitabilidade matemática em criar grandes divisões de classe e resultando privação humana.

Nisso, existem dois tipos de privação a serem observados: Absoluta e Relativa.

Privação Absoluta é o que acontece com as bilhões de pessoas não suprem suas necessidades nutricionais mais básicas. Este tipo de privação fala de necessidades físicas básicas não sendo atendidas e, portanto, a manifestação de doenças e mortalidade prematura devido à falta de recursos e opções.

Privação Relativa tem a ver com os distúrbios mentais, emocionais e físicos que resultam do estresse de simplesmente viver nas camadas inferiores de uma sociedade desequilibrada.

Por exemplo, muitos estudos que comparam os resultados de saúde pública de um país para outro, com base no nível de desigualdade no país, descobriram que aqueles com a menor quantidade de violência comportamento, a menor quantidade de criminalidade em geral, a mortalidade infantil, vícios em drogas, doenças cardíacas, muitos tipos de câncer, obesidade, pressão alta, baixa expectativa de vida, depressão, doenças mentais em geral e outros problemas “menores”, também têm menor desigualdade de riqueza, em comparação.[26]

Juntos, essas duas formas de privação, Absoluta e Relativa, constituem o que é chamado de “violência estrutural”[27] que é uma forma sistêmica de violência, que normalmente não é o que muitos pensam quando consideramos a ideia de “violência” em geral.

Vou colocar desta forma: Se eu colocar uma arma na sua cabeça e te matar, todos concordamos que é o produto de um ato direto de violência. Se gerenciar uma empresa que decide poupar dinheiro, secretamente descarregando lixo tóxico no abastecimento de água da sua cidade e, três anos depois, um grupo de cidadãos na cidade desenvolverem câncer e morrerem por causa dessa poluição, acho que todos concordamos que também é um produto de um ato de violência, mas mais indireta e menos óbvia na intenção.

Da mesma forma, está agora bem claro que as pessoas com baixo status socioeconômico são muito mais propensas a morrer de doenças cardíacas do que as de classes mais altas.[28][29][30] É um fato conhecido que a condição tóxica de simplesmente ser pobre, tanto em termos absolutos quanto relativos, manifesta esta doença, entre muitas outras.

E ainda assim, quando as pessoas morrem, como tal, raramente alguém levantar a ideia de violência indireta ou mais precisamente, a “violência estrutural”. Por quê? Pois só se pode medir isso por estatísticas através de uma população, e não deduzido apenas a partir de um caso singular. Desta forma, é contra-intuitivo para a nossa educação.

Mas, ainda assim, não há diferença de princípios entre ser morto por um tiro na cabeça, ser envenenado pela poluição de uma empresa ou morrer de doença cardíaca por causa da reação em cadeia causal impulsionada pelo sistema econômico. Um sistema que gera artificialmente a desigualdade econômica e a pobreza invariavelmente, obrigando algumas pessoas a existir na condição tóxica de baixo status sócio econômico.

Agora você vai notar que eu disse “Artificial” porque essa pobreza não é inevitável ou alguma lei natural imutável da sociedade humana assim como atirar em você com uma arma não é inevitável e assim como poluir seu abastecimento de água não é inevitável. O sistema de classes que suportamos hoje é um produto do sistema de mercado e ele pode ser removido, assim como os dois holocaustos que ocorrem todos os anos por causa disso. Isto não pode ter sido o caso no passado mas definitivamente é verdade hoje, dada a capacidade tecnológica moderna que temos para criar uma abundância global.

O fato é que o baixo status sócio econômico é a causa número um em mortes no planeta Terra.

E o que isso significa, por extensão? Se a desigualdade econômica e a pobreza inevitável são tecnicamente desnecessárias e apenas o resultado estrutural da própria economia de mercado então isso significa que o sistema de mercado é a principal causa de morte desnecessária no planeta hoje.

Então, de volta à pergunta: Num sistema econômico que inerentemente gera estratificação de classe e desigualdade global, como podem os efeitos da “Violência Estrutural”, um fenômeno observado por pesquisadores de saúde pública que mata mais de 18 milhões por ano, gerando uma vasta gama de malefícios sistêmicos, como distúrbios comportamentais, emocionais e físicos, pode ser minimizado ou até mesmo removido?

A resposta, claro, é que não pode ser removido.

Ele é construído como resultado do sistema e por quanto mais tempo tivermos o mercado mais holocaustos ocorrerão. E vamos ver 3 e 4 holocaustos por ano enquanto o tempo avança dado o aumento extremo na desigualdade econômica e essa estatística não mostra sinais de desaceleração.

Na medida em que for minimizada, sim, acho que algum tipo de realocação de riqueza poderia emergir mas o efeito seria mínimo pois faz pouco para resolver a verdadeira fonte estrutural do problema. Seria apenas um remendo. Para não mencionar, que é profundamente improvável que isso ocorra. Pois qualquer ação direta seria inerentemente uma violação da própria natureza da teoria do livre mercado, certo? A qual assume que a ação do mercado é auto-reguladora em si. E que qualquer tipo de imposição estatal é considerado errada.

E, a propósito, se você é uma daquelas pessoas que diz que não temos um livre mercado hoje que temos coerção estatal e capitalismo de compadrio, por favor, assista a minha palestra “Origens e Adaptações Parte II” da Universidade de Toronto, 2014 assim como a minha Palestra em Berlim “Cálculo Econômico em uma LN/EBR” em 2013 onde eu contesto esse absurdo especificamente. Temos apenas um livre mercado puro, no sentido exato desses termos ou seja, a liberdade de concorrência e restrição da liberdade dos outros no processo.

Agora, vou parar por aqui.

Estas três questões são o meu desafio para você. Cada questão representa um desafio para a base do próprio sistema de mercado e se algum de vocês pode responder a estas perguntas e explicar as resoluções a longo prazo, sem a remoção da economia de mercado, certamente quero ouvi-lo. Basta fazer um vídeo resposta, publicá-lo e enviá-lo para o link abaixo.

E, por favor, compartilhem este vídeo. Estas são as perguntas que todo noticiário e todas as mídias socialmente conscientes de ponta ou personalidades ativistas deveriam estar abordando.

Novamente, se você apoiar o MZ, por favor, poste via redes sociais, fóruns, blogs, listas de e-mail, coisas do tipo. Eu particularmente gostaria de ouvir a comunidade anti-zeitgeist também.

“O que você propõe?”

De uma forma ou de outra até que estas questões sejam respondidas e os problemas resolvidos o mundo está a caminho de crescente desordem e colapso.

Agradeço pelo seu tempo, obrigado.

Referências:
[1] http://www.ecouterre.com/keen-opens-shoe-factory-less-than-5-miles-from-oregon-headquarters-photos/
[2] http://www.techtimes.com/articles/4471/20140318/nasa-funded-doomsday-study-warns-of-irreversible-collapse.htm
[3] http://www.livescience.com/16251-earth-overshoot-day-2011.html
[4] http://www.soc.hawaii.edu/mora/Publications/MoraPress1.pdf
[5] http://www.natureworldnews.com/articles/6646/20140417/food-shortages-could-become-critical-by-2050-study-says.htm
[6] http://www.independent.co.uk/news/science/lack-of-fresh-water-could-hit-half-the-worlds-population-by-2050-8631613.html
[7] http://www.ipsnews.net/2011/07/data-shows-all-of-earths-systems-in-rapid-decline/
[8] http://www.theguardian.com/environment/2014/sep/29/earth-lost-50-wildlife-in-40-years-wwf
[9] http://online.wsj.com/articles/the-epas-latest-threat-to-economic-growth-1407970689
[10] http://www.cbsnews.com/news/the-most-polluted-places-on-earth/
[11] http://www.cbd.int/doc/publications/gbo/gbo3-final-en.pdf
[12] http://www.oxfordmartin.ox.ac.uk/downloads/academic/The_Future_of_Employment.pdf
[13] http://www.technologyreview.com/featuredstory/515926/how-technology-is-destroying-jobs/
[14] http://www.farmersedge.ca/blog/2013/07/04/neat-facts-about-united-states-agriculture
[15] http://www.fao.org/docrep/004/y3557e/y3557e06.htm
[16] http://www.ers.usda.gov/topics/international-markets-trade/us-agricultural-trade/import-share-of-consumption.aspx
[17] 98%de 75%(75%-2%=73%) é 73.5%
[18] http://www.minnpost.com/macro-micro-minnesota/2012/02/history-lessons-understanding-decline-manufacturing
[19] http://www.forbes.com/fdc/welcome_mjx.shtml
[20] http://www.controldesign.com/articles/2008/131/
[21] http://www.bls.gov/emp/ep_table_201.htm
[22] http://www.daytondailynews.com/news/news/automation-replacing-service-white-collar-workers/nWdns/
[23] O seguinte curta apresenta uma visão geral da atual capacidade de automação: http://www.cgpgrey.com/blog/humans-need-not-apply
[
24] A fonte de 1976 é de 18 milhões mas devido o aumento da população e crescimento da pobreza e desigualdade respectivamente, o número foi aumentado aqui em 2 milhões. Fonte: An Enpirical Table of Structural Violence, Gernot Kohler and Norman Alcock, 1976
[25] Dr. James Gilligan, ex professor de Psiquiatria no Harvard Medical School, Diretor do Centro de Estudos da Violência e membro da Academic Advisory Council of the National Campaign Against Youth Violence, declara: “A descoberta que violência estrutural causa muito mais mortes que violência comportamental não é limitado a esse país. Kohler e Alcock tentaram chegar ao número de mortes causadas por excesso de desigualdades socioeconômicas em uma base mundial. A Suécia foi o modelo de nação que chegou perto de eliminar a violência estrutural. Esta tinha as menores taxas de desigualdade de renda e de vida, e as menores discrepâncias nas taxas de mortalidade e expectativa de vida; e a maior esperança de vida global no mundo. Quando compararam as expectativas de vida dos que vivem em outros sistemas socioeconômicos contra a Suécia, descobriram que 18 milhões de mortes por ano poderiam ser atribuídos à “violência estrutural” da qual os cidadãos de todas as outras nações estavam sendo submetidos. [Fonte: Violence: Our Deadly Epidemic and its Causes, p. 196]
[26] The Spirit Level por Richard Wilkinson e Kate Pickett, Penguin, Março de 2009, p.65
[27] O termo “violência estrutural” é comumente atribuída a Johan Galtung, o qual ele introduziu no artigo “Violência, Paz e Investigação sobre a Paz” (Journal of Peace Research, Vol. 6, No. 3, 1969, pp 167-191. ). Trata-se de uma forma de violência onde alguma estrutura social ou instituição social prejudica as pessoas ao impedir que essas satisfaçam as suas necessidades básicas. Foi expandida por outros pesquisadores, como o psiquiatra criminal Dr. James Gilligan, que fez a seguinte distinção entre violência “comportamental” e “estrutural”: “Os efeitos letais da violência estrutural operaram continuamente, ao invés de, esporadicamente, enquanto os homicídios, os suicídios… guerras e outras formas de violência comportamental ocorrer um de cada vez.” (Violence, James Gilligan, GP Putnam, 1996, p.192)
[28] Whitehall Study I & II, (http://www.ucl.ac.uk/whitehallII/) Veja também: Epidemiology of socioeconomic status and health, M. Marmot (http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/10681885)
[29] Heart Disease Tied to Poverty, New York Times, 1985 (http://www.nytimes.com/1985/02/24/us/heart-disease-tied-to-poverty.html)
[30] Life-­Course Socioeconomic Position and Incidence of Coronary Heart Disease, American Journal of Epidemiology, Abril, 2009. (http://aje.oxfordjournals.org/content/early/2009/01/29/aje.kwn403)

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2 Responses

  1. Matheus Bartz disse:

    Concordo com todas as afirmações feitas pelo Peter. Mas me parece que a 2º questão ” [...] qual é o incentivo estrutural existente para manter os seres humanos empregados, no despertar de uma condição tecnológica emergente, onde a maioria dos trabalhos podem ser realizados de forma mais barata e eficaz através da automação de máquinas?”

    É respondida pela 1º questão ” Dado que a economia de mercado requer consumo a fim de manter demanda para emprego humano e promover crescimento econômico”

    Certamente não há um incentivo estrutural, mas ao meu ver, é justamente por essa necessidade de pagar trabalhadores para consumir que o mercado é ainda resistente a automação e as empresas que “abusarem” da automação serão “linchadas” pelas outras por desestabilizarem o ciclo Salário-Consumo-Lucro.

    O que vocês acham?

  2. Cesar disse:

    Segue minha sugestão em 2 passos:

    1. Automatizar 100% do trabalho
    2. Robôs não recebem salario, assim as riquezas produzidas por eles (o PIB) sera dividido igualmente entre os cidadãos (renda -per -capita)
    Fim

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